Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"Fui convocado misteriosamente para as selecções A dos Palancas"

João Francisco - 03 de Março, 2013

O jogador chegou às Selecções Nacionais em 1994 de forma “misteriosa” - como ele próprio diz - para preencher uma das vagas deixadas por outros jogadores que foram suspensos por reclamarem melhorias das condições de participação nas competições internacionais. Aurélio Soares de Sousa, 38 anos, ou simplesmente Aurélio, como era conhecido quando jogou como defesa central, acabou por ganhar confiança do treinador cabo-verdiano já falecido, Carlos Alhinho, no Campeonato Africano das Nações (CAN) em 1996 na África do Sul. Aurélio de Sousa foi também convocado pelo professor Manuel Necas, de nacionalidade portuguesa, para representar os Palancas Negras no CAN de 1998, no Burkina Faso. “A minha segunda convocação para a Seleção Nacional, para disputa do CAN do Burkina Faso em 1998, também teve episódios caricatos, pois aconteceu depois de ter estado parado durante algum tempo e sem clube”, revela. Nesta selecção A (como era denominada a selecção de Honras dos Palancas Negras), Aurélio teve como colegas Marito e João Ricardo (guarda-redes), Bodunha, Neto, Hélder Vicente, Akwá, Quinzinho, Paulão e Amaral Aleixo, só para citar alguns.  Aurélio de Sousa esteve em dois CAN, dos sete em que Angola participou, o primeiro na África do Sul (1996) e o segundo no Burkina Faso (1998). Guarda as melhores recordações daquelas competições. No apuramento para o CAN de 98, Angola foi para Yaoundé arrancar um empate (0-0) diante dos Camarões, que na altura alinhou com todas as suas “feras” (os profissionais que actuavam no estrangeiro) e diante de 80 mil espectadores. “Dos profissionais camaroneses que actuavam no estrangeiro destacavam-se Patrick M´ Boma, Rigo Bert Sonhg, Tchami, Tchitong e o falecido Mark Vivian Foé, pelo que considero que foi obra termos arrancado aquele nulo”, recorda. MEMÓRIASAngola vs Namíbia marcou muitoO futebolista, que não passava despercebido no campo devido aos seus 1,90m, destacava-se como um defesa central muito “agressivo”, sem nunca ter magoado ninguém nas quatro linhas. Conseguia sempre jogar de primeira na “zona de risco”, tendo como regra os dois toques (trava/passa). Recorda-se como se fosse hoje da sua estreia na selecção de honras. “O meu primeiro jogo oficial numa selecção de honras foi num confronto entre Angola e a Namíbia, a 21 de Abril de 1994, quando o grupo regressou de um estágio em Portugal e na véspera do jogo se deu conta que um jogador que era habitualmente titular na minha posição, o Chico, estava castigado por acumulação de cartões. O treinador Carlos Alhinho acabou por apostar em mim”, contou.Aurélio acrescentou: “Acho que foi o melhor jogo que efectuei na minha carreira, não desiludi o professor Carlos Alhinho e Angola acabou por vencer (2-0)”. “O meu forte era perder poucas bolas e recuperar muitas outras”, disse. Dos caçulinhas do Alpega o PetroAurélio reconhece, recuando mais no tempo, que não teve grandes feitos quando aos 11 anos começou a jogar futebol nos “caçulinhas da bola” pelo Gelados Alpega, cujos “sabores” atraíram toda a meninada e ele não fugiu à regra. “O meu primeiro treinador foi o ‘kota’ Neves, do Bairro Rangel, que não sei se ainda vive. Transferi-me um ano depois, com 12 anos, para as escolas dos escalões de formação do Petro, porque a anterior equipa não possuía escalões e segui os meus amigos que também estavam interessados em fazer carreira no futebol, tendo-os acompanhado”, disse.No Petro, Aurélio conta que aprovou nos testes coordenados pelo professor Carlos Silva, já falecido, que era o responsável pelas camadas jovens dos “tricolores”. O treinador era o ‘kota’ Santana (pai do Santana Carlos), uns dos actuais supervisores dos infantis do mesmo clube.“Joguei no primeiro ano como juvenil, tendo uma época tão desastrada que até cheguei a pensar em desistir, porque fizemos um jogo no qual lutávamos para nos qualificar e acabámos por perder. Só permaneci no futebol a pedido de Carlos Silva e do meu amigo Benjamim, que me aconselharam muito, acabando por ficar quando vi que as coisas com trabalho melhoraram”, confessa.MOMENTOSNa época 1992/93 foi convocado Aurélio revelou-nos que nos juniores não teve grande protagonismo. “No meu último ano de júnior sou convocado para a Selecção de Honras, um tanto ou quanto misteriosamente, porquanto foi na véspera de um confronto com o Egipto que fui chamado à última da hora para substituir um dos jogadores suspensos por fazerem algumas reivindicações.” Entre os suspensos destacavam-se Lúcio (guarda-redes), Zacarias, Ivo, Neto, Chico, Russo, todos do 1º de Agosto, que exigiam melhores ajudas de custo e outras condições para viajarem e jogarem pela Seleção Nacional. “Numa conversa mantida recentemente com o ‘kota’ Dantas Cardoso, fiquei a saber que teve que se recorrer às inscrições dos clubes que tinham dado entrada na Federação Angolana de Futebol (FAF), onde foram escolhidos os atletas de menor idade, muitos dos quais nem sequer tinham actuado em nenhum Girabola, entre eles eu”, disse. OUTRAS PARAGENSPassagens efémeras por vários clubes  Aurélio, que jogou sempre como titular naquela fase revolucionária de Goico Zec até 1995, teve uma passagem efémera no Progresso no ano seguinte, onde ficou apenas cinco meses, tendo o privilégio de ter ganho uma Taça de Angola quando a equipa do Sambila defrontou na final o Independente do Tômbwa. Em 1997 regressa ao Petro Atlético, onde fica mais seis meses, sob o comando do brasileiro Jorge Ferreira, transferindo-se depois para a Académica de Coimbra, para viver a sua experiência profissional no futebol português, levado pelo actual treinador do Recreativo do Libolo, Henrique Calisto, na altura um dos “olheiros” de equipas portuguesas em Angola. POR DENTRONome completo: Aurélio de Sousa SoaresFiliação: Manuel Pedro Soares e Benvinda Joaquim Local e data de nascimento: Luanda, 18 de Abril de 1974Estado Civil: CasadoFilhos: QuatroAltura: 1,90 mPeso: 95 kgNúmero de Camisola com que habitualmente jogou: 13Prato Preferido: VariadosPerfume: Terre D´hermesBebida: CervejaPrato preferido: Bacalhau a LagareiroCor: VerdeAlguma vez mentiu: SimCidade: Coimbra País: AngolaReligião: Cristão praticante (posso enquadrar-me em qualquer religião, desde que fale de Cristo)Sonho: Ver o Petro a ganhar a Liga dos Campeões