Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Gosto de projectos ambiciosos

Avelino Umba - 04 de Dezembro, 2011

Lenguinha almeja mais conquistas no futebol feminino

Fotografia: M.Machangongo

Quem é Simão José “Lenguinha”?
Sou Seleccionador adjunto da selecção nacional de futebol feminino e como está inserida no Departamento de formação, tenho estado também ligado à equipa técnica da Selecção Nacional de futebol na categoria de Sub-20, onde presto a minha colaboração em prol do futebol nacional.

Há quanto tempo é técnico de futebol?
Sou técnico de futebol desde 1995. Fundei os Blocos Futebol Clube, uma equipa feminina na qual fui campeão provincial e depois transferi-me para Mártires Futebol Clube, uma equipa que conseguimos levar da II à I divisão e posteriormente para a equipa da Terra Nova. Neste clube dirigi um projecto de formação e ganhei também um campeonato provincial de Luanda, e fomos duas vezes vice-campões nacionais. Foi assim que fui convidado a fazer parte da Selecção Nacional para coadjuvar o professor Manuel Augusto, uma pessoa por quem tenho uma grande admiração, respeito e consideração, pois fomos adversários de ocasião e hoje colegas de trabalho.
Foi convidado pela FAF devido ao seu currículo?
Estou na Federação há quatro anos num projecto para o desenvolvimento do futebol feminino, sem descurar o projecto de futebol jovem em que, directa ou indirectamente tenho estado a trabalhar para o seu crescimento. É um projecto já aprovado pelos Clubes nas mais diversas reuniões tidas e agora vamos trabalhar a partir do próximo ano para o concretizar. Queremos ver o futebol feminino mais organizado nos diversos escalões de modo a conseguirmos bons resultados nas competições em que estivermos envolvidos.

As condições de trabalho e salariais satisfazem-no?
Sim, satisfazem-me. Apesar do ser humano querer sempre mais, ainda não tenho razões para não me sentir satisfeito.

Como classifica o trabalho que realizou nas equipas que orientou?
Tive êxitos, ganhei um campeonato provincial e fui duas vezes vice-campão nacional. Não foram equipas fáceis nem muito difíceis, mas pela sua grandeza, obrigava-me a que a fasquia ou objectivos fossem cumpridos e elevados a grandes patamares. Aliás, em qualquer uma delas existiram sempre recursos humanos, o que acabou por ser uma vantagem para o crescimento das próprias jogadoras.

A selecção feminina foi uma aposta ou a ambição de conquistar altos patamares?
Primeiro, porque gosto de ser treinador e sinto que tenho vocação para tal. Na altura tive esta possibilidade de trabalhar com o futebol feminino, onde tenho vindo, a cada dia que passa, a adquirir muitas e várias experiências, porquanto a mulher tem características próprias ao contrário dos homens.

“Procuro ser um treinador equilibrado”

Tem sido fácil trabalhar com senhoras? 
Procuro ser um treinador muito equilibrado nas tomadas de decisão. Não olho apenas para as atletas como tal, mas também como mulheres, como seres humanos, que por vezes merecem um tratamento especial, porquanto sou um treinador que gosta de grandes desafios, pois para mim, a vida é uma competição e esta mesma competição da vida é que nos faz medir as nossas capacidades. Em suma, gosto de trabalhar com mulheres.    

Em termos desportivos existem grandes diferenças, em relação aos homens?
Desportivamente é muito relativo. Podemos admitir que o homem tem um poder de assimilação mais rápida, enquanto as mulheres são mais responsáveis e têm grande capacidade de absorver conhecimentos tal como os homens. Os treinadores devem conhecer o grupo, a personalidade de cada uma delas, e depois fazer a individualidade de cada uma e juntar para formar um grupo. Isso é fundamental e acredito que não há grandes diferenças entre trabalhar com mulheres, na medida em que o treinador tem a perícia e habilidade para saber lidar com as diferentes situações, pois como sabemos o homem, dado o seu biótipo e as suas características genéticas, tem um processo de execução mais acelerado. Já as mulheres, em função das suas características, o processo de aprendizagem é mais lento e do ponto de vista da sensibilidade, o treinador deve ter mais cuidado na forma como vai passar uma determinada informação e como vai chamar a atenção à jogadora.

Portanto, deve ser um treinador que trabalha no feminino?
Em primeiro lugar deve ter vocação para o exercício desta função, para a exercer com muita paixão, alimentando uma cultura de valores. Deve ser capaz de desenvolver e gerir competências técnicas e comportamentais. Efectuar de forma racional a sua auto-avaliação de desempenho e em caso de esta ser fraca, questionar-se, sobre o porquê das falhas.

Como caracteriza o futebol feminino em Angola?
Como é do conhecimento de todos, o futebol feminino tem apenas um único escalão, pois hoje existem pressupostos que devem ser cumpridos, daí a dificuldade para nos impormos no contexto desportivo a nível de África. Assim sendo, é preciso que definamos os escalões de formação, pois o treinador de escalões obedece aos princípios de continuidade, onde tem que se estabelecer do difícil ao complexo, porquanto temos de cumprir todos os pressupostos, perante as formações desportivas. Se assim acontecer, estaremos em grandes patamares, pois temos muita matéria humana com grandes potencialidades.

A formação de formadores
preocupa técnicos nacionais

A formação dos técnicos de forma a melhorar a qualidade de treino e a transmissão de conhecimento aos jogadores tem sido uma das principais dificuldades dos treinadores. O nosso interlocutor lança um repto às instituições estatais a darem o seu contributo em prol do crescimento da classe e da modalidade de um modo geral: Tratando-se de um problema que aflige todos, acho que deve haver maior apoio nesse sentido, de forma a evoluirmos do ponto de vista técnico e psicológica, que tem a sua repercussão na evolução das jogadoras no contexto desportivo, pois trata-se de um problema nacional.

Isto a nível de selecção e nos clubes, como é que as coisas estão?
Esses carecem de apoios e de patrocínios. As entidades privadas e estatais deviam aparecer para ajudarem a modalidade e publicitarem a sua marca. É assim que acontece em vários países do Mundo. Só desta forma podemos ter um futebol feminino mais competitivo e a ombrear de igual para igual com as melhores selecções africanas, pois temos qualidade de ponto vista da natureza das nossas jogadoras.

Ainda assim, sente-se satisfeito com o trabalho que está a fazer em prol do futebol feminino, não é verdade?
Com certeza, até porque o faço com muita paixão, pois acredito na potencialidade das nossas jogadores e da mulher angolana em geral. Para mim, a mulher angolana é muito especial e corajosa. Tenho dito que a mulher angolana não se vale pelas dimensões das fronteiras, mas sim pelas suas qualidades no dever das funções a si atribuídas, sendo um exemplo a seguir pelas outras mulheres no ponto de vista da sua persistência. É sempre uma satisfação enorme trabalhar com as mulheres angolanas. 
  
Das jogadoras que formou, quantas estão a despontar?
Formei muitas jogadoras que hoje estão a dar cartas no futebol feminino, a começar pelas irmãs Irene e Helena Gonçalves, a primeira que hoje é a diva das atletas e dispensa comentários. Lídia, Yola, a Vanda, Vivi, Manucha, Mariza, e tantas outras que hoje, são as verdadeiras máquinas de futebol nesta categoria. Como seres humanos são fabulosas e como atletas são excelentes, qualidades que sempre procurei incutir nas minhas atletas, porquanto, se conseguirmos ter uma atleta sã e saudável, temos uma boa jogadora.

Perfil

Nome: Simão Sebastião Coxi José
Data de Nascimento:10.10.1975
Naturalidade: Rangel-Luanda  
Nacionalidade: Angola
Estado civil: Casado
Filhos-  Dois 
Altura – 1,60 m
Peso – 65 kg
Tabaco: Não faço uso
Bebida- Sumos e águas
Número de calçado: 42
Princesa encantada: A minha esposa 
Música: Kizomba
Prato preferida: Funji de carne seca
Cor preferida: Amarelo 
Religião: Simão Toco
Estação do ano: Cacimbo