Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Grassel valoriza projecto do clube

Avelino Umba - 29 de Março, 2015

Alexandre Grassel, mostra-se convencido no triunfo do projecto gizado

Fotografia: Jornal dos Desportos

 
Jornal dos Desportos - Está envolvido directamente no projecto da direcção que tem como objectivo formar uma equipa forte e competitiva até 2018. Como tem sido esta experiência?

Alexandre Grasseli - A experiência tem sido bastante boa. No futebol não é comum ter um projecto tão longo. Foi uma decisão, na minha opinião, inteligente da direcção do clube na pessoa do presidente Tomás Faria, ao traçar este projecto que vejo como algo que vai fazer com que tenhamos mais motivação no trabalho. Como disse, não é algo comum no futebol, mas vejo com muita naturalidade, com muita vontade para desenvolver este trabalho, sobretudo nesta primeira fase que é de muita cobrança, de incerteza e muita dúvida. Mas na verdade, pessoalmente vejo que estamos a conquistar os passos necessários. Estamos a conquistar a confiança do adepto, até dos próprios adversários, daquilo que o Petro pode fazer nesta época. É esta a nossa intenção.

JD - Que peso tem a presença de jogadores bastante experimentados neste projecto? Vê como algo positivo ou é um impedimento para a juventude em crescimento na equipa?

AG - Vejo como muito saudável esta interacção da juventude com os mais experientes, pois no dia-a-dia existe um tratamento e uma valorização igual. Na verdade, não podemos comparar a experiência de jogo que tem Etah, Lamá, Job, Mabiná, Mabululu, com jovens que estão a começar. Na verdade, nós como equipa técnica, fazemos com que toda esta experiência dos veteranos seja passada aos mais novos. Com este ambiente, onde há mais juventude e se interage com os demais, no fim quem sai a ganhar é o clube.

JD - Após seis jornadas do Girabola 2015, como avalia o desempenho da equipa?

AG - A equipa está no bom caminho, a julgar como tem vindo a mostrar-se nos jogos, principalmente no último contra o Benfica de Luanda, com quem empatámos a uma bola. Para ver que naquela partida, fizemos muito daquilo que vínhamos a falar. Temos uma equipa que sabe mostrar um jogo apoiado, jogo de posse de bola, mas também jogo de oposição de um contra um e de drible. Foi o caso do Mateus e do Job, com boas jogadas individuais, assim como Mabiná e Ary. Vejo que desta forma, o Petro pode ganhar muito. Nós aproveitamos também a característica do jogador. Ainda temos muito trabalho pela frente, pois ainda estamos no início. Mas de qualquer forma, vejo que o grupo já está a mostrar aquilo que pretendemos.


DEDICAÇÃO AO TRABALHO

Grasseli elogia jogadores


JD - Está satisfeito com o trabalho até aqui desenvolvido pelos jogadores?
AG - Graças a Deus, os atletas têm correspondido de forma positiva e aqui quero destacar três jogadores que têm vindo a ter um desenvolvimento muito grande quanto às suas participações nos jogos. É o caso de Carlinhos, Mavambu e Paizinho. São jogadores que têm vindo a ter um crescimento significativo dentro do trabalho.

Um outro jogador, embora um pouco mais velho que estes, mas que ainda tem pouco tempo no Girabola, é o Francisco, que tem vindo a ter uma participação muito positiva.

O Tomé, que ainda não apareceu, mas que é outra aposta, é outro jogador que tem vindo a crescer. Em suma, temos muitos bons valores que são representativos, não só para o futuro do Petro, mas para o país em geral, no caso para a Selecção Nacional.

JD - Que sentimento lhe proporciona esta juventude em crescimento na equipa?
AG - É um sentimento de muito trabalho pela frente, trabalhar cada vez mais, pois como disse, ainda estamos no início de um projecto que tem um período de três anos, ou seja, começámos este ano (2015) e estende-se até 2018. É para lá que estamos direccionados. Não podemos estar relaxados, mas sim, mostrar aos jogadores que o crescimento dos mesmos tem de ser contínuo e não momentâneo. Não podemos contentar-nos com uma ou duas representações, mas sim com uma regularidade durante o ano. Portanto, o sentimento que fica é que durante o ano, temos de lutar para o projecto. Temos bem definido o plano de trabalho, desenvolver vários aspectos e fazer crescer a equipa.

JD - Quer com isso dizer que melhores frutos virão?
AG -
No futebol tudo é possível, pois o que proporciona uma mudança repentina é o trabalho. Com isso, podemos acreditar que continuando com as boas condições de treino, podemos ter bons valores no futuro. 

JD - Como avalia a relação entre equipa técnica e jogadores?
AG -
Com mais de um ano de trabalho, a relação é muito boa entre equipa técnica e jogadores. Esta é a segunda época com a equipa. Existe um grande respeito entre as partes. Não conquistado pela autoridade, mas sim pelo comportamento de todos, a julgar pela capacidade de trabalho que temos vindo a desenvolver.


Técnico tricolor reprova empirismo

 Há dois anos que trabalha como treinador de futebol em Angola. Que avaliação faz do processo de desenvolvimento de talentos?

- Eu acho que se deve fazer em primeiro lugar um projecto de desenvolvimento de talentos, seja ao nível da federação ou de clubes. Não se pode fazer um trabalho empírico, porque uma pessoa  disse que assim é bom, ou assim vai funcionar. Isso não. Eu disse isso num encontro na rádio com o director do Kabuscorp do Palanca e com o treinador deles que era importante haver uma conversa sobre caça aos talentos e consequentemente o seu desenvolvimento para termos melhores jogadores.

- O que o técnico Grasseli pretende dizer com isso?

- Penso que quem quer seguir um projecto tem antes de tudo de acreditar, fazer uma analise, um estudo de que é o futebol, o que pretende, isso a julgar pela sua essência, não do futebol que influencia dentro do campo, mas sim na sua raiz e matriz e a historia de um pais ao nível da modalidade.

- De acordo com o que tem constatado no terreno, o que acha do jogador de futebol angolano em termos técnicos e de inteligência de jogo e de aprendizagem em particular?
- Todo jogador tem a sua particularidade e o angolano não é diferente. Quando cheguei cá, tinha acompanhado muito jogos de Petro na época 2013, através de vídeos, onde pude fazer a avaliação, fazendo primeiro aos jogadores. Tive contacto com a realidade daquilo que tinha nas mãos e vejo que existe a boa vontade de desenvolvimento, principalmente no que diz respeito á parte técnica,  mas também à parte táctica no sentido de conceitos, ideia e estratégias de jogos em função individual e colectiva no contexto da equipa.

- E o que percebeu com isso?
- Percebi que há muitos esforços a ser desenvolvidos. Vejo que o jogador angolano tem muitas qualidades e que dependem apenas de um trabalho bem planificado, que pode ser a médio ou longo prazo. Portanto, não vejo os resultados a médio ou a longo prazo sem ter apoios necessários. O Petro tem vindo a dar este apoio ao grupo de trabalho para que o nosso projecto possa acontecer. Desta forma, o trabalho a médio ou longo prazos pode sim ter resultado, pois quando se tem tal preocupação os frutos acontecem. 


PAUSA NO GIRABOLA

“Semana foi de muito trabalho”


JD - O Girabola 2015, em função do compromisso da Selecção Nacional, observa o primeiro interregno. Que benefícios o Petro tirou desta paragem?
AG -
A semana foi de muito trabalho, porquanto a equipa continua a espelhar a sua força. É importante que entendamos que o jogador, para ter uma boa competitividade, deve sempre trabalhar. Foi assim que durante a pausa, dedicámo-nos muito ao trabalho técnico, trabalhando até de forma individual, o que ajudou a ter um grupo a um nível aceitável.

JD - Com uma equipa bastante rejuvenescida, sem ambição pelo título, como tem sido o seu dia-a-dia de trabalho a julgar pelo novo ciclo?
AG -
Tenho dito que um treinador não deve agir de forma situacional, pois o planeamento para esta época (2015) iniciou a meio de 2014 e desde lá temos vindo a desenhar um elenco, uma equipa em conversa com a direcção do clube, sobretudo com o presidente de direcção, Tomás Faria, no intuito de termos um conjunto rejuvenescido. E foi o que aconteceu.

JD - E como tem gerido tudo isso?
AG -
Graças a Deus, sem grandes sobressaltos, pois na verdade é um trabalho de concepção e estamos sempre atentos a tudo o que acontece, seja do ponto de vista colectivo, como individual. Temos jogadores mais experientes a que devemos estar mais próximos através de conversa e dar uma orientação. Mas há um trabalho também muito árduo no sentido dos jogadores jovens serem melhor orientados, de forma a mostrar-lhes o melhor caminho.

JD - O que quer com isso dizer?
AG -
Quero dizer que o treinador é um grande gerente e facilitador das coisas dentro do clube e no Petro, pessoalmente, procuro trabalhar de forma discreta, mas com muita dedicação para o crescimento que pretendemos, não só individual de cada jogador, mas também da equipa no seu colectivo. Lembro e sempre gostei de lembrar também que existe na equipa técnica, não só o treinador principal, mas outros, no caso dos adjuntos Nejó, Flávio, Maurício e Adriano, os dois últimos preparador físico e técnico de guarda-redes, assim como outros envolvidos directamente no campo, sem esquecer o presidente do clube que se faz presente constantemente, para emprestar o seu calor e dar apoio ao grupo de trabalho no nosso dia-a-dia.


CONSTATAÇÃO
“Angola tem história no futebol”


- Há alguma forma de contacto ou troca de experiências entre os profissionais da equipa técnica do Petro e de outras equipas?

- Infelizmente a correria no futebol é muito grande e as equipas têm os seus ideais. Mas sempre que podemos, através de entrevistas, e isso aconteceu com o Kabuscorp e 1º de Agosto na televisão, fazemos isso. Tenho dito que deve existir uma rivalidade grande dentro do campo, mas fora deve existir ajuda entre nós, a julgar pelo profissionalismo, pois trabalhamos na mesma profissão e quando nos ajudamos para o desenvolvimento da nossa profissão, que é o futebol, todos ganhamos com isso.

- Com base nisso, acredita que Angola tem potencialidades na modalidade?
- Angola tem história no futebol. Esteve no campeonato do Mundo em 2006, na Alemanha. Isso significa que tem bons valores, com jogadores espalhados pelo mundo. Assim, há que se ter um projecto, pois o país necessita disso para desenvolvimento de talentos, a julgar pelas capacidades das pessoas que estão à frente dos clubes.

- E o que é necessário no seu entender para que o jogador angolano possa dar outros saltos? 
- É necessário que se acabe com as dúvidas que se tem dos jogadores angolano, pois tenho a certeza de que eles têm tudo para chegar longe. Para isso, primeiro dar condições e depois pedir qualidade, pois hoje existe um equilíbrio muito grande de jogadores a nível mundial. Acredito muito no jogador angolano, tenho a certeza de que com trabalho bem feito, pode se ter clubes fortes e consequentemente uma selecção bastante forte.