Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

"Futebol uma actividade econmica"

07 de Fevereiro, 2017

Com uma frase do genial poeta Fernando Pessoa, Deus Quer, o Homem Sonha, a Obra Nasce.

Fotografia: Eduardo Padro

JD – Como vê o estado do futebol angolano?
Como disse, anteriormente, temos de mudar de paradigma. O futebol no mundo, é uma actividade económica e já não se compadece com amadorismo e isolacionismo. Temos de percorrer os passos necessários desde a base, para readequar instituições e processos, até chegarmos à alta competição. E isto, não se faz em um ou dois anos. Mas já perdemos muito tempo sem nada fazer. Parece até que todos sabemos o que fazer, mas não se faz, por inércia. Espero que o novo elenco federativo, que está com intenções de efectivamente mexer com o “status quo”, possa ter competências para levar a tarefa com sucesso.

JD – Com a actual realidade económica e financeira que o país atravessa, como vê a sustentabilidade dos clubes em Angola?
Temos todos de mudar de vida. Ou seja, ser mais rigorosos, mais eficientes, pois estamos em tempos de vacas magras. Cada clube é um caso. Nós, no Libolo, temos vindo a fazer um exercício para baixar orçamentos, desde há dois anos. Os tempos estão difíceis, mas ainda cá estamos. Vamos todos de ter muita paciência, e procurar sempre cooperar para que o clube atravesse esta fase, sem grandes sobressaltos. Pois incidências sempre há nestas alturas, e mais do que nunca o grupo tem de se manter coeso. Aliás, temos um excelente grupo nesse aspecto. Há sempre uns alarmistas de serviço, que pensam logo em abandonar o barco. Mas os clubes saberão contornar as dificuldades. O Libolo respeita sempre com as suas responsabilidades. E, se em tempos difíceis não as podemos cumprir de imediato, acabamos sempre por respeitar, assumir e cumprir.

Há um clube, que durante quatro anos, teve orçamento praticamente ilimitado, e inflacionou o mercado de atletas, técnicos e até dirigentes. O Libolo fez um esforço enorme para manter a maior parte da sua estrutura durante esse tempo. Agora, esse clube desiste e deixa o ónus de ter inflacionado orçamentos a outros clubes, incluindo o Libolo. E, ouvi muitas vezes , que aquilo era um “projecto”. É destes exemplos que não precisamos mesmo, no futebol angolano e africano. Isto destrói o futebol. Da nossa parte teremos sempre uma postura mais responsável.

JD – Que hipótese tem Angola de estar presente no CAN 2019, nos Camarões?
Nós temos uma das economias africanas do top 5. Temos o vigésimo quinto futebol de África. Algo não está certo. Como disse, anteriormente, temos de mudar de vida e fazer as coisas certas, sempre com o sentido de planear, organizar, executar e controlar em termos de feedback. Se não for assim, poderemos de vez em quando participar num CAN, mas de forma esporádica, por factores aleatórios, sem que a participação seja resultado de uma política e acções consistentes. Por isso, as hipóteses são as mesmas de sempre. Ou seja, pode ser que os ventos se conjuguem...

JD – E, como viu a arbitragem em Angola ao longo dos anos?
Quando o Futebol não está bem no seu todo, o sector sensível da arbitragem não pode estar bem. Em diversos aspectos. Para o grande público, a questão resume-se a erros praticados durante um jogo, mas por trás disso, há todo um conjunto de motivos que são consequência, como formação, motivação, gestão de carreira.

Vi coisas muito negativas na arbitragem, ao longo dos tempos. Mas o que se passou em 2013 e sobretudo em 2016, não tem paralelo. Já tinha assistido à arbitragem da miséria, mas na época passada assisti à miséria da arbitragem. E, o conselho central de árbitros foi muito responsável por isso, a par de alguma imprensa desportiva.

E, não serve invocar que é um problema que se coloca em todas as latitudes do mundo. Na CAF, onde tenho falado bastante sobre o problema, e coloco lá aos responsáveis da arbitragem do continente, o que se está a passar aqui com todo a frontalidade, e fico com a percepção de que já caímos no “grau zero da escrita”, quando se trata de arbitragem. O que é injusto para alguns árbitros de boa qualidade, que nós temos, mas que foram afastados do nível internacional por conveniência. E, por consequência, agora temos árbitros internacionais que não vão apitar jogos internacionais. Na melhoria global que se pretende para o nosso futebol, temos todos de tudo fazer para melhorar também este aspecto.

JD – Como gostaria de terminar esta conversa?
Com uma frase do genial poeta Fernando Pessoa, “Deus Quer, o Homem Sonha, a Obra Nasce”.