Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Espero chegar a piloto principal

Hlder Jeremias - 11 de Abril, 2011



Ricardo Teixeira é um dos exemplos de que os angolanos estão talhados para grandes desafios. O jovem fez questão de colocar o nome do país num prestigiante espaço do desporto internacional e foi no automobilismo que encontrou a paixão. Depois de se sentar pela primeira vez num kart, o piloto assumiu o compromisso com os desportos motorizados, tendo passado com brio pelas distintas categorias de karting, campeonato inglês de Fórmula 3 ARP, National Class, World Series by Renault, Fórmula 3, GP- 2 e Fórmula 2. Hoje, realiza o sonho de se tornar o primeiro angolano a chega à maior categoria do automobilismo mundial: Fórmula 1. Durante os dias em que esteve em Angola, depois da sua estreia como piloto oficial de testes da escuderia Lótus na primeira prova do Campeonato Mundial de Fórmula 1, no circuito de Melbourne, Austrália, Ricardo Teixeira falou ao Jornal dos Desportos sobre a trajectória e o sentimento de levar o nome de Angola entre os melhores corredores do planeta.



 

Como entrou no mundo do automobilismo mundial?
Sempre gostei de acompanhar as corridas de automóveis pela televisão e frequentava com os meus pais o Kartódromo de Braga e Baltar (Norte de Portugal). Aos 11 anos, ou seja, em 1995, comecei a interessar-me seriamente pelo desporto automóvel, após uma visita ao Kartódromo de Braga, onde me foi dada a oportunidade de dar algumas voltas. As pessoas que lá se encontravam notaram algo que se identificava com a minha pessoa naquele desporto. Nesse mesmo ano, recebi um convite para participar na categoria de cadetes do troféu local em que, curiosamente, terminei em terceiro lugar. Após uma paragem para me concentrar nos estudos, voltei a competir no troféu do Cabo do Mundo, uma competição que goza de grande prestígio nas categorias elementares do automobilismo, ao mesmo tempo que competia em Baltar, competições em que obtive o terceiro e sétimo lugares, respectivamente.

Foi fácil competir em dois campeonatos em simultâneo tão novo?
Antes pelo contrário, sempre foi tudo muito difícil. Mas a vida de um piloto profissional é feita com enormes adversidades. Tanto assim é que, em 1998, me transferi para a categoria inter A do Campeonato Português de Karting, ao mesmo tempo que estava inserido no escalão Inter C, onde me destaquei com a conquista do terceiro lugar, além de ter marcado presença em todos os pódios da época, motivo que agudizou o interesse de algumas equipas em me manterem nas suas escuderias. Mas a minha ida para Inglaterra foi fundamental para que desse importantes passos do ponto de vista profissional, muito embora não fosse esse o propósito.

O desporto não esteve na base da sua ida para Inglaterra?
Não, porque o interesse dos meus pais era a continuidade da formação académica em Engenharia Mecânica, na universidade de Birmingham. Como o bichinho já estava dentro de mim, o que fizemos foi unir o útil ao agradável, em função do nível de desenvolvimento do desporto motorizado naquelas paragens. Já levava alguma experiência, depois de ter passado, em 1999, pelo Winter Cup, em Lunato, Itália, onde fiquei na 16ª posição, entre 97 pilotos. Porém, as coisas começaram a tomar maiores dimensões quando, em 2003, entrei no Campeonato Britânico de Fórmula 3 ARP, tendo efectuado cinco corridas, das quais obtive duas vitórias, um segundo lugar e um terceiro.

Por que razão, então, só em 2010 chegou à Fórmula 2?
O mundo do automobilismo é extremamente complexo e pouco se pode fazer sem condições materiais. Tanto é que, em 2004, tive de ficar parado por dificuldades financeiras, para regressar às competições, no ano seguinte, desta feita, ao Campeonato Britânico Oficial de F-3, categoria International Class, onde, das sete corridas realizadas, subi três vezes ao pódio. Entretanto, mais uma vez tive de ficar parado por dificuldades financeiras na época seguinte. Em 2007, regressei ao Campeonato Britânico, na categoria Shampionship Class, cujos resultados não foram divulgados por razões técnicas (escolhas erradas de tempo). Em 2009, fui conduzido para piloto de desenvolvimento da Williams F1, colocado no Campeonato de GP2, emprestado à escuderia da Trident, ao passo que, no ano passado, subi à Fórmula 2.

Como foi a sua passagem pela Fórmula 2?
Foi uma época muito difícil em que enfrentei muitos problemas técnicos e tive um acidente aparatoso no circuito de Marrakesh. Mas apesar de todas as adversidades e falhas técnicas sistemáticas, consegui fazer uma época regular e os técnicos deram o parecer positivo pela forma como lidava com situações desagradáveis. Contudo, é preciso sublinhar que os pilotos são testados desta forma e não são as excelentes condições dos carros que definem as qualidades do corredor, mas a forma de agir em quaisquer circunstâncias. Talvez por isso é que recebi a confiança do Team Lótus.

“Temos condições geográficas
para desenvolver o automobilismo”

Quais foram os requisitos para que o Team Lótus lhe atribuísse o estatuto de piloto de teste oficial?
As grandes equipas estão sempre atentas à desenvoltura dos pilotos que correm nas categorias anteriores da Fórmula 1 e graças ao meu desempenho, sobretudo na categoria de GP2 e F2, e à simpatia dos engenheiros da Lótus, Humpherey e Mike Gascoyne, fui convidado para o primeiro teste oficial a bordo do Fórmula 1, no dia 4 de Janeiro, no circuito de Valência, Espanha, em que tive excelentes resultados, o que permitiu a realização do segundo teste, em Barcelona, já com todos os outros pilotos. A partir daquele momento, foi anunciada a obtenção da Super-Licença da Federação Internacional de Automobilismo.

Com essa licença, já pode participar numa prova esta época?
As regras da Federação Internacional de Automobilismo estabelecem que aqueles corredores que recebem a Super-Licença só podem ser pilotos oficiais depois de um ano, mas todos os membros da equipa estão preparados para qualquer eventualidade. Por isso, este ano, só posso efectuar testes ao carro da equipa e esperar tornar-me piloto principal na próxima época, quando completar o tempo estipulado pelo órgão reitor da modalidade.

Qual é o sentimento de representar Angola na Fórmula 1? 
O sentimento é de grande alegria por se tratar de um sonho que começa a tornar-se realidade, mas também de muita responsabilidade, porque esta época é decisiva para que, em 2012, deixe de ser somente piloto de testes e passar a principal. Um exercício que, seguramente, vai exigir maior trabalho da minha parte, mas também espero contar com o apoio necessário para que não percamos de vista a hipótese de um dia conquistarmos a proeza que muitos países procuram realizar, mas que só um número restrito tem oportunidade.
 
Tem recebido apoio do Estado angolano na sua carreira?
Aproveito para agradecer a atenção que sempre mereci, porque nada disto teria sido alcançado, caso não tivesse apoio do meu país, uma vez que o desporto motorizado é bastante oneroso até chegarmos aos píncaros. Esse apoio vai ser compensado com a visibilidade que o nosso país vai ganhar, quando estivermos a projectar a sua imagem ao mais alto nível dos desportos motorizados, que representa um dos maiores vectores para a atracção de investimentos e oportunidades para a realização de negócios que contribuem para o desenvolvimento socio-económico.

Foi piloto da escuderia Williams F1, uma das mais conceituadas; foi emprestado à Trident, na categoria GP-2, em 2009, e em 2010 defendeu as cores da Williams na F-2. Qual é a razão da mudança para a Lótus?
A mudança de uma equipa para a outra tem a ver com os interesses de cada uma. Por isso é que a Fórmula 1 é um verdadeiro negócio. Quando estive na Williams, ajudei a desenvolver o monolugar da escuderia e os resultados obtidos pelo meu desempenho atraíram a direcção da Lotus, porque têm um carro com grande potencial, mas que ainda precisa de se desenvolver, por um lado, e, por outro, vêem em mim o potencial substituto do Koveleinen, piloto principal que vai deixar de competir no final desta época.

Conhece outros corredores angolanos que também podem ter o prazer de chegar à Fórmula 1?
Conheço, realmente, vários pilotos com talento, mas é necessário que comecem a entender que uma carreira não é feita com a conquista de pódios. É necessário ter coragem de “levar porrada” nas competições mais difíceis, superar dificuldades e aprender todos os dias. Os profissionais estão atentos a esses pormenores. Foi assim com pilotos como Michael Schumacher, Lewis Hamilton, entre outros. Entretanto, estou disposto a ajudar todos aqueles que queiram batalhar no asfalto, até porque a minha presença naquela competição já representa essa abertura.

Acompanha as competições nacionais?
Sempre que possível procuro saber o que se passa no nosso país e noto que existe um esforço muito grande no sentido de se desenvolver o automobilismo. Mas tudo ainda está numa fase embrionária, pois debate-se com falta de infra-estruturas, equipamentos e formação básica. Apesar destas contrariedades, é de realçar a força de vontade dos nossos compatriotas.

Falou em infra-estruturas. É difícil criar essas condições no país?
Nada é difícil desde que haja vontade. Temos condições geográficas, em Angola, para desenvolver o automobilismo, mas o mais importante é o talento dos corredores, tanto no automobilismo como no motociclismo. Se unirmos esses factores decisivos, acredito que, num futuro próximo, poderemos trazer para o país a edição de um Grande Prémio à semelhança do que acontece em outros países que até há bem pouco tempo não possuíam sequer um circuito.

Reside em Londres. Como concilia a vida profissional com a familiar?
Uma das desvantagens dos corredores profissionais prende-se com o facto de ter pouco tempo para passar com os familiares, uma vez que estamos sempre a viajar pelo mundo e a cumprir escrupulosamente a preparação física e técnica. Contudo, sempre que há oportunidade, procuro passar algum tempo junto da família.
 
Qual foi o seu momento mais alto e o mais baixo?

Tive vários momentos bons, mas a minha primeira participação como membro oficial da equipa, isto é, no circuito de Melbourne, Austrália, foi, sem dúvida, algo muito emocionante. Ver o meu nome no mesmo monitor com corredores como Michael Schumacher, Sebastian Vettel, Lewis Hamilton, entre outros, que sempre admirei, foi algo que sempre vai ficar guardado na minha memória; não que outras coisas boas sejam esquecidas. Os momentos menos bons ocorreram, quando tive de ficar parado devido a dificuldades financeiras, além do acidente que tive no circuito de Marrakesh, no ano passado, durante o campeonato de Fórmula 2.