Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Duvido que haja mudanças no futebol"

Augusto Panzo - 16 de Novembro, 2016

Dirigentes aguardam o dia D para conhecer o novo presidente da FAF

Fotografia: Jornal dos Desportos

Com o fim da primeira edição do Girabola, com o cunho da ZAP, prova  que registou grande equilíbrio competitivo ao ponto do campeão ser conhecido na penúltima jornada, o Jornal dos Desportos entrevistou Vicente Domingos Garcia, antigo árbitro assistente internacional de futebol, hoje comissário de jogos. Na entrevista, foram abordados vários aspectos que marcam o futebol nacional, desde as eleições na FAF, a questão de supostos resultados suspeitos, até as suas memórias.
 
JD-Estão aí, as eleições na FAF. Acredita que os próximos candidatos ao cadeirão da FAF  tragam  melhorias ao futebol nacional?
VG
- Bom, para já, os dois candidatos até aqui conhecidos já lá estiveram na condição de cumpridores, porque ninguém tinha o poder de decisão. Nesta hora, eles falam o que têm de falar, mas para  mudar o actual figurino do futebol nacional não basta ser homem do futebol. É preciso ser pessoa que ama a modalidade.

JD-E, nenhum dos dois ama o futebol?
VG
- Não diria que sim ou que não. Pelo contrário, porque conheci-os no futebol. Conheci o candidato José Luís Prata  ainda eu era árbitro de futebol, e o candidato Artur Almeida era dirigente do Vitória do Sambizanga. Então, pelo tempo que lá se encontram, acho que já são pessoas que podem amar o futebol. Mas tenho as minhas dúvidas que eles  tragam alguma novidade.

JD-Por quê?
VG
- Se nos apegarmos aos discursos, vemos que o senhor Luís Prata tem dito que foi no seu tempo que Angola foi para o Mundial e participou em vários CAN. Até aí, tudo bem. Mas não será esse ascendente um fruto do seu bem cumprir, no posto onde estava indicado, em função da sua profissão que podia levá-lo a ter conhecimentos amplos a nível de África e do mundo? Isso, pode ter sido uma das causas.

JD - Ainda assim, duvida da capacidade do referido candidato?
VG
- Sim, porque assumir as rédeas da Federação não tem o mesmo compromisso que realizar os campeonatos nacionais em seniores, juniores ou outros. Não. O bom trabalhar da Federação repercute-se nos resultados das selecções. Esses sim, demonstram o trabalho de uma Federação.

JD - Na sua visão, esse é o trabalho que o que for eleito deverá fazer.
VG -
Claro que sim. Quem merecer a confiança do eleitorado e vencer o pleito, terá de lutar para resgatar os bons resultados a que já estávamos acostumados, há uma década para cá. É lembrar que em tempos idos nós tínhamos as selecções em todos os escalões, desde Sub/15 até as de Honras, e todas elas a ganharem, a fazerem grandes jogadores. Enfim, para  ser sincero, estou céptico que esses dois candidatos consigam resgatar aqueles resultados.

ARBITRAGEM

“Precisamos de uma gestão transparente dos árbitros”


Jornal dos Desportos - Os resultados volumosos registados nas últimas quatro jornadas do Girabola Zap 2016, traduzem alguma realidade desportiva?
Vicente Garcia -
Apesar de não ser a pessoa indicada para falar sobre isso, uma vez que me é dirigida a pergunta, tenho a dizer, que muito embora sejam resultados um tanto ou quanto desconfiáveis, eles justificam alguma verdade desportiva. Digo isso, porque em primeiro lugar, houve clubes envolvidos nos desafios em causa, que já estavam a viver sérios problemas financeiros. E, quanto num clube se vive uma situação do género, logo, a moral dos atletas é afectada. Em contrapartida, a psique dos jogadores das equipas que se encontram financeiramente bem, é muito elevada, o que facilita a consecução deste tipo de desfechos. Então, acho que em certa medida, foi isso que ocorreu.

JD - Os árbitros têm correspondido às exigências técnicas de uma competição como o Girabola?
VG -
Segundo o que a imprensa no geral nos acostumou,  as segundas voltas do Girabola são dos dirigentes, mas felizmente, isso não ocorreu na presente edição. Se virmos bem, não tivemos grandes problemas na segunda volta do Girabola Zap de 2016, embora, as pessoas aleguem  algumas suspeitas nos resultados, tal como já aferi. Isso, significa que o Conselho Central de Árbitros da FAF, apesar dos problemas internos, conseguiu minimizar os erros do passado.

JD - Partindo desse princípio, pensa que alguma coisa tem de ser melhorada nesse Conselho?
VG - 
Muita coisa. De facto, precisamos de uma gestão transparente em relação aos árbitros, porque gerir homens requer preparação da parte do gestor. Esse Conselho Central de Árbitros de Futebol da FAF, cujo ciclo termina este ano, não obstante terem feito coisas positivas, a direcção do Conselho teve erros crassos.

JD - Pode apontar esses erros?
VG
- Claro que posso. Quando me refiro a erros, estou a dizer, por exemplo, que até este preciso momento, não existe nenhuma classificação dos árbitros. Enquanto fui árbitro, até esta altura e não só, já tínhamos a classificação que auto-motivava o árbitro a lutar para um outro patamar. Vamos supor que eu estivesse em 14º lugar da classificação, isso  levava-me a lutar para melhorar o meu posicionamento, na tentativa de alcançar os lugares cimeiros. Outro factor,  marcante pela negativa, foi a forma como nomeavam os árbitros para os jogos. Enfim, são muitas coisas internas que não estavam bem.


MELHORIAS
“Sou favorável  à decisão das equipas
 evitarem o pagamento aos árbitros”


JD - Na actual crise financeira, apoia a fórmula para que os árbitros deixem de depender das custas pagas pelas equipas? 
VG -
Exactamente. Aliás eu fui um dos indivíduos que se mostrou favorável à decisão adoptada pelo Conselho Central de Árbitros de Futebol, que acabou por retirar a dependência directa dos custos dos árbitros  às equipas caseiras. Isso, criava uma situação que sociologicamente se define por influência invisível, por causa da recepção,  trato e  intimidade que se criava entre o juiz e os dirigentes dos clubes.

JD - Acredita então que a partir daquele momento o árbitro ficava com o pensamento dividido?
VG -
É isso mesmo. Os gastos feitos pela direcção da equipa visitada influenciava tanto o árbitro, ao ponto deste, ficar dividido em 60 por cento a favor da equipa da casa e 40 por cento para o adversário. E, no nosso tempo, não existia aquilo que agora se chama corrupção, mas uma afeição, em função dessa forma de trato que se recebia.

JD - Então acha válida, a nova medida, que consiste em depositar os dinheiros das despesas de arbitragem na conta dos juízes?  
VG -
Em certa medida, isso valeu muito, porque acaba por tirar essa influência moral sobre os árbitros. A título de exemplo, eu já fui fazer o papel de comissário num dos jogos do  Girabola que acabou, em que só cruzámos com os dirigentes do clube, na hora do jogo. Aí, torna-se difícil haver esse peso de consciência. E, é assim que se faz, nos outros países do mundo, razão pela qual, acho que valeu.

JD - Admite que existe mesmo o factor corrupção no futebol angolano?
VG -
Bem. Diz-se que uma pergunta não se responde com uma outra pergunta, mas eu vou fazer mesmo isso. O senhor jornalista credita que se neste país houvesse realmente o fenómeno corrupção, acha que não se podia corromper? Nós, estamos no mesmo país, na mesma cidade, e o mais agravante com tecnologias modernas que permitem a comunicação rápida, para facilitar a marcação de encontros e outros pormenores. Em meu entender, acho que a mentalidade dos nossos dirigentes desportivos não vai até aí, porque se assim fosse, eles seriam os corruptores e os árbitros passariam a corruptos,  pois um facto não existe, sem o outro. Acredito que os dirigentes dos clubes são contra isso, motivo pelo qual aplaudiram a medida de depositar os dinheiros nas contas dos árbitros.

JD - Mas houve inclusive um caso em que determinado dirigente acusou um árbitro sobre determinada tendência de corrupção!?..
VG -
Deixa-me esclarecer algo, que muitas pessoas não percebem, devidamente. Uma coisa é termos amizades fora do rectângulo de jogos, e outra, é vermos o trabalho que cada um vai desempenhar. Repito, que o árbitro é humano. Logo, tem a sua convivência social. Então, não está proibido de ter uma amigo director, presidente de direcção de um clube, ou deputado. E, às vezes, é a partir das amizades que ele também aproveita certas benesses.

JD - Então, quer aliar isso à promiscuidade?
VG -
Talvez sim. Acredito que no caso em referência tenha ocorrido, apenas algum desentendimento entre duas pessoas que se encontravam nessa condição, onde às vezes, o dirigente em causa já tenha ajudado o árbitro, e em contrapartida aquele esperava por alguma ajuda que não aconteceu, razão pela qual surgiu a quezília de que se referiu.

COLABORAÇÃO
“Sinto muitas saudades do senhor Délcio Costa”


JD - Costuma apoiar quem hoje dirige a arbitragem?
VG -
Posso sim, porque tenho os meus subsídios a dar-lhes. Deixa-me dizer que mesmo nesse Conselho não faltaram algumas considerações do Vicente Garcia, visto que tive a oportunidade de integrar um dos Conselhos mais organizados que já tivemos em Angola até hoje, que é o que foi liderado pelo senhor Délcio Costa. Repare que  a partir do elenco de Domingos Tomás até ao de Muluta Prata, todos nós viemos da direcção do senhor Délcio Costa, de quem bebemos muita coisa.

JD - Acha que todas as pessoas honram da mesma forma esse Conselho?
VG
- Claro que não. Sabe que às vezes, o poder nos torna cegos. Muitas dessas pessoas chegaram onde puderam e esqueceram-se de algumas coisas boas que esse senhor nos deixou. Tivemos ainda um pouco dessa visão, no tempo do senhor Jorge Mário Fernandes, mas dali para cá, tudo entrou num esquecimento total.

JD - Saudosismos?...
VG -
De facto, do senhor Délcio Costa eu tenho muitas saudades, pela forma do seu trabalhar. Aliás, disso eles próprios sabem, porque numa das nossas reuniões naquela altura, eu levantei uma questão, que era ligada à forma como os árbitros eram suspensos, mas depois de reabilitados apareciam a fazer jogos sucessivos. Isso, não é possível.

JD - Mas isso ocorreu ainda na presente época!?....
VG -
Claro, mas é preciso inverter o quadro. Repare, que no Girabola que acabou agora, houve árbitros punidos que tiveram mais jogos do que aqueles que nunca foram suspensos. Não é possível isso. Apesar da minha condição de comissário, muitas das vezes no que posso opinar, dou o meu ponto de vista, ao ponto de levantar esta problemática. Não estou a favor dos erros dos árbitros, pelo contrário, estou a favor do futebol. Quando se diz homens do futebol, nós da classe também fazemos parte desse grupo. Então, essa é  a minha preocupação, porque um árbitro que durante uma época é suspenso, uma ou duas vezes, porque teve um jogo mal dirigido, chega ao fim da época é seleccionado, para ser candidato a árbitro internacional, sinceramente, isso é o mesmo que dar-lhe uma prenda.

JD - Mas no seu tempo isso não ocorria?
VG -
Não, por uma simples razão. No tempo que fui árbitro, só o facto de no final da época saber que o fulano ou o beltrano é candidato a internacional, mesmo que não entrasse no quadro da FIFA, motivava o indivíduo apontado. Agora, há árbitros nesse Girabola que foram suspensos, mesmo depois de terem feito os testes.

JD - Essas falcatruas ainda ocorrem nos nossos dias?
VG
- Sim. Acho até que a imprensa deve estar ao corrente, porque houve árbitros que foram propostos pelo CCAF  para a categoria internacional, mas que foram suspensos este ano, devido  ao desempenho. Daí, deduzo que alguma coisa está mal, e precisa ser melhorada.

JD - Acha que os castigos que têm sido aplicados aos árbitros condizem com a gravidade dos erros?   
VG
- No meu entender, de facto, quando um árbitro comete um erro, o Conselho Central  toma as suas medidas. Mas o que discordo é do facto de, logo após o fim do castigo, o mesmo árbitro aparecer a apitar, sucessivamente. Isso, indicia a lógica de dois pesos e duas medidas. E, eu não concordo com essa forma.

JD - As acusações de que os árbitros têm fabricado resultados correspondem à verdade?
VG -
Bem, em primeiro lugar devemos partir do princípio de que o erro é humano. E, tem mais. A imprensa, normalmente, é mais atenta que quaisquer outras pessoas envolvidas no desporto. Quero com isto dizer, que como todos os árbitros no mundo, em Angola os árbitros também erram, mas fabricar resultados, isso não. De facto, o que podia acontecer até há bem pouco tempo, o que é normal, era às vezes o juiz apitar com o espírito dividido, pelo facto do árbitro depender das custas da equipa visitada, como era norma nos tempos que antecederam à alteração que depois foi feita nesse aspecto.
AP