Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Faremos boa figura

Manuel Neto - 08 de Outubro, 2010

Luís Abel promete participação condigna do país no mundial da Argentina

Fotografia: Nuno Flash

Como decorreu a primeira fase da preparação do Mundial da Argentina?
Apesar de termos enfrentado alguns problemas, a primeira fase correu da melhor maneira possível. Trabalhámos com 18 atletas e depois da triagem restaram 13, que fazem parte da selecção que vai competir nas terras de Maradona.

Foi difícil fazer a triagem ante a grande entrega dos seleccionáveis?
Sim, houve muito empenho e lamento os atletas dispensados, porque jogam um papel preponderante na manobra da equipa. Gostaria de contar com os seus préstimos, mas infelizmente não foi possível. Tínhamos a obrigação de dispensar três atletas e a preferência recaiu sobre os que não possuem documentos.

Quem são os atletas e o tipo de documentos em falta?
Por falta de passaportes, dispensámos os atletas Vitorino Utchila, médio central; Veríssimo Ambriz, médio direito, e Laurindo Lucamba, médio esquerdo. Embora tivéssemos de os preparar com antecedência, esse aspecto impressionou-nos pela negativa. Havia tempo suficiente para o SME emitir o documento, mas, infelizmente, fomos surpreendidos com a falta de cédulas de passaportes e tivemos de nos conformar e levantar a cabeça rumo aos nossos objectivos.

Quais as dificuldades encontradas nessa fase de preparação?
No início, tivemos várias, com destaque para o acesso ao Estádio da Cidadela Desportiva. Só tivemos a autorização para treinar às terças e às quarta-feiras entre às 06 e 08 horas; é um tempo bastante reduzido para trabalhar os fundamentos que pretendíamos nessa fase. “Quem não tem cão, caça com gato”. Assim diz o adágio popular. E é com esse pensamento que o Comité Paralímpico Angolano encetou contacto com o  Olimpáfrica e passámos a trabalhar os atletas num campo de terra batida, em Viana. Para uma selecção nacional, que vai ao Campeonato do Mundo, treinar no pelado é bastante reprovável, porquanto é o nome do país que está em jogo.

É difícil lidar com os atletas?
Nos primeiros dias, foi difícil, uma vez que vinham de distintas equipas com formações, hábitos e costumes diferentes. Mas graças a Deus, tudo passou e hoje trabalhamos com certa tranquilidade e harmonia, o que constitui uma mais-valia para a melhoria do nosso trabalho.

O estágio previsto para o Brasil é suficiente para colmatar a falta de adaptação à relva, uma vez que não foi possível em Angola?
Um estágio é sempre importante para qualquer equipa que se presta a competir. Para o nosso caso, o tempo de estágio, apenas dez dias, não é suficientes para colmatar as lacunas constatadas. Contudo, vamos dar o máximo para inverter o sentido negativo das coisas para o bem do grupo de trabalho, em particular, e do país, em geral.

Concretamente, quais os aspectos que mais trabalhou nessa fase?
Trabalhei mais a parte física, à Ilha de Luanda, durante uma semana e, posteriormente, os aspectos tácticos e técnicos. Dei prioridade ao físico, porque tenho conhecimento que a maior parte dos atletas não habituou a trabalhar em regime bi-diário nas suas províncias de origem; nos primeiros dias, apresentaram muitos problemas para fugirem da preparação. Felizmente, esse aspecto foi superado.

Que sectores mais lhe preocupou?
A finalização. E justifico: muitos jogadores tiveram de se adaptar aos novos membros, isso é, ao novo pé de chute, porque alguns foram amputados o pé com mais força. O processo de adaptação ao novo pé é difícil e leva longo tempo. A título de exemplo, temos o Sabino e o Moisés nessas condições. Graças a um trabalho árduo, aliado à força de vontade, hoje, estão a dar boa conta de si.

“A selecção nacional
tem boa base de atletas”

Fazem parte de um grupo difícil, onde pontificam selecções fortes, caso da Rússia, penta-campeã mundial, a Inglaterra e a Serra Leoa, vicecampeã africana. Que comentário se lhe oferece fazer?

É o grupo da morte, porque é integrado por selecções bem rotuladas nesse tipo de competição. Temos esperança que faremos boa figura, porque o segredo reside na dedicação ao trabalho, aliado à força de vontade. Reconhecemos que, teoricamente, são selecções que levam algumas vantagens, do ponto de vista de condições de trabalho e por serem formadas por atletas deficientes por acidentes de viação, contrariamente à nossa, formada por deficientes de guerra, o que se torna mais difícil a sua adaptação ao desporto. Face à objecção, estamos atentos a tudo.

Que objectivos perseguem no Mundial da Argentina?
Dizer que vamos ganhar experiência, já faz parte do passado. No futebol, tudo é relativo. Nada é absoluto. Apesar de ser a estreia de Angola num Mundial da categoria, faremos tudo para chegar o mais longe possível.

O Conjunto reúne requisitos para os objectivos que anseia?
A equipa tem boa base de atletas, porque a maior parte participou no último Campeonato Africano, onde se qualificou em terceiro lugar.

Como estão em termos de apoio?
Nada temos a reclamar, porque o Comité Paralímpico Angolano se empenhou a fundo para suprir todas as necessidades, concretamente, a alimentação, transporte, alojamento, entre outras

Os prémios de jogo do último Campeonato Africano já foram pagos?
Sim. Não temos razões de queixa. O moral do grupo é alto, porque as famílias têm as mínimas condições. Aliás, a maior parte dos atletas é funcionário público e têm os seus ordenados em dia que ajudam a minimizar as eventuais dificuldades.

Futebol com muletas
pode vingar em Angola

Que avaliação faz do estado do futebol de muletas no país?
Com honestidade, sinto pena de Luanda, porque só agora, fruto da publicidade passada nos programas televisivos “Jovemania” e “Hora Quente”, emitido pela TPA, temos recebido muitos jovens com vontade de o praticar. No final do mês de Setembro, fiz testes a dois jovens que estão a dar bons indicadores e acredito em melhores dias para esse desporto em Angola.

Quantas equipas existem em Luanda?
Temos quatro equipas, nomeadamente, a Funda, 500 casas, Boavista e São Paulo. Antes, jogavam apenas com próteses ao invés de canadianas. Com as novas regras do uso de canadiana, estamos a incentivá-los para o novo modelo e aos poucos estão a encaixar-se.

Para além de Luanda, onde se pratica mais o futebol de muletas?
Malange, Kuando-Kubango e Lunda-Sul. Com a divulgação, mais equipas poderão surgir no país.

Que requisitos devem possuir as pessoas que pretendem praticá-lo?
Primeiro ser deficiente, possuir fotocópia do Bilhete de Identidade ou Cédula Pessoal. São documentos que provocam embaraços na inscrição, porque a maior parte que aqui se dirige tem dificuldade em apresentá-los. Posteriormente, faz-se a inspecção médica e, caso for apto, é enquadrado na especialidade adequada ao seu requisito. Portanto, os atletas amputados uns dos membros inferiores jogam no interior do campo e os amputados uma das mãos à baliza.

Que métodos utilizam para recrutamento de atletas?
Nos anos 90, recorríamos às ruas e aos hospitais, mas dificilmente éramos bem sucedidos. Actualmente, melhoramos os métodos alargando mais as nossas áreas de actuação, desde as cidades até aos locais mais recônditos do país. Estamos a ser bem sucedidos.

A aquisição de material de trabalho tem sido fácil?
Antes era difícil, porque usávamos muletas e a sua aquisição era difícil. Com o surgimento das canadianas, fomos obrigados a acompanhar as mudanças e, nos dias correntes, usamo-las diariamente. A partir desse momento, a aquisição do material tornou-se mais fácil. Temos vários pares de canadianas e quatro mudas de equipamento, sendo dois para os jogos e dois para os treinos.

O futebol de muletas pode encontrar um lugar ao sol?
Sim. O Comité Paralímpico Angolano trabalha arduamente para que haja dias melhores. Tanto é que existe uma grande luta para que o CAN de 2012, se realize em Angola. Caso o sonho se concretize, teremos um futuro risonho.

Angola tem potencial humano para conquistar o certame?
Sim. Nos dias de treino, muitos deficientes acorrem aos recintos com vontade de praticar a modalidade. Por exemplo, na altura da nossa preparação, na Ilha de Luanda, apareceram muitos interessados, alguns com dotes e outros não. Deste modo, estamos mais encorajados a constituir novas equipas assim que regressarmos da competição.

Que comentário faz sobre as infra-estruturas desportivas?
É difícil debruçar-me sobre isso, porque se existem, dificilmente, são cedidas para os trabalhos que pretendemos. Um exemplo recente é a forma triste como se comportaram as pessoas que gerem as referidas estruturas. Se o treinador fosse uma pessoa manhosa à espera de um recinto relvado, a selecção não atingiria os níveis que atingiu. Por essa razão, apelo às pessoas de direito no sentido de mudar de consciência para o bem do país.

Como tem sido a formação dos técnicos?
Devia haver mais formação. Esta área poderá dar passos significativos, porque o Comité Paralímpico Angolano está empenhado em melhorar cada vez mais todos os serviços inerentes à modalidade. Melhores dias virão.

Perfil

Pedro Luís Abel é filho de Luís Abel Ndala e Antónia Mulongo, nasceu no Lubango, no dia 27 de Maio de 1963. É licenciado em futebol pelo Instituto de Cultura Física Manuel Forjada, Cuba. Foi treinador da Selecção Sub-17 e treinador-adjunto de Joaquim Dinis na Selecção Nacional  sénior; estatístico da Selecção Nacional que fez parte do Campeonato do Mundo de 2006. Actualmente é o treinador principal da Selecção Nacional de Futebol com Muletas.
Prato preferido - Arroz com feijão 
Bebidas - refrigerantes
Ídolo -  Job  Música - Semba
Hobby -  Leitura Calçado - 40