Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Ganhar o africano é obrigatório

Silva Cacuti - 08 de Janeiro, 2013

Presidente de direcção da federação angolana da modalidade define o objectivo para a classe feminina

Fotografia: José Soares

Que balanço faz das acções desenvolvidas a nível da modalidade em 2012?
“Foi um ano marcado por conquistas e o ponto mais alto foi o título continental em seniores femininos. Nesta classe é quase uma obrigação vencer. É definido como uma pretensão do Estado angolano enquanto patrocinador do desporto.”

A classe masculina não esteve ao mesmo nível…
“Em relação à classe masculina, sinto que o resultado na tabela classificativa é enganador, porque os sistemas de cruzamento às vezes levam-nos a situações que, do ponto de vista desportivo, não traduzem a realidade. Penso que, neste momento, temos uma das melhores selecções masculinas de todos os tempos, uma nata de jogadores com uma média de altura e idade boa. Só não fomos felizes porque calhámos com Marrocos, que a jogar em casa ‘incendiou’ o pavilhão e não tivemos motivação psicológica para resistir à pressão.”

Mas a selecção foi prejudicada?
“Não houve hostilidade, nem sequer fomos prejudicados pela arbitragem, mas foi fundamentalmente o factor casa. Estamos satisfeitos com a prestação do professor Filipe Cruz, seleccionador nacional, com a qualidade que o nosso andebol masculino tem estado a mostrar.”

Houve outras conquistas?
“Outro ponto alto foi a nossa participação nos Jogos Olímpicos de Londres. Conseguimos um grande plano de preparação, com apoio da Total, o que nos permitiu jogar com a Dinamarca, Noruega e os jogos com estas equipas demonstram o valor real das nossas selecções. Fugimos aos últimos dois lugares da classificação. Em termos de resultados desportivos, julgo que atingimos os nossos objectivos. Hoje, digo que Angola já não teme nenhuma equipa no mundo, pelo contrário, somos temidos. Angola é considerada uma das selecções mais imprevisíveis do mundo. Do ponto de vista interno constatámos o aumento da população de praticantes e temos de criar mecanismos para consolidar este número.”

Houve pontos cinzentos na actuação da federação, como por exemplo a situação dos árbitros a nível continental. Que tem a dizer?
“Não fomos muito felizes. Foi algo que defendemos e devíamos ter feito um trabalho mais aturado, com o objectivo de ter mais árbitros com as insígnias continentais ou internacionais, mas aí houve factores subjectivos, e nós assumimos a responsabilidade. Mas também houve factores objectivos, como o caso a que repetidas vezes me referi: não senti nos nossos árbitros, e não há nenhum que tenha algum elemento de prova, que nos possa dizer que se tenha matriculado e a federação se tenha recusado a pagar. Não é verdade. Definitivamente não é verdade. Não temos muitos árbitros com apetência para dominar uma língua estrangeira.”

A Federação promoveu acções no sentido de formar os árbitros?
“Fizemos aqui uma tentativa com um instrutor da confederação, que avaliou dois ou três pares com condições técnicas para evoluir, mas faltava o factor língua e é verdade que ficámos um pouco retraídos. Houve estágios de subida de categoria, em diferentes países. Não mandámos porque, embora possa ter sido um erro, receámos investir no vazio, porque não víamos nos nossos árbitros a componente da língua.”

No mandato passado a Federação propôs-se custear cursos de línguas aos árbitros, mas isso não aconteceu por alegado desinteresse dos árbitros. Vai continuar essa política?
Primeiro deixe-me dizer que a Federação nunca recebeu a inscrição de qualquer árbitro. Quem tinha começado a pagar e depois parou foi a anterior direcção da Associação Provincial de Andebol de Luanda. Por isso mantemos a oferta. Felizmente, para este ano melhorámos os patrocínios da federação, portanto, queremos pagar cursos. Na Alliance Française há cursos acelerados e faço um novo convite aos árbitros que já tenham categoria nacional, que estejam dentro da idade, aqueles casos que nós entendemos que valem o investimento. Aqui fica em aberto o nosso convite para, pelo menos, até cinco duplas.”

Isso é apenas para árbitros em Luanda?
“Este projecto é extensivo. É de abrangência nacional. Se alguma associação nos disser que tem uma dupla com pelo menos a categoria provincial com margem de progressão, desde que haja uma escola credível na província, estamos abertos.”

FORMAÇÃO
Família do andebol continua unida


Depois do processo eleitoral sente que a família do andebol ficou dividida?
“De forma alguma. O conceito de família do andebol tem de ser redefinido. Entendo que família do andebol são pessoas que ao longo do ano, no seu dia-a-dia, exteriorizam a sua paixão com actos, desde assistir a um jogo até contribuir com uma opinião, uma ideia. Somos humanos e estamos sempre dispostos a ouvir. Pessoas há que nunca se identificaram com a modalidade e só aparecem durante os períodos eleitorais. Com que direito essas pessoas se intitulam família do andebol?”

Foi um processo salutar, do seu ponto de vista?
“Vi com bons olhos o surgimento de uma outra lista candidata. Disse, na minha tomada de posse, que uma lista que arrecada o número de votos que esta teve é porque o seu programa tem algo interessante. Mas estou desapontado, porque desde que terminou o acto eleitoral não tive contacto com nenhuma outra pessoa. Nada. Em meu entender, fica demonstrada alguma falta de fair-play. Nem para a cerimónia de tomada de posse apareceram.Fiquei triste. Aí sim, devem perguntar às outras pessoas se se sentem excluídos.”

Chegou a recear pela derrota eleitoral?
“Todo o meu elenco estava preparado para ser eleito ou não, e tínhamos até um programa em caso de derrota. Estava já uma equipa técnica da federação a fazer o levantamento dos bens materiais da federação. Essa lista está pronta. Havia os extractos bancários preparados, estávamos prontos para uma eventual entrega de pastas. De qualquer maneira, cabe-me a mim, enquanto presidente, intensificar acções no sentido de trazer toda a gente para participar com as suas ideias para o desenvolvimento do andebol, porque é um bem da Nação e todas as pessoas são bem-vindas para a consolidação da nossa modalidade.”

Entrevista  Pedro Godinho
Nomeação de angolanos à Cahb
faz justiça ao peso de Angola

 O andebol angolano começa o ano de 2013 com novos membros, a nível da Confederação Africana de Andebol (Cahb). Qual é a expectativa?
“Penso que pelo peso que a Federação tem, fechou o ano de 2012 como a melhor em África. Nos últimos três campeonatos mundiais, temos estado entre as 12 melhores. Era justo que tivéssemos uma melhor representação a nível do órgão de decisão continental. Tentou-se passar a ideia de que era para proveito próprio. Para consolidar a minha posição na confederação não me interessava ter lá outros angolanos. Não é verdade.”

Tencionava ser secretário-geral da Cahb?
“A nossa estratégia era assaltar a Cahb. Como a anterior secretária-geral não cumpria certos objectivos mas estava apegada ao lugar, a convite do presidente da confederação apresentámos uma candidatura a secretário-geral, com objectivo de salvaguardar a candidatura do congolês Charles Ombouman, que estava a ser impedido, no seu país, de candidatar-se. A estratégia era: se o congolês não conseguisse a autorização, concorríamos e depois alegávamos indisponibilidade para que a Comissão Executiva da Cahb gerisse a situação.”

Então alinhou nessa estratégia?
“Para alinhar nesta estratégia coloquei as minhas exigências em proveito do meu país. Uma das exigências era tentar ter pelo menos um angolano em cada comissão especial da confederação e a outra era ter duas ou três duplas com insígnias continentais. Neste momento, temos o doutor David Abel, na Comissão Médica, temos o Zeca Venâncio na Comissão de Árbitros e Regras de Jogo, temos o Pina de Almeida na Comissão de Métodos e Treinos, a Elsa Major na Comissão de Propaganda e Desenvolvimento e eu, que fui reconfirmado como presidente da Comissão de Organização de Competições.Esperamos que o vice-presidente Ilídio Cândido seja confirmado também na Comissão Arbitral.”

Como é que ficou a sua candidatura?
“Felizmente, pouco tempo depois, o congolês conseguiu autorização e acabei por retirar a minha candidatura. Não participei como concorrente. Todas as informações que circularam não tinham nada de verdade. Fique claro que não cheguei a concorrer à cadeira de secretário-geral da Cahb.”

Estas nomeações indiciam uma viragem na estratégia da Federação para o relacionamento com as instituições continental e mundial?
“Sim. Eu, por via do Comité de organização de Competições da Cahb, já estou ligado ao Comité de Organização de Competições (COC) da IHF. Stela Marisa também faz parte da Comissão Médica da IHF e tem ido regularmente às reuniões desta comissão. Este ano vai haver congresso da IHF e vamos tentar consolidar a posição da Stela, como membro daquela comissão. Além disso, recebi uma proposta para conseguir uma posição mais reforçada a nível do COC. Vai criar-se a figura de vice-presidente do COC da IHF e esta vice-presidência vai ser ocupada por um dos presidentes dos COC continentais. É lógico que vai haver concorrência forte com outros continentes, Ásia, América, Europa, mas acredito que temos uma palavra a dizer. Temos de tentar consolidar esta nossa posição a nível da IHF.”

FORMAÇÃO
Recandidatura está fora de hipótese


O que pensa fazer depois deste novo mandato na presidência da Federação. Volta a candidatar-se?
 “Já tracei os meus objectivos. Disse e reafirmo que dois mandatos são suficientes. Espero que dentro de quatro anos tenhamos condições de, numa perspectiva de continuidade, ter outro candidato à Federação e vamos assaltar uma das vice-presidências da Cahb. Por via dela, entramos no Conselho da IHF. Aí, com a experiência acumulada, acredito que podemos ganhar muito estando nesses órgãos de decisão.”

O ano que começa não vai ser tão intenso em termos de trabalho de selecções nacionais.
“Muitas vezes me pergunto como foi que conseguimos em 2012. Eram muitos compromissos. Inclusive tivemos de criar duas selecções de cadetes masculinos, a A e B. Este ano, vamos ter cinco competições importantes. Dois campeonatos africanos de femininos, cadetes e juniores, onde pensamos manter o título no primeiro e recuperar no segundo. Vamos ter também dois mundiais de cadetes e juniores masculinos. Nestes escalões, julgo que vamos ter muitas dificuldades, devido à realidade do andebol masculino em países europeus. Daí que o grande ganho que vamos ter é a experiência para os nossos jogadores e depois teremos o campeonato do mundo de seniores, onde, repito, não tememos ninguém.”