Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Falta de preparao adequada tem influncia nas competies

Rosa Napoleo - 02 de Setembro, 2012

Fortunato Pacavira foi um dos representantes angolanos nos Jogos de Londres

Fotografia: Jornal dos Desportos

Fortunato Pacavira, atleta do Clube Naval da Ilha de Luanda, que conseguiu chegar a uma meia-final B, na categoria individual e por duplas, disse que o factor principal que influenciou no desempenho do grupo foi a falta de treinamento específico e o pouco tempo de preparação da equipa nacional. O atleta referiu que a 15 dias dos Jogos tiveram conhecimento de que podiam participar das provas individuais. A menos de duas semanas do início da competição, os dois atletas (Fortunato Pacavira e Nelson Henriques tiveram de fazer tudo para se adaptarem à nova realidade.

Jornal dos Desportos - Fortunato Pacavira foi um dos protagonistas das qualificações da canoagem em duas edições dos Jogos Olímpicos. Está satisfeito com os resultados obtidos?
Fortunato Pacavira - Considero positiva a nossa participação, tanto a nível individual como em duplas, mas podia ser melhor. O pouco tempo de preparação das equipas nacionais, em particular a de canoagem, tem influenciado, modo significativo, para a redução do aproveitamento dos atletas.

Pode explicar-se melhor?
Os angolanos têm um problema. Começam muito tarde a preparação das selecções. Eu e o meu companheiro, Nelson Henriques, só tivemos três meses de preparação. Durante toda a época, apelamos às entidades do desporto para que criassem as condições de treinamento, como as embarcações de C2, por exemplo, que nós não tempos cá. Infelizmente, a resposta chegou bastante tarde. Temos exemplos de outros países que investem nas modalidades desde o início do ciclo olímpico, porque têm o objectivo de conseguir medalhas. Nós, com três meses de preparação, queremos estar em pé de igualdade com essas selecções. É impossível.

Como foi possível chegar às meias-finais na classe B?
Acredito que o pouco que conseguimos fazer nos Jogos Olímpicos de Londres deveu-se ao nosso esforço, à nossa dedicação e à vontade de representar o país. Lembro-me que, com bastante tempo de antecedência, o nosso orientador, Francisco Freire, já apelava para a boa vontade daqueles que amam e zelam pelo desporto no país, para ajudarem nas condições de trabalho, mas não teve resultado. Estávamos prestes a descartar a possibilidade de participar nestes Jogos Olímpicos, não só pelo pouco tempo que restava, como também pelo facto de estarmos desmotivados, atendendo ao não pagamento das conquistas alcançadas nos campeonatos africanos.

Mas Angola fez um estágio em Portugal…
Felizmente, quando já não havia esperança, conseguimos ajuda para irmos a Portugal, onde tivemos a oportunidade de treinar e partir daí para as três copas do mundo. Foram estas experiências que nos deram traquejo para chegarmos aonde chegámos.

Foi difícil chegar à meia-final B?
Não foi fácil chegar onde chegamos. Acredito que esta é a hora dos angolanos começarem a reflectir e ver que não são só as modalidades colectivas que merecem o apoio e o carinho de todos. Nós, atletas das modalidades individuais, que somos desprezados, também conseguimos fazer algo que dignifica o país, e só não fizemos mais porque não temos criadas as condições de trabalho.

Está neste caso a fazer um apelo as entidades governamentais?

Vou lhe dar um exemplo. Na prova de duplas, Angola chegou a duas finais B e só não se conseguiu apurar para as finais porque as outras selecções estavam muito melhor preparadas. Acho que ninguém melhora em quatro meses. Os apoios não são preparados em três meses. Esta é uma competição que deve ser preparada em pelo menos quatro anos. Nós não conseguimos fazer isso. Temos também a questão dos outros campeonatos africanos e copas, em que, para estarmos presentes, temos de lutar muito. Com este ritmo de trabalho, sinceramente, não iremos a lado nenhum. Espero que as pessoas de direito revejam esta situação.

 

Contrariedade
Diferença de águas
deixa de preocupar


Não tem tido dificuldade pelo facto de treinarem em água salgada e competirem em água doce?
O treinar na água salgada e competir na doce não é problema. O grande empecilho esteve principalmente nas embarcações. Nós em Angola usamos uma embarcação que já não se usa lá fora e isso dificultou-nos muito. Por esta razão, se não haver condições antecipadas de treinamento para os próximos Jogos Olímpicos, eu pessoalmente começo já a anunciar a minha retirada da alta competição. Prefiro fazer outra coisa. Não ganho mesmo nada e sendo chefe de família é bastante complicado. Não estou para competir só para chegar a poucos resultados. Isso não faz parte de mim. Gosto de vencer.


“Não estou motivado
para ir aos Jogos”


Qual é a projecção para os Jogos do Rio de Janeiro em 2016?
Sinceramente, já não estou muito motivado para estar presente na próxima competição olímpica, mas isso pode mudar se houver garantias de mudança. Nós não queremos muita coisa senão que invistam em nós, como atletas. Temos capacidade e técnica para chegar mais longe mas, precisamos de imitar o exemplo dos outros países, que se preparam durante quatro anos para conseguirem bons resultados.

Qual é a sua posição neste momento?
Nós temos essa vontade de estar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e superar a nossa marca, mas não vamos conseguir se tudo correr como aconteceu este ano. Se não tivéssemos participado nas três competições mundiais, não sei o que seria de nós. Aquelas competições ajudaram-nos bastante.


FALTA DE EXPERIÊNCIA 
Henriques teve estreia
difícil em Londres



Jornal dos Desportos - Foi difícil a sua estreia em Londres, mesmo tendo chegado, individualmente, à meia-final?

Nelson Henriques - Penso que o facto de ser estreante na competição pesou em mim. Na minha prova individual, fui surpreendido com um objecto que se chamava “partidouro”, geralmente colocado na faceta inicial. Tive grandes dificuldades com aquilo porque não podia pisar a risca ou burlar aquele obstáculo. Aquele exercício atrasou-me ao ponto de não conseguir alcançar o resultado pretendido.

Porque desconhecia o partidouro?
O convite para as provas individuais surgiu tarde e complicou a dupla. Realmente, ficámos surpreendidos com a notícia de que poderíamos também participar em provas individuais, porque durante todo o tempo da preparação, limitámo-nos a treinar colectivamente. A faltarem 15 dias para o início dos jogos, deram-nos a notícia. Fizemos aquilo que esteve ao nosso alcance. Aqui em Angola, não usamos o partidouro e por isso não conhecia.

A vossa participação foi positiva?
Penso que fizemos o nosso melhor, como dupla. O Fortunato Pacavira já tinha alguma experiência por ser a sua segunda participação e isso ajudou-me muito, como estreante. Penso que, se tivéssemos mais tempo de preparação, podíamos chegar mais longe. Aproveito esta oportunidade para apelar que se comece a prestar maior atenção às modalidades individuais porque já provaram que têm mais hipóteses de trazer medalhas neste tipo de competição. Muitas modalidades que tiveram oportunidades de estágios e boa preparação cá, não conseguiram o que nós fizemos.

Vai continuar na alta competição?
Não posso agora afirmar que estou disposto a continuar a trabalhar para representar o país nas próximas competições internacionais, porque não tenho sido recompensado. Se as coisas mudarem, vamos reconsiderar, afinal, nós fizemos isso porque amamos a modalidade e o nosso país. O que posso afirmar com clareza é que continuarei a representar o meu clube porque tenho um compromisso com eles e por ser algo que está longe da alta competição.


FRANCISCO FREIRE
Técnico condiciona futuras participações


O técnico principal da selecção nacional de canoagem, Francisco Freire, enalteceu o desempenho dos seus atletas nos Jogos Olímpicos de Londres, ao afirmar que o resultado foi positivo. “A nossa participação nos Jogos Olímpicos de Londres é positiva. O desempenho, a firmeza e a persistência dos nossos atletas, assim como a finalização deste ciclo olímpico deixa-me satisfeito. Sentimo-nos realizados porque os nossos objectivos foram alcançados. Agora, em termos de tempo disponibilizado por nós, não vemos nada de positivo. Não temos compensação nenhuma e se calhar vamos preferir enveredar para outra actividade que não seja a alta competição.

Jornal dos Desportos - Está a preterir dos Jogos de do Rio de Janeiro?

Francisco Freire - Estar em duas edições desta competição, que é das maiores a nível mundial, representa trabalho e bastante empenho, vontade e dedicação. Tenho dito aos meus atletas que o mais importante é fazermos a nossa parte naquilo que gostamos. Posso afirmar sem medo de errar que os canoistas e caiaquistas nacionais trabalham por amor à camisola. Muitos deles, como são os casos do Fortunato Pacavira, do Nelson Henrique, da Fátima António, e outros tantos, têm família, estudam e ainda assim sacrificam-se em prol da modalidade, que não recompensa o esforço. Por isso, vamos reflectir com muita calma e depois decidir se continuamos ou não a trabalhar para a alta competição ou se ficamos por aqui mesmo.

Pensa dedicar-se a outra actividade?
Estamos a começar a pensar em fazer uma outra actividade que não seja de alta competição e isso já foi aprovado pelos meus atletas. Os Jogos Olímpicos são uma competição que requer uma preparação de quatro anos, no mínimo. Nós não queremos que se repita o episódio deste ciclo, em que apelamos por melhores condições de preparação, mas somente a faltarem três meses é que saímos em estágio. É muito pouco tempo para preparar uma equipa que vai para uma competição destas. Não digo que preparados não teremos dificuldades. Teremos, mas se calhar mínimas. Existem falhas que foram cometidas pelos nossos atletas que surgiram por falta de contacto com aquele material.

A que material está a se referir?
Da canoa de C2, por exemplo. Nós não temos cá, no país, esse tipo de embarcação. Estamos a pensar em dedicarmos mais à recreação e tentar rentabilizar a nossa vida. Temos realmente uma vocação para a alta competição, mas ainda não temos condições que nos permitam fazer isso com dignidade. É feio sairmos sempre vez de tão longe e não conseguirmos atingir os nossos objectivos, tudo porque faltou preparação. Portanto, daremos um tempo para que o país se organize para a alta competição. Quando todos estes défices estiverem superados, vamos, se calhar, pensar em regressar à alta competição. Não nos vamos aventurar só porque queremos participar. Já temos maturidade suficiente para não nos deixarmos levar apenas por promessas. Por isso, ir aos Jogos Olímpicos já não nos motiva, enquanto não temos criadas as condições de treinamento dos atletas.