Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Faltam incentivos ao futebol

Paulo Caculo - 18 de Outubro, 2011

Presidente da EFAC aborda momento actual do futebol angolano

Fotografia: Paulo Caculo

Adão Costa é um dos exemplos de agente desportivo com notoriedade em projectos de formação de jovens talentos do futebol no país e a nível internacional. O conhecimento do mercado futebolístico rendeu-lhe o mérito de agenciar jogadores angolanos e estrangeiros, com destaque para Cuxixima Loló, ex-campeão africano de sub-20, e Mateus Galiano, médio dos Palancas e do Nacional da Madeira de Portugal.

Aos 42 anos, Adão Costa acredita estar muito próximo de ver realizado o sonho de erguer a sua própria academia de formação de futebolistas. “O projecto está no adro”, assegura em entrevista ao Jornal dos Desportos, garantindo que a obtenção do espaço para a edificação da infra-estrutura representa o único “clcanhar de aquiles”.

O agente fala também da criação da escola de futebol “EFAC”, dos  projectos que tem para o futebol jovem. Perspectiva a sexta presença dos Palancas Negras no CAN, lamenta a fraca aposta nos escalões de formação e faz uma vasta abordagem ao futuro do futebol nacional.  
  
Jornal dos Desportos - Como surgiu a ideia de trabalhar com os escalões de formação, depois de anos a trabalhar na gestão da carreira de futebolistas?
Adão Costa - Desde os meus 12 anos que sempre gostei de fazer desporto e futebol, em especial. Digo aos meus amigos que não cheguei a ser atleta federado porque o destino não quis. Ainda me recordo de, fruto dessa minha paixão pelo futebol, ter apanhado um porrete na cabeça, em 1980, no estádio dos Coqueiros, onde fui ver o meu ídolo, Ndunguidi Daniel, no jogo 1 de Agosto-Progresso do Sambizanga.

Agora o investimento que faz no futebol de formação anula a actividade de agente que sempre exerceu?
De forma alguma. A criação da escola de futebol serve de complemento ao exercício que tenho desempenhado durante os anos. Com a escola, terei a possibilidade de acompanhar de forma mais próxima a evolução dos meus jogadores.

Continua então a agenciar a carreira de jogadores?
Sim. É um trabalho que realizo há muitos anos e não será agora a altura de parar, ou melhor, jamais deixarei de ajudar jovens talentos a realizarem os seus sonhos. Tenho aprendido muito nesta vida. Já cheguei ao ponto de alojar vários jovens em minha casa, tanto no país, como em Portugal, e tratá-los como se fossem meus filhos. Até hoje continuo a fazê-lo. Temos jogadores a viver em Portugal e Espanha sob nossa responsabilidade. No país, represento vários jogadores de futebol e outras modalidades, a exemplo de Milton Barros, Carlos Morais, Simão Santos, Machado, Manucho Barros e Capuco. Mas a nossa preocupação não é apenas com a formação do atleta, é também com a criação do homem do amanhã.

O que é feito do futebolista Cuxixima Loló? A última vez que o vimos foi no Santos FC...
O Loló está bem. Temo-lo apoiado sistematicamente, nunca deixamos de prestar auxílio. Decidimos integrá-lo na equipa técnica da EFAC e está entre os técnicos que vão fazer uma formação de treinador no Brasil e em Espanha. Queremos que ele siga a carreira de treinador.

Quando será erguida a vossa escola de futebol?
Pretendemos erguer aqui em Luanda. As obras já deviam ter começado, mas estamos a enfrentar alguns problemas burocráticos no Governo Provincial. Tão logo se ultrapasse este impasse, estaremos em condições de iniciar as obras. Enquanto não temos o nosso próprio espaço, servimo-nos do campo pelado da Força Aérea para realizar o nosso trabalho.

Como vê o futebol nacional hoje?
O futebol nacional evoluiu em termos tácticos, mas, do ponto de vista técnico e da habilidade, continuamos na mesma, não evoluimos.Dos poucos jogos que vi nos anos passados, notei que tinhamos jogadores com muita técnica e habilidade. Havia jogadores habilidosos e de técnica apurada. Hoje, a realidade é diferente. O nosso futebol precisa de ter uma identidade, um estilo de jogo, porque existe talento. Devemos deixá-los mostrar aquilo que eles sabem fazer com a bola. Penso que devemos, cada vez mais, incentivar a aposta nos escalões de formação. Falta incentivo ao nosso futebol.

Acha que houve pouca evolução?
Claro que os tempos mudam. Hoje em dia, já não encontramos jogadores de elevadas qualidades tecnicas natural, como Ndunguidi, Lufemba, Sarmento, Mendinho, Abel Campos, Santinho, Praia, Maluka, Alves, Nejó, André Nzuzi, Zandu, Savedra, Vicy, Ivo Traça, Vieira Dias, Vata, Jesus, Lourenço e tantos outros. Belos tempos que deixam saudades. Naquela altura, as pessoas sentiam prazer e vontade de ir aos campos, que ficavam abarrotados de espectadores.

Onde reside o problema?
O problema reside na formação. Devia haver uma maior aposta e mais investimento na massificação, porque as pessoas hoje perderam interesse de ver futebol. Os campos estão vazios porque não há qualidade. O futebol nacional perdeu brilho. Os jogadores têm habilidade, mas não conseguem exprimir, talvez devido aos sistemas tácticos utilizados. Os treinadores deviam deixar os talentos mostrarem o que sabem fazer.

Podemos evoluir satisfatoriamente nos próximos anos?
Claro que sim, se as pessoas ligadas ao desporto apostarem muito mais em projectos de formação técnica e académica, quer para os treinadores, quer para os atletas. É preciso haver motivação. Tem de haver mais investimentos do ponto de vista das infra-estruturas. É evidente que, para evoluirmos, precisamos de fazer alguns investimentos.

O actual momento do futebol devia merecer uma maior intervenção do Estado?
O futebol tem merecido a atenção do Estado, mas deviamos criar condições sociais para que as pessoas possam aderir ao futebol de forma massiva, e isso passa necessariamente pela criação de infra-estruturas desportivas, de modo a cativar ou icentivar a sociedade do desporto. As iniciativas privadas servem apenas de complemento ao Estado, embora não deixe de ser responsabilidade dos privados comparticipar.  

De que forma pretende contribuir para a evolução do nosso  futebol?
Considero-me um homem do desporto. Por isso, a nosso nível, criamos a escola de futebol com o propósito de ajudar o país a descobrir novos talentos para amanhã servirem à Pátria e minimizar a responsabilidade acrescida que o Estado carrega. Aliás, disse uma vez o Chefe de Estado, num dos seus discursos: cada um ao seu nível deve tirar um pouco do que tem, para ajudar aqueles que mais precisam, e nós estamos a fazer o nosso papel.

“ O EFAC é um projecto
desportivo com fins sociais”


Tem objectivos imediatos?
Espero para já erguer as infra-estruturas da escola de futebol, para oferecer aos jovens talentos as condições ideais para trabalharem.O meu objectivo é criar uma equipa-base de futebol para, daqui a cinco anos, aparecer na selecção; criar uma equipa sólida, coesa, para servir os Palancas, à semelhança do que fizemos com jogadores como Mateus Galiano, Loló, Capuco, Machado e outros.  

É verdade que o seu projecto persegue também fins sociais?
Claro. As nossas acções incidem, também, na área social, que passa necessariamente por ajudar jovens desenquadrados socialmente.É nossa intenção ajudar o Estado a tirar os jovens dos caminhos da delinquência, do consumo excessivo de bebidas alcoolicas e de drogas, para ingressarem no desporto.

Quer incentiva-los à prática do futebol?
Queremos ajudar os jovens a perceberem que apostando na prática do desporto têm maiores possibilidades de serem reintegrados sicialmente, a invés de seguirem caminhos que em nada ajudam a engradecer a sua vida. No fundo, a EFAC é um projecto desportivo com fins também sociais.

Que destino será dado aos futebolistas formados na EFAC?
Neste momento estamos a competir no campeonato provincial com uma equipa de iniciados, mas o nosso grande projecto é formar jogadores para colocar nos melhores campeonatos da Europa. Pretendemos, enquanto escola de formação, formar um conjunto de jogadores com qualidade capaz de servir a Selecção Nacional no futuro e também cedê-los às equipas interessadas do nosso campeonato.  

“Clubes espanhóis vão formar
atletas e técnicos angolanos”


Que vantagens espera conseguir dos convénios assinados com a Academia da Catalunha de Espanha e com a Prefeitura (Câmara) de Porto Alegre, no Brasil?
Uma das grandes vantagens desses acordos que fizemos prende-se com a possibilidade de jogadores angolanos evoluirem no campeonato espanhol, inglês e outros. É nosso objectivo, também, expandir a escola para o resto do mundo e mostrar que Angola tem capital humano para brilhar nas melhores ligas do Mundo.
 
Em que consiste, ainda, esse convénio?
Consiste também na colaboração de forma preferencial e exclusiva na área de cursos de treinadores, organização de torneios e representação de jogadores.  

Qual é o prazo de duração do convénio com a Academia da Catalunha?
O prazo é indeterminado, na medida em que as duas partes desejam aproveitar ao máximo esta parceria. Os espanhóis estão favoráveis à recepção dos talentos angolanos e nós queremos aproveitar a experiência deles na formação de craques e de treinadores.  

Que balanço faz da experiência da EFAC no Brasil?
Positivo, inesperado. Tivemos a oportunidade de descobrir mais talentos para a escola. Realizámos, durante três semanas, torneios que tiveram a afluência de centenas de futebolistas em Porto Alegre e Cachoeirinha. Fomos muito bem sucedidos, porque impressionamos as autoridades brasileiras, ao ponto de nos cederem um espaço para organizarmos os torneios de descoberta de talentos, denominado “Peneirão”, como é tradicionalmente chamado no Brasil. Como prova deste sucesso, conseguimos, neste primeiro ano, levar seis jovens com muito talento a Espanha. Fomos ainda convidados a participar num torneio de futebol dos 14 aos 17 anos, em Janeiro do próximo ano, denominado Copa Três Coroas.

Que razões levaram a escolher o Brasil?
Escolhemos o Brasil porque foi onde tivemos grande abertura por parte das autoridades locais. Fomos muito bem recebidos e estenderam-nos as mãos pelo facto do projecto ser tão ambicioso que podia tirar muitos jovens pobres das favelas. No Brasil, qualquer jogador, para participar de um Peneirão, deve pagar um valor, mas nós não cobramos nada. Fizemos tudo a custo zero. Assumimos todos os custos, com o objectivo sempre de um dia encontrarmos uma lenda do futebol mundial. Seria um orgulho para nós, angolanos, futuramente ter jogadores de alto nível formados na escola de um angolano.

Aceitaria realizar também uma epécie de “Peneirão” em Luanda?
Se tivermos a mesma abertura e apoio que sentimos no Brasil, não teremos qualquer dificuldade em realizar, porque ajudaria a incentivar e motivar os meninos a apostarem seriamente na carreira de futebolista, facto que, na verdade, não tem acontecido no nosso país. Queremos seguir o exemplo do trabalho desenvolvido pela Académia de Futebol de Angola (AFA) na formação de jovens talentos e na criação de infra-estruturas para o desporto nacional.  

Concorda que o torneio Caçulinhas do Girabairro foi a primeira grande experiência para a Escola de Futebol Adão Costa?
Diria a grande experiência, porque foi a primeira prova oficial em que participámos, mas antes disso já organizámos vários torneios de futebol infantil, no campo do IMEL.
 
 Este ano a escola conseguiu a qualificação para a próxima fase dos Caçulinhas...
AC - Fomos os primeiros do grupo H, ao nível da Maianga, e estamos  apurados entre as 36 equipas que vão disputar a fase de grupos do torneio. O sorteio acontece na terça-feira (hoje). Estamos muito satisfeitos e felizes pelo empenho dos nossos jovens. Sentimos que o nosso projecto está a surtir efeito.

Acredita que pode alcançar os seus propósitos com a criação da EFAC?
O sucesso de qualquer projecto passa necessariamente pela organização e nós primamos pela organização da escola de formação, na criação do que é essencial, para que a máquina funcione sem sobressaltos e não falte nada aos jogadores. Isso passa também pela motivação e incentivo dos atletas e treinadores.  

Qual será o próximo passo?
Estamos a pesquisar o mercado no Ghana, Camarões, Nigéria, Costa do Marfim e Senegal, porque a nossa intenção não é apenas trabalhar com jogadores angolanos, mas sim com talentos de outros países de África com potencial futebolístico.  

“Devemos acreditar mais nos jogadores do Girabola”


O que espera da sexta presença de Angola no CAN?
AC - Auguro uma boa prestação da Selecção no Campeonato Africano e que represente bem as cores do país. Por se tratar da sexta presença, temos a obrigação e responsabilidade de melhorar a nossa prestação, visto que, ao longo dos últimos anos, temos marcado presença. Não podemos desperdiçar mais esta oportunidade de podermos fazer história no CAN e de mostrar o quanto valemos.  

A Selecção tem hoje melhores argumentos para superar a anterior participação?
Acredito nos nossos bravos rapazes e na equipa técnica. Sei que eles vão dar o melhor de si para colocarem o país num patamar que bem merece. Apesar de que a opinião pública esteve receosa quanto à qualificação, em que, sistematicamente, para nos apurarmos, passamos muitas dificuldades. A forma apertada como nos qualificamos, na última jornada, deixou-nos com o “coração nas mãos”, mas, felizmente, os angolanos voltaram a mostrar que somos também potentes no contexto africano. Temos sempre uma palavra a dizer.

O actual conjunto oferece garantias de melhor classificação ou acha que deve sofrer alguns reajustes?
Devemos acrescentar mais alguns jogadores do Girabola a este grupo que vai ao CAN, porque o nível de futebol que apresentamos ainda é débil. Ou, caso contrário, precisamos de redobrar esforços, trabalhando muito mais para melhorar os níveis de exibição. Mas acho que o tempo é curto e o CAN é já amanhã. Não temos tempo a perder e temos de escolher os jogadores que nos dão boas garantias.

Que lhe parecem as últimas convocatórias de Lito Vidigal?
Não me compete fazer juizos de valor das opções do treinador, porque é livre e soberano em escolher aqueles que lhe dão garantias.Mas é importante realçar que no Campeonato Nacional há mais jogadores com nível e qualidade para poderen representar a Selecção. A qualidade existe, mas precisa de ser muito bem trabalhada e valorizada. Do meu ponto de vista, essa é uma responsabilidade do treinador de formação. Mas, para ele dar resultados, precisa de ser capacitado.  

Conhece jogadores a evoluirem na Europa que podem servir a Selecção?
Conheço vários a evoluirem em paíeses da Europa, mas como estão à espera de uma oportunidade nas selecções dos países onde jogam, a nossa federação tem de encontrar pessoas capazes de convencer esses jogadores a virem representar a Selecção.

Aceitaria uma eventual proposta da FAF para colaborar na abordagem destes jogadores?
Somos parte integrante da Federação e estamos disponíveis a dar apoio incondicional aos seus projectos.  

Presidente da República
apoia muito o desporto


Como vê o envolvimento dos demais empresários no desporto?
Acho que devia haver mais empresários a apostarem no desporto, porque o país é vasto e tem muitos empresários com capacidade financeira. Do meu ponto de vista, os que apostam são muito poucos. E devo aproveitar a oportunidade para agradecer aos camaradas Ismael Diogo, Bento Kangamba, Higino Carneiro e António Mosquito, pela iniciativa que tiveram em apostar no desporto. Hoje em dia, o futebol é uma indústria de fazer dinheiro e penso que, se houver mais empresários a apostarem, seremos uma potência do futebol em África nos próximos 10 anos.
 
Mas existem também aqueles que, como o senhor, apostam na criação de escolas de formação...
Sim e devo estender também o meu apreço a esses empreendedores, que têm escola de formação, e apesar de não terem grande capacidade financeira, vão ajudando gradualmente a engrandecer o nosso futebol. Como estes, devem aparecer outros empresários, com a mesma dinâmica e patriotismo, porque essas acções vão ajudar a tornar as nossas selecções mais fortes. Acredito na qualidade e no empenho dos dirigentes angolanos.

Como classifica a intervenção dos nossos políticos na área do desporto?
A excepção de Nelson Mandela, do meu ponto de vista, em África, não conheço outro estadista que dedique grande atenção ao desporto como o nosso Presidente, José Eduardo dos Santos. Pode ser que esteja errado, mas não me lembro de mais nimguém no continente. É um orgulho para nós, angolanos termos um Chefe-de-Estado que se mostra sempre preocupado com o desporto e, mesmo com muitas responsabilidades, incansavelmente arranja sempre um tempo para acompanhar de perto os trabalhos da selecção, sobretudo em vésperas das grandes competições. É de louvar.

>> Por dentro

Nome: Adão Augusto da Costa

Idade: 42 anos

Filhos: Quatro (4)

Formação Académica: Licenciatura em Direito e Pós-graduação em Gestão e Direito de Empresas

Naturalidade: Sambizanga

Melhor país: Angola

Cidade: Luanda

Férias: Não tenho férias

Livro: 50 grandes discursos da história

Escritor: Pepetela

Ídolos: André Mingas e Rui Mingas 
 
Música: Angolana