Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Gilberto confiante no sucesso de Geraldo

Betumeleano Ferro - 03 de Janeiro, 2019

Boas impresses deixadas pelo canhoto Gilberto da formao egipcia serve de inspirao ao tambm angolano Geraldo

Fotografia: Nuno Flash | Edies Novembro

O esquerdino Gilberto revelou ao Jornal dos Desportos, que a carreira de sucesso que ele e Flávio construíram ao serviço do colosso Al Ahly, pode ser determinante aos afectos à formação egípcia aceitem adoptar uma atitude de espera, caso Geraldo não “pegue” de estaca na equipa.
O ex-internacional angolano revelou estar confiante na potencialidade do seu compatriota. \"É claro, que acredito que isso possa acontecer. As passagens com sucesso que tivemos lá, pode influenciar para que não lhe cobrem muito, se as coisas não correrem muito bem no início\", comentou.
Além do colosso do Egipto, existiam outros interessados no antigo atleta do 1º de Agosto, mas o ex-craque assegurou que fez tudo o que podia para ajudar o Geraldo a perceber que o legado deixado pelos angolanos, faz da opção, a melhor equipa de África a escolha certa.
\"As pessoas, às vezes, não entendem bem, porque jogadores de certos países, como por exemplo o Brasil, optem por Espanha e na maioria dos casos, no Real Madrid ou no Barcelona. É, a passagem dos seus conterrâneos nestes clubes, que fala mais alto e foi o que fiz com o Geraldo\", garantiu.
Referiu, que muitos adeptos do Al Ahly já se apressam em fazer comparações, ao ponto de alguns apelidarem o reforço \"Gilberto Júnior\". Os adeptos são os mais exigentes do Egipto, mas a recepção que dão a Geraldo é sinal de que querem ajudá-lo. \"Esta reacção dos aficionados tem de ser servir de motivação adicional, assim, é mais fácil adaptar-se\", diz Gilberto.
O internacional angolano chegou ao Egipto com grande expectativa. Por isso, o nosso interlocutor transmitiu conselhos pertinentes, para evitar queimar etapas e cumprir a expectativa gerada em torno da contratação.
\"Eu pedi-lhe para que seja ele próprio. Se o contrataram, é porque viram que precisam dele. É verdade que não pode esquecer o que nós fizemos lá, mas o momento é outro. O Geraldo tem de ter em mente, que o momento agora é outro, por que por mais que se esforce nunca vai ser Gilberto ou Flávio, pode ser ele mesmo\", sentenciou.
Assim como as faces de uma moeda, Gilberto vê condições favoráveis para que Geraldo fazer bom nome ao serviço do clube africano do século 20, distinção feita pela CAF. \"É um rapaz muito inteligente, antes, actuou no Brasil, onde aprendeu muitas coisas, tem outras matreirices, que tem tudo para uma carreira vitoriosa, leva muitas coisas positivas\", enumerou.
Os maus resultados do Al Ahly forçaram à demissão do francês Patrice Carteron, em sua substituição foi contratado o uruguaio Martín Lasarte, um técnico que na visão de Gilberto pode ser determinante para ajudar Geraldo a vencer a difícil barreira da língua.
\"Ele não domina ainda o inglês, mas como o novo treinador fala espanhol, dá para ver que facilita o enquadramento do jogador. É uma situação semelhante à que vivi, quando lá cheguei\", afirmou.

NEGOCIAÇÕES
Gilberto frustra proposta “milionária” do Espe
rance
A proposta que o Esperance de Tunis ofereceu ao 1º de Agosto, por Geraldo, era de longe superior ao do Al Ahly. Ainda assim, Gilberto achou por bem fazer \"uma cunha\", dada a sua proximidade ao atleta, para deixar os tunisinos com as mãos a abanar.
\"Não foi fácil conseguir isso, porque falei com o atleta e o seu representante. O 1º de Agosto também não queria ceder, já que o Espérance fez a melhor oferta, mas a minha relação com o Geraldo pesou muito na decisão final\", confessou.
Sem dar voltas à questão, o ex-internacional angolano esclareceu que os tunisinos ofereceram mais vantagens  financeiras às partes interessadas. Ainda assim, teve de usar o lado desportivo como argumento para prevalecer o seu ponto de vista.
\"Isso, é como tudo, o empresário pôs reticências, mas rebati e falei da óptima visão, assim como o respeito que o clube tem pelos jogadores angolanos, sem esquecer o peso competitivo do Al Ahly no continente\", garantiu.
Uma outra questão importante, que fez Gilberto  intrometer-se no caminho do Espérance, é o cargo simbólico que exerce no Al Ahly. \"Eu sou uma espécie de embaixador do clube, apesar, de que não há nada assinado à respeito. Todavia,  o que fiz quando lá estive, ainda faz que me olhem de maneira favorável, por isso, depositaram todas as fichas em mim para resolver a questão\", sublinhou.
A equipa egípcia iniciou a corrida por Geraldo, atrás dos tunisinos, contudo, ultrapassou o rival ao enviar à Luanda o seu director desportivo, Said Abdel Aziz, que tratou de todas as questões inerentes à contratação do internacional angolano.
\"A minha vinda à Luanda coincidiu com a chegada dele. Foi meu colega e conhecíamos muito bem. Conversamos sobre os passos a dar e no final tudo terminou como queríamos, senão, o Espérance tinha levado o Geraldo\", afirmou.


RECONHECIMENTO
Egípcios destacam interferência
do atleta angolano


Tão logo a direcção do Al Ahly anunciou a contratação do angolano para as próximas quatro temporadas e meia, os adeptos em sinal de reconhecimento enviaram felicitações a Gilberto, pelo contributo nas negociações.
\"Estou extremamente feliz com o final feliz. É uma vitória para mim e mais uma experiência positiva na minha vida. Os adeptos deram-me os parabéns pelo êxito, sem desmerecer o dirigente que esteve aqui e que igualmente foi muito importante\", mostrou-se satisfeito.
O futuro ainda é uma incerteza, entretanto, assegurou que sempre vai servir de mediador entre o seu antigo clube e os nacionais. Defendeu, que assim como no passado, continua a defender que o futebol angolano pode fornecer qualidade para os grandes clubes.
\"O Al Ahly sabe, que pode contar comigo, claro que a minha ideia é que as portas se abram para mais jogadores, contudo, os nossos clubes têm de estar muito mais atentos para perceber a importância de vender\", concluiu.


ELOGIO
\"Carlos Hendrick comporta-se
como verdadeiro líder\"


O 1º de Agosto aceitou perder dinheiro, ao rejeitar vender Geraldo ao Espérance de Tunis, mas a cedência ajudou Gilberto a aumentar a estima e apreço pelo presidente do clube militar.
\"Não foi fácil, pôr de lado a questão financeira, mas tenho de dar os meus parabéns ao presidente do 1º de Agosto que se comportou como um verdadeiro líder e fez uma excelente condução de todo o processo negocial\", enalteceu.
A maneira cordial, como Carlos Hendrick deu a oportunidade a Gilberto de influenciar no curso das negociações, convenceu o nosso interlocutor a concluir que estava diante do homem certo no lugar certo. \"Ele falou sempre como um líder, do jeito como as coisas correram. Deu para ver que ele e os que o rodeiam, são verdadeiras pessoas do futebol\", elogiou.
Disse, que durante as várias conversas que teve com o dirigente, realçou uma confissão que mexeu consigo. \"Num determinado momento, o presidente disse algo que me marcou profundamente, com a seguinte frase, \'quando um jogador entra no gabinete do presidente [para pedir para sair], é porque já não tem mais cabeça para ficar\'\", garantiu.
Quando começou a tomar parte do processo negocial, o antigo atleta do Al Ahly apercebeu-se que  o internacional angolano tinha apenas mais seis meses de contrato com o 1º de Agosto. Por isso, considera a decisão justa e sensata, vender em vez de fechar a porta de saída.
\"O presidente percebeu que só teria problemas, pois, o atleta não tinha mais disponibilidade emocional, porque a sua cabeça estava sempre no outro lado\", argumentou.

VALOR DA TRANSFERÊNCIA
\"Foi mais barato que eu\"


Gilberto enalteceu a forma como decorreram as negociações e afirmou que o 1º de Agosto \"foi muito inteligente\", ao deixar Geraldo escolher o seu caminho, sem pôr qualquer tipo de entrave. \"Estava claro, que o próprio jogador percebeu que era o momento certo para sair e já queria apanhar outros ares, mas o que conta é que não dificultaram nada\", afirmou. Embora  se tenha recusado a abrir o jogo, revelou que o Al Ahly não aceitou largar muito, mas o fundamental foi compreender que o ciclo do atleta chegou ao fim.
\"É muito difícil, um clube cometer uma loucura financeira para contratar um atleta, que só tem mais seis meses de contrato. Não me vão levar à mal, por eu dizer que o Geraldo foi mais barato do que eu\", disse.
Finalista este ano lectivo do curso de psicologia na UTANGA, o ex-internacional angolano escreveu a monografia: \" A importância da preparação psicológica nas equipas de futebol\", muito antes da venda de Geraldo.
Ainda assim, o futuro psicólogo faz um enquadramento com o que aconteceu. \"O estrangeiro tem de justificar para se impor. O Geraldo também precisa de capacidade emocional\", rematou.


CONTRATOS
Antigo atleta realça campanha nas Afrotaças


A histórica meia-final do 1º de Agosto, na edição 2018 da Champions, agitou o mercado de transferências em África, pelo que o ex-craque Gilberto aconselhou os clubes e os atletas do Girabola a fazerem sempre das Afrotaças, sobretudo a Champions, a melhor montra para serem contratados por colossos africanos.
O antigo atleta assegurou, que o nosso campeonato, ainda está longe de ser dos mais atractivos do continente. Contudo, sempre que os nossos embaixadores conseguirem grandes êxitos nas Afrotaças, os potenciais compradores sentem-se seduzidos com a qualidade que vêem.
\"Infelizmente, o Girabola ainda não nos dá a possibilidade de termos grandes vendas anuais, como sucede nos outros países, mas na Champions há mais chances disso acontecer, então, temos de saber aproveitar\", garantiu.
Nome bem conhecido no continente, Gilberto mostrou-se convicto de que ele, Avelino Lopes e Flávio jamais conseguiriam suar a camisola do grande Al Ahly, se o Petro de Luanda não fizesse o brilharete em 2001, quando chegou às meias-finais. \"É importante reconhecer isso. Nós só fomos contratados por causa da Champions, não acredito que existia outra maneira de chegarmos lá\", realçou.
Além da boa prestação nas competições africanas, o canhoto também quer que os dirigentes parem de resistir contra os ventos da mudança, pois, quando atleta e agora como treinador mantém o mesmo discurso, fechar a porta de saída é prejudicial para a carreira de todo o jogador.
\"Se há uma proposta e o atleta quer sair, é importante que o clube perceba isso e satisfaça essa vontade, senão em pouco tempo, esse jogador que antes era promissor acaba por morrer. Já tivemos vários casos destes\", enfatizou.
Quanto mais os clubes venderem, mais vantagem desportiva obtêm sobre os rivais. O nosso interlocutor assegurou, que a hegemonia que o Petro de Luanda do qual é adepto, detinha no futebol angolano era por causa das vendas que efectuava.
O paradigma mudou e é o 1º de Agosto que está na moda. \"A venda de atletas afecta muito o balneário do seu adversário. Foi assim que o Petro começou a matar o 1º de Agosto, nos outros tempos, mas como se acomodou, a realidade é diferente. Há pouco tempo saíram o Gelson e o Ary Papel, agora foi o Geraldo, isso, mata o rival\", argumentou.
Com base na sua experiência, assegurou que as saídas dos jogadores rubro - negros para emblemas internacionais, agita todo o balneário, ainda mais porque os colegas percebem que a sua vez também pode chegar, a qualquer momento.
\"É claro, que isso afecta o atleta, com a sua mente e faz com que também comece a alimentar vontade de sair, mas quando ele percebe que por mais que jogue não sai, as pessoas nem notam que está a morrer aos poucos\", alertou