Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Fomos Lbia com desvantagem

textos: Manuel Neto | Fotos: Mota Ambrsio - 06 de Dezembro, 2010

Antnio Feliciano, presidente da Federao Angolana de Tae-kwon -do

Fotografia: Mota Ambrsio

Que avaliação faz da participação de Angola na 10ª edição do Campeonato Africano de Tae-Kwon-do realizado na Líbia?
Fomos à Líbia com dificuldade de vária ordem. Por isso, era impossível lograr um resultado positivo. Tivemos a coragem de ir por dois motivos: primeiro, para relançar a modalidade, porquanto estivemos ausentes durante cinco anos e a segunda, para dotar a selecção de uma rodagem competitiva para os campeonatos Panafricanos do próximo ano.

Que dificuldades deparou a selecção nacional?
Foram várias. Houve morosidade no aeroporto para resolvermos o problema dos vistos, que durou aproximadamente uma hora e meia. Depois de algumas horas, tomámos conhecimento de que a bagagem não tinha chegado. Essa situação obrigou-nos a vestir e lavar diariamente o mesmo equipamento, o que era constrangedor. O pior ocorreu no dia da competição. Chegámos ao recinto dos jogos às oito horas e só às 20 horas Angola competiu. Imaginem o sofrimento e o cansaço! Como não bastasse, os protectores utilizados estavam ultrapassados, pois encontrámos em uso na competição os electrónicos.

A mudança da competição para a Líbia, quando inicialmente estava prevista para o Senegal, influenciou no vosso rendimento?
Também contribuiu, porque a viagem para o Senegal ficaria mais barata do que para a Libia, ou seja, os bilhetes custariam 1600 dólares norte-americanos contra os 2230 dólares para a Líbia. Logo se conclui que teríamos a hipótese de levar mais um ou dois atletas com probabilidade de fazermos uma competição mais equilibrada.

Que motivos estiveram na base da transferência da competição?
A AFTU, o órgão que rege a modalidade no continente africano, exigiu alguns requisitos à organização da prova, no caso o Senegal e esta não os cumpriu cabalmente. Os inspectores constataram as falhas e a AFTU decidiu transferi-la para a Líbia, o que levou à participação de apenas 20 países.

Sobre a questão anterior. Está a dizer que os bilhetes consumiram todo o dinheiro à disposição da Federação para a prova, sem espaço para mais um atleta?
Levámos apenas quatro atletas, o Stéfano Gomes, 63 kg, Maquila Carlos, 68 Kg, João Malamba, 87 Kg e Daisy Melim, 57 Kg. Não havia possibilidade para outros atletas por falta de dinheiro para abarcar as despesas de embarque, começando pelas compras dos bilhetes. Por isso, não tínhamos hipóteses de levar o número estabelecido pela organização: 16 atletas.

É a primeira vez que acontece a redução de atletas na delegação angolana?
Não. É uma constante. Sempre que Angola participa numa competição do género tem sido uma das selecções com um número reduzido de atletas, alegando falta de dinheiro. É uma questão colocada várias vezes nas reuniões com o Ministério da Juventude e Desportos, mas nada resulta. Por exemplo, aquando da minha estadia na Líbia, o vice-presidente da Federação participou do encontro com o vice-Ministro Albino da Conceição, no qual a maior parte das modalidades individuais focou esse assunto que ocorre com frequência e continuamos a aguardar pela resolução. São questões que nos impedem de discutir em igualdade de circunstância com outros países. Fomos à Líbia com desvantagem de 12 atletas, o que significa eventual perda de 12 medalhas. Quem sabe se fôssemos com os 16 teríamos conquistado algumas medalhas?

Perante a vossa reclamação, qual é a reacção do Ministério da Juventude e Desportos?
A história é sempre a mesma. O anterior ministro da Juventude e Desportos, Marcos Barrica, havia prometido apostar com seriedade nas modalidades individuais. Nos dias correntes, também se diz a mesma coisa, mas na prática nada transpira. É muito triste para o desenvolvimento do tae-kwon-do.

"Nosso orçamento é irrisório"

Já foram pagos os subsídios da delegação?
Pode parecer mentira, mas a verdade é que até agora não temos subsídios. O dinheiro foi gasto na hospedagem e alimentação. Até ao momento, estamos à espera da atribuição da última tranche do nosso orçamento. Estamos no último mês do ano e queremo-lo na totalidade para suprir as despesas correntes da Federação. Após o meu regresso das competições, apercebi-me de que as federações com situações iguais à nossa já receberam os seus orçamentos. Vamos continuar a aguardar até que o assunto seja resolvido e esperamos que seja com a maior brevidade possível para cumprirmos também com os subsídios da delegação.

O vosso orçamento é saudável?
Não. É muito irrisório, que não nos permite realizar provas nacionais e internacionais. Se realizarmos uma prova nacional em seniores, outra em juniores, então só nos permite realizar uma competição internacional, aspecto que atrapalha os nossos programas de desenvolvimento e nos impede de obter bons resultados nas competições em que estivermos inseridos. A maior parte dos países africanos, sobretudo os do Norte de África, participa em vários torneios até naquelas provas realizadas fora do continente e aparecem competitivamente bem rodados e tornam-se nos papões do continente. Isso não acontece connosco, apesar de termos atletas com igual ou maior potencialidade que os árabes.

Qual é o valor do vosso orçamento estipulado pelo Ministério da Juventude e Desportos?
É apenas de seis milhões de kwanzas, valor que consideramos exíguo para cumprirmos o nosso programa. É o valor atribuído a todas as modalidades individuais.

Como define a vossa relação com o Ministério da Juventude e Desportos?
Temos boas relações com o Ministério, mas os orçamentos reduzidos deixam-nos preocupados. Não conseguimos levar a cabo os nossos intentos; temos imensas dificuldades em desenvolver o tae-kwon-do porque nos dias correntes o desporto não passa apenas pela competição interna. É preciso dotar as equipas com estágios no exterior, trocando experiência com outras equipas a fim de melhorar os níveis e obter a boa forma competitiva.

“Temos um potencial rico”

Foi eleito para dirigir os destinos da Federação. Quais os objectivos que persegue?
Em princípio, a minha eleição deve-se ao Estatuto e ao trabalho que desenvolvi enquanto secretário-geral, acompanhando sempre de perto o malogrado presidente Nzuzi Ndolomingo. Por isso, todas as Associações provinciais deram-me voto de confiança e nessa esteira vou dar continuidade ao trabalho anterior que passa pela revitalização nas províncias. Temos sob controlo nove províncias com sete Associações de Tae-kwan-do, uma de desporto de combate e um núcleo que precisa de ser transformado em Associação. Brevemente vamos deslocar-nos às províncias para legalização da modalidade nas Direcções Provinciais da Juventude e Desportos, porquanto temos um potencial rico em termos humanos.

Que avaliação faz do tae-kwon-do no país?
Está de saúde. Há três meses recebemos três mestres sul-coreanos, que ministraram seminário de actualização aos colegas do Huambo durante um mês, à semelhança do que aconteceu em Luanda no ano passado.

Quais as províncias com bom caminho de desenvolvimento?
Luanda, Benguela, Huila, Cunene e Uíje. Tivemos alguns contactos com a província do Zaire e falta-nos apenas deslocarmo-nos àquela região para a sua legalização. O mesmo pode-se dizer de Cabinda, onde já realizámos um torneio e fornecemos alguns equipamentos.

Angola tem potencial para atingir grandes patamares?
Sim, temos potencialidades para o efeito. O que falta é mais atenção, visto que trabalhamos em condições precárias, com destaque para o campo de futebol-de-salão, cujo piso é impróprio para a prática de tae-kwon-dó. Temos sido acudidos também pelo Centro Fitness, que nos cede o seu espaço, embora também não seja dos melhores, mas dá um grande jeito. Desde já agradecemos à direcção do Fitness. Portanto, as condições de trabalho são muito diferentes das que vimos noutros países, como uma sala com tartan, sacos, dispositivos para musculação e outros objectos próprios para o trabalho.

Como pensam resolver a questão dos espaços condignos para a prática do tae-kwon-dó?
Já identificámos um espaço para edificarmos um Centro de Alto Treinamento com dormitórios, salas de reuniões, treinamento, musculação e uma área de laser para rentabilização, com o apoio dos recursos financeiros da Federação, retirando-a da dependência do orçamento do Ministério da Juventude e Desportos.

E como caracteriza a modalidade em África?
Está igualmente no bom caminho, com particular realce para os países do Norte, como o Egipto, sede da AFTU, Tunísia, Marrocos e Líbia. No último campeonato africano, os quatro países ficaram em cima. Não obstante isso, temos outros países como a Nigéria, Congo e Côte d’Ivoire que também estão a dar bons passos.

Qual é o segredo das vitórias desses países?
O segredo está na boa organização. Têm bons centros de treinamento, estão constantemente na Coreia do Sul, donde o Tae-Kwan-do é proveniente. Tudo isso os torna fortes.

“Não temos árbitro
internacional”


Qual é a realidade da formação dos técnicos?
Não estamos bem, mas temos realizado alguns cursos nacionais e internacionais. No mês de Maio formámos novos árbitros e refrescámos os antigos, tendo em conta a evolução da modalidade. Ainda assim, mandámos dois técnicos à Coreia do Sul para formação.

Quantos técnicos estão controlados no país?
Temos aproximadamente 50 técnicos a trabalhar em diversas escolas espalhadas no país e a tendência é de elevar cada vez mais o número.

Quanto aos árbitros. Qual é a sua situação?
Hoje temos cerca de 60 árbitros que renovam constantemente os seus conhecimentos. Lamento o défice que temos na categoria internacional. O malogrado presidente Nzuzi Ndolomingo era o único que tínhamos. Face à falta de um árbitro angolano de categoria internacional contactei a presidência da AFTU, apresentei a nossa necessidade e garantiram-me que teremos um curso para essa categoria em breve. Neste momento não temos árbitro internacional.

Os árbitros são bem pagos durante as competições nacionais?
Sim. Durante as provas nacionais pagamos de acordo com as categorias que arbitram. Por exemplo, se for os seniores, pagamos um valor diário de 100 dólares norte-americanos por árbitro e na competição internacional depende da organização da prova.