Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Fao das tripas o corao

Joo Upale, no Namibe - 25 de Outubro, 2011

Loureno Mupi Mwanguvu arrecadou 13 medalhas na carreira.

Fotografia: Afonso Costa

Como caracteriza o desporto na província da Lunda – Norte?
É uma pena que uma província como a nossa não tenha pessoas que prestem atenção ao desporto, sobretudo, ao atletismo, para que possamos ganhar mais outros Lourenços. A idade não perdoa. Com muito esforço, criei uma escola de massificação desportiva que alberga 15 atletas. Trabalho sem apoio e tenho a certeza de que um dia, dessa camada de formação, podem sair atletas que me vão substituir. Estou ciente do trabalho árduo que faço, cujos frutos se vão repercutir em breve. As vitórias que alcancei, também vão ser conquistadas pela nova geração. Se houver auxílio, a concretização desse sonho vai ser fácil. Ao contrário, nenhum desses formandos vai subir no pódio algum dia.

Há contradição nas suas palavras, quando assume a esperança de ser substituído e ao mesmo tempo o desespero em não ver atleta nenhum no pódio…
É necessário trabalhar cada vez mais e ter acima de tudo a determinação para que se augure bons momentos. Sacrifico-me várias vezes. Com poucos recursos que tenho, compro algum material para incentivar os jovens à prática do desporto, em particular o atletismo, para que não desapareça na província.

Sente-se magoado por falta de apoio?
O desporto não é só o futebol. Há outras modalidades que se fazem sentir para que a nova geração desperte para a prática desta ou daquela. Transmito aos meus pupilos a necessidade de se esforçarem muito para que possam ombrear com outras províncias, como Huambo, Huíla e Luanda, as referências do atletismo nacional. Reconheço ser um trabalho bastante aturado e não tenho sido correspondido à semelhança de outros governos provinciais, que prestam maior atenção aos seus dignos representantes. Infelizmente, isso não acontece na Lunda-Norte.

A falta de apoio aos praticantes arrasta-se também às infra-estruturas desportivas? Como está a Lunda-Norte servido neste campo?
Confesso que é um bicho-de-sete-cabeças. Ao longo dos dez últimos anos, as infra-estruturas herdadas do passado acabaram por ser demolidas e nos seus lugares ergueram-se residências, empreendimentos comerciais ou similares. As poucas existentes encontram-se em avançado estado de degradação e de abandono. E, como resultado, o desporto quase que desapareceu. Os jovens não praticam desporto. Por exemplo, para se jogar uma partida de futebol, fazem-na em sítios inapropriados como nos jardins ou nas ruas por falta de campos, pavilhões e pistas. Isso faz com que o desporto desapareça na Lunda-Norte.

Que solução tens para os jovens?
Na medida em que se ergue uma casa, loja ou escola, também se deve lembrar de um campo. Espero que dias melhores surjam para a afirmação do desporto, pois, na ausência dessas estruturas, os jovens enveredam em caminhos da delinquência nos momentos de lazer e cometem vandalismo e outros actos incomuns. Existem dois ou três campos, onde os jovens praticam o desporto.

Há monitores e técnicos suficientes na Lunda-Norte para fomentar e massificar o desporto?
Há falta de cursos de Educação Física para os professores locais, embora o pouco número de profissionais transmita aos alunos o que aprenderam em tempos idos. Não existe reciclagem nem actualização de conhecimentos para que os professores elevem a qualidade da prática do desporto escolar. Isso não passa somente por transmitir; temos de ter locais adequados e materiais de trabalho, porque sem os quais o fundamento da prática não existe.

A ENDIAMA e os empresários locais não piscam “olho” no desporto da Lunda-Norte?
Com todo o respeito, não comento essa questão.

Quem organiza o seu plano de treinamento?
No meu dia-a-dia, tenho um plano de treinamento que se consubstancia em trabalho de pistas, de fundo e meio fundo de 15 a 21 quilómetros, para melhor medir a capacidade física e competitiva, para que não haja interferência nas provas em que venha participar.
Estamos a poucos meses da São Silvestre 2011 e na qualidade de representante “legal” da Lunda-Norte que sentimento lhe vem a alma?
O momento que mais me marcou ocorreu em 2007, ano em que alcancei o nono lugar. Outros momentos felizes foram em 2008 e 2010, por ter conquistado a segunda e primeira posições nos meetings internacionais.

A preparação tem corrido bem?
O trabalho de preparação tem sido árduo e sofredor que devia ser reconhecido pelas autoridades governamentais da província, por tudo quanto faço ao longo das competições nacionais em representação da Lunda-Norte.

Disse ser difícil conseguir vitórias numa província com pouca vivência desportiva. Como consegue chegar ao pódio?
Esforço, determinação e coragem. Ao longo da minha carreira desportiva, arrebatei 13 medalhas, das quais, destaco seis, de ouro; três, de prata, e três, de bronze; três troféus da Taça Sayovo, Taça 10 de Dezembro e Taça Sonangol. É um mérito para qualquer atleta e é com grande orgulho e privilégio que sinto trabalhar cada vez mais para marcar sempre presença nos pódios.

Nunca teve apoio ao longo da carreira?
Apesar de grande sacrifício, há pessoas de boa vontade que me correspondem, quando bato às suas portas. Ao longo da época desportiva, ocupo alguns lugares cimeiros do Campeonato Nacional, resultante da experiência acumulada. É verdade que encontro também embaraços de sempre o que dificulta a não participação noutras provas do Campeonato Nacional, porque se deve à falta de atenção do órgão reitor do atletismo da província. Enquanto atleta, perco a determinação apropriada para alcançar o maior número de vitórias. Com apoios, as vitórias podem ser conquistadas.

Quem são as entidades que, às vezes, lhe abrem as portas?
Há dois anos, deixei de depender directamente do governo local, não tenho amparo que me satisfaça alcançar as marcas. Faço das tripas o coração para não deixar de representar a província da Lunda-Norte e alcançar os lugares cimeiros nos campeonatos nacionais. Estas dificuldades são para mim provas de orgulho que me mantém de pé e atingir a internacionalização. Sempre fui um atleta batalhador e trabalho para alcançar os lugares cimeiros. Sinto-me um desportista de maior referência na Lunda-Norte.

Como começou a trilhar os passos no atletismo?
Fruto do incentivo de mais velhos, antigos praticantes, como Inoleka Chita, José Sambongue e o senhor Malamba, as três figuras do atletismo na Lunda-Sul despertaram-me, em 1993, do sonho de infância: correr. Hoje, sou conhecido em todo o país, porque a força e o conselho dessas pessoas tornaram-me num atleta orgulhoso.

Então se sente orgulhoso por representar a Lunda-Norte…
Estou feliz por ser uma referência do atletismo nacional e acima de tudo pelos títulos que já alcancei, embora a província nunca tenha prestado atenção ao melhor fundista do Leste do país, em particular, da Lunda-Norte. Apesar disso, não cruzo os braços, trabalho no sentido de deixar legado na história do atletismo nacional, subindo aos pódios nos campeonatos nacionais.

Lourenço Mupi Mwanguvu tem 36 anos de idade, é natural do município do Muconda, Lunda-Sul, reside na cidade do Dundo, província da Lunda-Norte.
Peso:
59 Kg
Altura: 1,72 m
Profissão: professor de Educação Física
Clube: Não tem
Ídolo: João Ntyamba
Bebida: Sumos naturais
Prato preferido: Composto
País: Angola
Cidade: Huambo
Tempos livres: Leitura
Livro: As aventuras de Ngunga
Religião: Cristã
Poligamia: Contra