Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Girabola est imprevisvel

Paulo Caculo - 03 de Julho, 2015

Antigo treinador do Cala diz ter sido com alguma estranheza que deixou o comando tcnico da equipa

Fotografia: Jos Soares

Arsénio Túbia foi um dos profissionais que acompanhou, com particular atenção, as discussões da Conferência Nacional de Futebol, realizada de 25 a 27 de Junho, no Palácio da Justiça, em Luanda, numa organização conjunta do Ministério da Juventude e Desportos (Minjud) e a Federação Angolana de Futebol (FAF).

O treinador aplaude a iniciativa que tiveram os órgãos que superintendem o desporto e o futebol no país, mas adverte ser importante que tudo o que se disse e escreveu em termos de soluções viáveis, para ajudar a afastar a modalidade do marasmo em que se encontra, sejam colocados em pratica.
"O encontro nacional do futebol foi benéfico, sim, mas o mais importante é colocar tudo em prática", afirma o profissional do futebol, lembrando não ter sido a primeira vez que reuniões do género se realizam em Angola.

"Já tivemos outras conferências, mas o futebol continua na mesma. Continuamos a viver os mesmos problemas de há dez anos ou mais. As pessoas continuam a pensar da mesma forma, como antigos e os projectos não saem do papel", repudia.

Túbia concorda que os encontros, os confrontos de ideias e o diálogo permanente em torno do que está mal e sobre o que se precisa fazer para melhorarmos o futebol é muito bem-vindo. O técnico reafirma, por isso, estar solidário com todos os intervenientes no evento, que muito se esforçaram para encontrar as soluções, sugerir caminhos a seguir e alertar os perigos a evitar. "Porque não basta reunir, falar, propor, enfeitar discursos e depois nada ser feito na pratica. Acho que de nada vale esta conferência se as conclusões não saírem do papel", adverte.

O treinador mostra-se, no entanto, muito optimista quanto ao futuro da modalidade em que se revê como um profissional disponível a ajudar, mas lembra que será importante valorizar os quadros, formar atletas e dirigentes, potenciar as infra-estruturas desportivas e apostar-se nas escolas de formação.


Girabola
"Campeonato imprevisível"


A abordagem feita por  Túbia, sobre tudo quanto se assistiu e ouviu das primeiras 15 jornadas do Girabola'2015, permite concluir que o treinador espera uma enorme disputa e competitividade na derradeira segunda volta.

O antigo treinador do Caála e do Interclube considera estar a ver um campeonato com final imprevisível, cujas equipas que estão no topo da classificação não devem pensar que estão à vontade na posição em que se encontram, porque "a diferença de pontos é reduzida".

"Ainda há muito campeonato, muitos jogos pela frente e tudo pode ser decidido até à última jornada. Está a ser um campeonato muito imprevisível, onde até as equipas tidas como fracas estão a vencer aquelas consideradas mais fortes", constatou Túbia.

O treinador acredita, também, que mesmo as equipas que estão na cauda da tabela de colocação podem sonhar, ainda, com a salvação. Lamenta a ausência de adeptos nos estádios e o afastamento de muitos treinadores do comando técnico das equipas, mesmo com bons resultados.   
PC


BOM DEBATE
Agentes nacionais
falam de estratégia


Agentes desportivos manifestaram-se, em Luanda, unânimes na necessidade da materialização das estratégias sobre o desenvolvimento do futebol, a partir de uma maior aposta nos escalões de formação.

Ao intervirem no programa Grande Informação da TPA, que abordou "O Estado do Futebol em Angola", terça-feira, à noite, os agentes reconheceram as carências existentes, principalmente na formação, que se reflectem nos clubes e nas selecções nacionais.

Numa ampla incidência às resoluções da recente Conferência Nacional do Futebol, apelaram ainda ao engajamento e apoios por parte de todos os sectores da sociedade, para que a modalidade e o desporto angolano possam atingir os níveis desejados.    
                  
A exemplo, o director nacional para a política desportiva, António Gomes, referiu que o Ministério da Juventude e Desportos (MJD) trabalha em parceria com a FAF no sentido de alterar a situação actual da disciplina, que motivou o processo de recolha de contribuições dos agentes e apresentação de soluções.      

 Posição idêntica foi expressa pelo presidente da federação (FAF), Pedro Neto, alegando ser preocupação da sua instituição criar os mecanismos necessários a implementação prática das intenções do Estado angolano.   

  Por sua vez, o presidente do Clube Kabuscorp do Palanca, Bento Kangamba, é de opinião que a FAF e MJD devem elaborar propostas sobre protecção social dos intervenientes do futebol a ser encaminhadas aos órgãos competentes do país.

Já o membro da comissão de gestão do Recreativo da Caála, Horácio Mosquito, defendeu a mudança de mentalidade dos dirigentes, como forma principal na concretização dos planos e programas concebidos.

O ex-capitão dos Palancas Negras Fabrice Akwá, que teceu duras criticas a alguns dirigentes que se aproveitam do futebol para o enriquecimento pessoal, disse que os clubes devem dar mais oportunidade de ascensão aos jogadores jovens nas suas equipas principais, para o processo de renovação positiva da selecção nacional.

Facto corroborado pelo comentador para o futebol António Alegre, que ainda sugeriu a melhor capacitação técnica dos treinadores nacionais, árbitros e outros formadores.     
 
As questões da existência ou não da corrupção no futebol angolano, entre outras, também foram esbatidas no Especial Informação da Televisão Pública de Angola (TPA), orientado pelo jornalista Ernesto Bartolomeu.


ARSÉNIO RIBEIRO TÚBIA - ENTREVISTA

Arsénio Túbia está descontente com as últimas incidências do futebol angolano. O antigo treinador do Recreativo da Caála e Interclube, não consegue esconder a tristeza pela forma como foi afastado do comando técnico da equipa do Huambo, numa altura em que acreditava ter tudo controlado para protagonizar um percurso sem sobressaltos.

O treinador garante que se lhe perguntassem as razões que motivaram a sua demissão, após a saída de Bernardino Pedroto da equipa, não conseguiria responder. Lamenta o sucedido e tem a sensação de que foi injustiçado.

"A demissão no Recreativo da Caála foi muito estranha. Até porque deixei a equipa na sétima posição, com sete pontos e sem qualquer derrota. Reconheço que era classificação que queríamos, mas era muito melhor da que se encontra agora", disse o técnico angolano formações no Brasil e Portugal, que teve o ponto mais alto da sua carreira como futebolista nos Palancas Negras, onde assumiu durante anos a missão de capitão e líder do conjunto nacional.

Túbia concorda, por outro lado, que a saída de Pedroto complicou  as coisas no balneário da equipa do Planalto Central, sobretudo, no que ao aspecto anímico diz respeito. Sublinha, por exemplo, os factores de organização interna que acredita também terem sido afectados pela inesperada crise financeira que assola o clube desde a primeira volta do campeonato.

"A ausência do técnico Pedroto afectou bastante, até pelos  motivos que fizeram que tal acontecesse. E os motivos foram piorando à medida que foi decorrendo o campeonato. Talvez tenhamos encontrado o clube numa fase em que os problemas financeiros influenciaram bastante na organização geral", acrescenta Túbia, evitando mencionar os   que motivaram o afastamento prematuro do treinador português do comando da equipa, ainda na primeira jornada.

Mas nem tudo foram dissabores no Recreativo da Caála. O treinador confessa ter recebido bastante apoio moral, embora assegura que "faltava sempre o mais importante" para equipa alcançar os resultados que pretendia.

Garante que deixou na equipa do Huambo bons amigos, "gente do futebol que sempre fizeram tudo ao seu alcance". Refere-se aos vice-presidentes Moisés, Eduardo Pindale e o director Pacheco Souza como "um tipo que faz tudo no clube", ressaltou.

"Posso afirmar que no CRC tive um superplantel formado por  bons profissionais que suportaram muita coisa, que só Deus sabe. Para não citar todos que muito e tudo fizeram para me ajudarem a crescer como treinador, mas que lhes era impossível fazer mais por questões extras", destacou. "Desejo boa sorte ao clube e que saia desta actual classificação, que é muito má até porque o clube é bom e a cidade do Huambo bem precisa de uma equipa como o Recreativo da Caála no Girabola, mas que para tal terá de se organizar mais e melhor", alertou.


CONFISSÃO
"Guardo as melhores
recordações do Inter"


Túbia confessa guardar muito boas recordações dos clubes por onde passou, quer como jogador ou enquanto treinador. Sem qualquer tipo de receio afirma que foi na equipa da Polícia Nacional onde viveu as melhores alegrias.

"Guardo também boas memórias do Caála, porque a experiência que se consegue em todos momentos da vida fazem sempre bem, porque nos ajudam a amadurecer em todos níveis. Mas, devo confessar que as experiências que vivi no Inter foram muito melhores e continuarão a ser, porque é a minha casa e sei que mais tarde ou mais cedo lá voltarei", assegura o treinador, deixando escapar o objectivo de regressar ao Interclube.

"Agora não é o momento certo para lá voltar, porque tenho outros objectivos pessoais, mas penso que daqui por um tempo lá estarei de certeza, porque é a minha segunda casa. Pena é que isso por vezes atrapalha, porque as pessoas me querem ir buscar para treinar, mas vacilam  porque pensam que estou preso ao Inter", esclarece João Arsénio Ribeiro. Considera ser um "produto" das escolas da formação do Rocha Pinto, razão pela qual espelha enorme afectividade e simpatia pelo clube da Polícia Nacional. Garante que desde a sua infância que se mostrou fiel ao clube e emblema e não pode hoje fugir deste sentimento de paixão. Mas admite, no entanto, haver decisões internas no clube das quais não concorda, mas confessa que "tem de se aceitar as decisões de quem dirige do clube".

Túbia não se mostra  alheio à evolução do Interclube como agremiação desportiva de elevada dimensão. Garante estar a constatar sinais claros de enorme desenvolvimento do clube e as suas infra-estruturas.  "É uma equipa muito bem estruturada, que tem crescido muito em termos até de infra-estruturas. Acredito que com um pouco mais de sócios seria um caso sério no nosso desporto. Não há como esconder isso. As melhores recordações guardo do Inter, mas do Caála também tenho excelentes recordações que me deixam satisfeito pelo dever cumprido", assegura. 
PC


CHICOTADAS PSICOLÓGICAS
Técnico critica
ambição desmedida


O capitão dos Palancas Negras no CAN da África do Sul, no "baptismo" de Angola nesta competição, considera as constantes "chicotadas psicológicas" um erro grosseiro, que mata o futebol e afunda os projectos estabelecidos. Túbia não concorda com a ambição desmedida de dirigentes desportivos por títulos, mesmo sem a criação de condições que permitam sonhar com grandes conquistas.

"Os treinadores são despedidos frequentemente, porque as direcções dos clubes querem resultados imediatos", refere o treinador, para em seguida repudiar o hábito de se querer vencer hoje e não se esperar pelo amanhã.

"O problema é que as pessoas querem vencer campeonatos, mesmo sem terem as vezes todas as condições criadas para tal. Até os clubes com salários em atraso, querem ser campeões e outros sem organização também querem resultados imediatos", acrescentou Túbia, a lamentar.

O técnico recusa aceitar qualquer ideia de que o problema dos despedimentos esteja nos treinadores. Justifica o seu discurso com o facto de acreditar que em Angola existe um quadro de excelentes treinadores, que demonstraram por A+B reunir capacidade e competência suficiente para produzir grandes equipas.

"Posso mesmo dizer que  Zeca Amaral é, actualmente, o melhor treinador angolano, sobretudo pelos resultados que tem conseguido ao longo da sua carreira. Quer se goste dele ou não, a forma como as suas equipas jogam e os resultados obtidos falam por si", avaliou.

Túbia afirma, por outro lado, que a maior  referência  de técnicos bem sucedidos em Angola é Bernardino Pedroto, um dos profissionais com quem gosta muito de trabalhar e que acredita saber em pleno "como se vence campeonatos", razão pela qual confessa que todos os dias se aprende muito com ele.

"Com ele (Pedroto) só não se vence um campeonato se quem dirigir o clube não quiser vencer. Se a direcção lhe conceder todo o apoio, de certeza absoluta que os títulos chegam. Conhece muito bem o nosso futebol e cada treino com ele é sempre uma aula que se tem. Sem sombra de dúvidas o melhor treinador", assegura.      
PC