Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Federao Portuguesa pode dar apoio ao ciclismo angolano"

Simo Kibondo - 05 de Março, 2013

Artur Lopes, (VICE-PRESIDENTE DA UCI E DA UVP/FPC)

Fotografia: Smo Kibondo

Artur Moreira Lopes é um dos “decanos” do associativismo desportivo em Portugal. O mais antigo Presidente da União Velocipédica Portuguesa/Federação Portuguesa de Ciclismo (UVP/FPC), só não concorreu às eleições para mais um mandato, por força da lei daquele país, que limita a presença de dirigentes federativos a três mandatos. Actualmente, acumula o cargo de Presidente da Mesa da Assembleia da UVP/FPC e o de Vice-Presidente da União Ciclista Internacional (UCI). Em conversa com o Jornal dos Desportos, disse que Portugal tem à disposição dos melhores ciclistas angolanos o Centro de Alto Rendimento daquele país, para treinos com elevado grau de cientificidade e a oportunidade de competirem nas provas portuguesas.

Artur Lopes, 67 anos, é amigo e conhecedor do ciclismo angolano de longa data. Tanto assim é que, num dos seus últimos mandatos como Presidente da UVP/FPC, esteve em Luanda, onde ministrou um curso de organizadores de provas, tendo em vista a realização futura de uma volta a Angola em Bicicleta, pelo que continua a ver com bons olhos a cooperação entre os dois países, mutuamente vantajosa para a modalidade.

“A troca de experiências é sempre vantajosa para todas as partes. Pela tradição de mais de um século - a União Velocipédica Portuguesa-Federação Portuguesa de Ciclismo nasceu em 1899 - acredito que podemos dar algum apoio e formação ao ciclismo angolano.” “No entanto, não acredito em relações paternalistas. Há abertura dos portugueses para cooperarem com os angolanos e, inclusive, já nos oferecemos para acolher, no nosso Centro de Alto Rendimento, os melhores ciclistas desse país, durante algumas semanas, proporcionando-lhes treinos com elevado grau de cientificidade e a oportunidade de competirem nas provas portuguesas. Mas, é importante que sejam as instâncias angolanas a dizerem quais as suas expectativas e necessidades”, realçou.

Ciclismo Africano
no bom caminho


Segundo o antigo Presidente da UVP/ FPC, o ciclismo está a mundializar-se, chegando a todos os continentes. “A África não é excepção, e ainda bem. Há cada vez mais corredores e equipas de outros continentes a competir em provas africanas e há cada vez mais ciclistas e formações de África a integrarem os pelotões das corridas europeias. Penso que se está a pedalar na direcção correcta, uma vez que este intercâmbio de experiências é proveitoso para todas as partes”, sublinhou.

Para o Vice-Presidente do órgão reitor do Ciclismo mundial a presença assídua do Presidente da UCI, Pat MaQuaid, em eventos realizados no continente africano, significa que ele tem estado de corpo e alma com a estratégia de desenvolvimento do ciclismo em todo o Mundo. “A sua presença em eventos africanos tem esse significado e demonstra a importância que esse continente tem para Pat MaQuaid”, reafirmou. Artur Lopes manifestou igualmente o seu regozijo pela reeleição do Egípcio Waghi Azzam para mais um mandato na Confederação Africana de Ciclismo. “Desejo-lhe as maiores felicidades para mais este mandato. Acredito que tem muito trabalho em mãos, mas confio que vai saber levar o barco a bom porto”, felicitou.


PING PONG
"Inscrição do Benfica de Luanda na
UCI pode fazer crescer a modalidade"

Jornal dos Desportos: Fale-nos um pouco do ciclismo nos países de expressão portuguesa?
Artur Lopes:
Fora de Portugal, e entre os países de língua oficial portuguesa, o Brasil é onde o ciclismo mais tem crescido.

JD - E nos Países africanos de expressão Portuguesa, particularizando Angola?
 AL -
De Angola, temos informações mais consistentes, que passam pela criação da equipa continental do Benfica de Luanda/Banco BIC. Penso que a existência de um bloco profissionalizado e a futura realização de provas internacionais são aspectos a ter em conta para o desenvolvimento continental do ciclismo.

JD - Como está o ciclismo em Portugal?
AL -
O ciclismo é um dos desportos com mais tradição em Portugal e, tem sabido desenvolver-se e modernizar-se. . O ciclismo de estrada é a vertente em que a nossa tradição é maior e, neste momento, contamos com seis corredores em equipas do WorldTour, o que é fruto do trabalho de base das nossas Selecções Nacionais. No BTT, que tem crescido exponencialmente em número de praticantes, conseguimos pela primeira vez, em 2012, o apuramento para os Jogos Olímpicos. Em 2009 inaugurámos um velódromo e um Centro de Alto Rendimento, que nos permitem uma aposta mais forte na pista e no trabalho científico de detecção e desenvolvimento de talentos nesta e noutras vertentes.

JD - Quais as disciplinas que mais aconselha a serem praticadas em África?
AL -
Enquanto base de recrutamento de novos praticantes e adeptos, o ciclismo para todos é importante em todas as latitudes. A massificação da prática da bicicleta é essencial. Ninguém se recorda da primeira vez que deu um pontapé numa bola, mas todos nós nos recordamos do dia e da sensação que tivemos quando aprendemos a andar de bicicleta.

JD - Como está o ciclismo feminino em Portugal?
AL -
O número de praticantes tem crescido, mas não tanto quanto gostaríamos e quanto precisamos para que o nível competitivo aumente. Actualmente, essa área, na Direcção da Federação, é tutelada por uma mulher, o que, penso, é um passo importante para a dinamização do ciclismo feminino.

JD - Quais as perspectivas do ciclismo português consigo fora da Direcção da Federação?
 AL -
Cumpri um ciclo na liderança da Federação, durante o qual dei o meu melhor para que o ciclismo se afirmasse como uma das modalidades mais queridas dos portugueses - que sempre foi - e como uma das mais modernas. Penso que consegui atingir grande parte dos objectivos a que me propus e estou confiante de que a nova Direcção elevará ainda mais a fasquia.

JD - O seu sucessor é a pessoa certa para dirigir o ciclismo português nesta altura?
AL -
O novo presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo é o Delmino Pereira, que foi corredor profissional e que conhece a modalidade, nas suas diferentes vertentes, como a palma da própria mão. Tenho com ele uma relação de grande abertura e confio plenamente nele para a tarefa que tem em mãos.

ESCÂNDALO
"Armstrong manchou o Desporto Mundial"

Para o também Vice-Presidente da UCI (órgão reitor do Ciclismo mundial), o escândalo provocado pelo até aqui recordista da Volta a França em bicicleta, o norte-americano Lance Armstrong, prejudicou o desporto mundial na sua generalidade. “O caso de Lance Armstrong é uma enorme mancha para o ciclismo e para todo o desporto profissional, uma vez que é uma figura de impacto global. O que posso dizer é que o ciclismo tomou, há muito, consciência da necessidade imperiosa de combater a dopagem”, afirmou.

Do seu ponto de vista, o desmantelamento do mais sofisticado processo de dopagem jamais visto permitiu mostrar ao mundo, que “estamos muito à frente da generalidade dos desportos nesta luta pela ética e por um desporto íntegro”. “Com as medidas que, entretanto, foram tomadas, entre as quais destaco o passaporte biológico, não é hoje possível a repetição de um caso como o de Lance Armstrong. Actualmente, já houve ciclistas suspensos sem nunca terem acusado positivo num controlo, porque os dados dos respectivos passaportes biológicos permitiram concluir, sem margem de erro, que eles se dopavam”, concluiu.

POR DENTRO

Nome completo: Artur Manuel Moreira Lopes
Filiação: Artur Lopes e Gertrudes da Conceição Duarte Moreira Lopes
Naturalidade e data de nascimento: Lousã, 19/01/1946
Estado Civil: Casado
Filhos: Três, dois homens e uma mulher
Altura: 1,72m
Peso: 75kg
Cor preferida: Verde
Hobbies: Confraternizar com os amigos
Prato preferido: Lampreia
Bebida preferida: Vinho tinto
Cidade: Lisboa
País: Portugal
Casa própria: Sim
Carro próprio: Mercedes
O que mais teme: Falta de saúde na velhice
Acredita no que diz a Bíblia: Não
Religião: Ateu
Alguma vez mentiu: Sim, já todos mentiram, mas são mentiras sem longo alcance.