Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Faltou pacincia direco

Antnio Junior - 27 de Dezembro, 2015

Tcnico Mrio Calado destaca o empenho e esforo do presidente do Progresso Sambizanga em prol do clube

Fotografia: Paulo Mulaza

Depois de alguns anos sabáticos o seu regresso não correspondeu à expectativa, acabou por ser “chicoteado” ainda na primeira volta. No seu ponto de vista o que esteve na base do insucesso?
“Quando regressamos à actividade desportiva, fizemos uma análise muito exaustiva do processo em que estávamos envolvidos, demoramos muito tempo para chegarmos  à conclusão,  arregaçar as mangas e depois iniciar o trabalho. Cheguei à conclusão que o processo poderia ser benéfico para todos e que poderíamos ser beneficiados, desde que algumas premissas fossem alcançadas”.

Que premissas eram  e que acabaram por não serem alcançadas?
“Paciência no trabalho que iríamos desenvolver, já que não estávamos preocupados com os resultados iniciais, ou seja, com a obtenção de resultados em termos classificativos. O nosso grande objectivo era conquistar um título para o Progresso Associação Sambizanga, assim  deram-me  três anos para poder trabalhar e este trabalho inicialmente era dificílimo, porque trabalhar com um grupo de jovens e moldá-los para uma mentalidade de campeão, exige sacrifício, paciência e persistência”.

Quando sentiu que faltavam estes atributos e que era necessário moldar o grupo para o objectivo proposto, não advertiu a direcção?
“A estrutura que encontramos  obrigava-nos  a ter um trabalho duplo, porque termos uma estrutura com exigência de campeão, as normais e as metodologias de trabalho são completamente diferentes das que estavam ao nosso alcance e estávamos a trabalhar com muita paciência. Primeiramente, conhecer o clube na sua generalidade e conhecer as pessoas para posteriormente fazermos uma perspectiva de como iríamos projectar o nosso trabalhar, para alcançarmos o  objectivo que era a conquista do título”.

Sente que faltou solidariedade e fundamentalmente paciência...
“A base fundamental foi a falta de paciência. Numa perspectiva de um trabalho que visava chegar a campeão nacional, se não tivermos esta componente,  belisca seriamente toda uma acção”.

Quando assumiu o desafio, não alertou à direcção da necessidade de terem paciência e que era prematuro pensar no título logo no primeiro ano? 

“Fomos muito prudentes e deram-nos esta primazia, porque era um processo em que o trabalho estava a ser feito a nível de uma perspectiva e a trabalhar  nesta base a premissa número era a paciência. Previamente tivemos o cuidado de alertar que numa primeira fase os resultados não seriam óptimos logo, tínhamos de mudar toda uma estrutura, desde os métodos, meios, a forma de jogar e padronizarmos a equipa. Isto leva um tempo considerável e não tiveram essa paciência”.

A direcção é soberana e como os objectivos estavam longe de serem alcançados procurou salvaguardar os seus interesses, o que é justo não acha?

“O clube pensou do jeito como pensou  já que o clube é livre de pensar. Respeito na íntegra as posições que as pessoas tomaram a nível do clube. Lamentavelmente não finalizamos, de acordo o meu grande sonho que era tornar-me campeão nacional   no Progresso do Sambizanga”.

Sente-se arrependido por ter aceite o desafio, principalmente pelo facto de não lhe deixarem levar o projecto até ao fim?    
“Sou um trabalhador , e quando me engajo em alguma coisa, faço com muito carinho, paixão e amor, por isso, nunca me arrependo do que faço, muito pelo contrário, foi mais um ensinamento  na minha carreira foi mais uma  experiência  e em mais um clube. Isto vai servir sempre de tónico para que num próximo projecto tenha mais prudência  no sentido de evitar que aconteçam coisas do género”.

DIRECÇÃO
“O presidente é incansável”

O professor sentiu alguma vez que a direcção com  destaque para o presidente que  estaria a ser pressionado para o demitirem?
"Durante este período, não tive a oportunidade de dialogar especificamente sobre o caso, então  posso dizer vagamente qual foi o posicionamento a nível da direcção do clube. Estou no meu local, sem nenhum constrangimento . Desejo tudo de bom ao Progresso e que as coisas correm bem,   esta é a minha modesta forma de estar a nível do mundo .

Pelas suas palavras deixa depreender que apesar de ter sido “chicoteado” deixou o Progresso de cabeça erguida e sem mágoa...
"Primeiro, devo dizer-lhe que senti-me orgulhoso por ter dirigido o Progresso, não me arrependeria de um dia voltar ao clube se criarem condições completamento diferentes e julgo que o clube merecia uma referência diferente a nível do contexto desportivo nacional".

Da experiência, das vivência que tem no futebol e por aquilo que observou, os sambilas têm estrutura para um dia conquistarem o Girabola?
"Existem pessoas que trabalham muito pelo clube, uma delas, do ponto de vista financeiro é o presidente do clube,  que luta muito pelo Progresso. É claro que havia todo um conjunto de vivência que devia melhorar ainda mais o crescimento do clube, mas isto cabe à direcção fazer uma análise  de como devem dirigir".

FUTURO
Calado mantém discurso cauteloso


É um técnico com currículo invejável, não teme que esse fracasso possa afectar a sua excelente folha de serviços pelo facto de ter saído pela porta pequena?
"Quem conhece o futebol sabe que a carreira de um treinador tem várias etapas e percursos. Existem fases óptimas que devem ser ardentemente aproveitadas e outras não. Nós felizmente, modéstia à parte, somos excelentes profissionais nas nossas actividades e gostamos muito de executar  o dom que Deus nos deu. Julgo que não tem nenhuma anormalidade  voltar um dia a exercer a minha actividade com muito carinho numa perspectiva, digamos diferente.

Quanto tempo mais pensa estar fora dos campos a orientar uma equipa?

"Tive uma grande oportunidade de trabalhar numa grande selecção de um país da África Austral, lamentavelmente as condições financeiras não permitiram chegar a um entendimento, devo dizer que estava apaixonado e com desejo de treinar a selecção, mas não foi possível".

A nível interno tem contactos para voltar a orientar uma nova equipa na próxima época?

"A nível de clubes tivemos duas propostas, que não foram muito consistentes e em função da durabilidade do espaço de trabalho, e por uma questão de segurança, já não trabalho mais em nenhum clube que não me possa dar oportunidade de três anos de trabalho, com condições e rescisões bem definidas, no sentido de assegurarmos todo um grau profissional para que situações anormais  já não se repitam.

O facto de estar muito tempo fora dos campos, não terá influenciado na sua readaptação, ou seja, não sentiu que estava de baixa de forma?

"Nós temos todos os dias contactos com o futebol angolano e africano de um modo geral. Sabemos das melhores referência do futebol africanos e angolano".

Estar  no banco a orientar e sentir a pressão é outra coisa...

O olho clínico nasce e morre connosco e isso a gente nunca perde. O grande problema é a nossa estrutura, herdamos uma estrutura não muito boa, onde um conjunto de atletas que na altura tinham uma certa referência no clube tinham saído, e houve a necessidade de reorganizarmos o clube. Para reorganizamos esse trabalho e fazer o clube tornar a ter  a sisma de campeão,  leva tempo e paciência, que é o que faltou. Acredito que com mais tempo as coisas  iriam encaixar-se e no final do projecto todos podiam   sentir-se  muito felizes.

Ainda assim não assume que fracassou na sua passagem ao Progresso?

"Trabalhamos apenas três a quatro meses no clube e muito dos atletas nem sequer conheceram o treinador  em plenitude e nem sequer trabalhamos 40 ou 50 por cento da nossa capacidade profissional, porque a exigência e os níveis dos atletas exigiam prudência em relação ao trabalho que íamos desenvolver".

Do pouco que conhecia do Progresso e o que lhe exigiram sentiu que o clube tinha condições para tal?

"Todos os dias trabalhamos na base de um principio, não iríamos chegar e fazer uma remodelação profunda, então tínhamos que ser prudentes até pelas características do próprio clube. Tínhamos de ser prudentes em algumas tomadas de posição e modificações que íamos desenvolver. Estávamos num processo particularmente de aprendizado do clube para posteriormente tomarmos as nossas decisões em termos de futuro".

ADVERSÁRIOS DO CHAN
“As três selecções são muito fortes”


Na breve analise sobre os três adversários da selecção nacional na fase de grupos no CHAN, o treinador considerou os jogos bastante difíceis e justificou a  posição no facto de algumas terem alguma tradição no continente e outras  estarem a evoluir nos últimos anos.

CAMARÕES - " É uma selecção forte, muito embora esteja a passar por um processo administrativo não muito bom, porque existe um conjunto  de anormalidades  a nível da selecção com mudanças constantes quanto a chamada dos jogadores  e isso cria um mau estar no grupo.
É um jogo difícil, porque é uma oportunidade que estes atletas têm de se  mostrarem  a nível de África, aliás sabemos que a nível dos países francófonos, o ego de qualquer  atleta é ir para a Europa e estas grandes manifestações são uma oportunidade para poderem ser vistos, por isso vai ser um jogo muito difícil".

RDC - "É a selecção que tanto pode  surpreender-nos  pela positiva como pela negativa. Têm qualidade, mas o aspecto organizativo influencia muito no comportamento do próprio jogador e a estrutura da equipa. É uma selecção muito inconstante.

ETIÓPIA - "É uma equipa com uma qualidade técnica agradável de se ver  jogar, julgo que vamos ter imensas dificuldades frente a esse adversário".

FUTURO DOS PALANCAS
Técnico confessa cepticismo

Os Palancas Negras, Selecção que já orientou e venceu no seu consulado uma Taça Cosafa, teve um ano com altos e baixos. Que avaliação faz da prestação nas eliminatórias em que está ou esteve inserido... 
"Se não estou em erro, há dez anos tínhamos alertado a estrutura federativa da necessidade de modificarmos, com urgência, o nosso quadro competitivo, caso contrário, poderíamos registar um processo regressivo da qualidade do nosso futebol".

Considera que o nosso futebol está mal, regrediu bastante nos últimos anos e necessita de uma intervenção urgente para inverter o quadro?
"Repare que actualmente não conseguimos ficar mais de 20 a 30 segundos com a  posse de bola, porque jogamos e treinamos muito pouco. Em quase todos os países a estrutura tem sido modificada constantemente e o intercâmbio internacional a nível da juventude é intensa, o que não acontece no nosso país.

Está a dizer que pouco ou nada tem sido feito a nível federativo e inclusive dos clubes, para melhoramos ou seja darmos uma outra dinâmica ao futebol angolano...
"Dizer que hoje temos uma  vantagem em relação a qualquer selecção a nível de África, é uma utopia porque estamos em desvantagem total em relação à maioria dos países a nível de África. A nossa qualidade é débil em relação aos outros países".

Não acha que está a ser duro na sua observação, até porque nos qualificamos para a  final do CHAN e para o CAN, Angola lidera o seu grupo.

"Repare que  a Etiópia melhorou muito, a nível da qualidade do seu futebol, desportiva e tecnicamente cresceu muito. Vamos ter jogos muito difíceis e estamos ao nível de preparação dos nossos jogadores, produto do defeso em que eles estão diferenciados  em relação aos outros países. Se dissermos que somos candidatos ao CHAN, estamos a ser injustos para quem está a dirigir a selecção de Angola".

COMPETIÇÃO INTERNA
“Temos que mudar a estrutura”


Está a mostrar-se muito crítico em relação à gestão do nosso futebol, acha que uma das premissas para a melhoria da qualidade passa pelo aumento de jogos e por conseguinte de equipas nas competições nacionais?
"Não é necessariamente obrigatório aumentar o número de equipas, o que temos de fazer rapidamente é modificar a estrutura competitiva e dar mais jogos às nossas equipas, obrigar que os nossos jogadores joguem mais e treinem menos e que os clubes tenham mais rentabilidade dos seus jogadores".

De que forma?
"Temos a possibilidades de incluir mais provas, nas nossas competições internas, como a Taça da Liga, teríamos a possibilidade de reactivar os dérbis provinciais que existiam no outro tempo e que eram tradicionais em função das rivalidades que existiam. Para isso voltar a existir têm de jogar nas suas províncias".

Gostaria que nos ajudasse e esclarecesse melhor em relação as competições províncias que defende...

"A título de exemplo, se o Petro de Luanda e o 1º de Agosto jogarem muito mais vezes a nível de Luanda, os dérbis serão ainda muito mais intensos, assim como se o Nacional do Benguela jogar várias vezes com o 1º de Maio, vão ser muito mais activos. Se o Mambroa competir muito mais vezes com o Petro do Huambo, estes dérbis vão reactivar-se e a qualidade dos atletas vão melhorar substancialmente".

Acha que isto ajudaria a inverter o quadro negro que se regista no futebol nacional?

"É preciso dotarmos os nossos jogadores de mais jogos. Estamos a falar de dez a 11 meses, os nossos atletas estão a fazer 26 jogos, é impossível".

Com este tipo de competição defende a reactivação dos provinciais como prova de pré temporada?

"Obrigatoriamente, porque razão vamos fazer os nossos estágios lá fora, quando podemos abrir a nossa época a 15 de Janeiro e obrigar que todos os jogadores participem em alguma competição provincial. Sou membro de uma Associação provincial, mas não participo em nenhuma actividade que a mesma realiza, o que é absurdo.

É uma iniciativa que pode não ter o respaldo dos clubes, APF e a Federação...
"Se não quizermos fazer os campeonatos provinciais, vamos alterar o figurino da Taça de Angola e introduzirmos a Taça da Liga. Os jogadores têm de  jogar e não apenas treinar, porque os clubes perdem muito. Se nós pegarmos os nossos atletas desde os 15 anos até aos 22 anos, para fazermos uma comparação com os atletas a nível da Europa, vamos ver quanto tempo os nossos jogadores ficam de repouso em relação ao atleta europeu. Penso, que aí está o segredo da qualidade dos futebol europeu,  e o espectáculo que existe nesses país ao contrário do nosso".