Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Falta de dinheiro foi a principal causa do fracasso da equipa"

Manuel Neto - 14 de Novembro, 2012

Ablio Amaral tem novas propostas

Fotografia: Jornal dos Desportos

O não pagamento a horas dos salários dos jogadores do Benfica de Luanda é apontado pelo técnico Abílio Amaral, que substituiu Humberto Chaves a meio da competição, como uma das causas da fraca campanha da equipa no Girabola 2012.Na entrevista que concedeu ontem ao Jornal dos Desportos, Abílio Amaral defendeu a construção urgente, pela direcção do Benfica de Luanda, de um campo para treinos, pois esse foi outro grande problema que as águias enfrentaram ao longo da época, tendo havido dias em que não sabiam onde trabalhar, o que estrangulava a programação da equipa técnica.  Ainda assim, o antigo médio do Interclube e do Atlético Sport Aviação (ASA) gostou da experiência como técnico principal de uma equipa da I Divisão e confirmou que tem um pré-acordo com a direcção do Benfica para continuar na equipa, além de várias propostas para treinar equipas da II Divisão Nacional.  Abílio Amaral acredita numa boa prestação da Selecção Nacional no CAN do próximo ano, que acontece na África do Sul.

Jornal dos Desportos (JD) – O Benfica não conseguiu cumprir os objectivos traçados no Girabola 2012, que era melhorar o 11º lugar. O que esteve na base do fracasso?
Abílio Amaral (AM) – Mais uma vez não foi possível porque, a meio da competição, voltámos a ter alguns atropelos que foram fatais para o nosso rendimento. Tivemos um bom plantel e, apesar da maioria dos jogadores não ter tido a prestação que esperávamos, devo apontar a falta de dinheiro como a causa principal do fracasso dos nossos objectivos, tínhamos muitos casos de salários em atraso e muitas vezes vi o meu trabalho sabotado. Em suma, foram muitas as dificuldades encontradas, mas tudo fizemos para manter a equipa no Girabola.

JD – Vai permanecer no Benfica?
AA – É prematuro afirmar isso, uma vez que o meu contrato termina a 31 de Dezembro do corrente, mas devo adiantar que tenho um pré-acordo com a direcção do clube, concretamente na pessoa do presidente Mário Rocha, por quem tenho grande apreço, sobretudo por ser a pessoa que me propôs o desafio de dirigir a equipa a meio da prova, depois do afastamento de Humberto Chaves. O dirigente pede-me para ser um quadro do Benfica, questão que vou estudando com calma, porque também tenho outras propostas de equipas da II Divisão e uma outra para trabalhar nas camadas jovens de uma equipa da I Divisão.

JD – Que clube se trata?
AM – De momento, prefiro não avançar o nome do clube que fez a proposta para que eu trabalhe nos escalões de formação.

JD – Caso aceite continuar no Benfica de Luanda, vai contar com o mesmo plantel ou pensa reestruturá-lo?
AA – Nesta fase, é difícil falar sobre isso, uma vez que temos jogadores que terminam já o contrato, por terem assinado apenas por um ano, e outros que possivelmente vão ser dispensados. Se depender de mim, gostaria de manter 70 por cento da equipa e reforçar no mínimo com cinco jogadores. Com isso, acho que o Benfica pode inverter este triste quadro que o persegue há dois anos, que é a luta constante pela não despromoção, e acho ser possível atingir esse desiderato, caso haja vontade de todos, com particular realce para a direcção.

NA I DIVISÃO
“Conseguimos manter o grupo”


JD – Como foi a experiência na condição de técnico principal da equipa, missão que assumiu a meio do Girabola?
AA – Não foi fácil substituir o então técnico principal a meio da prova e num momento em que a equipa estava numa posição aflitiva.Mas, como fomos encorajados pela direcção e como profissional, não tive outra saída que não fosse assumir o comando da equipa. Apesar das vicissitudes, com a colaboração de todos, dos atletas à direcção, conseguimos manter o grupo no Girabola. Resumindo, foi uma boa experiência, que pode ser muito útil para a minha carreira. 

JD – Em algum momento, sentiu o seu trabalho prejudicado por falta de um campo próprio para os treinos?

AA – As infra-estruturas são um problema que o Benfica de Luanda deve resolver com urgência, porque só assim pode dar um rumo certo aos seus projectos. Repare que, por falta de campo próprio, só para duas horas de treinos, pagamos um valor que dava para outras coisas. Este também é um dos aspectos que tem prejudicado o nosso trabalho. Sei que existe um projecto para a construção de um estádio no município de Cacuaco, mas só a direcção pode falar com mais propriedade sobre isso.

ANTES DO GIRABOLA
Equipas devem
rever orçamentos


JD – O que diz das equipas que, depois de garantirem uma vaga na I Divisão, ameaçam desistir por falta de dinheiro?
AA – Acho que, em primeiro lugar, antes de participarem no Girabola, devem fazer uma auto-análise das condições gerais, desde a financeira, humana e material, ou seja, verem bem o seu orçamento, se é ou não compatível com a sua participação na competição.

JD – Acredita que dessa forma as desistências ou ameaças deixam de existir?

AA – Sim, porque a maior parte das equipas são subvencionados pelo Estado e outras entidades. Por isso, acho que tem havido alguns comportamentos absurdos, que devem ser bem analisados. Por exemplo, há dias ouvi o Atlético do Namibe dizer que se não houver um aumento no seu orçamento não participa do próximo campeonato. É absurdo e acho que é um caso que se deve sanar agora, antes do início da prova. Reparem que, na época que terminou, estes casos foram frequentes, aconteceram greves no Benfica, no ASA, no Sporting de Cabinda e na Académica do Soyo. Isso só prejudica o nosso futebol.

JD – Que avaliação faz do trabalho dos técnicos angolanos?
AA – Acho que, a cada ano que passa, as qualidades dos nossos técnicos tem crescido muito, basta ver que as equipas que se posicionaram no topo do último Girabola foram dirigidas por técnicos angolanos (Recreativo do Libolo, 1º de Agosto e Petro de Luanda). Agora, é necessário que se lhes dê mais apoio para que façam cada vez mais e melhor. 

JD – Nota-se um fraco aproveitamento dos atletas provenientes dos escalões de formação. A que se deve isso?
AA – É certo, para invertermos esse quadro, gostaria que todos os clubes tivessem a obrigação de lançarem anualmente cinco atletas nas suas equipas seniores. Isso engrandeceria muito o nosso futebol. O mau aproveitamento destes atletas também resulta da deficiência que os mesmos trazem da sua formação. Melhor, isso acontece porque existem poucos clubes com condições para formação, falta quase de tudo, até a coisa mais simples, que é a bola.

LIBOLO
Justo campeão


JD – Que balanço faz do Girabola recém-terminado?
AA – O balanço que faço é positivo. Foi uma prova muito competitiva da primeira à última jornada. Apesar do campeão ter sido encontrado há três rondas do fim o segundo classificado só foi encontrado na última jornada. Não obstante os pontos positivos da competição, lamento alguns casos que ocorreram ao longo da prova, como as faltas de comparência das equipas do Sporting de Cabinda e do ASA por falta de dinheiro, coisas que não devem acontecer nos dias de hoje.