Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Eduardo Pascoal, tetra-campeo nacional individual de xadrez

07 de Outubro, 2009

Eduardo Pascoal

Fotografia: Jornal dos Desportpos

Que sentimento lhe vem à alma depois de conquistar mais um título nacional?
Sinto-me bastante satisfeito, porquanto é o objectivo de todo o atleta numa competição. Não fugi à regra. A luta não acabou, uma vez que terminou a fase individual. Nos próximos dias, disputaremos o título por equipas. Vou continuar a trabalhar para fazer melhor na próxima empreitada.

Notou-se um Match renhido, uma vez que tiveste pela frente um adversário difícil, no caso Catarino Domingos. Só no quarto jogo ditou a sua vitória…
O Match teve dois objectivos distintos. Em primeiro lugar, eu precisava empatar a três a três e ele tinha de ganhar a dois e meio ou a três e meio. Começamos os dois jogos a empatar, ganhei o terceiro jogo, enquanto à luta do adversário era pela vitória de forma a ficar em vantagem. Em segundo lugar, a minha preocupação passava por empate que perspectivava ser difícil. Sabia que no quarto jogo, o adversário devia jogar aberto para procurar a vitória, por isso, fiquei atento às suas debilidades. No início da partida, levava uma ligeira vantagem na ala de dama, procurei concentrar todo o meu ataque na ala do rei e foi por esse caminho que surgiu o meu êxito.

O título não foi entregue de mão beijada…
Confirmo (e falo com propriedade): vivi a competição na prática, encontrei muitas dificuldades para a conquista do título. Catarino Domingos é um jogador de craveira internacional e reúne muita experiência. Só com esses dados são suficientes para elucidarem o quanto me empenhei a fundo para a conquista do título. No entanto, festejo-o com júbilo, porque foi ganho diante de um adversário que merece muito respeito no xadrez angolano. Aliás, em 2006, havíamo-nos encontrado na mesma circunstância, tendo também levado vantagem. Considero-o sempre um osso duro de roer.

Que dificuldades concretas encontrou na partida?
As maiores que encontrei foram nas aberturas dos jogos, uma vez que o meu adversário é muito bom nesse aspecto. Desse modo, procurei não errar nas aberturas para ficar bem no meio e no final do jogo. Foi assim que tive de ensaiar, por várias vezes, essa zona. Graças a Deus, fui bem sucedido.

 Perante o quadro que descreve, que avaliação faz do campeonato, quer do ponto de vista técnico, quer organizacional?
Foi um campeonato bonito, muito disputado e a luta pelo primeiro lugar foi bastante renhida. Até à oitava jornada não havia um campeão antecipado e a distância entre o primeiro, terceiro, quarto, quinto e o sexto classificados era de meio ponto. Imaginem o nível competitivo do campeonato! Quanto ao capítulo organizacional, foi melhor que os anteriores. Realço que foi um show. E quando assim acontece, devemos sentir-nos felizes, porque é sinal de que a modalidade está no bom caminho.

Ser tetra-campeão nacional é motivo para sorrir…
Sim, porque apenas duas pessoas ostentam acima de dois títulos de campeão nacional no país, nomeadamente, eu, com quatro, e o Adérito Pedro, com cinco títulos. Isso é motivo de regozijo. Existem muitos atletas, que andam nessa vida há bastante tempo, já lhes encontrei no quadro estatístico, mas até ao momento têm apenas um ou dois títulos. Logo, concluo que é motivo para festejar em grande.

Qual é o segredo para a conquista desses títulos?
Está no trabalho. Apelo aos novos praticantes no sentido de seguirem o meu exemplo, porque alguns, quando me encontram em certos divertimentos, pensam que faz parte de toda a minha vida. Mas não é isso. O divertimento surge apenas para desanuviar do intenso trabalho a que somos submetidos. O pano de fundo é o trabalho árduo.

O xadrez obriga investimentos individuais para atingir os seus objectivos?
Sim. Sem investimento, o atleta não vai a lado algum. O investimento recai, sobretudo, na compra de materiais, designadamente, computadores e livros. Isso acontece comigo e os frutos são os títulos que colecciono ao longo do tempo. Aconselho os atletas, que tenham a intenção de atingir o meu nível, a enveredar por esse caminho, apesar de ser oneroso.

Objectivo a médio prazo
é ser Mestre Internacional

Quais são as perspectivas para a sua carreira de desportista?
Vou continuar com a mesma força, porque os meus objectivos futuros passam pela conquista do título de Mestre Internacional. É um desafio para médio prazo, porque é uma tarefa nada fácil. Continuo a acreditar no sonho, porque me vejo com força de Mestre Internacional.

Há algum torneio internacional em vista?
Tenho um que será provavelmente em Espanha, concretamente, em Barcelona. O meu clube, a Epal, está a fazer o possível para que isso aconteça, embora, até ao momento, nada esteja concretizado. No entanto, são torneios que não devemos desperdiçá-los, porque são os que nos atribuem o título de Mestre Internacional. Na qualidade de campeão nacional, devo continuar nessa luta para elevar cada vez mais o meu nível para o bem desse desporto em Angola.

Que avaliação faz sobre as competições internas?
Estão no bom caminho a julgar pelo bom nível de organização e de projectos que a Federação tem em carteira, como por exemplo, a criação de Escolas de Formação, bem como a realização regular de torneios nos mais variados escalões etários.

A participação da classe feminina na modalidade tem sido reduzida desde 1981. Que estratégia se deve adoptar para inverter o quadro?
É um pouco complicado falar sobre isso. Deve-se lutar pela massificação da classe feminina e a federação não está alheia a isso. Dentro  do seu projecto de 2009/2012, esse elemento é prioridade; é apenas uma questão de tempo.

A Escola Macovi está a aliviar a federação nesse capítulo e novos talentos têm sido descobertos. Que comentário se lhe oferece fazer?
É certo. Existem poucas escolas de formação em Angola, porque não se nota uma aposta séria dos clubes nesta modalidade. Apenas, temos a Macovi e, agora, a Epal. É verdade que é um alívio para a federação que também está a trabalhar para que a modalidade tenha mais expansão no feminino.

A adesão da juventude à modalidade já é um facto?
Sim. Actualmente, já se vê mais jovens a aderir à modalidade, porque há uma evolução dos níveis competitivos no país, o que tem despertado a atenção da juventude. A importância da prática do xadrez não se repercute só do ponto de vista desportivo, mas também para o bem-estar dos seus afazeres quotidiano. Aliás, todos os Mestres de Xadrez foram-lhes concedidos a possibilidade de fazer cursos de formadores, com vista a usar essa arma como bagagem de encorajamento aos jovens na adesão à modalidade. Noto que tem dado os seus frutos.

 Um recado para os pais…
Deixo um apelo à sociedade, com particular realce para os pais, no sentido de incentivarem mais as meninas a aderir à prática do desporto, no caso o xadrez. Tenho notado, em muitas famílias, um olhar ao desporto como tabu. Isso não é bom para o desenvolvimento do desporto angolano.

Angola ostenta cinco títulos de campeão africano de juniores, conseguidos por Vlademiro Pina, Adérito Pedro e Eugénio Campos. Quando poderemos conquistá-lo nos seniores?
Angola sempre almejou atingir patamares altos, mas infelizmente não tem sido fácil, porque temos encontrado adversários com boas intenções e que investem muito na modalidade; trabalham com afinco para que as suas ambições sejam um facto. O título africano conquistado na Namíbia por Adérito Pedro fê-lo à custa de muitos sacrifícios, pois por um triz o teria perdido. À sua frente, estava um adversário de reconhecido valor escaquístico. Catarino Domingos quedou-se na segunda posição. Com mais trabalho e apoios, vamos continuar a lutar na conquista desse almejado título. Creio que vamos conseguir, porque Angola tem potencial para isso.

"Prémios são simbólicos"

O prémio recebido foi fabuloso?
Não é bem isso. O que recebemos já é bom, porquanto dá para fazer alguma coisa. A Federação Angolana de Xadrez deve apostar mais em prémio, porque o xadrezista gasta muito o seu cérebro; são horas e horas de trabalho. Houve melhoria, porque no passado quase nada levava. Atendendo o trabalho feito e em curso, creio que novos ventos vão soprar para o bem do xadrez. A Federação está a fazer inovações para o crescimento da modalidade; está a trabalhar seriamente na melhoria desta componente.

Quais são os valores de cada prémio?
É complicado adiantar números. É um valor simbólico, mas dá para alguma coisa. Já que insiste na questão, o valor do prémio para o primeiro classificado é de 240 mil kwanzas, para o segundo, 140 mil, e o terceiro, 80 mil kwanzas. 

Por dentro

Nome: Eduardo Pascoal
Bebida: Vinho
Prato: Funji de calulú
Cidade: Roma
Religião: Testemunha de Jeová
Ídolo: Kasparov
Equipa: Petro de Luanda
Nº calçado: 47
Altura: 1,90 m
Peso: 124 Kgs