Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Futebol vai mal em Malange

Augusto Panzo e Avelino Umba - 14 de Setembro, 2010

Mrio Machado defende apoio do Governo de Malange

Fotografia: Avelino Umba

Como caracteriza o estado do futebol em Malange?

O futebol vai mal por uma razão: não se está a apostar na formação de talentos e no surgimento de infra-estruturas desportivas; as poucas que existem estão votadas ao abandono por falta de manutenção. Não há acompanhamento rigoroso de quem de direito. O desenvolvimento de uma determinada modalidade desportiva não passa apenas pelo surgimento de talentos e novas infra-estruturas desportivas, mas também pela formação de quadros técnicos capacitados nas mais variadas vertentes, quer no dirigismo desportivo quer na área técnica.

As equipas locais baqueiam na Segundona. O que se passa?

Os campeonatos provinciais são fracos e pouco competitivos devido à ausência ou ao reduzido número de equipas participantes. Às vezes, realizámos campeonatos com três ou quatro equipas. O número é insuficiente e torna a competição débil. Temos ainda a agravante de as equipas locais, ao chegarem à Segundona, não encontrarem os apoios necessários, o que lhes leva sempre a desistir. No entanto, conjugados todos esses factores, o futebol vai mal em Malange.

Qual seria o remédio para alterar o quadro que se apresenta negativo?

Os problemas estão identificados. Só precisam de uma boa vontade de outras estruturas que superintendem o desporto, dando maior ênfase ao futebol, por se constituir num dos principais factores de unidade nacional. É uma modalidade colectiva que move multidões e une as pessoas em qualquer parte do mundo. Por essa razão, tem de se apostar mais no surgimento de infra-estruturas futebolísticas e na formação de quadros, e o Estado tem de desenvolver o papel de massificador.

E qual seria a quota dos clubes nesse processo?

Defendo que surjam clubes fortes e com alguma organização administrativa. Para além disso, defendo o futebol profissional no país. Hoje, o futebol não pode ser visto como desporto de lazer. É hora de se profissionalizar os clubes e a Associação Provincial de Futebol.Com esses pressupostos, Malange pode inverter o quadro negativo.

Como enquadrar a profissionalização de clubes e da associação sem a componente financeira? Não existe no país a Lei de Mecenato que possa incentivar os empresários

O apoio financeiro deve surgir das engenharias legais e possíveis, pois é o elemento fundamental para um bom andamento de qualquer projecto. Deve contar com o abraço quer da classe empresarial quer da sociedade em geral. Aliás, os clubes deveriam transformar-se em empresas, de maneira a sustentarem-se. O actual elenco do Governo provincial também deveria ter uma política virada para essa vertente, de forma a ajudar as equipas que estivessem em condições de representar a circunscrição em determinadas competições futebolísticas. O desporto é um meio de publicitar o nome da província e Malange deve seguir as peugadas dos anteriores governadores.

Existe alguma lei que obriga o Estado angolano a prestar apoios aos clubes?

Não existe lei que obriga o Estado angolano a apoiar os clubes. Mas como se trata de algo que serve para elevar o nome da província, não seria desperdício se assim os governos provinciais fizessem. No caso local, defendo que se deveria criar uma cláusula ou rubrica no orçamento da província de Malange, que se destinasse a apoiar as associações desportivas, nem que fosse apenas para a compra de material de expediente. Isso não acontece e, naturalmente, a falta de apoio, a pouca participação do Estado nos cofres dos clubes e das associações dificultam o desenvolvimento do futebol local.

Existem governos provinciais no país que prestam apoios às equipas que representam as respectivas localidades na alta competição?

Isso depende de cada governador. Os órgãos de comunicação social avançam nomes de certas províncias, onde os governos locais dão apoio às equipas que as representam na alta competição. Aliás, não constitui novidade nenhuma, se citarmos os nomes de Cabinda, Benguela e Kwanza-Norte, cujos governadores dão apoios aos clubes. Agora, interrogo: Por que é que Malange não pode seguir o exemplo das outras províncias? Isso não é um bicho-de-sete-cabeças.

Massificação sem campos

A massificação do futebol está a ser feita por núcleos da sede da província. Qual é a realidade desse processo nos municípios de Malange?

Tínhamos uma política de levar as competições provinciais para alguns municípios. Tivemos essa experiência com o futebol feminino por duas ocasiões, em 2008 e 2009. No ano passado, essa competição decorreu no município de Cangandala, o que significa a existência de vontade e de trabalho direccionado nesse sentido.

E que resultados obtiveram com essa experiência?

Positivos, mas no decurso do mesmo nos deparámos com uma situação complicada, que se traduz na falta de campos. Ouviu-se falar na construção de campos no âmbito do "Projecto Despontar"; na existência de verbas disponibilizadas; nas empresas vocacionadas para a construção dos campos, mas, infelizmente, não foi inaugurado campo algum na província de Malange. Como presidente da APF, nem tenho conhecimento da existência de algum campo inserido no "Projecto Despontar".

Mas há municípios que já dispunham de campos para a prática de futebol...

Exactamente. Mas devido à situação de guerra que o país viveu, alguns espaços considerados campos, em alguns municípios, desapareceram. Contudo, quando surgiu a política do "Projecto Despontar", a APF congratulou-se e perspectivou a expansão dos campeonatos provinciais. Lamentavelmente, até agora as circunscrições não têm os campos enquadrados no projecto referido, o que fica difícil realizar provas.

Está a dizer que existem equipas nos municípios, mas faltam campos?

Não. Seria injusto se dissesse que faltam apenas campos. Os municípios atravessam também dificuldades financeiras. Isso faz com que se registem atrasos no surgimento de equipas mais ou menos organizadas e torna difícil a deslocação dos distritos para a sede provincial a fim de disputarem os campeonatos. Por essa e outras razões, limitamos a competição provincial apenas com equipas da cidade de Malange.

Os Administradores municipais já manifestaram a intenção de ver as equipas locais a participar nos campeonatos provinciais?

Sim. Viajámos por alguns municípios da província de Malange e falámos com alguns administradores municipais, que por sorte são elementos sensíveis, ex-praticantes de futebol e continuam amantes desse desporto, Nos diálogos mantidos, manifestaram a necessidade de beneficiar de equipamentos e de materiais desportivos. As solicitações são elevadas, mas, como também estamos de mãos atadas, não pudemos fazer mais. Se houvesse mais apoios nas municipalidades, os clubes locais participariam das provas provinciais. Há muita juventude naquelas circunscrições que precisam de apoio para se inserir na prática do desporto.

Os tempos áureos do futebol de Malange criam saudade. O que fazer para os reaver?

Para se inverter o quadro é necessário que se mude também a consciência dos homens. As pessoas que superintendem o desporto na província têm de ter outra visão; têm de definir os objectivos. Se não houver uma visão sobre o futebol, vai ser difícil voltarmos aos tempos áureos. Outra razão está intrinsecamente ligada às infra-estruturas desportivas. Temos de passar para a construção de infra-estruturas, como um estádio à dimensão de Malange. O único campo disponível da província acolhe 200 a 300 pessoas sentadas e centenas ficam de pé.

Defende que se construa o primeiro estádio de Malange, visando proporcionar comodidade aos espectadores?

Evidentemente. Hoje, ninguém quer ir a um estádio para ficar noventa ou cem minutos de pé. Deve haver dentro do estádio algo que faça chamariz, capaz de cativar o espectador e proporcionar comodidade. Em alguns momentos, há o interesse de levar a família ao estádio para assistir ao jogo, mas por falta desses itens, as pessoas desistem. Se por acaso os estádios apresentassem comodidade, haveria o casamento entre o público e os estádios. Havendo o casamento, também se registaria o aumento das receitas financeiras para bem do Governo local e das equipas. Por isso, o Governo, as equipas, os empresários e a população de Malange devem reflectir para encontrar o caminho que os leva aos tempos áureos.

"Não temos clubes
a formar atletas"

Qual é a realidade dos escalões de formação nos clubes malanginos?

Não temos clubes a formar atletas nesse momento, mas há uma perspectiva de trabalho virada para os escalões de infantis e juvenis. Oito clubes não inscritos na APF, mas controlados, estão empenhados nessa actividade. Um torneio de avaliação da categoria arrancou há poucos dias, visando a familiarização com o desporto federado. Os garotos estão felizes e demonstram o que até agora aprenderam. Outro objectivo do torneio é a antecâmara de preparação para o campeonato provincial de juvenis, a realizar-se nos próximos meses. Queremos criar o hábito de grupo nas crianças e o torneio está a ser disputado para esse fim.

Confirma que Malange pretende albergar o Campeonato Nacional de Juvenis?

Estamos interessados em albergá-lo, razão pela qual pretendemos apurar dois representantes com a realização do torneio infanto-juvenil. Queremos duas equipas que saibam dignificar o bom nome da província.

Quais são as equipas participantes do torneio?

Malange Sport Clube, Maxinde FC, Pekandec, Baixa de Cassange, Kukula Mukuijia, os Gaiatos e mais outros dois, cujos nomes não me vêm à memória.

Algumas províncias do país formam as selecções locais nessa categoria e atribuem-lhes nomes para as representar nos campeonatos nacionais. Com a realização do torneio, Malange vai juntar os melhores rapazes e formar as duas equipas a que se referiu?

O torneio visa dar aos clubes a possibilidade de sondar os bons jogadores, porque queremos agrupar alguns miúdos em duas equipas, que serão as representantes locais no Campeonato Nacional da categoria, cujo palco será em Malange, se a nossa candidatura for aceite. Estamos a fazer os contactos com a Federação Angolana de Futebol no sentido de lembrar que Malange é um dos fortes candidatos à realização da competição.

Vandalismo ataca estádio 1º de Maio

O Estádio 1º de Maio é relvado, mas o estado de conservação é lastimável. O que se lhe oferece dizer?

Lamentavelmente, a qualidade do campo baixa a cada dia que passa. A relva está cada vez mais seca, o que demonstra a falta de tratamento. Algumas pessoas pensam que a beleza da relva consiste apenas no regar constante, mas não é isso. Requer outros cuidados: um acompanhamento de técnicos especializados. À volta do Estádio, surgem ravinas, para além de se constatar actos de vandalismo no interior, como a quebra de vidros e constantes assaltos. Portanto, constata-se uma série de situações anómalas, porque não se está a dar a devida importância.

O que se deve fazer para que o estádio tenha um tratamento diferente?

É o único de Malange. Aliás, trato-lhe de campo e não de estádio, porque para se chegar ao estatuto de Estádio faltam algumas características que deveria ter e não as tem. O campo deveria ser entregue a um clube interessado ou à APF para beneficiar de acompanhamento. Só assim, a manutenção que se lhe exige, obedeceria uma política traçada em conjunto com todos os agentes desportivos da província. Está mais que comprovado que o actual responsável do campo, a Direcção da Juventude e Desportos, pouco ou nada faz para a inversão da situação.

Há outras soluções, para além da que mencionou?

Sim, que passaria o recinto à responsabilidade da Administração Municipal, a exemplo do que se passa, em Ndalatando, província do Kwanza-Norte, onde aquela instituição do Estado faz regularmente a manutenção do "Campo dos Dinizes". E se, nem isso pega, que seja realizado um concurso público para se adjudicar a uma gestão privada.

Alguma vez a APF apresentou uma proposta à Direcção da Juventude e Desportos, para assegurar a manutenção do campo?

Tentámos passar a ideia nalgumas reuniões com o Governo provincial, na presença da Direcção da Juventude e Desportos, o organismo que superintende o desporto local. Já tentámos puxar o campo para o nosso lado, porque entendemos que a APF e os clubes podem articular uma política para a gestão eficiente. Infelizmente, fomos mal sucedidos. A Direcção da Juventude e Desportos diz que pode responsabilizar-se pelo campo, como está a acontecer até ao momento, mas devo ressalvar que não serve só o futebol. Às vezes, acolhe cultos religiosos e outras actividades culturais, em desobediência dos objectivos pelos quais foi construído. A obstrução da relva é inevitável e arrasta consigo todas as consequências. Em função dessas medidas, o campo encontra-se num estado deplorável.