Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Fax quer criar grupo de talentosos

?lvaro Alexandre - 24 de Abril, 2017

Tito Martins é membro do Confederação Africana de Xadrez

Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

Passados três meses desde a ascensão ao cargo, que avaliação se lhe oferece fazer sobre a gestão das competições sob a égide da Federação Angolana de Xadrez?
Apesar de atravessarmos momento menos bom, estamos a cumprir com o que propusemos realizar. Conforme consta do nosso programa eleitoral, hoje transformado em plano de actividades, estamos a praticar um modelo de gestão transparente e inclusivo. Graças a Deus, os meus colegas de direcção estão a corresponder. A modalidade está em crescimento, fruto da dinâmica implementada nos projectos iniciados no mandato passado. Nos torneios realizados, registámos o aparecimento de jovens talentosos. As partidas foram de bom nível técnico. Os jogadores apresentaram boa preparação teórica nas três fazes de jogo: abertura, meio jogo e finais. Numa palavra, o balanço de três meses é bastante positivo.

Há dinheiro para cumprir com as obrigações assumidas para a presente época?
O país não está bem economicamente. E da mesma forma que as outras áreas da sociedade estão a ressentir esse abalo, o desporto também está na mesma senda; o xadrez também sofreu e continua a sofrer do gigantesco corte orçamental. Recebemos, no mês passado, a informação do valor orçamentado para a nossa modalidade referente ao ano 2017. Vamos esperar que o Estado, no âmbito das suas obrigações, nos conceda o dinheiro que foi drasticamente amputado.

Sem dinheiro suficiente, como estender a prática do xadrez em todo o país, uma promessa da sua linha de força?
Temos este plano, mas não podemos andar em vários caminhos ao mesmo tempo. Se até o cachorro, que tem quatro patas, não anda em dois caminhos ao mesmo tempo, quanto mais nós! Temos bem definido o que deve ser feito primeiro para não corrermos o risco de fracassar. Aliás, muitos destes projectos estão ligados a componente financeira. É preciso fazer-se uma aquisição de material de forma massiva.

Está a  dizer que a massificação do xadrez nacional deve aguardar os financiamentos?
A massificação está a dar os passos. Apesar do momento económico difícil do país, surgem vários núcleos e registamos vários aficionados. O bom desse processo é, na sua maioria, jovens. Visitei há dias a Escola Macovi, a pioneira da massificação do xadrez e de outros desportos. Fiquei bastante satisfeito com a quantidade de crianças mobilizadas e que estão a dar os primeiros passos. Do nosso lado, vamos formar os activistas, instrutores, monitores, treinadores e árbitros, assim como incentivar o aparecimento de academias como a de Cheque Mate – Os Tubarõezinhos.

O Ministro Albino da Conceição aconselhou as direcções das instituições desportivas a firmarem parcerias com empresas. Que fontes alternativas tem a Federação para custear as despesas com organizações de eventos?

É verdade que as alternativas são os recursos às parcerias. Mesmo assim, a situação é de algum modo complicada. As empresas encontram-se também em dificuldades para rentabilizar os seus capitais, principalmente, aquelas que os seus negócios estão ligados às importações. Neste momento, contamos com as parcerias da Cuca, Hotel Pirâmides, Banco BIC, ENSA – Seguros de Angola, Powergol,

LPFN, JODGAS, NARFIVE e a Showcar.

Os associados queixam-se do afastamento das direcções da Federação. Como está o vosso relacionamento neste período de mandato?
Este é um item que faz parte das nossas linhas de força. Estamos em permanente contacto com os nossos associados a inteirar-se das suas actividades. Enviámos com regularidade as actas das reuniões de direcção que realizámos mensalmente, constando os documentos reitor da modalidade. No entanto, ainda se regista um certo atraso das Associações Provinciais no envio das fichas de inscrição dos atletas e no fornecimento dos dados estatísticos.

DESPORTO ESCOLAR
Valência de construir estratégias


Que visão tem sobre o projecto do xadrez nas escolas?
Tal como o ensino da Matemática visa desenvolver no aluno o raciocínio lógico, a criatividade, a capacidade de resolver problemas em diferentes contextos e a habilidade de pensar de maneira independente, com a prática do xadrez estas valências também são desenvolvidas aproveitando a construção de estratégias, a iniciativa e a criatividade que o jogo requer. Desse modo, contribui para a formação de cidadãos mais versáteis e para a implementação com sucesso deste projecto.

Há encargos financeiros para o seu sucesso...
Vejo os encargos financeiros com os formadores como uma das grandes restrições para a implementação desse projecto. A visão da Federação Angolana de Xadrez é mobilizar os professores das diversas disciplinas, já enquadrados na Educação, para serem adaptados à disciplina de xadrez e subtrair do seu tempo uma hora semanal para as aulas de xadrez.  A estratégia seria seleccionar, dentro do leque de praticantes, elementos capazes e disponíveis para a actividade de formação, tendo em conta que, em uma semana, um mesmo professor pode passar por diversas turmas; aproveitar os professores de Educação Física e agregar-lhes a disciplina de xadrez no seu programa curricular.

Já têm um plano de transmissão de conteúdos didácticos?.
As aulas explicativas iniciam com dissertações sobre a história do xadrez. Devem progredir com base num cronograma padrão a ser criado pela FAX com a transmissão paulatina de informação, de modo que os alunos assimilem os conhecimentos mínimos necessários para a realização de jogos. Seguir-se-ia o ciclo de jogos e torneios inter-turmas, inter-escolar, inter-municipal, inter-provincial e culmina com uma Olimpíada Escolar de dois em dois anos.

Esse é o caminho para reforçar o desporto federado?

As Olimpíadas Escolares vão permitir a convivência e a troca de experiências entre os alunos de diversas escolas, bem como a interacção com xadrezistas categorizados. Mesmo aqueles que não conseguirem sobressair-se, vão sentir-se valorizados e felizes por jogarem com as pessoas de diferentes experiências de vida, o que constitui numa forma de inclusão social. Aqueles que se destacarem e mostrarem interesse, passam para o desporto federado com o seu ingresso nos clubes, núcleos e academias.

QUALIDADE
Taça Cuca é o maior torneio de África


Que vantagem tem para Angola a realização do Torneio Internacional Cuca?
Em termos de objectivos competitivos traçados no nosso ambicioso programa, prevê, entre outros, a garantia da obtenção de medalhas nas competições africanas, obtenção do primeiro título de Grande Mestre para Angola e elevar a nossa posição para os cinco  primeiros lugares em África. Para o alcance deste desiderato é imprescindível a participação de atletas angolanos em competições de gabarito internacional como o tradicional Torneio Internacional de Xadrez “Taça Cuca". A realização de eventos de prestígio em Angola, como é o caso, eleva as performances dos angolanos. A Taça Cuca granjeou, nos últimos anos, um forte prestígio e visibilidade no mundo. É considerado, no presente momento, como o maior evento escaquístico do continente africano, tendo em conta o número e a qualidade dos participantes. São atletas que ostentam elevado ELO.

Face aos constrangimentos financeiros que apresentou, há garantias de realização no ano presente da Taça Cuca?
Vamos manter o mesmo figurino na 14ª edição do Torneio Internacional de Xadrez "Taça Cuca" este ano. Queremos contar com a participação de reputados xadrezistas oriundos de 13 países de África, Europa, América do Norte e América do Sul.

OBJECTIVO
FAX tem plano para
ter Grande Mestre


Existe um plano estratégico para Angola ter um Grande Mestre brevemente?
Temos concebido o plano para alcançar esse objectivo. Em linhas gerais passa pela participação dos atletas angolanos com normas em competições internacionais com elevado prestígio; criar-se as condições para treinarem com um Grande Mestre (GM), de modo a suprirem as insuficiências e possa incentivar sempre os atletas para que trabalhem arduamente e focalizados.

Os Mestres Internacionais (MI) David Silva e Esperança Caxita são as grandes promessas do país. Existe um programa especial de acompanhamento para darem outro salto?

Existe um programa preparado para que os dois talentos do xadrez africano possam evoluir de forma satisfatória. Brevemente, vamos criar um grupo de talentosos que vão trabalhar de forma regular com um técnico e ter a participação privilegiada nos torneios da FAX. São atletas que vão ter o acompanhamento da Comissão Técnica.  As suas partidas vão ser analisadas e comentadas com o objectivo de se identificar os erros e as fases de jogo em que os mesmos precisam de melhorar. Nem sempre as partidas ganhas, foram bem jogadas. 
O MI Adérito Pedro busca a norma de GM, mas está longe do objectivo. Como pode influenciar os mais jovens do xadrez nacional?
O MI Adérito Pedro é simplesmente o melhor jogador angolano da actualidade e um dos melhores de África. Serve de incentivo para muitos jovens e passa-lhes a experiência acumulada de longos anos de prática de xadrez ao mais alto nível.

COMPROMISSOS
INTERNACIONAIS

Do seu plano de competições internacionais, quais são os torneios autorizados pelo Minjud?
Atendendo as limitações financeiras e conforme aconselhados pelo Ministério da Juventude e Desportos, de princípio, vamos participar de cinco eventos internacionais. Trata-se do Campeonato Africano Zonal 4.3, em Junho, na Zâmbia, com objectivo de obter a medalha de ouro e apurar-se para a Copa do Mundo; Campeonato Individual Africano, com objectivo de obter a medalha de ouro e apurar-se para a Copa do Mundo; Campeonato Africano de Juniores com objectivo de obter as medalhas de ouro e de prata e concomitantemente apurar-se para a Copa do Mundo; Campeonato Mundial de Juniores com a finalidade de ganhar a rodagem competitiva e aumento de ELO; Campeonato Africano das Escolas com objectivo de obter a medalha de ouro e de prata e aumento de ELO.

Os atletas queixam-se da falta de realização regular de torneios. Como vão contornar o quadro perante a crise financeira?
Não há razões de queixa. Estamos a cumprir com o calendário proposto e aprovado. Em três meses em meio de mandato, já tivemos o Festival de Fim de Ano com três Torneios, a Taça 19 de Fevereiro, a Taça Cabeto, a Taça da Paz e a Taça Ensa. As Associações Provinciais devem juntar-se aos esforços da Federação na realização de torneios particulares.

INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS
Angola tem informações privilegiadas


Desde que assumiu o cargo na FAX, que benefícios o país obtém com a presença de Aguinaldo Jaime nos órgãos de decisão da FIDE?
De momento, o principal ganho são as informações privilegiadas e o encaminhamento das nossas preocupações de forma célere. É assim que estamos a trabalhar juntos para que possamos beneficiar, este ano, de duas actividades formativas: uma para treinadores e outra para árbitros. O nosso objectivo é beneficiar de pelo menos duas formações por ano.

Muitas organizações manifestaram-se da falta de quadros para cobrir as formações que as entidades internacionais colocam à disposição. Qual é a vossa realidade?

A nossa politica está virada para aproveitar as formações. O principal entrave, às vezes, está na língua. Temos relações excelentes com a FIDE e a Confederação Africana de Xadrez. Para além de Aguinaldo Jaime, Angola tem um outro membro na FIDE. Faço parte da Confederação Africana, através da Zona 4.3, onde sou responsável para os eventos e publicidade.

PERFIL

Atleta de três desportos
Tito Correia Martins nasceu a 29 de Outubro de 1964 na comuna de Quéssua, província de Malange. É Engenheiro Mecânico de profissão, licenciado pela Universidade Técnica de Brno, na República Checa (1990). É multilinguista. Domina as línguas portuguesa, inglesa, francesa, checa, espanhola e kimbundo. É Consultor de Qualidade, Saúde, Segurança e Ambiente da ESSA (empresa subsidiária da Sonangol).

CARREIRA DESPORTIVA
Foi atleta de hóquei em patins (CDUA), de basquetebol (Ferroviário de Luanda) e de Xadrez (Núcleo de Xadrez da Constrói - NXC)- É bicampeão do torneio interno do núcleo, campeão provincial absoluto de Luanda, vencedor da Taça 26 de Agosto por equipas (NXC), vencedor da Taça de Angola por equipas (NXC), é detentor do título de 1ª categoria na República Checa, uma Norma de Candidato a Mestre, vice-campeão do interno do Desportivo da Nocal e tricampeão do torneio interno da Sonangol.

Tem participação no Mundial de Trabalhadores, é treinador licenciado pela FIDE, foi presidente da Associação de Xadrez de Luanda (dois mandatos), presidente do Conselho de Disciplina da FAX, vogal de direcção da Federação Angolana de Xadrez, vice-presidente da Federação Angolana de Xadrez, Organizador Internacional da FIDE e membro da Confederação Africana de Xadrez.