Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

muito sacrifcio trazer medalhas

Rosa Napoleo - 22 de Outubro, 2011

Ftima Antnio um nome que consta da histria do desporto africano

Fotografia: Jornal dos Desportos

Como analisa o estado actual da canoagem?
A canoagem está a evoluir a cada dia que passa. Estamos num nível alto, porque já somámos um número elevado de medalhas, não só nacionais, mas também internacionais. Já fomos uma vez aos Jogos Olímpicos e iremos outra vez no próximo ano para Londres. Isso é crescimento. Somos das poucas modalidades que conseguiram o apuramento para os Jogos Olímpicos de Londres. Não foi fácil atingir este patamar.

Estão bem servidos em termos de material?
Não. Temos inúmeras dificuldades para participar em torneios internos e nos treinos do clube, porque temos poucas canoas. Os nossos treinos são feitos de dois em dois dias. Não conseguimos entrar todos os dias na água por falta de canoas. Enquanto uns vão para a água, outros aguardam para os substituir. É uma situação constrangedora, que precisa de ser revista. As pessoas devem e têm de olhar para a nossa modalidade, porque temos estado a apresentar o fruto do nosso trabalho,  apesar de todas as dificuldades que enfrentamos.

Que outra dificuldade enfrenta uma atleta de alta competição como a Fátima António?
É muito complicado para mim, sempre que vou a uma competição internacional, por exemplo, campeonatos africanos, sem a preparação prévia fora do país. Um estágio pré-competitivo faz bem a qualquer atleta, porque enfrentamos os mais fortes. Deparamo-nos com atletas que estão constantemente em estágios e provas de alto nível competitivo, quando estamos no exterior do país. Para nós, é bastante difícil fazer-lhes frente sem uma preparação condigna.

O que aconselha aos dirigentes desportivos?
As entidades máximas do desporto nacional deveriam analisar este problema e tomar decisões a favor da canoagem. É com muito sacrifício que trazemos taças e medalhas para o país. Por exemplo, fui aos Jogos Africanos de Maputo sem um estágio e isso me prejudicou, porque tive inúmeras dificuldades. Deparei-me com atletas muito rodadas e familiarizadas com aquelas águas. Este foi para mim o momento mais baixo e senti-me prejudicada.

O que se deve fazer concretamente para reverter o actual estado da modalidade?
As autoridades desportivas do país deveriam prestar maior atenção a esta modalidade e dar mais apoios. O que temos passado é muito triste. Chegámos a ter dificuldades até mesmo para sairmos para as competições internacionais. O nosso treinador colocou inúmeras vezes o seu próprio dinheiro mais a ajuda de outras pessoas para viajarmos. Só que, para vergonha de muitos, conseguimos sempre medalhar.

Como avalia a sua participação nos Jogos Africanos de Maputo?
Felizmente, as coisas correram como desejei. As provas não foram fáceis, porque tive adversárias muito fortes. Encontrei dificuldades. Mas como vinha do Campeonato do Mundo da Hungria, trazer aquela experiência para os Jogos Africanos foi, para mim, um grande prémio. Penso que os estágios ajudam muito a qualquer atleta. Se não colhesse aquela experiência, não teria conseguido a medalha de ouro.

Recebeu algum incentivo das entidades desportivas pela conquista das medalhas nos Jogos Africanos de Maputo ou outra conquista anterior?
Que me lembre não. Nem moral nem monetária. Estamos a aguardar até agora pelo pagamento dos prémios, já de si acumulados. Acho que existe uma espécie de separação no desporto, porque tenho visto atletas de outras modalidades que, quando alcançam algum feito internacional, serem homenageados e até mesmo premiados.

Tens algum outro prémio por receber?
Sim. Tenho por receber os prémios dos três campeonatos africanos em que participei. No Senegal, fui medalha de bronze, no Quénia e na Costa do Marfim, conquistei medalhas de bronze e em Maputo, a medalha de ouro nos Jogos Africanos.

Que benefícios recebeu da canoagem pelas conquistas?
É constrangedor falar sobre benefícios na canoagem, porque não vejo nenhum benefício até agora. Se estou até hoje nesta modalidade é porque gosto. É a minha paixão e não faço com fins lucrativos, mas por amor à modalidade. Ainda assim defendo que deve haver sempre algum reconhecimento para motivar os atletas para melhorar cada vez mais.

De quem é o mérito das suas conquistas?
A pessoa que mais força me dá e que é o pilar da minha carreira é o professor Francisco Freire. É a pessoa que aposta em mim, acreditou nas minhas capacidades, investiu o seu tempo e sabedoria, e sempre me incentivou para continuar e seguir em frente. Dedico-lhe todas as vitórias.

Qual é o momento mais alto que viveu até hoje?
Subir ao pódio nos Jogos Africanos de Maputo com a medalha de ouro ao peito, ver a bandeira do meu país bem alto no mastro. Foi para mim um sonho realizado. Sempre desejei ser reconhecida em África e consegui este feito graças, também, à ajuda dos que sempre estiveram à minha volta a dar-me força, como o meu treinador, os colegas de equipa e a minha família.

Qual é a sensação de ser a única feminina do Clube Naval a competir nos eventos internacionais?
É de muita satisfação. Quem me olha e vê a minha simplicidade pode pensar que foi uma coisa do nada, mas não. É um trabalho que levou tempo, muita preparação e engajamento.

Qual foi a reacção dos rapazes, no início da prática desportiva?
Quando comecei, os colegas olhavam-me como alguém frágil por ser mulher e até me tinham apelidado de Miúda, mas tudo valeu a pena. Só serviu para me elevar e encorajar a trabalhar cada vez mais. Gostaria de apelar às outras jovens que pratiquem a canoagem, porque precisamos alargá-la, quiçá, criar uma equipa feminina no futuro.

Como começou?
Comecei a praticar ainda muito nova, em 2002. A minha opção não era a canoagem, mas sim, a natação. Pratiquei a natação durante algum tempo e, mais tarde, decidi trocar por influência de algumas pessoas próximas de mim que me achavam não ter grandes êxitos. Pensei na sugestão e aceitei. Foi uma decisão bem pensada, porque hoje estou a ver os frutos do meu empenho e dedicação na canoagem. Posso dizer que valeu a pena.

Em que clube começou a prática do desporto?
O meu clube sempre foi o Naval, onde tive boa aceitação dos colegas, o que me permitiu, dois anos depois, participar num campeonato nacional. Para tal, tive de trabalhar muito e consegui atingir níveis de desempenho aceitáveis. Como resultado disso, em 2008, fui chamada à selecção nacional.

Quais são os principais títulos na carreira?
Tenho vários títulos nacionais e internacionais. Destaco o primeiro, medalha de bronze no Campeonato Africano do Senegal (Dakar), medalha de prata no Campeonato Africano do Quénia, em 2009, medalha de prata no Campeonato Africano da Argélia, em 2007, medalha de bronze no Campeonato Africano na Costa do Marfim.

Por que há fraco interesse da classe feminina?
Talvez pelo facto de a canoagem tornar demasiado musculado o corpo de uma mulher. Mas gostaria de esclarecer que isso não corresponde à verdade. Por exemplo, pratico a canoagem há bastante tempo e, nem por isso, o meu corpo mudou. Estas mudanças dependem muito da estrutura do corpo da própria pessoa. Por isso, convido a minha classe a não se limitar se gostam da modalidade; inscrevam-se, porque estamos aqui para as receber.

Qual é a sua maior dificuldade como atleta?
Tive várias, mas já estão todas ultrapassadas. Hoje, sinto-me mais segura, domino melhor as técnicas da canoagem.

Como consegue conciliar treinos, trabalho e vida académica?
É muito difícil. No princípio, as coisas estavam mesmo complicadas, porque não estava habituada, mas com força de vontade, consigo dominar o meu programa. Levanto-me às 5 horas, treino das 5h30 às 8 horas; vou ao trabalho, onde chego habitualmente às 8h30. Às 18 horas, vou à faculdade. Tenho esta rotina todos os dias e não tem sido fácil.

Perfil
 
Nome: Fátima António
Data de nascimento: 31 de Março de 1986
Natural: Luanda
Estado civil:  Solteira
Função: Atleta
Modalidade: Canoagem
Signo: Carneiro
Nível académico: 1º Ano de Psicologia
Altura: 1,60m
Peso: 55kg
Número de calçado: 39
Prato preferido: Mufete
Bebida: Sumo
Música: Clássica
Casa própria: Não tem
Carro: Não tem
Desejo: Já realizado (ser campeã africana)

Trajectória:
Antónia de Fátima nasceu e vive na Ilha de Luanda, é atleta do Clube Naval de Luanda. Iniciou a carreira em 2002 e estreou-se no campeonato nacional em 2006 e na selecção nacional em 2005. Conquistou 12 troféus nas competições nacionais e quatro medalhas nas competições internacionais. É militar da Marinha de Guerra Angolana e integra a classe de sargento.