Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Futebol Angolano precisa de nova Poltica

Valdia Kambata - 20 de Setembro, 2010

Paca lvaro Garcia forma atletas africanos na Alemanha

Fotografia: Paca lvaro Garcia

É treinador de uma equipa alemã, depois de duas décadas de integração. Como define a Academy Africa?

É uma equipa de futebol que representa os cidadãos africanos, aqui, na Alemanha. Ou seja, é uma e equipa africana na Alemanha.

Que objectivos estiveram na base da criação da equipa?

Muitos jovens vêm para Europa à procura de melhores condições de vida. Estamos aqui para os ajudar, em particular, os angolanos, e, no geral, os africanos. O nosso principal objectivo é a formação de jovens angolanos ou de outras nacionalidade através do desporto, no caso, o futebol.

Tem parcerias com clubes alemãos?

Nesse momento, não temos parcerias, infelizmente. Mas, desde o ano passado, o antigo jogador da equipa 1860 Munch cademieen (Lowe), Fredy Heib, está em contacto com Academy Africa sobre alguns talentos. Já temos alguns jovens angolanos seleccionados que podem entrar numa das equipas profissionais alemãs nos próximos tempos, se tudo correr bem.

Quem são esses atletas e para que clubes vão?

Por enquanto é segredo. Quando tudo ficar acertado, vamos informar.

Quantos jogadores estão sob as suas ordens?

Temos 30 atletas, dos quais 60 por cento são angolanos. Portanto, 18 atletas são de Angola.

A Academy Africa é constituída apenas por jogadores africanos?

Não. Temos atletas de várias nacionalidades, alguns são desse país, Alemanha. A maioria é africana e com predominância de angolanos.

Academy Africa forma jogadores para exportar?

É nosso desejo formar jogadores e disponibilizá-los para o mercado. Vamos continuar a trabalhar no sentido de materializarmos o desejo e rentabilizar a equipa. Quiçá, poderemos ter alguma autonomia financeira.

Já pensaram vender para as equipas angolanas?

Já. Estamos também a trabalhar nesse sentido, porque muitos jovens querem regressar à pátria. Acredito que vão conseguir impor-se nas equipas angolanas com muito trabalho. Os nossos jogadores têm talento de sobra.

Como está a Academy-Africa financeiramente?

Não estamos bem. Estamos à procura de patrocinador, pois há falta de dinheiro para resolver os problemas. Dependemos da voluntariedade dos membros que se manifesta da boa vontade.

Como está o clube a nível de infra-estruturas?

Para um clube amador, estamos bem. Temos condições próprias, graças ao contributo dos membros. Ainda assim, todo o patrocínio é bem-vindo. Podemos dizer as infra-estruturas são aceitáveis.

Já disputaram algum campeonato na Alemanha?

Iniciamos o Campeonato Amador de Futebol em Muniquen e no jogo inaugural ganhámos por 5 - 3. O objectivo nessa competição é fazer um bom campeonato, pois é dessa maneira que ganharemos mais visibilidade na Alemanha.

"Estou a formar homens
não só para o desporto"

É difícil ser um treinador na Alemanha?

Não. É necessário ter muita força de vontade. Para uma equipa amadora não se exige muito, embora tenha alguma formação em técnica desportiva, feita nesse país.

Que história carrega como futebolista?

Joguei muitos anos na equipa Fabril, na província do Uíje. No ano de 1986/87, tive sucesso no futebol local e recebi muitos prémios que os guardo com carinho.

Quem foram os companheiros na equipa?

Joguei com muita gente. Alguns já não os recordo. Lembro-me do Nzinga, Lukau, Platini, Joy, entre outros.

O que lhe levou a imigrar na Alemanha?

Sempre tive um sonho de viver no exterior e aproveitei a primeira oportunidade de vir para Alemanha. Vivo nesse país há mais de 20 anos e, graças a Deus, estou bem. Ajudo muitos compatriotas que também tiveram o mesmo sonho.

Com a sua integração nas terras bávaras, jogou como atleta profissional?

Não. Faltou-me sorte.

A adaptação foi fácil?
 
Adaptei-me com facilidade e sem grandes transtornos. O meu desejo era viver aqui e consegui. O restante seguiu a sequência da vida: familiarizar-se à vivência, aos hábitos e aos costumes do povo alemão.

O que fazia antes de se tornar o treinador?

Como não consegui jogar nos grandes clubes profissionalmente, preferi jogar em pequenas equipas amadoras nos campeonatos distritais.

Do que mais gosta na profissão de treinador?

Dar conselho aos jogadores. Sinto que aprendem muito. Quando estou a dar os treinos, sinto que estou a formar homens, não só para o desporto, mas para a vida inteira.

"Estou disposto a treinar
qualquer equipa no país"

Como avalia o actual momento do futebol angolano?

Em função dos resultados, não estamos bem; muita coisa tem de ser feita. Embora esteja distante, acompanho e vejo que falta uma política para o futebol.

O que deve ser feito para melhorar a qualidade do futebol praticado?

Temos muito a fazer para o bem do nosso futebol. Por exemplo, necessitamos de infra-estruturas para motivar os jovens. Não podemos deixá-los fazer a formação em campos sem condições, sem relva. Dessa maneira não se vai formar bons jogadores. Temos de criar Escolas de Futebol no país, bem como apoiar as que já existem. Criar parcerias no estrangeiro, não só no futebol, mas no desporto, em geral.

Os técnicos de formação não estão habilitados academicamente. Até que ponto, isso se repercute na qualidade do futebol de Angola?

É indispensável que todas as equipas possuam um treinador com formação para exercer o cargo. Esse é o primeiro passo para a
construção de uma boa equipa e é a forma mais correcta. É também importante que o treinador tenha a paixão pelas camadas de formação para se poder entregar ao projecto. Treinar jovens não é o mesmo que treinar seniores. Uma vez que estamos limitados a acções de formação, há sempre formas de nos actualizarmos com todos os meios que dispomos como a Internet. Depois há que saber transpor para o campo toda a aprendizagem para que não fiquemos apenas com os diplomas arrumados na gaveta.

Que sentimento lhe vem a alma ao constatar que Uíje não tem equipa no Girabola?

Uíje é uma província que sempre teve bons jogadores. Há muito tempo, não temos equipa no Girabola. É chegado o momento de relançarmos o futebol na província. Em primeiro lugar, é fundamental organizarmo-nos, criar os organismos e as condições para o relançamento.

Quais os momentos mais importantes que recordas do futebol em Angola?

Quando joguei no Fabril do Uíje, dispúnhamos de uma equipa forte, que várias vezes participou no campeonato nacional. Por outro lado, muitas pessoas marcaram-me, casos de Vicy, Jesus, Maluca, Lufemba, N’dungidi e André. Eram verdadeiros craques daquela época e do nosso futebol.

Que títulos mais importantes lhe marcaram?

Dois títulos do Campeonato provincial e o apuramento ao Girabola.

Recebeu algum convite para treinar equipas angolanas?

Nunca recebi. Caso receba, estou disposto a treinar qualquer equipa em Angola, no meu país. É desta forma que darei o meu contributo para engrandecimento da Nação.