Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Estamos focados na procura do título nacional

Helder Jeremias - 20 de Abril, 2011

Reggie Moore faz jus ao princípio de que “o desporto não tem fronteiras

Fotografia: Jornal dos Desportos

Após três anos ao serviço do Recreativo do Libolo, que avaliação faz do basquetebol angolano?
Em Angola, pratica-se um basquetebol excelente e fico satisfeito por notar que, a cada ano, as equipas apresentam um maior nível competitivo, em função da melhoria com que as equipas consideradas como menos cotadas se têm pautado. No primeiro ano, era comum vencermos tais equipas por margens dilatas, facto que hoje nem sempre é possível, porque os jogadores mais novos estão a subir de rendimento. Em suma, posso aferir que temos em Angola basquetebol de primeira água.

Que metas estabeleceu enquanto permanecer em Angola?
Como qualquer atleta da alta competição, quero ajudar a minha equipa a conquistar o maior número de troféus. Por isso, vou trabalhar para elevar cada vez mais a minha forma física; trabalhar em sintonia com a equipa para nos mantermos nesse ritmo de progressão. Começámos há dois anos e, no ano transacto, conquistámos a primeira Taça de Angola, feito que pretendemos repetir na presente época. Contudo, estamos focados na procura do título nacional, de modo que possamos estar presentes ao mais altos níveis nas competições africanas.

Fala em competições africanas. Alguma vez pensou na possibilidade de representar a Selecção de Angola? 
De facto, várias pessoas colocaram-me essa questão, mas isso não depende de mim, por se tratar de uma questão exclusiva da Federação Angolana de Basquetebol e das autoridades, caso acharem que possa dar algum contributo em prol da conquista dos resultados perseguidos na arena internacional. De qualquer forma, devo dizer que esse passo não está fora de hipóteses. Dependentemente das propostas que me forem feitas, estou disponível para qualquer desafio. Contudo, a prioridade é concentrar-me ao trabalho que desenvolvo na minha equipa e procurar, junto dos meus colegas, conquistar os melhores resultados possíveis.

O facto de não ter filhos nos Estados Unidos facilitaria a sua naturalização e permanência em Angola?
A minha naturalização poderia ser feita a qualquer momento, caso dependesse de mim, independentemente de ter filhos ou não. Angola tem uma boa equipa e estaria disposto a dar o meu contributo para que o título africano se mantivesse por mais alguns anos. É orgulho para qualquer atleta representar a selecção nacional, já que este privilégio não está ao alcance de qualquer um, no seu país de origem. Infelizmente, as coisas devem obedecer aos seus parâmetros.

Tem acompanhado outras competições africanas?
Não diria acompanhar atentamente, mas as informações que tenho fazem saber que as demais equipas africanas estão a esforçar-se para retirar a hegemonia angolana. Angola ainda tem muito valor em termos de atletas, mas torna-se necessário começar a trabalhar com mais força para que o desejo dos adversários não seja concretizado.

Que experiências acumulou antes de ser contratado pelo Libolo?
Tive a oportunidade de estar ao serviço de várias equipas na Europa, com as quais conquistei importantes troféus, ao lado de outros internacionais, e em competições de alto nível. Mas a questão financeira sempre foi o maior “bico-de-obra”, pois, a certa altura, as equipas começaram a ver-se a braços com enormes dificuldades financeiras. Daí tive de escolher entre jogar em competições de maior nível competitivo e garantir melhores condições do ponto de vista económico.

Está a dizer que as condições oferecidas pleo Libolo são satisfatórias?
Não tenho razões de queixa, pois o Libolo sempre colocou à minha disposição excelentes condições. Por isso, estou a trabalhar com a equipa há três anos. Quando há bom ambiente de trabalho e condições financeiras seguras, as nossas performances melhoram. Tenho sido tratado muito bem por todos os membros da equipa e procuro corresponder da melhor maneira essa energia positiva.

O facto de falar em inglês não tem sido obstáculo na comunicação com os demais integrantes da equipa?
De modo algum. Compreendo muito bem a língua portuguesa, porque já vivi algum tempo em Portugal e em Espanha, cuja língua tem muitas semelhanças. Todavia, a língua do basquetebol é muito simples e a nossa comunicação tem sido bastante fluida.

Além do convívio com os seus colegas, tem relações de amizade com cidadãos angolanos?
Os angolanos têm a virtude de ser simpáticos e sempre tenho sido felicitado pelas pessoas que acompanham o meu trabalho. Quando saio à rua, sou abordado, vezes sem conta, por jovens que procuram conhecer-me mais de perto. Mas a vida de um desportista tem de ser regrada para se dedicar mais ao trabalho, facto que impede o aprofundamento de muitas amizades.

O título da Taça de Angola
tem um significado especial

Como surgiu o primeiro contacto com a direcção do Libolo?

Através do Luís Costa, que foi meu colega de equipa no Belenenses de Portugal. Ligou para me informar que o Libolo procurava atletas com o meu perfil (extremo-poste), posição em que sempre joguei. Daí para a frente, só foi estabelecermos a ponte para abordar os pormenores da minha contratação.

Tem sido abordado por outros clubes?
Na verdade, tenho sido contactado por outras equipas de Portugal, Espanha e algumas da NBA. É próprio quando os atletas apresentam boas referências nos campeonatos em que se encontram inseridos, mas, de momento, o que importa é a presente época e coloco de parte todos os outros interesses. As outras propostas só podem ser tidas em conta depois de terminar a época. Essa é a mensagem que passo.

O que significa para si vencer a Taça de Angola?
Tem um significado especial, porque o maior sentimento de um atleta é o da vitória. Ganhar, para mim, faz parte das melhores sensações que o ser humano pode experimentar, ao passo que perder deixa-me entristecido. Quando se conquistam vitórias como a Taça de Angola, estamos a escrever os nossos nomes com letras de ouro, de modo que todos se vão lembrar de nós. O que não aconteceria de contrário.

Quais os jogadores que mais admira em Angola?
Quando estive na Universidade, joguei contra o Kikas, o primeiro jogador angolano que vi a jogar; uma pessoa que conheço desde 2001 e encontrámo-nos nos Estados Unidos da América. Na minha posição, é o jogador com quem melhor me identifico, mas existem outros jogadores que, nas suas respectivas posições, merecem a minha admiração. Na minha posição, particularmente, considero o Kikas e o Ambrósio entre as unidades que podem fazer muito pelo basquetebol angolano.

Qual é a equipa angolana que mais cresce?
É difícil particularizar este aspecto, porque todas, à sua dimensão, mostram significativos avanços do ponto de vista técnico e táctico. O mais importante é o facto dos jogadores mais jovens estarem a evoluir. Digo isto ao referir-me, por exemplo, ao Atlético Sport Aviação, Interclube e o Sporting de Cabinda, formações, cujos níveis de exibição dos atletas está a surpreender-me, o que significa que na próxima época o campeonato vai ser mais difícil.

O que deve ser feito para que o basquetebol de Angola não desça de qualidade?
Confesso que não sei muito sobre o desenvolvimento, mas, pela minha experiência, tudo passa pela formação. É necessário ensinar aos mais novos todos os fundamentos da modalidade, algo muitas vezes relegado para segundo plano, porque os jovens procuram executar técnicas mais acrobáticas. Esse fenómeno não acontece somente em Angola, até mesmo na América. Os jovens têm a tendência de descurar dos fundamentos que representam a base do basquetebol e preocupam-se com a execução de técnicas ousadas do And one. Em suma, a melhor forma de melhorar o nível técnico é criar escolas e ensinar as técnicas elementares. Uma vez que os mais novos dominam os fundamentos, podem evoluir para as técnicas mais apuradas sem grande esforço.

Existem outros jogadores estrangeiros, particularmente americanos, a militar em clubes nacionais. Essa troca de experiência também ajuda a desenvolver a modalidade?
A troca de experiência representa, na verdade, um grande contributo para o desporto, seja qual for a modalidade, mas não é fundamental, porque os estrangeiros apenas ajudam as equipas a alcançar resultados, mas não podem ajudar o país no seu todo. Por outro lado, é necessário reter o princípio de que se torna mais difícil beber da experiência de outros atletas se não tivermos uma base sólida. Isso para reforçar a resposta da questão anterior.

Michael Jordan
é o jogador completo

Como faz para conciliar a vida familiar com a desportiva?
Quanto a isso, não tenho qualquer problema, até porque estou com a minha esposa em Angola. Ainda não temos filhos, por isso, estamos quase sempre juntos. Mantenho permanente contacto com os meus familiares nos Estados Unidos da América, quer pela internet, quer por via telefónica. A vida do atleta profissional é feita assim. Por isso, quando estou em determinado país a competir, foco toda a atenção onde me encontro. Assim, nesse momento, é como se tivesse no meu próprio país.

Quais os melhores momentos vividos, no âmbito do desporto?
Foram tantos que seria difícil falar de uns sem me esquecer de outros, mas as grande vitórias que conquistei enquanto passei pela Europa e a conquista da Taça de Angola, no ano passado, têm lugar de destaque. Falar de maus momentos, não faz parte do meu carácter, pois prefiro esquecer as coisas más e pensar positivo, não obstante aproveitar as coisas negativas para ganhar experiência.

Qual é o seu ídolo do basquetebol?
Para mim, o Michael Jordan é e sempre será o jogador mais completo que já apareceu na face da terra. Cresci a vê-lo jogar e foi fonte de inspiração para muitos dos jogadores que hoje despontam nos melhores clubes do mundo. Sem Michael Jordan, o basquetebol não seria o que é nos dias de hoje.

Teve alguma dificuldade em se adaptar à alimentação angolana?
Pelo contrário, foi mais fácil do que sempre imaginei. Nesse particular, devo felicitar a gastronomia angolana, porque oferece grande variedade de pratos típicos, além de poder contar com quase todos os pratos da culinária americana e ocidental. Esse facto, aliado a muitos outros favoráveis, tais como o clima tornam o vosso país fértil para atraír pessoas de outras regiões do Mundo.

Como tem aproveitado os tempos livres?
Gosto muito de assistir ao jogos pela televisão, acompanhar notícias e passear com a minha esposa. Luanda tem muitos lugares para se divertir, praias lindas. Por isso, quando posso, procuro deleitar-me apreciando aqueles locais que oferecem panorâmicas agradáveis junto dos amigos mais chegados.