Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Futebol angolano está num Pântano

Augusto Panzo - 11 de Novembro, 2014

Rui Araújo está convicto de que a FAF vai corrigir o erro devido à utilização irregular do atleta Gildo Bunga

Fotografia: Santos Pedro

A direcção da Federação Angolana de Futebol (FAF), presidida por Pedro de Morais Neto, não está  a realizar um trabalho que corresponda aos anseios pelos quais foi eleita pelos associados e clubes. Quem o diz, é o vice-presidente de direcção do Estrela Clube 1º de Maio de Benguela, Rui Araújo, em entrevista ao Jornal dos Desportos. O vice-presidente do clube proletário assegura que “em Angola não existe verdade desportiva” e que se não houver medidas coerentes, respeito pelos regulamentos e pelo trabalho dos ditos clubes pequenos, o futebol de primeira categoria pode tornar-se  “num futebol de bairro”.Com isso, Rui Araújo que considera a FAF amorfa, espera que a direcção presidida por Pedro Neto deixe de usar dois pesos e duas medidas para casos semelhantes e que julgue com coerência os protestos apresentados pelo Clube 1º de Maio de Benguela contra o Interclube e Sporting de Cabinda.   

A 36ª edição do Campeonato Nacional de Futebol da Primeira Divisão terminou há uma semana,  com ele, os seus problemas. Que avaliação faz do Girabola 2014?
Infelizmente, tenho de fazer uma avaliação deste Girabola em dois parâmetros. Um desportivamente e outro administrativamente. Penso que no aspecto desportivo, é aquilo que nós já esperávamos: um Recreativo do Libolo consagradíssimo e os outros clubes naturalmente, que sem as condições dos grandes clubes, uns permanecem na Primeira Divisão por direito próprio e outros descem de divisão por demérito próprio.

Com base neste ponto de vista, considera o Libolo um justo campeão?
Efectivamente, sem margem para dúvidas. Foi a equipa mais eficiente e quando assim acontece, não pode haver razões para denegrir o trabalho dos outros.O senhor fala em alguns clubes com condições e outros não, o que propicia a  permanência de uns na Primeira Divisão e outros acabam por descer para outro plano. Está a querer dizer que existe alguma discriminação.Exactamente, porque até isso, vê-se a olho nu. E está conjugado no aspecto global de que enquanto houver essa discriminação, essa desigualdade entre  clubes, o nosso futebol não vai a lado nenhum e arriscamos que uma parte das províncias de Angola nunca vão ter acesso ao Girabola.

Na sua óptica a que se deve então?
Isso é produto de um trabalho que nós pensamos a Federação Angolana de Futebol (FAF), não estar a corresponder aos anseios pelos quais nós elegemos essa mesma Federação.

O que efectivamente quer dizer com isso?
Infelizmente, na Federação existem pessoas que se encorajam na tomada de decisões e desencorajam no modo como as coisas podem caminhar com a devida tranquilidade. Isso foi um facto no Girabola de 2014, nós lamentamos muito, mas a verdade é que não se pode escamotear. Felizmente, na mesma Federação também existe gente com credibilidade, que merece o nosso respeito.

Com que fundamentos o vice-presidente Rui Araújo afirma?
Com fundamentos notáveis mesmo pelos menos incautos. Nós fomos penalizados pela FAF por factos concretos, em que um jogador do Interclube joga no Girabola com quatro cartões amarelos, sem que para tal a FAF o penalizasse. Ora, isso é anti-regulamentar e anti-ético. Naturalmente que os regulamentos são bem claros nesse aspecto e dizem que quem comete esses erros tem de ser penalizado. E é isso, que nós estamos a pedir, que os prevaricadores sejam penalizados em benefício daqueles que suportaram essa situação negativa, que obrigou o 1º de Maio de Benguela a tomar uma posição de solidariedade para com os outros clubes menos cotados no Girabola.

De que posição de solidariedade se refere?

Apresentámos um duplo protesto. Um ligado à má qualificação do jogador do Interclube na partida contra nós, e outro relativo à má inscrição de um atleta do Sporting de Cabinda.

Fica-se com a sensação de que os dirigentes do 1º de Maio de Benguela têm alguma coisa contra o Interclube?
Nem pensar. Pelo contrário, respeitámo-lo, mas isso não obsta a que nós, como dirigentes do 1º de Maio, não possamos defender o nosso clube até às últimas consequências. Só pedimos que haja coerência da parte da FAF na análise dessas questões.

CONSTATAÇÃO
“Podemos ficar frustrados”


O vice-presidente do 1º de Maio de Benguela acredita que um assunto que envolva o Interclube, um dos considerados grandes do Girabola, tal como fez referência, tenha solução desfavorável  para com esse mesmo clube?
Pode sim. Só que nós já não acreditamos nos órgãos que nos regem na Federação, e nós temos de dizer isso sem receio, com a devida frontalidade que nos caracteriza. Neste momento, a FAF está amorfa porque nós acompanhamos a par e passo o que se passa com a nossa Selecção Nacional de futebol, que também se consubstancia na parte desportiva dos clubes. É isso que está a acontecer e não devia ser assim. Tenho muito respeito pelo general Pedro Neto, mas deixa-me dizer na minha óptica, que  na Federação Angolana de Futebol (FAF) o vértice foi invertido. Não sei se as pessoas vão entender o que quero dizer com isso, mas a realidade nua e crua, é essa. É necessário pô-la outra vez no caminho certo, para que o futebol nacional possa sair a ganhar.

Por que  razão afirma isso?

Deixa-me lembrar-lhe que 2015 pode ser um ano extremamente importante para o nosso país. É necessário então que entremos nesse ano com tranquilidade e respeito por tudo que é instituição.

Quer com isso dizer que a FAF está a usar dois pesos e duas medidas para casos semelhantes?
Essa é a realidade. A FAF está a utilizar uma forma de proceder contra um clube, que infelizmente é pequeno e parente pobre, mas que deve merecer o respeito de todos porque perante a lei somos todos iguais, e usa um procedimento antagónico em relação ao clube grande. Isso entristece-nos , faz que comecemos a ficar frustrados até ao ponto do nosso trabalho não ser mais aquele que podia dar-nos  coragem e alegria para o fazer, porque as coisas estão distorcidas.

AVALIAÇÃO
“Futebol está
num pântano” 


Com todos esses erros de gestão na FAF, o vice-presidente, acredita que em Angola há verdade desportiva?
Negativo. Em Angola não existe verdade desportiva.  

Pode fundamentar isso?
Não. Neste momento, eu não queria muito entrar por esse caminho, porque o que me trouxe a Luanda é simplesmente à procura da justiça em relação ao 1º de Maio de Benguela. Estou plenamente convencido, que depois da entrevista que dei na TV Zimbo, da qual até recebi respaldo de muitos responsáveis do país, que sabem que nós temos razão, e que o futebol tem de mudar, a verdade desportiva tem de vir ao de cima.

E para que tal aconteça,
o que se deve fazer?

É preciso que se dê uma volta ao futebol, porque ele está num pântano. As pessoas não querem dizer a realidade das coisas, e não pode ser só uma ou duas pessoas a falarem. Têm de ser um conjunto de pessoas, para tirarmos o futebol do pântano onde está encalhado, porque veja por exemplo, quantas e quantas vezes o 1º de Maio foi espoliado de pontos por pessoas que até não têm nada a ver com aquilo? Por isso, a verdade desportiva em Angola está muito longe de ser realidade.

E com base nessa distorção, acredita que a FAF possa rever os seus procedimentos com relação a esse assunto?      
Quando eu digo na FAF existem pessoas inteligentes, é real,  quando digo que a pirâmide está invertida, também é real. Agora, é preciso entender bem do porquê que estou a dizer que a pirâmide está invertida. Mas estou convencido que o senhor presidente da FAF, general Pedro Neto, por quem tenho muito respeito e consideração,  vai ter de mudar isso tudo, mas absolutamente tudo.

Como ?
em de  tomar as rédeas disso, sob pena de amanhã as pessoas começarem a duvidar também da sua capacidade.

Mas o próprio presidente da FAF já reconheceu que o futebol angolano está mal...
Claro que o futebol angolano está muito mal e assim não vamos a lado nenhum. Gastam-se rios e rios, montões e montões de dinheiro por uns, outros não têm que gastar, mas o futebol nacional está moribundo. E sinto que a  continuar assim, o futebol de primeira categoria vai tornar-se  num futebol de bairro.


ENTREVISTA   RUI ARAÚJO
"Jamais aceitaria um suborno"


Alguma vez  esteve submetido a  suborno numa fase conturbada do Girabola, como aquela que se vive nas últimas jornadas da segunda volta?
Não. Nunca e jamais aceitaria um suborno. Sou modesto. Não sou rico. Vivo do meu salário da reforma, mas jamais consentirei a quem quer que seja, que me tente corromper. Nunca, mas nunca mesmo.

O inverso também nunca aconteceu consigo, em função da própria dinâmica que o futebol impõe?    
 
Não. Eu gostaria que o senhor jornalista me compreendesse. Ando no futebol porque gosto da modalidade. Não ando nisso à caça de lugares. Não preciso, porque fui funcionário sénior do Ministério das Finanças, estou reformado e sinto-me bem. Daí, que não procuro misturar-me com corruptos, nem com corruptores. Isso não faz parte da minha vida.

Que 1º de Maio de Benguela vamos ter em 2015, caso a FAF não homologar a vossa descida de divisão?

Deixa-me ser sincero e claro, o 1º de Maio não vai descer de divisão, vai permanecer no Girabola. A documentação de que dispomos leva-nos a crer, que isso não pode acontecer.

Por quê?

Porque se houver justiça dentro do futebol angolano, a documentação que temos é suficiente para dar razão ao nosso clube e a outros que saíram prejudicados com isso, como o União do Uíge.

A que documentos o vice-presidente se refere?
Refiro-me aos comunicados oficiais onde constam o nome do jogador Gildo Paulo Bunga, do Interclube, com as respectivas admoestações registadas e advertências.

Acredita que a FAF é capaz de prejudicar um clube tão importante como o Interclube, tal como o vice-presidente disse no princípio, em detrimento de um pequeno como o 1º de Maio de Benguela ou mesmo do União do Uíge?
Já disse no início que na FAF existem pessoas de bem, com capacidade de reconhecer e corrigir os erros cometidos pelos seus companheiros.Com base nesses elementos, tenho a certeza de que o assunto deverá ser tratado com o mesmo peso, para com os clubes envolvidos.

O senhor não respondeu directamente a questão…
Sim senhor. Respondendo concretamente à questão sobre que 1º de Maio teremos em 2015, não lhe posso adiantar ainda nada, na medida em que esse clube vai realizar as suas eleições em Dezembro, para a renovação de mandatos de direcção. Esta direcção actual está quase diluída.Tem três ou quatro elementos a tomarem conta do 1º de Maio e a chamar a si as coisas imediatas.

Quer dizer que  ainda não pode assumir nada sobre o que será a equipa no próximo ano?

Efectivamente. Não podemos assumir coisas que possam lesar a futura direcção. Vamos aguardar com tranquilidade as novas eleições, para ver ser o clube vai ter uma direcção completamente coesa. Ainda assim, perspectivo que se forem eleitas as pessoas que conheço, penso que vão fazer um bom trabalho. Porém, é necessário que instituições governamentais também assumam a sua quota-parte, porque o futebol é socialmente útil para uma sociedade moderna, como a nossa. É preciso que se adoptem medidas concretas, para que se apoiem quem faz com que essa sociedade seja moderna, no caso, os clubes, tanto os da capital, como os das províncias.

GESTÃO
“Fizemos uma
grande engenharia”


O vice-presidente Rui Araújo avança que o clube recebeu do empresário Bento dos Santos “Kangamba” a quantia de um milhão e 290 mil dólares. Contudo, especula-se que o valor está muito abaixo do real, fala-se em seis milhões de dólares. O que tem a dizer?
Não senhor. É verdade que é isso, que  se consta cá fora, de boca cheia, que o 1º de Maio de Benguela recebeu seis milhões de dólares do empresário Bento Kangamba. Isso não condiz com a verdade, porque o que recebemos é aquilo que eu estou a dizer.

Quer dizer que há muita falácia à volta de tudo isso?

Lógico que sim. Eu desafio  quem quer seja, com um milhão e duzentos e noventa mil dólares  gerir o 1º de Maio. Não fica dois meses. Vai-se embora.

Quer com isso dizer que foi difícil um valor exíguo como esse, em função das necessidades que o próprio clube tem?

Meu caro amigo, sem querer me vangloriar, foi com esse dinheiro que fizemos uma grande engenharia financeira, que conseguimos levar a equipa até ao fim do campeonato e que nos penalizou também.

Em que vertente?
Porque as pessoas pensaram que o nosso fracasso se deveu a uma suposta má utilização do valor e isso não é verdade. Aliás, fala-se que o 1º de Maio de Benguela teve uma época ofuscada porque a sua direcção não está organizada. Nego categoricamente isso, na medida em que o nosso clube foi dos primeiros deste país, a chegar o mais longe possível nas Afrotaças.  Só isso demonstra que somos organizados.

PATROCÍNIO
Vice-presidente do 1º de Maio
valoriza parceria com Kangamba


Que relação existe entre o empresário Bento Kangamba  e o Clube 1º de Maio de Benguela?
Bem, eu não vou esconder nada. As relações entre o empresário Bento Kangamba e o 1º de Maio são excelentes. Aliás, basta dizer que foi Bento Kangamba quem nos apoiou, apesar do valor que nos foi atribuído não ter sido suficiente para terminarmos o campeonato. Por outro lado, ainda na senda dessa relação, o mesmo empresário e dirigente desportivo, garantiu-nos de que até ao dia 31 de Dezembro, o 1º de Maio ia entrar para o ano de 2015 sem nenhuma dívida para com ninguém. Foi ele quem salvou a nossa equipa, e é bom  termos coragem de reconhecer isso, porque não vale à pena estar a escamotear as coisas. Agora, que se fale muito na organização, em que se acusa o 1º de Maio como desorganizado, não concordo. O 1º de Maio está pura e simplesmente organizado.

Então onde é que reside o mal?

O que se passa é que nós fomos agraciados com um milhão, duzentos e noventa mil dólares, por esse empresário, e a minha pergunta é quem pode com um orçamento desses, fazer um campeonato condigno?. Não acredito que uma organização que não esteja assente em bases financeiras sólidas, consiga sobreviver à essa tempestade com esse orçamento.

Esse valor chega para as encomendas?
Meu amigo, eu desafio a quem quer que seja, se na realidade alguém consiga fazer um Girabola com esse valor. Com um milhão e duzentos e noventa mil (1.290.000.00) dólares ninguém consegue fazer um campeonato tranquilo.

Pode fundamentar isso?
Claro, mesmo sem precisar de entrar em pormenores, posso fundamentar isso ligeiramente. Digo-lhe que existem equipas no Girabola que gastam este valor só na contratação de um jogador. Não vou entrar em detalhes, mas asseguro-lhe que tem clubes do Girabola que desembolsam esse valor só para um atleta. 

De onde vem essa relação com o empresário Bento Kangamba?

Sabe que para além de Luanda, o senhor Bento Kangamba tem interesses económicos em muitas províncias do nosso país. E naturalmente que Benguela não foge à regra. Ele por exemplo, está a construir um hotel na Catumbela e sente que realmente, dentro das suas possibilidades pode ajudar um clube pelo qual nutre simpatia, no caso, o 1º de Maio de Benguela.