Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Duarte Ferreira mais perto da Frmula 1

Hlder Jeremias - 19 de Novembro, 2011

Duarte Ferreira piloto angolano na Frmula Indy Ligth.

Fotografia: M.Machangongo

Finda que está a sua primeira participação na Fórmula Indy Ligth (Estados Unidos da América), que balanço se lhe oferece fazer?
A época foi positiva para mim, porque representou outra etapa de aprendizagem, na qual acabei por fazer bom trabalho no Indy Ligth, categoria considerada “GP-2” dos norte-americanos, que antecede à Fórmula Indy. O facto de terminar a época em oitavo lugar na tabela classificativa, entre 31 corredores experientes, além do terceiro lugar ao pódio numa das provas, permite-nos aferir que foi uma época coroada de êxitos. Começámos a época um pouquinho mal, pois fizemos excelente trabalho durante o Inverno, mas tivemos problemas com o engenheiro e fomos obrigados a trocá-lo. Por outro lado, o facto de iniciar a época com novo engenheiro esteve na base de problemas que começaram a surgir nas qualificativas, inerentes às bombas de gasolina e de óleo. No entanto, progredimos paulatinamente até, como já disse, conseguir o terceiro lugar, que para o país (Angola) representa uma das conquistas mais expressivas ao nível do automobilismo.

Está a dizer que as dificuldades enfrentadas ao longo da época se devem a debilidades da equipa técnica?
De certa forma sim, porque durante os trabalhos invernais fui acompanhado por uma equipa de engenheiros que dominavam cabalmente todas as componentes do nosso carro, porém, em seguida houve alteração na estrutura da Bryan Herta e perdemos aqueles técnicos. Esta alteração criou-nos grandes dificuldades no que concerne à adaptação da nova equipa de engenheiros. Ainda assim fomos capazes de melhorar significativamente a prestação, embora o desconhecimento dos circuitos tenha pesado na balança. Em suma, foi a época para aprendizagem e estamos crentes que na próxima época, vamos lutar para os primeiros três classificados.

Como está o seu vínculo com a Bryan Herta, uma vez que se aventou a possibilidade de, na próxima época, competir na Nascar, outra categoria motorizada?
Ainda estou com a Bryan Herta. Depois de ter feito bom trabalho, tudo indica que vamos melhorar na próxima época. Como disse, tivemos um pouco de azar nas qualificações, mas nas corridas, conseguimos colocar o carro em posições vantajosas. É verdade que existem negociações em curso com equipas que demonstram interesse em mim. Neste momento, não posso avançar dados precisos, porque tudo está em silêncio depois do falecimento de Dan Wheldon, de nacionalidade inglesa, meu colega de equipa. Ainda paira a incerteza quanto à presença da equipa na competição para a próxima época. De qualquer forma, também estamos a tentar pôr um pé na Nascar, sem sair, claro, da Fórmula Indy. Queremos fazer ambas categorias em simultâneo com objectivo de ganhar maior rodagem competitiva.

Explique-se melhor...
São 14 corridas na Fórmula Indy e igual número na Nascar, o que perfaz 28 provas por época com corredores que já foram pilotos de testes de Fórmula 1, GP-2 e que realizam o somatório de 54 a 56 corridas por ano. Isso me permite beber da vasta experiência por eles acumulada.

Caso venha a fazer a dupla competição (na Nascar e Fórmula Indy Ligth), não será complicado lutar pelos três primeiros lugares, uma vez que estará mais ocupado?
Antes, pelo contrário. Como sou jovem, competir em duas categorias distintas e difíceis vai permitir ganhar mais experiência. Por um lado, na Fórmula Indy Ligth, a média de velocidade ronda aos 320km/h e agarra-se bastante nas pistas ovais. Por outro, a Nascar ronda aos 300km/h, cujas características assemelham-se a Toyota Corola, Chevrolet e são desprovidos das “down forces” causadas pelo efeito das asas. Lidar com estas diferenças, ajuda-me a melhorar a trajectória. Digo isto com propriedade, porque os corredores que tiveram tal procedimento sempre andaram para a frente, ao passo que quem permanece mais tempo parado anda sempre atrás.

À sua chegada na Fórmula Indy Ligth foi antecedido de alguma publicidade ou a sua passagem pelo campeonato sul-americano da mesma categoria, constante no currículo, foi suficiente para lhe dar notoriedade?
O campeonato sul-americano tem muita expressão, pois é de lá que grande parte dos pilotos que actuam na Fórmula 1 sai, na qualidade de serem muito rápidos. O problema é que, quando se trata de um corredor que vem de África, as pessoas nunca acreditam que tenham algum valor. Felizmente, consegui subverter este cepticismo que ressalta bastante tanto na América do Sul como nos Estados Unidos da América, fruto de trabalho árduo. Mas só consegui chegar, onde estou hoje, porque tive o apoio incondicional da LS Sports, equipa ao serviço da qual corro e tem colocado excelentes condições de trabalho ao meu dispor. Quanto aos outros dois corredores, acredito que também vão merecer a atenção dos seus patrocinadores para que juntos possamos desenvolver bom trabalho e elevar cada vez mais o nome do nosso país entre as nações que se fazem representar no topo do desporto motorizado.

Qual é o objectivo final deste projecto da LS Sport?
O objectivo de qualquer projecto do género é chegar ao topo do automobilismo. Muita gente pergunta se a Fórmula Indy é um caminho para a Fórmula 1. Para os americanos, a Fórmula Indy é uma competição tão importante como a Fórmula 1. Acabo de completar 19 anos de idade e disponho de tempo para me formar como piloto do alto nível. Se permanecer três ou quatro anos nos Estados Unidos da América, chegarei mais maduro na Fórmula 1 e em condições de ficar numa equipa que me ofereça maior competitividade, ao invés de ficar nas mais modestas que existem, sem possibilidades de aparecer. Angola é digna de ser representada ao mais alto nível.

Está a dizer que não vê a Fórmula 1 como prioridade de momento?
Tudo deve ser feito a seu tempo. É claro que todos os pilotos sonham chegar lá, mas é necessário que estejamos dotados de capacidade para mostrar o que valemos. Isto só pode ser alcançado com muito trabalho e dedicação. A Fórmula 1 é o nosso projecto final. Não serei o primeiro corredor a sair da Fórmula Indy para a F1, caso venha a acontecer mais cedo ou mais tarde. Temos vários exemplos de pilotos que trilharam por este caminho e entraram em grande estilo para aquela competição. Devo encorajar tanto o Luís Sá Silva como o Ricardo Teixeira, outros pilotos angolanos, a continuarem o seu trabalho com esmero, porque cada um tem o seu dia.

“Noventa por cento do público
conhece a bandeira de Angola”

Que importância tem para o país, a participação de um angolano nesta prova de referência internacional do automobilismo norte-americano?

Em termos práticos, representa um veículo para passarmos a imagem do nosso país, uma vez que, até há bem pouco tempo, amantes do automobilismo não tinham qualquer ideia sobre Angola. No princípio, olhavam para mim e formulavam questões sobre a minha origem e pude depreender que pouco ou nada sabiam sobre o nosso país. Fruto da minha presença e, conforme os bons comentários da imprensa sobre a forma como actuava, as pessoas começaram a aproximar-se para obter informações. Actualmente, 90 por cento do público conhece a bandeira angolana, a qual tenho grande orgulho de a transportar nos circuitos mais imponentes da América, como têm feito outros dois corredores nacionais.

Está a dizer que o vosso trabalho também passa pela diplomacia desportiva...
Actualmente, somos apenas três corredores nacionais a competir na alta-roda do automobilismo. Refiro-me ao Luís Sá Silva, que faz excelente trabalho na Ásia, e Ricardo Teixeira, piloto de testes da escuderia Lotus de Fórmula 1. Somos poucos e cada um trabalha em latitudes diferentes, motivo que urge a necessidade de mais apoio moral, isto é, que nos sintamos mais encorajados. E esta força só pode vir dos compatriotas angolanos. Desta forma, trabalharíamos com mais motivação, o que, certamente, vai traduzir-se na produção de resultados cada vez mais satisfatórios. Contudo, já mostrámos que somos capazes de competir em pé de igualdade com qualquer corredor e levamos condignamente o nome do nosso país lá fora.

A que se deve a presença de poucos pilotos angolanos a competir no alto nível do automobilismo?
O automobilismo é uma modalidade que se pratica em Angola há muitos anos e está nas nossas raízes. Temos corredores com muita vontade de fazer carreira. Infelizmente, este sonho encontra barreiras na falta de escolas para a formação. É necessário começar nas categorias elementares e dar sequência para se dominar as técnicas. Todavia, acredito que este problema vai ser solucionado a breve trecho com as iniciativas de se criar escolas de karting e outros níveis dos desportos motorizados. Podemos ter a certeza de que contaremos em breve com melhor representatividade em termos de corredores nacionais a despontarem a nível internacional.

Qual é a matriz para se criar uma escola, em Luanda, para que outros corredores sigam por este caminho?
Notamos que o país está a desenvolver-se com celeridade e se houver pessoas a investir nesta matéria, dentro de 10 anos, começam a aparecer novos corredores no alto patamar do automobilismo. Estou a ponderar abrir uma escola, na qual pretendo transmitir a minha experiência aos mais novos, de modo que mais pilotos angolanos estejam na ribalta dos desportos motorizado.

A presença de um angolano numa competição com pouca informação em África não afecta a vossa imagem na Fórmula Indy?
Normalmente cada país tem a sua preferência. Assim é que alguns dão mais valor ao futebol. Na Índia, por exemplo, adoram o criket. Nos Estados Unidos da América, a Indy é qualquer coisa de extraordinário; é uma competição que arrasta centenas de milhares de pessoas que fazem dos seus pilotos predilectos autênticos “heróis”, o que acaba por se repercutir em avultados retornos publicitários. Só para ver que temos sessões de autógrafos com duas a três horas de duração. Quando escrevo o nome de Angola, suscita curiosidade que aproveito para divulgar a imagem do país. Esta possibilidade pode ser aproveitada para a divulgação de outros projectos no âmbito do desenvolvimento que a nação está a granjear em todos os domínios.

Tem recebido apoio das autoridades angolanas?
Tenho recebido muito apoio. Aproveito, desde já, para agradecer, não só a forma calorosa com que tenho sido tratado pelas autoridades, mas pessoas amigas, em geral, com as quais estou em permanente contacto. Sem esta força, as coisas seriam mais difíceis.

Não tem enfrentado dificuldades materiais, uma vez que o automobilismo e bastante oneroso?
Não sou a pessoa indicada para falar sobre este aspecto, porquanto recebo apoio do meu sponsor, a LS Sport. Trabalho em óptimas condições. Neste particular, tenho a agradecer o Dr. Eugénio Neto, proprietário da equipa, pela forma profissional com que lida com o desporto. 

Antes falou que “urge necessidade de mais apoio moral” aos pilotos Luís Sá Silva, Ricardo Teixeira, além de si próprio, mas acaba de dizer que tem recebido muito apoio. Há alguma ambiguidade nas suas palavras...
Refiro-me ao apoio humano, acima de tudo. É claro que cada um tem a sua situação e não sou a pessoas indicada para falar das necessidades pontuais dos demais. Quanto a mim, o apoio humano é o mais importante.

Aconteceu, recentemente, um acidente que levou a morte de um piloto. Este facto levanta algumas questões no seio dos angolanos, quanto à segurança. Há ou não segurança para os pilotos de Fórmula Indy Ligth?
O lugar mas seguro no mundo é o carro em que corremos, pois foi desenvolvido pela Força Aérea e com tecnologia aeronáutica. O que aconteceu com o Dan Wheldon, foi um acidente trágico, cuja hipótese não se calculava. Infelizmente, quando bateu na barreira de protecção, o carro voou e encontrou uma barra que prendeu o “santo antónio”, o que motivou embate directo com a cabeça ao chão. Ninguém pensava que fosse bater naquele poste, depois das rodas se separarem do carro, quando foi projectado e bateu com a cabeça.

Uma desolação para equipa...
Foi um golpe duro para todos e para mim, em particular. Tirei a última fotografia dele comigo. O Dan Wheldon era uma pessoa sincera e com grandes qualidades. O que me consola é o apoio que a família recebe dos amigos e dos colegas. É de lamentar, mas a vida tem destas surpresas desagradáveis. Nada tem a ver com a segurança.

Isto não afecta psicologicamente os demais pilotos?
São os riscos que existem em todas as profissões. Até um cozinheiro pode cortar o dedo sem querer. Realmente, andamos com muita velocidade nas pistas ovais, onde os carros rodam, em média, entre 370km/h e 380km/h. Somos os pilotos que correm com mais velocidade. Há muitos anos não acontecia este tipo de acidente, senão o carro teria de ser desenvolvido para oferecer mais segurança. Foi um pouco de azar, tanto é que o carro para a próxima época teve algumas melhorias. Temos de compreender que cada um tem o seu destino e devemos continuar a trabalhar para que as coisas corram como desejamos.

Houve uma reunião de emergência após o acidente para abordar várias questões. Já se tomou alguma medida, já que também visava abordar aspectos de segurança dos pilotos?
Nos Estados Unidos da América acabam por não dar muitas informações nestes encontros restritos, mas tudo quanto pude saber é que chegaram à conclusão de que foi mesmo azar. A perícia constatou que o acidente tinha poucas probabilidades de acontecer. Acredito que, em função disso, os técnicos vão procurar diminuir mais a probabilidade deste facto se repetir.

Que mensagem dá aos corredores angolanos que sonham chegar às grandes competições?
Continuem a acreditar, mantenham-se firmes e, sobretudo, primar pela eficiência na preparação desportiva. Só quando acreditamos em nós, é que podemos alcançar os nossos objectivos, de maneira que, quando o dia chegar e tivermos uma oportunidade, podemos mostrar o que valemos.

Perfil

Duarte Ferreira é uma das maiores referências do automobilismo nacional. Filho de mãe angolana e pai português, nasceu em Faro, Portugal, tendo emigrado para a Bélgica aos sete meses de idade, onde fez os seus estudos iniciais. Muito cedo começou a sua atracção por desportos motorizados e iniciou a carreira na categoria de karting, onde chamou a atenção dos instrutores pela facilidade de manusear o volante. O jovem piloto passou pelas categorias elementares, acumulando troféus ate chegar à Fórmula 3.

Em 2010, passou a ser corredor da LS Sport, ao serviço da qual, conquistou o terceiro lugar do Campeonato Sul-Americano de Fórmula Indy Light. Actualmente, a residir nos Estados Unidos da América, projecta vencer a próxima temporada do Campeonato norte-americano da Fórmula Indy Ligth, depois de ter ficado na oitava posição geral na época de estreia recentemente terminada.

Nome: Duarte Ferreira
Nacionalidade: Angolana
Data de nascimento: 01.11:1992
Naturalidade: Faro, Portugal
Hobdy: preparação física e simulador de automóvel
Religião: Católica
Prato preferido: Muamba de ginguba
Cor preferida: Amarelo
Nível académico: 10º ano sistema belga
Países preferidos: Angola, Brasil e Estados Unidos da América
Virtude: Trabalhador, persistência
Sonho: Fazer uma escola para corredores de Automóveis