Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Fernando Mao pendura apito

Manuel Neto - 12 de Novembro, 2009

Fernando Mao, rbitro de futebol, termina a carreira

Fotografia: Jos Soares

Qual é o sentimento, agora que diz adeus à carreira de árbitro?
É o do dever cumprido. Tive bons e maus momentos, durante o tempo em que trabalhei como arbitro. Acredito que tive grande evolução, tendo em conta a diferença da arbitragem que se fazia nos anos noventa e a que se faz hoje. Agora, acho que chegou o momento de abandonar o rectângulo de jogo, dado a idade limite estipulada pela Confederação Africana de Futebol (CAF) que é 45 anos.

Que avaliação faz da carreira ora terminada?
É positiva, porquanto adquiri muitos conhecimentos em termos de regras e leis de futebol e tive maiores contactos com pessoas de todas as classes da nossa sociedade. Viajei muito. Conheço Angola em toda a sua extensão, muito pelo tempo que estive na arbitragem. Por outro lado fiz muitas amizades, convive com pessoas de hábitos e costumes diferentes e, por esta e outras razões, sou considerado uma figura pública.

Quais foram as principais dificuldades encontradas ao longo desse período?
Era, sobretudo, a dificuldade em conciliar a carreira de árbitro com a vida profissional, uma vez que sou oficial superior da Polícia Nacional, dirijo uma unidade policial, e havia falta de tempo para treinos. Depois de uma grande luta para conciliar as duas actividades, consegui encontrar tempo para as duas ocupações. Foi a minha principal preocupação, mas graças a Deus foi ultrapassada.

Quando ingressou na arbitragem?
Abracei esta carreira em 1996, como árbitro de primeira categoria. Fui gostando da coisa e fiquei nesta categoria durante dezasseis anos, tendo permanecido por duas épocas como assistente do malogrado Eduardo Marques. Acredito que prestei o serviço com dignidade e responsabilidade.

Que motivos o levaram a abraçar esse caminho?
Aconteceu numa altura em que jogava futebol, no Moxico, concretamente nas equipas do 1º de Maio, Dínamos e 13 de Setembro. Algum tempo depois, contrai uma lesão e preferi, por conseguinte, enveredar pela carreira de arbitragem, tal como aconteceu com outros colegas naquela altura.

Encontrou dificuldades para se adaptar ao novo desafio, numa altura em que abandonava a carreira de futebolista?
Sim, pois antes era atleta, que sujeitava as decisões tomadas pelos árbitros, e, posteriormente, tornei-me na pessoa que em campo tinha de aplicar as leis. É claro que tinha de encontrar dificuldades!

Com a saída, considera-se totalmente dissociado da arbitragem?
Recentemente conclui um curso para monitores e acredito que vou continuar a formar novos árbitros que futuramente possam aumentar o número de juízes.

“A arbitragem angolana vai mostrar o seu valor no CAN”

Como caracteriza a arbitragem angolana?
É positiva, na medida em que tende a crescer. Se fizermos uma reflexão em torno desta actividade nos nossos dias, comparando-a com há dez anos, podemos concluir que estamos avançados. Basta ver que nos dias que correm já temos árbitros que arbitraram em mundiais de Sub-17, de Sub-20. Alguns participaram na última edição do CAN, com brilho. Outrora, não tínhamos árbitros a participarem em competições organizadas pela Fifa ou pela CAF. Com a realização do CAN no nosso país, teremos mais uma oportunidade de aparecer numa competição internacional para mostrar o valor da arbitragem angolana. Todas essas são premissas que nos levam a concluir que a nossa arbitragem está no bom caminho.

Deste modo, é pertinente aconselhar as pessoas a enveredarem pela carreira de árbitro…
Aconselho, desde que as pessoas sejam sinceras, porque a arbitragem é uma actividade bonita e a actividade é para pessoas honestas, sinceras e humilde. Se assim não for, nunca teremos uma arbitragem condigna. Por isso, aconselho aos interessados a abraçarem-na, com muita responsabilidade, para o bem da especialidade.

Rectidão na unidade
policial e em campo

No exercício da vossa carreira, nem sempre os árbitros são bem vistos, devido a complexidade do trabalho. Fez muitas amizades e inimizades ao longo deste tempo…
Nunca fiz grandes inimizades, porquanto sempre fui uma pessoa que pautou pela imparcialidade. Aliás, dirijo uma unidade composta de 259 homens o que, entre outras virtudes, me obriga a ser recto e disciplinado. Em suma, a maneira que dirijo a “Unidade” não foge muito a da arbitragem. Penso ser a maneira mais correcta de ficar dos dois lados. Imagine se eu fosse corrupto na arbitragem! Que imagem daria aos meus efectivos, uma vez que muitos deles são adeptos de várias equipas?

Que momento mais o marcou ao longo da carreira?
Foi o dos dois derbies que apitei. Primeiro, entre o Petro de Luanda e o 1º de Agosto, e o segundo, que considero mais marcante, foi a grande final de 2005, entre Sagrada Esperança da Lunda Norte e Petro de Luanda, no Dundo. Foi um jogo complicado, em que, aos 28 segundos, o Sagrada Esperança marcou um golo que lhe deu o título de campeão. A moldura humana que abarrotava o estádio quase que me desconcentrava, mas tive de me manter seguro das responsabilidades que tinha pela frente. Tive uma participação positiva e que dignificou a arbitragem nacional.

Arbitrou muitos derbies em Luanda. Quer lembrar?
É sempre motivo de satisfação para qualquer árbitro ver o seu nome a constar em todos os derbies do seu pais. Estive novamente na final da Taça de Angola de ontem, jogo entre o 1º de Agosto e o Sagrada Esperança, o que significa que para as competições angolanas nada me faltou apitar. Apitei, incluindo, jogos decisivos da segunda divisão, entre outros de equipas aflitos.

Há algum segredo por detrás dessa façanha?
O segredo está na honestidade, trabalho e amor pela actividade que temos levado a cabo. Um dos segredos para uma boa arbitragem durante um derbie passa por termos um treinamento específico, pois este tipo de jogo, em toda a parte do mundo, corresponde as maiores decisões de um campeonato. Deste modo, devemos preparar-nos técnica, tática, física, psicologicamente e ainda estarmos ao corrente do sistema de jogo das equipas em confronto; concretamente conhecer os jogadores matreiros, os melhores jogadores e os meigos. Fazendo o estudo de tudo isso, é suficiente arranjarmos um denominador comum para dirigir a partida. Aliás, nestes jogos todo o cuidado é pouco, pois um erro do árbitro pode determinar o seu desfecho.

Esforço recompensado

O que lhe diz a distinção de melhor árbitro, por três ocasiões, pela Rádio 5?
Há um ditado que diz “Quem corre por gosto não se cansa”. Por isso, sinto-me bastante satisfeito pela distinção e agradeço os órgãos de difusão massiva que deram um grande apoio ao longo da minha carreira. Aliás, tinha a cultura de gravar os comentários da rádio, da televisão e de guardar os jornais de todos jogos difíceis que apitava para deles tirar a melhor ilação e, posteriormente, fazer as correcções que achasse conveniente. Acho que valeu a pena, na medida em que o esforço foi reconhecido.

Acredita que os nossos árbitros têm arcaboiço para arbitrarem no CAN que Angola vai organizar daqui a dois meses?
Sim. Tenho confiança que os árbitros de categoria internacionais que Angola tem, como Hélder Martins e o assistente Inácio Cândido, reúnem requisitos para representarem condignamente o país. Tenho fé que farão um brilharete e que deixarão boquiaberto muitos de outros países.

Humildade é o segredo

O que representa para si a Taça de África das Nações Orang e Angola-2010?
Representa um grande evento para o país. Com a sua realização, o país vai atingir um grande desenvolvimento nas mais variadas vertentes, como em infra-estruturas, turismo entre outros ganhos.

Acredita que Angola poderá fazer uma boa figura?
Claro que sim! Hoje, os Palancas Negras têm um novo treinador e dado o novo sistemas técnicos e tácticos que vão ensaiando, leva-me a crer que a selecção atingirá um patamar que dará muitas alegrias ao povo angolano. 

Quer deixar algum conselho para os árbitros que ainda se encontram no activo?
Que cada um deles faça a arbitragem como uma profissão e façam-na com gosto e dedicação, porque as pessoas que estão a trabalhar para o desenvolvimento da arbitragem têm dado votos de confiança aos árbitros. Acredito que caso se os demais colegas fizerem as coisas com amor, dedicação e humildade, vão atingir o patamar que muitos árbitros por este mundo fora atingiram e dignificarão a bandeira nacional.  

>> Por dentro
Nome - Fernando Mação
Idade - 45 anos
Religião – Protestante
Ídolo - Colinas
Filme - Animação (Bonecos)
Equipas - Porto de Portugal e Chelsea da Inglaterra
Prato preferido - Bacalhau a Gomes Sá
Bebida - Vinho
Cidade mais bonita
Namibe e Dubai