Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Felipe Cruz promete melhorar seleco masculina de Andebol

Manuel Neto - 30 de Dezembro, 2010

Tcnico quer andebol em todo o pas

Fotografia: Jornal dos Desportos

Fale-nos da sua continuidade à frente da Selecção Senior Masculina de Andebol de Angola. 
Sinto-me bastante satisfeito. A meu ver, este voto de confiança que me foi dado significa que a Federação está atenta ao trabalho que temos estado a desenvolver. Sinto que o elenco federativo acredita na seriedade e, embora no meu clube não tenhamos alcançado os objectivos preconizados, há evolução. Isso deixa-nos mais tranquilos no desempenho das funções. Esperamos tudo fazer para levar o barco a bom porto.

Em algum momento deixou de acreditar na sua escolha, uma vez que havia outros nomes em voga?
Estava preparado para tudo, porquanto podia ser eu ou outro técnico. Todos damos o nosso melhor em prol da modalidade. Talvez seja por isso que a Federação reflectiu na escolha do técnico, o que demonstra que estamos a fazer um bom trabalho. Felizmente, a sorte bateu à minha porta. Apesar disso, acredito que os que não foram escolhidos têm participação no trabalho que se fará na Selecção, pois muitos atletas seleccionados trazem algum trabalho dos clubes, feito pelos técnicos. Gostaria de lhes desejar um óptimo futuro.

Que objectivos procura com o grupo?
Passa por uma grande aposta na juventude, visto que temos como meta fazer boa figura no Campeonato Africano de 2012, apesar de ter assumido o comando um pouco tarde. Falta um ano para a competição e termos, no nosso seio, jovens que precisam de ganhar maturidade e rodagem competitiva, o que implica que devemos acelerar e aproveitar alguns torneios do próximo ano para proporcionarmos a rodagem competitiva necessária e assim atacarmos as competições de 2012 com mais optimismo.

Como perspectiva o Zonal de Apuramento, previsto para Fevereiro de 2011?
É uma competição de que somos candidatos ao apuramento, mas sabemos que requer, da nossa parte, muita responsabilidade e atenção, para não sermos surpreendidos. Acredito que será uma boa competição e servirá igualmente para dotar a equipa de rodagem competitiva. Estamos confiantes de que nos vamos apurar para os Jogos Pan-africanos de Setembro, nos quais queremos atingir os lugares cimeiros, embora saibamos que lá estarão as melhores equipas do continente e o grau de dificuldades será maior. Vamos para a competição para dar o maior número de jogos aos atletas e estarmos mais familiarizados com as competições internacionais. Para a Taça das Nações, a meta passa pela superação da classificação da última edição.

Pelo que diz, está mais interessado no Campeonato Africano de 2012…
Como treinador, sou ambicioso e sei que os meus atletas também o são, pois a maior parte deles já trabalhou comigo. O mesmo se pode dizer da Federação, que também está interessada em ver a nossa equipa no pódio de qualquer competição em que estejamos. Vamos procurar não defraudar as expectativas, apesar de termos consciência de que é difícil, visto que temos pela frente equipas superiores à nossa.

Fraca competição interna
preocupa o técnico


Fale-nos do grupo de trabalho da Selecção Nacional.
A convocatória não está fechada. Encontra-se aberta e os que foram agora convocados, são os que pensamos dar garantias para o Zonal de Apuramento aos Jogos Pan-africanos. Depois, teremos os campeonatos internos e, caso haja jogadores a despontar, claro que terão as portas abertas. Aliás, a Selecção é de todos e não do treinador. Por isso, todos os que estiverem em boa forma, serão fortes candidatos à Selecção.

Tendo em conta as dificuldades enumeradas, como avalia o andebol no país?
De ponto de vista táctico, está a evoluir, mas no aspecto físico-morfológico, deixa muito a desejar. É aquilo que, nos dias de hoje, tentamos buscar nos atletas, procurando sempre aqueles com uma média de altura de 1,90 m e tem sido difícil encontrá-los. Estamos a trabalhar nesse capítulo. Na minha equipa, o 1º de Agosto, tenho esta árdua missão para, no futuro, os problemas físicos jamais nos voltem a assolar. Essa preocupação é de todos os treinadores angolanos. Ainda assim, enquanto a modalidade não for praticada em todo o território nacional, estes pressupostos podem ficar por terra.

No geral, que sector mais o preocupa?
Neste momento, todos, na medida em que o leque de opções é muito reduzido, dependendo apenas de Luanda. Não temos noutras províncias atletas capazes de ser opção. Se continuarmos nesta senda, vamos ter muitos problemas na Selecção. Apenas serão superados quando Angola jogar andebol em todo o território nacional, na medida em que os treinadores já terão um leque maior de opções, sobretudo no que toca à técnica e ao aspecto físico. Por exemplo, hoje, só podemos ter um ou dois atletas de primeira linha, quando devíamos ter sete ou oito. Na segunda linha, temos seleccionados três ou dois, quando devíamos ter 10 ou 20. Em suma, temos dificuldades em encontrar atletas talentosos em todos os sectores.

Acha a competição interna suficiente para dotar os jogadores de rodagem competitiva que permita ombrear com atletas de outros países?
Enquanto jogador na Europa, concretamente no ABC de Braga, em Portugal, na altura uma das melhores daquele continente, por ano, só ao nível de clubes, era capaz de fazer cerca de 40 a 50 jogos, e mais 15 pela nossa Selecção. Estamos a falar de jogos com elevado grau de dificuldade e alta intensidade, pois jogávamos aos fins-de-semana e às quartas-feiras. Acho que um atleta com esse grande volume de jogos tende a evoluir. Respondendo concretamente à sua pergunta, a nível nacional, é muito difícil encontrarmos essas performances, pelo acto de o andebol estar confinado a Luanda. Logo, não temos possibilidade de crescer, por mais que queiramos.Repare que temos uma competição com apenas seis equipas, com níveis que deixam muito a desejar. Assim é muito difícil crescer. Aliás, queremos dar esse salto, mas é preciso ligar o qualitativo ao quantitativo, algo que só é possível com um grande número de equipas.

"Lei do Mecenato pode salvar desporto nacional"

Benguela era um dos grandes viveiros do andebol angolano, mas hoje a realidade é outra. Há meses, assistimos à desistência das equipas seniores femininas do 1º de Maio e do Nacional de Benguela. Penso que tudo passa por questões meramente económicas. Sabemos que os tempos são outros. Aceito que, outrora, Benguela tinha um óptimo viveiro, mas hoje as coisas se inverteram e a província não tem conseguido acompanhar a dinâmica que o desporto impõe, sobretudo no sector masculino. Na classe feminina, ainda temos o Electro do Lobito, que tem dado ar da sua graça. Trabalha-se mais na formação, e essa é a razão que me leva a pensar que tudo isso tem a ver com questões económicas. Piora ainda pelo facto destes, quando atingem a idade de seniores, não encontrarem suporte nos clubes para se manter e dar sequência às suas carreiras.

Que solução para mudar o quadro?
Uma das soluções passa pela massificação da modalidade em todo o país. Acredito que, se as 18 províncias praticarem andebol, surgirão muitos talentos. Não acredito que os talentos só existam em Luanda. Somos cerca de 14 milhões habitantes e, se cada província tiver quatro equipas, os talentos podem aparecer e com eles a qualidade. Acha que a Lei do Mecenato pode ser uma grande

ajuda para sairmos desta situação?
Não tenho dúvidas! Acho que, quando essa lei for implementada, aparecerão muitos clubes no país. Também é verdade que, se os governos provinciais fossem os grandes impulsionadores do desporto local, esta situação estaria mais ou menos resolvida. Falo por experiência própria. Quando jogava na Europa, todos os governos apoiavam o desporto nas suas províncias. Ao mesmo tempo, promoviam-nas e todas tinham uma equipa do topo nas modalidades que pudessem fomentar. Acredito que podemos trilhar o mesmo caminho.

O que acha das infra-estruturas desportivas?
No geral, estamos a começar bem, uma vez que já as temos e com qualidade. Falando das modalidades de sala, do andebol, ainda temos infra-estruturas desactualizadas. Hoje, a nível internacional, compete-se em pavilhões cobertos, ao passo que, internamente, faz-se ao ar livre. Isso tem influenciado negativamente quando competimos fora. Nas poucas infra-estruturas com qualidade, jogamos nelas com irregularidade. Estamos a falar, por exemplo, da Cidadela Desportiva. Infelizmente, o campo do Gama e o Catetão, que têm sido a salvação, não têm um bom piso e o atleta sente receio de desenvolver toda a sua técnica, o que já não acontece com muitos países de África e da Europa.