Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Estou a formar uma nova equipa"

Augusto Panzo - 07 de Abril, 2015

Robertinho aposta na experincia e na juventude para triunfar

Fotografia: Dombele Bernardo


O treinador brasileiro, Roberto Oliveira Gonçalves do Carmo “Robertinho”, contratado pela direcção do ASA para reformular a equipa sénior de futebol, com vista a recolocá-la no lugar que merece no contexto nacional,  considera a aposta em jovens atletas condição indispensável para que os aviadores regressem ao topo do desporto-rei nacional.
Roberto do Carmo “Robertinho”, em entrevista ao Jornal dos Desportos, considera  inteligente a estratégia gizada pela direcção liderada por Elias José. Para ele, o surgimento de Nelito e Silva, dois jovens que estão a brilhar no Girabola com a camisola do ASA, são exemplos de que os aviadores estão a trabalhar com os pés assentes no chão.
O treinador Roberto do Carmo abraçou um projecto de reformulação do Atlético Sport Aviação (ASA). Qual o objectivo fundamental e por que razão aceitou?
Bem, eu recebi um convite da direcção do ASA, a partir do Brasil, por intermédio do nosso presidente, o senhor  Elias José e do director para o futebol, Roberto Bravo da Rosa. Eles contactaram-me com o fito de nos encontrarmos lá no Brasil. A partir desse primeiro contacto, o director para o futebol, o senhor Roberto Bravo da Rosa, expôs-me a intenção de preparar e reformular a equipa, para que pudesse ressurgir na condição daquilo que era o ASA do seu tempo e de outros grandes jogadores que passaram por esse clube.
O que lhe foi pedido de concreto?
- Foi-me pedido uma reformulação do futebol sénior, ou seja, dando oportunidade aos jovens, que iriam juntar-se à experiência dos veteranos que a gente conhece e que se achou serem indispensáveis para se conseguir essa conciliação e criar o equilíbrio. E quando me falou sobre os miúdos, o meu interesse em abraçar esse projecto aumentou. Nessa altura eu tinha saído da Tunísia, onde estive a treinar o Stade Tunisien, regressava para o Brasil por causa do meu pai que estava doente. Depois que me foi apresentado o projecto, aceitei deixar Brasília, onde estava a desempenhar a função de supervisor geral do futebol, dos Sub-13, até à equipa profissional, para vir aqui em Angola verificar exactamente esse convite que me fora feito.
Quer dizer que a sua vinda a Luanda, em Novembro do ano passado, foi para constatar no terreno, aquilo que no futuro seria o trabalho a levar avante?
Exactamente isso. A minha vinda cá, em Novembro de 2014, foi no meu ponto de vista, o pontapé inicial de uma boa trajectória que se pretende dar ao ASA. Acho que a direcção encabeçada pelo senhor Elias José, integrando ainda o vice para o futebol, o senhor Cesário Hebo, o director-geral, o senhor Bumba e ainda o director para o futebol, Bravo da Rosa e outros integrantes, foi muito feliz nessa estratégia e acredito que ninguém pode negar isso. É claro que muita gente quase não fala disso, mas há que termos a coragem de reconhecer e falar disso. A direcção do ASA foi muito inteligente nesse aspecto, ao trazer para o clube uma pessoa que gosta de catapultar jogadores, que é a marca indelével do treinador Robertinho, por tudo quanto é país em que trabalhou com treinador de futebol.
Mas o senhor Robertinho tem mesmo esse cunho?
Tenho. Fiz isso no Koweit, com Yussef e Nasser, no Brasil também fiz isso com Massarim Paraíba, Pena, Diego Souza, Arouca e outros. Na Tunísia elevei igualmente jogadores para a selecção nacional, tal como são os casos de Agrout, Corby e Mabrouk e vários deles que eram miúdos, como temos aqui no ASA o Silva e Nelito. Então, como gosto de trabalhar com jovens, quando me fizeram a proposta não vacilei, porque para mim, isso foi apenas juntar o útil ao agradável.
Mas de ondmpre jogadores?
Num grande segredo, que ée o professor vai busca essa marca especial de projectar se unir esses jovens talentos aos bons veteranos. O ASA por exemplo, fez isso. Escolhemos jogadores cujo talento estava a despertar-nos a atenção, juntando-os ao grupo dos bons como Manuel, Matias, Avex, Milex e outros, que são mais experientes. Daí, que a presença desses jogadores que citei há pouco é muito importante para o plantel do ASA. Esses têm servido e vão continuar a servir de exemplos positivos para esses miúdos. E para mim, um bom exemplo tem de sê-lo em tudo. Na hora dos treinos, na interacção com o clube, com a direcção. Felizmente, isso tem sido positivo no ASA, o que para mim, talvez seja a razão do rendimento dos miúdos que agora estão a despontar.
Quer com isso dizer que a escolha dos veteranos foi a mais acertada?
- Sem dúvidas. A escolha que foi feita pela direcção, em conjunto com a equipa técnica, para indicar jogadores como o Manuel e o Matias, juntando os outros, foi a mais acertada possível. Esses jogadores servem de exemplo para os jovens talentos.
Mas basta um jogador ser experiente para merecer a confiança?
- Não. Isso não basta. Para se ser um bom líder, é necessário ser experiente e bom. A experiência ajuda pelo conhecimento profundo que se tem,  acerca de algum trabalho, mas para melhor dirigir tem de ser bom, tem que ser uma pessoa que consiga dirigir os outros. Então, nem sempre um experiente é bom ao mesmo tempo.

AMBIÇÃO
Técnico quer talentos nas selecções nacionais


O senhor diz conhecer as dificuldades financeira que o ASA atravessa e que a relação humana acaba por ser fundamental. Onde é que se fundamenta essa relação?
Bem, enquanto temos a reciprocidade de conhecimento sobre o problema financeiro do clube, existe um mínimo básico tanto financeiro como de relação, e é nesse pormenor que a gente se agarra, para que no futuro consigamos estar mais folgados, tanto para o ASA com os resultados como para o treinador, naquilo que deve ganhar, em função desses resultados. Por isso, é que mesmo depois de quatro meses desde que estou cá, trabalho com satisfação, porque a nossa relação entre treinador e membros de direcção, é de amigos e profissional. Eles sabem que não estou aqui para visar apenas  o lado financeiro. Estou aqui para reorganizar a equipa, formar atletas e lançá-los para outros patamares, como a Selecção Nacional e para que ao longo do Girabola se possa dizer que valeu a pena a aposta.  
Daí já se poderá cogitar a consecução de posições mais vantajosas na tabela classificativa do Girabola?
- Sem dúvidas. A partir do momento em que se começam a surgir os talentos forjados neste projecto e começa a ser notória a projecção dos mesmos jogadores para outros patamares, aí sim. Toda a gente vai reconhecer a aposta de reformulação do plantel do ASA e dizer que valeu a pena.
Só isso basta?

Nem pensar. Vamos sentir-nos orgulhosos, se o ASA estiver entre os cinco primeiros classificados no Girabola de 2015, se a cada Selecção Nacional de futebol que for convocada nós tivermos de pensar quantos jogadores do nosso clube estão lá representados.  São esses projectos que fazem parte da nossa trajectória.

CONVICÇÃO
“Teremos uma equipa muito competitiva”


Dentro do plantel  tem algum jogador que lhe foi imposto por parte dos membros de direcção?
Não. Aqui no ASA e desde que assumi o comando técnico, nunca vi nem ouvi falar  disso, porque a direcção trouxe-me em Novembro. A partir desse momento, nós fomos nos conhecendo melhor. Isso tudo facilitou, ao ponto de existir um respeito muito grande entre a direcção e o treinador Robertinho. Existe uma boa relação com o presidente e com outros membros de direcção. Tenho a sorte de ter ao meu lado o director  para o futebol, uma pessoa que já jogou futebol. Isso facilita muito no nosso dia a dia. Conseguimos trocar ideias sobre o trabalho e termos conversas bem amigáveis.
Quer com isso dizer que privilegia a relação humana, em detrimento da questão contratual?
Exactamente. O contrato no papel não pode ser mais valioso, que uma boa relação humana. E a nossa interacção tem sido com base nisso. Como eu já disse, não prometi nem título, nem qualquer outro feito, porque não posso fazer isso agora. Eu estou a formar uma nova equipa, tal como me foi pedido pela direcção do ASA.
E dentro dessa política, que equipa do ASA teremos no futuro?
Uma equipa muito competitiva, que não pode depender apenas de um jogador. Não pode ser uma equipa em que as pessoas apareçam a falar que o ASA tem agora um jogador que desequilibra. Para mim, isso já não existe no futebol actual.
O ASA é um parente pobre no Girabola e esse tipo de projecto a requer recursos financeiros. O tempo que está à frente da equipa, algum dia já viveu sinais dessa fraqueza financeira do clube?
Tal como já o disse, a relação humana para mim é a mais importante. Não vim para o ASA devido ao meu salário. Não estou aqui no ASA só por isso. Eu sei das limitações financeiras do ASA. Isso não se vive apenas no ASA, mas de uma forma geral, em todo o mundo. A crise do ASA já encontrei e junta-se à actual situação mundial, que é abrangente a todos. A ser assim, afecta todos os patrocinadores. Mas quando aceitei  trabalhar no ASA, estava consciente disso, da mesma forma que o próprio clube está consciente de que eu Robertinho, tenho conhecimento desse problema.

“Girabola
tem característica própria”


Professor, depois de ter treinado equipas de vários países, que diferença existe entre o Girabola e os referidos campeonatos?
Não existe nenhuma diferença entre o Girabola e os campeonatos de outros países. O que há é a sua característica e o seu pormenor. Eu estou agora a conhecer bem os pormenores do futebol angolano. Este ano já iniciaram algumas surpresas. Basta olhar para a actual tabela classificativa, para ter essa noção. Algumas equipas médias estão indo bem, às vezes, até ali as expectativas estão sendo boas.
Como assim?
Elas iniciaram melhor do que o ano passado. Basta ver por exemplo a classificação do ASA (oitavo lugar), facto que na época passada foi contrária. Isso se deve talvez às dificuldades por que todos os clubes estão a passar. Esse factor obrigou que muitas das equipas apostassem na base. E quando se faz assim, o que acontece é que essas apostas querem mostrar serviço, comer relvado, porque tem a chance de ajudar a família.  E se você como treinador souber trabalhar com isso, automaticamente tem a possibilidade de formar um bom plantel, porque as apostas não gostam de perder terreno.
Partindo disso, que análise faz sobre a competitividade do Girabola? 
Acho que o campeonato angolano é muito competitivo. Aliás, essa palavra significa o futebol de hoje. É só analisar hoje, quem são os dez primeiros classificados, para chegar a essa conclusão.
Será isso fruto da forte competitividade?
Sem sombra de dúvidas que sim. Você tem lá em cima o ASA, o Domant FC de Bula Atumba e a Académica do Lobito, em detrimento de equipas como o 1º de Agosto, Desportivo da Huíla, Recreativo da Caála, isso só para citar essas. Tudo isso, é fruto das apostas feitas pelas direcções dos clubes. O Brasil perdeu a oportunidade de conquistar o sexto título mundial no ano passado, porque o Felipão não fez boas apostas, ao convocar jogadores que tinham sido referência há um ou dois anos antes da Copa. Durante o tempo que foram referências, aqueles jogadores tiveram lesões, o que impossibilitou a demonstração de uma boa competitividade. E, curiosamente ele tinha no banco jogadores que estavam a despontar e que queriam mostrar o quanto valiam, mas ele os preteriu. O resultado foi aquilo que se viu.
Quer com isso dizer que o futebol actual se compadece com nomes sonantes?
- Com certeza. O futebol actual é o hoje. Não podemos pensar, que  como aquele jogador foi uma grande referência ontem, ainda o é, hoje. É pura mentira. No futebol da actualidade o que vale é a oportunidade que se dá aos novos, porque eles têm sede e vontade de mostrar o seu talento. Mas quando você como treinador não lhe dá essa chance, em detrimento de uma referência de ontem, você pode se dar mal.

ATLETAS EM BAIXO DE FORMA
Robertinho reprova proteccionismo

O Professor Robertinho falou a dado momento que os nomes hoje não jogam. Com base nisso, acha que o lançamento de jogadores novos é o antídoto principal para que haja um campeonato competitivo?
- Deixa-me dizer-lhe algo ligado a isso. Se um treinador não tiver uma equipa competitiva, ele não ganha jogos. Mas se tiver esse elemento dentro do grupo, você é capaz de obter resultados positivos, mesmo que seja no culminar dos jogos. O que significa, que mesmo que você esteja a perder por um a zero, dois a um ou três a dois, pode ganhar de virada. Então, há necessidade dos treinadores trabalharem equipas que sejam competitivas.
Será que nesse parâmetro não vale o recurso aos jogadores de nomes sonantes?
Nem pensar. Mesmo que você tenha jogadores de renome no teu plantel, se não houver competitividade, os resultados não surgem facilmente. E sabe porquê? Porque não é o nome que vai ganhar o jogo, mas sim será a equipa bem trabalhada, com esses nomes. É impossível ganhar jogos no futebol actual, apenas pelos nomes.
Quer dizer que o futebol de hoje está aliado ao pormenor competitividade?
Sem sombra de dúvidas que é. No futebol da actualidade se não houver competitividade, os resultados são expressivamente negativos, demonstrando a fraqueza de uns por um lado e a força de outros, por outro.
As paragens que se verificam no Girabola não prejudicam o andamento da competição?
Olha, tudo na vida não pode ser encarado só pelo lado negativo. Tem de tudo misturado, porque há também o lado positivo nele. Até num mau exemplo, você pode tirar alguma coisa positiva. Como? Basta não repetir aquilo que você nota que é negativo. Se errado, então você deve aprender que eu já fiz isso e deu errado, então não devo repeti-lo. Acho que o grande segredo do futebol é trabalhar e fazer jogar a verdade.
O que é isso de fazer jogar a verdade?
Dar chance àqueles jogadores que se apresentem em condições na altura, ao invés de fazer a coisa por mero capricho de meter o seu jogador preferido em campo, mesmo em baixo de forma, em detrimento de um que não seja seu mais próximo, mas que se apresente em condições de fazer o jogo. Acho que esse é o caminho ideal.

AVALIAÇÃO
“Ninguém joga sozinho”


Ao professor não lhe foi pedido nada e acabou também por não prometer nada. Mas na actual situação classificativa, se o Girabola tivesse que terminar hoje, o ASA seria o oitavo colocado da tabela. Se ao longo do campeonato acontecer algum imprevisto positivo, como poderá reagir?
Olha, tudo que acontece na nossa vida é fruto do trabalho. Eu não acredito na sorte, porque com 55 anos de idade que tenho, não conheço ninguém que se tenha tornado rico apenas por sorte. Já vi quem esperou pela sorte para ganhar alguma coisa, mas acabou pobre. Aprendi que quem trabalha correctamente na vida, consegue triunfar. Então para mim, a vida me ensinou a trabalhar, ser justo e coerente, independentemente da nacionalidade da pessoa do atleta. Aprendi isso com os professores Tele Santana, o Zagallo, Parreira e o Doutor João Havelange, que foram grandes treinadores e formaram a nossa geração, fizeram-no com base nesse pensamento. Só jogava o melhor e eu aprendi isso. Então, o futebol tem vários caminhos, mas eu aprendi este que acabei de referir. Prefiro ser justo, embora isso não seja tão fácil no futebol, devido à pressão que se sofre de todos os lados.
Como é que o professor classifica o futebol?
Para mim o futebol é o momento. Porque quando você não vive esse momento, você não joga. É isso que acontece, quando um chamado craque atravessa um mau momento da sua carreira. Ele é obrigado a aprender que, se não joga naquele momento, porque não está em condições, não tem outras hipóteses. É isso que estamos a tentar colocar dentro do ASA.
Indirectamente está a descartar a possibilidade de um pretenso jogador famoso chegar no ASA e as pessoas pensarem que vai resolver os problemas da equipa, sem suar às estopinhas?  
Efectivamente.  Aquela mentalidade tem de ser banida, porque mesmo no tempo do Maradona, ele não jogava sozinho, o Messi também não tem fama jogando sozinho, pois, precisa sempre da ajuda do Neymar,

PERFIL
Nome: Roberto Oliveira Gonçalves do Carmo
Filiação: Ivan Gonçalves e Rosa do Carmo
Data de nascimento: 22 de Junho de 1960
Local de nascimento: Bairro Bota-fogo/Rio de Janeiro/Brasil
Estado Civil: Casado com Helen do Carmo
Filhos: 2 (Roberto Júnior e Rodrigo do Carmo)
Formação Académica: Professor de Educação Física
Formação profissional: Professor Federal de Futebol Profissional
Instituição de formação: Escola de Educação Física do Exército
Hoby: Pescar
Música: Reggae
Prato preferido: Feijoada e comida composta
Bebida: Sumo natural de diferentes frutas
Fumar: Não