Jornal dos Desportos

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Entrevistas

altura de deixar o lugar para os jovens

Gaudncio Hamelay | Lubango - 07 de Março, 2012

Augusto Diogo deixa Associao com sentimento de dever cumprido aps dois mandatos

Fotografia: Gaudncio Hamelay

As eleições para a renovação de mandatos de novos corpos sociais da Associação Provincial dos Desportos Motorizados da Huíla realizam-se hoje. Pretende recandidatar-se?
Não. Há que dar primazia a outros jovens e pessoas com outro nível de pensamento para o desenvolvimento da modalidade. Estou no segundo mandato e é altura de deixar o lugar para os jovens, com outra dinâmica e que mantenham de pé o desporto motorizado.

Estão preparadas todas as condições para a realização do pleito eleitoral?
Temos tudo a postos. As eleições estão agendadas para amanhã, às 18h00, no auditório da Rádio Huíla. Aproveito a oportunidade para convidar os pilotos e as equipas (a quem demos a possibilidade de integrar a população votante) a comparecerem em massa para podermos ter uma associação legitimamente eleita e evitarmos o que havia sido dito no passado.

O que diziam as pessoas?
Que a associação não era legal, não havia eleições. Isso foi sempre mentira, porque realizámos as renovações de mandatos através de eleições e tudo aconteceu em conformidade com a lei do desporto nacional.

Quantos candidatos concorrem ao caldeirão máximo da Associação dos Desportos Motorizados da Huíla?
Infelizmente, as pessoas só sabem criticar e não assumem aquilo que são, mandam muitas bocas nos cafés, criticam, falam pelas costas daqueles que dirigem, por que o fulano é mau, é bom, mas ninguém assume uma lista para concorrer às eleições da Associação.

Não respondeu à questão...
Até agora, lamentavelmente, existe uma lista de consenso entre antigos membros da direcção, que concorre à minha sucessão. É desse grupo que vai sair a futura direcção. Trabalhámos nessa lista, ajudei na escolha do futuro presidente, um jovem promissor, com conhecimentos sobre a matéria. Do que sabemos, não há outra lista. Por isso, vai ser a lista vencedora.

Já foi constituída a comissão eleitoral?
Sim. Criámos uma comissão encabeçada por Manuel Figueiredo, da direcção provincial da Juventude e Desportos da Huíla, como coordenador, coadjuvado por outros três membros daquela direcção. Queremos com isso evitar comentários. Haverá apenas um observador da lista concorrente.

Quais os clubes com direito a voto?
O desporto motorizado é complicado para se criar clubes. Vamos considerar que o próprio piloto que esteja legal na Associação e que tenha a sua licença desportiva e paga regularmente as quotas tem direito a voto. A direcção cessante e a comissão eleitoral chegaram a um consenso: dar primazia aos chefes das equipas. Estes constituem a população votante. O Team Lubango, Kambas Team, Broca Team, Team SRR, Team Gasosa, Falcões, Team Inter-Serviços, entre outros. Depois, temos os pilotos com direito a voto. Os representantes das equipas votam com os seus respectivos pilotos de carros, motas, karting, motorizadas, desde que estejam inscritos na Associação.

Que balanço faz depois de dois mandatos?
Podemos considerá-los bons, principalmente, em termos de actividades desportivas. Houve muitas competições. As provas de karting são as que mais se fizeram sentir, porquanto são as de custos mais baixos. No ano passado, fizemos uma coisa inédita, no Lubango, e quiçá no país: promovemos quatro actividades do desporto motorizado num só mês em alusão às festas da Nossa Senhora do Monte. Fizemos um rally, motocross, prova de karting, os tradicionais 200 kms da Huíla, provas em automobilismo, motociclismo de 600 e 125cc. Em termos de actividades desportivas, podemos considerar um balanço positivo. É evidente que, em termos administrativos, não conseguimos nem dez por cento do que nos comprometemos realizar.

O quê por exemplo?
Uma delas foi conseguir uma sede social para o funcionamento da Associação. Infelizmente, batalhámos bastante, mas não conseguimos. Portanto, tentámos a todos os níveis que o kartódromo localizado no Complexo Desportivo de Nª Srª do Monte fosse entregue à Associação dos Desportos Motorizados, por se tratar de uma estrutura para o desporto motorizado. Mas, infelizmente, por orientação do governo da província, não foi assim. Tentámos a todos os níveis conseguir uma sede e não foi possível. E, quando assim acontece, também nos cansámos, porque batalhámos para um objectivo que beneficia a todos. Infelizmente, não tivemos o apoio que devíamos. Remar contra a maré é extremamente complicado.

Sai triste da direcção?
Vamos deixar a direcção da Associação e dar prioridade aos jovens com nova dinâmica. Auguramos que a nova direcção consiga realizar eventualmente o que não consegui fazer ao longo da minha vigência no leme da Associação dos Desportos Motorizados da Huíla.

Além da sede, que outros objectivos não cumpriu ao longo dos mandatos?
Não conseguimos massificar, porque o desporto motorizado é extremamente difícil. É preciso um grande investimento. Tentamos fazer o que estava ao nosso alcance. Sem uma sede social da Associação provincial dos Desportos Motorizados é difícil trabalhar, pois não é possível, em termos organizativos e administrativos, juntar papéis da nossa vida profissional com actividades desportivas. Tive como sede os meus escritórios. É muito difícil funcionar. Vamos dar o nosso maior apoio à nova direcção da Associação no sentido de criarem uma sede e outros apoios naquilo não conseguimos cumprir.

Durante o seu reinado estava em carteira a construção de um kartódromo. Em que ponto se encontra esse projecto?
Infelizmente, não foi fácil realizar cabalmente os nossos projectos. Tivemos inúmeras dificuldades, principalmente no apoio do governo local, que nos prometeu o famoso terreno no km 40. Todavia, até hoje, já lá vão três anos, não temos nenhum documento de concessão do terreno que nos diga que a área Y pertence à Associação. É difícil trabalhar nessas condições. Essa e outras coisas fazem com que não me recandidate à liderança da Associação.  Repito, a não cedência do kartódromo e a não entrega do terreno à associação fez com que me desmotivasse. Quando há promessas e não concretizações, as pessoas também acabam por passar de “mentirosas”, visto que tínhamos afirmado que a Huíla começaria a dar passos na criação de um centro desportivo, no qual teríamos todas as modalidades desportivas, nomeadamente, autódromo, kartódromo e pista de motocross. Não nos foi dada a possibilidade de as realizar. Isso é fracasso, pensamos. Por isso, preferimos estar de fora nos próximos mandatos, como meros observadores, para ver o que fizemos de errado e o de positivo para tentarmos corrigir aquilo que fizemos mal e, na medida do possível, dar a nossa valiosa contribuição à nova direcção. Com toda a honestidade desportiva, pessoalmente fiquei decepcionado e desmotivado.

Pela experiência que carrega, não seria justo integrar o elenco com outras funções?
Na nova direcção, não faço parte de nenhum cargo de responsabilidade. Vou estar completamente fora. É evidente que faço parte mais alguns camaradas e colegas como membro fundadores da Associação. Vou continuar a sê-lo membro, mas não vou exercer cargo algum. Serei simplesmente mero observador.

Perante as dificuldades da Associação, vai manter-se ao longe?
Se o novo presidente da Associação precisar de algum apoio meu, estarei sempre disponível, porque gosto do desporto motorizado. Não serei dirigente na Associação. Sempre que tomamos a peito uma coisa, depois de muitos anos, não nos conseguimos desligar dela rapidamente. É o meu caso. Vamos desligar-nos aos poucos e, se eventualmente não fizer parte dos órgãos sociais da futura Federação, serei observador. E, se fizer, então, teremos trabalho em conjunto com a Associação da Huíla para que o desporto na província e no país dê passos significativos, rumo a conquistas internacionais. 

Desporto motorizado é dispendioso

Com a sua retirada, como deixa o desporto motorizado na Huíla?
Deixo-o numa situação difícil, pois a situação da crise económica internacional também afectou todas as modalidades e o desporto motorizado não fica de fora. O desporto motorizado é dispendioso. A compra de uma moto ou carro fica cara; um jogo de pneus, idem. Se não tivermos apoios do empresariado nacional, o desporto motorizado a nível do país pode morrer. Sem esse apoio, é difícil realizar uma prova. O karting na Huíla estava muito activo quando havia esse apoio. Por falta desse apoio, tudo está a morrer, infelizmente.

Há alguma esperança para o desporto motorizado local?
Acredito que, com o investimento que começa a aparecer pelo país fora, no tocante à aquisição de novas máquinas, o desporto venha a dar mais uma alavancada. Se as coisas funcionarem bem em Benguela, Huambo, Luanda, Namibe e Cabinda, a Huíla, por arrasto, acaba por funcionar bem, porque os empresários não se vão deixar ficar para trás, quando ouvirem que a Associação de Benguela comprou três ou quatro novas máquinas. Isso desperta a atenção do empresariado local. Acreditamos que, num futuro breve, o empresariado local volte a apoiar e a Huíla volte a ser uma grande potência no desporto motorizado.

Quantos pilotos estão inscritos na província?
Neste momento, podemos contar apenas com dois pilotos de karting, quatro ou cinco de carros e também quatro ou cinco de motas, porque tudo está a degradar-se e os praticantes e os dirigentes desportivos procuram patrocínios. Está difícil conseguir apoios para a modalidade. O equipamento é caro para um desporto que pesa no bolso de qualquer um. Se as pessoas praticarem por meios próprios, torna-se mais difícil. Por isso, vamos deixá-lo não com muita saúde.

Quanto à formação, como está a Huíla?
Temos formação, pois a Huíla sempre foi uma das províncias que teve os melhores pilotos. São os pilotos locais que disputam os lugares cimeiros de qualquer competição. Por isso, temos esperanças que o empresariado local volte a dar um impulso ao desporto motorizado para que a Huíla não fique aquém de outras províncias.

Que comentário faz sobre a realização de poucas provas na especialidade de motos?
A província tem imensas dificuldades em realizar provas muito separadas. Por isso, na prova dos 200 kms, uma competição que conta com o apoio da Coca-Cola, nosso patrocinador oficial, realizámos três provas num só dia. Fizemos as provas das motos e dos automóveis, promovemos quatro provas no ano, nomeadamente a de karting, motos, motocross e rally, onde entraram motos de duas e quatro rodas, carros. A Associação cessante nunca primou por fazer uma actividade em prejuízo de outrem. Os apoios são difíceis. Não nos faltou vontade para executar mais provas. Se realizarmos frequentemente provas, vamos criar transtornos à sociedade. Por isso, evitamos fechar as ruas consecutivamente, porque entendermos que a vida não pára por mero capricho. Se tivéssemos um autódromo, uma pista, juntaríamos grupos de amigos e realizaríamos provas aos fins-de-semana. Actualmente, contamos unicamente com o circuito da Nª Srª do Monte, 90 por cento do qual está esburacado. Há sempre serviços de intervenção. Se não são os fios, são os tubos de água. A estrada está com enormes problemas.

Os praticantes de motos foram prejudicados por falta de provas ao longo destes anos? 
Nunca foi intenção da Associação favorecer o automobilismo em detrimento das motos. Sempre foi nossa intenção divulgar a modalidade. Mas com as dificuldades, agimos assim. Por exemplo, neste momento, há um grande trabalho com a intervenção no problema de água na cidade. Temos a pista do circuito completamente escavacada. Não é possível realizar provas, porque também não temos condições para fazer mais. Nunca foi e nunca vai ser intenção da associação dizer que vamos periodizar esta ou aquela prova em prejuízo do motociclismo. Sempre foi prioridade divulgar ao máximo a modalidade.

Para quem aspirou fazer mais, teve alternativas para contornar a situação?
Trabalhámos e tivemos dificuldade para realizar provas. Os apoios são mínimos e nunca foi nossa intenção ou vontade da Associação não fazer esta ou aquela prova. Não há apoios e patrocínios para atribuir prémios aos pilotos. Toda desta conjuntura fez com que a Associação ficasse limitada na planificação de competições e se preocupasse mais com o mês de Agosto, por ser um mês em que a cidade está em festa.

Porquê Agosto?
Durante esse mês, os apoios aparecem com mais facilidade. Andamos atrás dos patrocinadores, porque são festas com maior impacto no país e no exterior. Aparece sempre uma mão caridosa a dar apoios para se realizar actividades desportivas nesse mês. Fora desse mês, é complicado promover actividades.

Apesar dessas dificuldades enumeradas, deixa a associação com o espírito dever cumprido?
Exactamente, porque conseguimos fazer aquilo que qualquer associação teria feito. Nesta senda, primámos por fazer o máximo de actividades desportivas, conseguimos legalizar a associação, angariar alguns sócios, divulgamo-la.

Federação é criada em Maio

Há quanto tempo está ligado ao desporto motorizado?
Sempre gostei de motores. Participei em provas de motocross nos anos 80, fui piloto do karting durante vários anos e em outras competições. Estou no desporto motorizado há mais de 30 anos. No passado, não havia grandes estruturas iguais às de hoje. A Associação existe há seis anos e é a primeira do país.

Como surgiram as outras do país?
Com a Associação da Huíla, fiz barulho em várias instituições para que outras estruturas similares acontecessem. Conseguimos a de Luanda, fizemos pressão para que a província do Huambo tivesse a sua associação criada. Estamos a efectuar contactos para que a Federação Angolana dos Desportos Motorizados seja um facto.

A sua posição denota que vai exercer cargos noutras instituições...
Há uma luz no fundo do túnel, provavelmente, com a constituição da Federação Angolana dos Desportos Motorizados. Garanto que vou fazer parte desse órgão numa das vice-presidências. O projecto está em estudo e aguardamos que se concretize. Pontualmente, vamos divulgar o que seremos com a constituição da Federação. Se não, vou ficar apenas como um observador e conselheiro.

Em que ano perspectiva a proclamação da Federação dos Desportos Motorizados?
A Federação vai ser uma realidade este ano. Tudo depende da força e do dinamismo que tenho vindo a dar. Incentivei a criação de associação nas outras províncias, independentemente de ter sido presidente da Associação da Huíla. Felizmente, duas acataram a nossa ideia. Huambo conta com uma associação graças ao nosso incentivo, Luanda tem a de motocross e a dos desportos motorizados. Portanto, estamos em condições de eleger para que a Federação seja instituída este ano.

Em que estado se encontra a constituição da Federação?
Temos a comissão eleitoral criada. Criámos a Comissão Dinamizadora da Federação, da qual também fazia parte. As coisas estão na ordem dos 80 por cento. No próximo dia 19 de Maio, Benguela acolhe uma prova de automobilismo e vamos aproveitar a presença de todos os amantes da modalidade para realizarmos as eleições, que vão ditar a constituição da Federação Angolana de Desportos Motorizados.