Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Est a ser positivo o processo de renovao da Seleco"

Mrio Eugnio - 07 de Agosto, 2013

Seleccionador de Andebol diz que processo de renovao est ser positivo

Fotografia: Jornal dos Desportos

P: Qual é a avaliação que faz da participação da Selecção Nacional quer no Torneio das Quatro Nações, que se disputou na Coreia, no mês passado, quer nos jogos internacionais realizados com a congénere do Brasil, mais recentemente, já com a integração de atletas que fazem parte do processo de renovação da equipa?
 R: Se analisarmos do ponto de vista da renovação, a avaliação é francamente positiva, porque colocámos muitas atletas jovens e tiveram um comportamento que nos agradou bastante e que nos permite augurar a sua integração no futuro. Os resultados nem sempre foram bons mas nós também não os temos como prioritários porque estamos ainda num processo de preparação. De qualquer maneira foi bastante positiva a integração de atletas como, por exemplo, a Albertina Cassoma, que tem 17 anos, a Juliana Machado, a Lisandra Salvador e a Iracelma Silva, que são atletas muito jovens que integraram a Selecção Nacional pela primeira vez e deram indicadores muito bons. Por outro lado, conseguimos equilibrar jogos com algumas das melhores selecções do Mundo. Jogámos na Coreia num torneio muito forte, com a Espanha, Coreia e a Rússia, e agora jogámos com o Brasil, que é uma equipa também muito forte, que só perdeu um jogo no último Campeonato do Mundo. Portanto, os adversários foram muito fortes, se calhar um bocado mais fortes do que seria de esperar para um primeiro teste. Por isso é que estamos muito satisfeitos com a prestação das atletas.

 P: Sei que, pelo menos, 15 atletas têm estado a trabalhar com a equipa técnica. Como foi o comportamento delas em termos de integração e evolução?
 R: Há uma grande evolução. As atletas estão a integrar-se bem e temos que valorizar o trabalho que elas estão a fazer nos clubes. Esse trabalho é que está a potenciá-las para essa boa prestação. Sente-se, por outro lado, uma grande disponibilidade e disposição delas de aproveitarem a oportunidade para conquistar um lugar, porque elas têm consciência que muitas das atletas veteranas, das nossas melhores atletas que temos, não têm estado disponíveis, então têm estado a dar o seu máximo. É verdade que ainda precisamos que elas joguem muito mais para podermos dizer que estão capacitadas a assumir e substituir as outras, mas os indicadores são muito positivos.

 P: Tendo em conta o tempo que resta até ao Campeonato do Mundo, em Dezembro, e o CAN em Janeiro, essas atletas têm condições para estar à altura de colmatar as eventuais ausências das mais experientes, que nos últimos tempos têm estado a demonstrar indisponibilidade para representar as cores nacionais?
 R: Poderíamos dizer que já temos pelo menos mais duas ou três atletas que podem reforçar a Selecção. Acredito que, pelo facto de agora a Taça dos Clubes Campeões ser jogada um pouco antes da data prevista, ficamos com mais tempo para preparar o Campeonato do Mundo, pois com o tempo que teremos pela frente poderemos preparar eventualmente mais duas ou três jogadoras jovens, sobretudo jogando muito mais internacionalmente, para levá-las a assumir de facto a Selecção. Mas neste momento já temos algumas, como disse, duas ou três que já são quase uma certeza.

 P: Poder dizer-se que já temos um grupo pronto para concretizar os objectivos nos dois grandes compromissos, ou seja, melhorar a classificação do Campeonato do Mundo e revalidar o título africano?
 R: Penso que devemos ir passo a passo. Para já precisamos, seguramente, de continuar a proporcionar esse tipo de oportunidade de preparação às atletas, possibilitar que elas joguem ao mais alto nível. Temos estado a trabalhar com a federação e acreditamos que por esse caminho podemos realmente chegar lá. É essa a nossa perspectiva. Agora, não podemos, digamos, antecipar as coisas. Temos que ir passo a passo, mas acreditamos que, sim, sentimos que há uma grande vontade das atletas.

REVELAÇÃO
Relação com
os clubes é boa


P: Essa indisponibilidade manifestada de quando em vez por algumas atletas não tem a ver também com a influência da direcção dos clubes que pretendem defender os seus interesses?

 R: Não temos felizmente problemas com a direcção dos clubes nem temos o “fantasma” da perseguição. Temos conseguido conversar. Nem sempre estamos de acordo, mas temos dialogado com os clubes. O Petro de Luanda é o grande esteio do andebol feminino e na pessoa do seu presidente tem sempre apoiado incondicionalmente, tanto a equipa técnica quanto as atletas, e até com instalações. Com o 1º de Agosto que é também outra grande equipa que faz grandes investimentos a nível dos femininos, temo-nos igualmente entendido, salvaguardando as diferenças. Com o ASA, com a Marinha, com as equipas de Benguela, temos procurado sempre encontrar o melhor entendimento. Penso que não é por aí que a Selecção Nacional ficará prejudicada.

CONSTATAÇÃO 
Angola é vista como equipa de topo


P: Durante a participação de Angola no Torneio das Quatro Nações, na Coreia, e mais recentemente no Brasil, onde realizou dois jogos internacionais, deu para aquilatar o peso de alguns adversários para o Campeonato do Mundo?
 R: Sim. Hoje já é muito fácil vermos os jogos de Angola pela Internet. Já não vamos poder contar com o efeito surpresa, porque temos sido uma equipa muito referenciada. Agora na Coreia, a equipa técnica, a federação e as autoridades desportivas locais agradeceram imenso a nossa participação, destacando que Angola dignificou o torneio, e o mesmo voltou a acontecer no Brasil. Angola é vista agora como uma selecção de topo.
As pessoas querem saber quantos clubes temos, como as atletas atingem os níveis que apresentam, enfim, um conjunto de informações. Já percebemos no contacto com outros treinadores, que estes fazem uma procura muito grande de informações dos jogos de Angola. Equipas técnicas da Espanha, Noruega, Argentina e Paraguai estão interessadíssimas em saber tudo sobre a nossa equipa. Portanto, desse jeito, vai ser difícil surpreender quem quer que seja, encontrando adversários que já nos conhecem.
 
P: O que fazer então neste caso?
 R: Temos que estar no nosso máximo para poder realmente conseguir bons resultados. Isso é um grande desafio para nós e vai-nos obrigar a trabalhar no máximo das nossas capacidades para que estejamos à altura de enfrentar adversários tão bem cotados.

 P: Os próximos compromissos da Selecção Nacional são o Campeonato do Mundo, em Dezembro deste ano, e o Campeonato Africano, em Janeiro do próximo ano. Como pensa gerir este tempo, de modo a que as atletas não percam a forma desportiva?

 R: Normalmente tem sido difícil e nós, por meio do presidente da federação, que é também presidente do comité de organização de competições da Confederação, já temos estado a tentar influenciar para alguma mudança no calendário de competições. Nós jogamos o Campeonato do Mundo no limite e 15 dias depois temos o Campeonato Africano. É, de facto, difícil gerir essa situção, porque temos de ponderar também os aspectos familiares, porque muitas delas são donas de casa. Há a quadra festiva pelo meio e as pessoas querem estar com a família, mas uma vez mais vamos voltar a contar com a capacidade de sacrifício das atletas.

 P: Mas mesmo com estes constrangimentos do calendário é possível manter o grupo preparado para esses dois grandes compromissos?
 R:
Este ano, o Campeonato do Mundo termina no dia 22 de Dezembro e o Campeonato Africano começa no dia 15, cinco dias mais tarde em relação ao último CAN. Se tudo correr bem poderemos permitir que as atletas convivam com os seus familiares na quadra festiva e logo a seguir retomar a preparação, visando o CAN. É importante que elas estejam completamente disponíveis para a Selecção, porque são competições muito difíceis e juntas, o tempo de recuperação é muito reduzido, e nestes casos é conveniente que elas estejam muito concentradas, que se alimentem bem, que recuperem das lesões e estejam bem fisicamente. Se continuarmos a contar com o apoio da federação, dos patrocinadores e do próprio Estado, penso que poderemos equacionar todo este processo de forma a termos as atletas nas suas melhores condições.

 P: Quer dizer que o ideal seria ter, até à véspera dessas duas competições, mais torneios para dar mais jogos às atletas?
 R:
Sim, seria o ideal, aliás é fundamental. Na nossa perspectiva e à semelhança do que fazem as equipas do topo, queríamos realizar um mínimo de 8 a 12 jogos internacionais, antes de chegarmos ao Campeonato do Mundo. Equipas mais fortes que a nossa, como o Brasil e a Noruega, já estão a 9/10 jogos ao longo do ano. Nós, agora que jogámos com o Brasil, completámos cinco. Já não é mau, porque tem sido muito difícil conseguir estes jogos, mas queremos subir um pouco mais e chegar aos 10 jogos internacionais, para tirarmos melhores ilações das atletas e o próprio grupo em si estará muito mais capacitado para fazer uma boa campanha. Se pudéssemos também ter um grupo mais forte seria mais conveniente para podermos gerir da melhor maneira a utilização das atletas. Como fazem as equipas do topo, seria ideal contar com 18 ou 20 atletas no processo de preparação, pois isso facilitaria um pouco mais a gestão do desgaste delas. 

PRETENSÃO
“Queremos as melhores”


P: Embora seja mais um problema de foro administrativo do que técnico, pode dizer se há razões fundadas para que algumas atletas experientes, casode Marcelina e Luísa Kiala, Nair Almeida, entre outras, se mostrem quase sempre indisponíveis nos últimos tempos?
R:
Cada uma delas tem os seus argumentos de razão. Há situações que achamos perfeitamente normais. Às vezes é difícil compatibilizar o trabalho, o estudo e o desporto. Pensamos que nalguns casos as situações são compreensíveis, mas de qualquer maneira precisamos de valorizar a própria Selecção Nacional. Sentimos que muitas delas têm vontade de estar mais tempo na Selecção e não podem. Mas também defendemos a ideia de que querer é poder. Vamos aguardar, mas vamos dar prioridade àquelas que podem e querem muito representar a Selecção Nacional.
Sabemos que com as atletas mais experimentadas tornamos a Selecção mais forte, mas se não houver também a disponibilidade delas temos de avançar com as que estão disponíveis, pois não podemos esperar.

P: A equipa técnica sente muitas dificuldades em ter que trabalhar sob este condicionalismo de as atletas estarem umas vezes disponíveis e outras não?
R:
Felizmente já ultrapassámos esta fase. Realmente houve uma altura em que estávamos condicionados com essa situação mas conseguimos ultrapassar, porque percebemos que a Selecção é para as melhores e para as que estão disponíveis. Não fechamos a porta a ninguém, mas também não vamos obrigar ninguém a vir à Selecção. Nessa perspectiva, estamos em sintonia com a direcção da federação. Sabemos que temos mais-valias, mas o peso dessas mais-valias tem de ir ao encontro da vontade de representar a Selecção Nacional. Portanto, neste momento estamos centrados naquelas que de certeza estão disponíveis para a Selecção.

P: Quando diz que estão em sintonia com a direcção da federação, pretende dizer que esta procura remover os obstáculos para que aquelas atletas estejam disponíveis sempre que a equipa técnica assim o queira?
R:
Precisamente. Essa sintonia não é só com a direcção da federação, é também com as próprias atletas, porque algumas delas têm conversando connosco, explicam o problema e tentamos em conjunto procurar as soluções específicas para cada caso. Sabemos que algumas, com as suas limitações, quando assim acontecer, estarão disponíveis e se estiverem em condições serão integradas na Selecção. Nem a equipa técnica nem a direcção da federação estão contra as atletas, que fique claro. Estamos no mesmo barco à procura de soluções que satisfaçam todas as partes. A partir da altura em que essas atletas estiverem de novo disponíveis, esperamos que manifestem essa vontade e desse modo estaremos todos mais fortes.