Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Estou um pouco receoso com a Seleco Nacional"

Augusto Fernandes - 26 de Dezembro, 2012

Lus Joo Batista, mais conhecido por Lus Co no Mundo do futebol

Fotografia: Jornal dos Desportos

Luís Cão começou a jogar futebol a sério em 1968 nas camadas jovens do Atlético de Luanda e passou pelas mãos de categorizados treinadores como Rui Clinton, César e Rui Coelho até chegar aos seniores, onde já jogavam Carlos Queirós, Santana Carlos, Fernando da Piedade (Nandó), Paulo Cassoma, Charumbo, Catete, Chilala, keré e outros. Com as mudanças politicas em 25 de Abril de 1974 que culminaram com a independência de Angola em 1975, alguns jogadores foram saindo das suas equipas mesmo sem autorização.Luís Cão saiu do Atlético e ficou algum tempo sem clube.Em 1976, no Sambizanga, “Salviano, Praia e Santinho, convidaram-me para fazer parte da  equipa. No mesmo dia dei a fotografia e foi feita a inscrição. No dia seguinte já estava a jogar pelo Progresso que na época era liderado por Kiferro, tornando-me num dos fundador”.

De uma equipa de futebol de sete surgiu o Progresso Associação do Sambizanga, que foi criado por Kiferro para acabar com a hegemonia do Santo Rosa. Quando Luís Cão chegou ao Progresso encontrou Kiferro, Santinho, Salviano, Praia, Ginguma, Augusto Pedro, Abreu e outros jogadores. O Progresso conseguiu acabar com a hegemonia do Santo Rosa vencendo as duas últimas edições do Torneio Bucavo. Com o passar do tempo, foram para equipa jogadores como Eduardo André, Ferreira Pinto e muitos outros. O Progresso tornou-se numa das melhores equipas de Luanda, ao lado do Benéfica de Luanda, Sporting, ASA, Bangú e 1º de Agosto, fundado em 1977.

Como o campeonato nacional que estava paralisado devido às convulsões politicas da época, a maior parte dos jogadores participavam em torneios organizados pela JPMLA ou outras instituições da sociedade civil e do Estado. Em 1978 surgiu o torneio da Agricultura. Neste torneio participaram equipas de Luanda. A final deu Progresso- 1º de Agosto. Luís Cão recorda: “nesse dia o público que se deslocou aos Coqueiros viu um dos melhores jogos já realizados em Angola. O 1º de Agosto com jogadores como Napoleão, Lourenço, Garcia, Sabino, Mateus César, Chimalanga, Zeca, Amândio e outros e o Progresso com Salviano, Bonducho, Praia, Ginguma, Santo António, Augusto Pedro, Eduardo André Lino, Santinho. Eram sem sombras de dúvidas as equipas mais fortes. O Praia marcou um senhor golo ao Napoleão que dificilmente será esquecido por todos quanto assistiram ao desafio.Perdemos a final nos penaltis”.  A partir daquela data começou o primeiro clássico do futebol nacional: 1º de Agosto-Progresso do Sambizanga.Em 1979, houve a primeira edição do Girabola que foi ganho pelo 1º de Agosto.

Luís Cão diz que “nesse tempo havia jogadores de grande categoria. Tecnicamente bem dotados e fisionomicamente bem constituídos. Os pontas de lança eram verdadeiros matadores. Tínhamos um Jesus, Alves, Maluka, Basílio, Mavó, Sayombo, Arlindo Leitão e jogadores cerebrais como o Chiby, Ndunguidi, Vicy, Lufemba, Sarnento, Daniel, Fusso, Zandú, Vata, Mirage, Sakaneno, Arménio, Samuel, Quim, Leandro, Luvambo, Maria e muitos outros”.De 1979 a 1986, foi o melhor momento do Girabola, pois as equipas eram muito equilibradas. O Progresso tinha muitos problemas em jogar contra o Mambroa no Huambo, contra o Académica do Lobito de Chiby, ou o 1º de Agosto e o Petro de Luanda. Nos anos de 1976/77 e por ter nascido no Prenda, Luís Cão uma vez por outra também jogava pelo las Palmas do Prenda.A sua estreia na Seleção Nacional foi nos segundos jogos da África Central, realizado em Luanda, mas não teve muitas hipóteses de jogar porque havia um senhor chamado Napoleão Brandão que era o dono da baliza angolana. Num jogo para as eliminatórias do Mundial de 1986, Luís Cão estreou-se na baliza dos Palancas Negras contra os Camarões de Nkono, Djonkep, Onana, Abega, Kundé e outros.

O resultado foi um nulo em Luanda e derrota por 3-2 em Yaoundé. “Até hoje considero o jogo de Yaoundé como o momento mais triste da minha vida como jogador. Sofri três golos  todos eles de canto marcado por Abegá, que iam diretamente para a cabeça de um de seus companheiros. O último golo foi a poucos minutos do fim quando estávamos empatados a dois golos”, recorda Luís Cão.No Girabola o Progresso sofria poucos golos por ter uma defesa muito consistente. Mas um dia levou uma autêntica goleada do Petro de Luanda por 7-1. Na altura as más-línguas diziam que o Progresso recorreu ao mesmo feiticeiro que o Petro. Luís Cão disse sorrindo: “não posso confirmar nem desconformar, eu não vi nada. A verdade é que nesse jogo eu defendi um penalti do Avelino que seria o oitavo golo. Lembro-me de ver o António Clemente todo feliz porque o Petro dificilmente nos ganhava”.

Em 1984, Luís Cão e o seu Progresso tiveram o privilégio de ser a primeira equipa africana a jogar no mítico Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, num jogo contra um misto de jogadores sem clubes com os quais perdeu por 2-1, sendo o golo sambila apontado por Joãozinho Maradona. Luís Cão teve vários momentos bons no Progresso e a sua melhor classificação de sempre foi o quarto lugar em 1985/86. Durante o tempo que representou o Progresso, foi treinado por vários técnicos entre eles Chico Ventura, Smica, Inguila, Alves, Gonzalez e Gabonal. Já foi adjunto e treinador de guarda-redes do clube Sambila.Um dos momentos históricos da vida de Luís Cão e muito comentado foi o frente a frente entre ele e Ndunguidi. Alguns acham que o antigo jogador do 1º de Agosto tinha muitas facilidades para marcar golos ao Luís. Ouvimos da sua própria boca a resposta: “o Ndunguidi marcou-me dois soberbos golos do meio da rua, a mais de 40 metros. Foi muito mérito da parte dele porque normalmente o guarda-redes não conta com o remate para a baliza daquela distância. Reconheço que o Ndunguidi foi um grande jogador que dava trabalho a qualquer defesa e deixava qualquer guarda-redes nervoso. Mas eu não era a pera doce dele. Só me marcou dois  golos.”Luis Cão deixou de jogar oficialmente em 1992, aos 38 anos. Actualmente com 58 anos é embaixador do clube Sambila e vive no Bairro Sambizanga.

Perguntas e respostas

Jornal dos Desportos: O que ganhou ao longo do tempo que jogou?
Luís Cão: sou do tempo em que se jogava por amor à camisola. Ganhei apenas muitas e boas amizades.

O que tem a dizer sobre a pessoa de Paixão Júnior?
O homem veio mesmo a calhar. Acho que o trabalho que esta a fazer no nosso clube diz tudo sobre ele.

Acredita que os Palancas Negras vão fazer melhor na África do Sul em 2013 do que no CAN do Gabão e Guiné?
Acho que a equipa ainda não se encontrou. Por isso estou um pouco receoso.

POR DENTRO

Nome completo. Luís João Batista.
Filiação: João Batista Vicente e de Cristina Miguel.
Local e data de nascimento: Luanda a 7 de Maio de 1954.
Filhos: sete.
Estado civil: Solteiro.
Altura: 1,89 metros.
Peso: 86 quilos.
Calçado: 45.Habitualmente jogava com a camisola número um.
Musica: semba.
Prato preferido: feijoada completa.
Bebida: um bom vinho.
O que mais teme na vida: a morte.
O que mais detesta: a falsidade.
Hooby: Ouvir a Radio 5 e ler tudo sobre desporto.
Religião: católico.
Sonho: ter condições condignas para a família.