Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Grasseli cumpre contrato

Leonel Libório - 25 de Agosto, 2014

Vice-presidente para o futebol diz que Alexandre Grasselli vai continuar no clube

Fotografia: M.Machangongo

A nova direcção do Petro de Luanda está empenhada num processo de reorganização das suas estruturas ligadas ao futebol, que passam  pela superação dos seus treinadores  e formadores, cujos resultados devem vir à tona nos próximos tempos.
Francisco “Chico” Afonso, o novo vice-presidente para o futebol dos petrolíferos adiantou em entrevista ao Jornal dos Desportos, que o treinador brasileiro Alexandre Grasselli vai  manter-se  no clube até à conclusão do seu contrato que acontece no final da época de 2015.
Foi investido recentemente como o responsável máximo do futebol do Atlético Petróleos de Luanda para um período de cinco anos, marca assim o regresso ao activo a um clube que bem conhece, depois de o ter servido anos a fio como atleta.


 Quais os principais objectivos a curto, médio e longo prazos, em termos de horizonte temporal de cada um e quais as prioridades?
Reunir os requisitos essenciais tendentes a reorganizar o clube tanto administrativa quanto desportivamente para dotar de bases seguras que o sustentem, por forma a que no mais curto espaço de tempo, as modalidades antes ganhadoras mas de momento com performances abaixo daquilo a que nos habituaram recuperem, tal como o andebol sénior feminino se junte às demais modalidades ganhadoras, primeiro no contexto nacional e depois criar condições para algumas dessas ombrearem com as maiores do continente.

Sem menosprezo pelas demais e até por mera questão cultural cá entre nós, o futebol constitui o termómetro e nalguns casos o barómetro, pois ele ainda serve para medir a temperatura ou o clima reinante no clube. Quando o futebol está bem a vida no clube é marcada por benesses. O contrário também é o oposto, logo o futebol é a prioridade no clube.

Como encontrou o departamento em particular e a organização de uma forma geral, do futebol do Petro de Luanda?

Ao longo dos últimos tempos o clube conheceu períodos menos bons e com oscilações muito profundas. Assim, é natural que os aspectos organizacionais na área do futebol também tenham sido afectados ao ponto de condicionar o desempenho nessa área.
É certo que necessitam de alguma mudança ou reestruturação. Quais e qual o horizonte temporal para a sua materialização?
O processo com objectivo de restauração da área já está em curso. A direcção definiu estrategicamente um período, ao longo do qual algumas acções tidas como fundamentais sejam levadas a cabo. Não esperamos que findo esse período tudo esteja transformado, mas estamos seguros que algumas melhorias vão começar a aparecer  pelo menos no domínio organizativo.

A nível da categoria de seniores,  o clube dos 15 títulos que alcançou no Girabola, o último aconteceu em 2009. Das dez taças de Angola e das cinco super-taças, as últimas que conquistou, respectivamente, tiveram lugar em 2013. A conquista do título da presente edição do Girabola está cada vez mais distante. A luta pela conquista da taça de Angola pode  servir para salvar a época?
Do calendário de provas oficiais da FAF, a Taça de Angola é a segunda mais importante, se considerarmos que a mesma também dá acesso às competições continentais, é curial que pensemos nela. Pelo andar da carruagem do Girabola várias são as equipas que esta época viraram as baterias para a Taça de Angola, aumentaram  desse modo o grau de dificuldade na conquista da mesma. Além de sermos o vencedor em título, somos mais uma equipa nessa pretensão, o que era absurdo não pensar na revalidação.

TÍTULO  ESCAPA  HÁ ANOS
“Outros clubes também organizaram-se”


A que se deve em sua opinião  o período prolongado sem  o Petro de Luanda conquistar o título do Girabola? 

Na senda do período menos bom dos últimos tempos, alguns processos alheios à filosofia e método do Petro foram introduzidos no clube o que o vulgarizou. Aliado a tudo isso, os outros clubes  com destaque para três ou quatro, organizaram-se e sobressaíram-se dentre os demais, onde também se encontrava o Petro. Logo, foi num mar de coisas como estas pouco abonatórias à vida do clube em que tudo aconteceu.

O senhor integra o elenco eleito para dirigir o Petro de Luanda nos próximos cinco anos, que encontrou Alexandre Grasselli como treinador principal da equipa de seniores, com contrato que se prolonga até 2015. O perfil e a filosofia de jogo do brasileiro enquadram-se no que pretendem?
Sim. A actual direcção acha que sim. Porém, tem vindo a trabalhar no sentido da reorganização com vista a melhorias das condições de trabalho para que depois surjam os resultados. 

O que pretendem, uma vez que os projectos e planos de desenvolvimento da actividade futebolística costumam ser gizados, a médio ou longo prazos, cerca de cinco ou seis anos?
Temos a plena consciência de que a vida apresenta-nos desafios cada vez maiores a cada novo dia. Por isso, tudo fazemos para ter os pés bem assentes no chão. Continuamos a apostar na formação dos nossos atletas e aí,  estamos a criar condições no sentido da profissionalização dos nossos formadores.
Estas acções com vista à superação constante dos mesmos,  para que os jovens saídos das nossas escolas estejam à altura de substituir os craques actuais onde quer que estejam. É um processo longo, mas sabemos que daqui a mais ou menos cinco anos, podemos ter um leque de bons jogadores susceptíveis a boas transferências internacionais que proporcionem em certa medida o investimento neles efectuado.

CHICOTADAS
“O nosso clube tem política própria”


Existem também clubes que despedem os treinadores a meio da época, há outros que os trocam por mais do que uma vez durante uma época.

Desde a fundação do Petro de Luanda, em 1980, Alexandre Grasselli é o 20º técnico da equipa sénior, há alguns que estiveram no clube por duas ou mais vezes em épocas diferentes, como é o caso do já falecido brasileiro António Clemente. O que acha à respeito?
O nosso Clube tem uma política muito própria e em períodos estáveis, mesmo nalguns que não sejam  dos melhores não se deixa levar facilmente pela simples conversa de mudanças de técnicos de futebol, só porque A ou B não vai com a cara do treinador. Refiro-me a períodos de estabilidade e é nessas condições que o Petro faz por se aconselhar primeiro,  para ver qual o técnico que se encaixa naquilo que é o perfil e no método que se adquem  à sua filosofia  e só depois se decide pela  contratação. Nos últimos tempos  e porque algumas situações menos boas ocorreram  na vida do clube, pode ser que o Petro tenha incorrido nessa falha.
Somos apologistas que depois da escolha do técnico que reúne os requisitos apontados pela direcção, deve permanecer no clube pelo menos duas épocas para que possa trazer algo de proveito  para o clube. Feliz ou infelizmente,  o futebol faz-se de resultados e em alguns casos esses não aparecem.
É aí que são chamados os “cérebros” para analisarem a situação sem se emocionarem, com conhecimento de causa, sem precipitações, para que se evitem erros, alguns de palmatória, à semelhança de alguns cometidos no domínio do futebol. Entre esses, destaco o facto de termos mandado embora um técnico da Selecção Nacional “A”  que logo depois foi campeão africano a defender  as cores nacionais de um dos nossos vizinhos. O Petro de Luanda sempre se destacou no capítulo da organização dos escalões de formação, com Carlos Queiroz à cabeça dos formadores, quase desde a  fundação do clube.

Houve épocas em que todas as equipas do Girabola e da Segundona contavam com atletas formados na “cantera” do seu clube. Grande parte dos atletas que foram “exportados”  no período pós – Independência Nacional foram formados no Petro de Luanda. Nos dias que correm, nota-se um decréscimo nessa quantidade que era acompanhada pela qualidade. A que se deve?
De um tempo à esta parte,  ocorreram algumas mudanças na filosofia de gestão do futebol do clube  pelo que os escalões de formação também se ressentiram.
À luz das medidas organizativas mais recentes, a actual direcção está empenhada na revisão das suas estruturas e acreditamos que daqui há algum tempo esses escalões voltem à alta senda e podem  tornar a proporcionar boa safra em cada ano que for passando. L.L
, sem desprimor para os nossos principais adversários.


 Francisco “Chico” Afonso
“Os estilos de jogo  resultam do trabalho de base”



Tendo em conta que nos tempos que correm, os estilos de jogo apresentados pelas equipas seniores, olímpicas e de sub-20, começam a ser gizados em forma de ascensão, nos escalões de formação o que pensa a direcção de futebol do Petro de Luanda fazer para que tal aconteça? Isso acontece em diversas partes do Globo, o caso mais recente que chamou a atenção do mundo do futebol, o facto de a selecção de sub-20 da Argentina ter acompanhado e efectuado alguns treinos com a de honras no Campeonato do Mundo que decorreu no Brasil...
Os estilos de jogo resultam do aturado trabalho de base que os jovens atletas apresentam e se admitirmos que alguns conceitos como o passe, a recepção, a marcação e a desmarcação entre outros são incutidos ao atleta ainda nos escalões de formação, achamos que é aí que os mesmos devem ser muito bem trabalhados,  para quando chegarem às equipas de sub-20, olímpicas ou às equipas do escalão “A”, dominem todos esses conceitos como o peixe se sente na água.
O Bilhete de Identidade de quem quer que seja, não joga futebol ou qualquer outra modalidade  desde que o médico avalie que A ou B tem condição para tal e se esse ou aquele dominarem os fundamentos que lhes permita estarem aptos para as suas equipas, tudo isso assente numa boa condição física, o jovem e o mais experiente podem treinar juntos, se o treinador assim o entender.
Há algumas décadas aconteceu com o ASA e FC Luanda, devido a impossibilidade da maioria dos jogadores dos planteis de seniores jogar por razões que não interessa aqui invocar, o malogrado “Cachimbo”, nome pelo qual carinhosamente chamávamos ao malogrado tio Chico Ventura, lançou uma série de jogadores juniores, entre os quais se destacam o Sabino “Matateu”, Juca, o mais velho dos irmãos N’ Disso, Lucambo, Ventura, enquanto que pelo FC Luanda, Serra Coelho lançou Beto Vigia, o mais novo dos irmãos Cata e outros.

Em tempos não muito distantes, o Petro de Luanda dispunha de “olheiros” nos principais bairros da capital do país, assim como núcleos nas províncias com o objectivo de captar atletas, sobretudo jovens, adolescentes e crianças para serem trabalhados no clube. Como se encontra essa tarefa?
 Estagnada, mas já há orientações no sentido da revitalização de tais núcleos onde se afigurarem necessários. 

COMPARAÇÃO
“Os avançados do meu tempo eram  mais completos”


 Actualmente, os dianteiros marcam mais ou menos golos do que no tempo em que esteve no activo? As defesas estão melhor ou pior organizadas?
Se partirmos do ponto de vista segundo o qual no passado marcava-se mais, embora a nossa defesa fosse das menos batida, aí estão as estatísticas a confirmar isso. Actualmente marca-se menos golos. É verdade que os sistemas têm evoluído e as defesas principalmente. Hoje fecha-se. Tira-se melhor os espaços ao defender e como tal, as defesas estão melhor organizadas.

Os dianteiros de agora, dão mais ou menos trabalho que o Alves, João Machado, Maluka, Jesus, Vata, Mavó, Tó-Zé, Arlindo Leitão, Quintino e Túbia, entre outros?
Temos actualmente bons avançados que dão menos trabalho que aqueles que citou. A razão que me leva a fazer tal afirmação é que aqueles eram mais completos. Sabiam jogar com e sem a bola, desmarcavam-se nas diagonais sem quase incorrerem em fora de jogo. Sabiam fazer a leitura de jogo com maior facilidade. Sem desprimor para os actuais, eram mais completos.

Alguns especialistas são de opinião que as equipas se preocupam pouco com a formação de guarda-redes de qualidade, colocam algumas dificuldades no futuro a Selecção Nacional nesse sector. Ângelo, Lamá, Nuno, Mário e Gomito  têm sido preferencialmente chamados. O que fazer?
Tudo se resolve com o trabalho árduo, abnegado e à custa de muito sacrifício com muitas horas de trabalho muito bem orientadas com o treinadores de guarda-redes devidamente preparados. Durante muito tempo estivemos à frente dos demais, porque a começar pelo próprio professor António Clemente e mais tarde por Adriano Panzo, tivemos sempre a atenção em dar formação específica para tal. Está na hora de voltar a fazê-lo e daí colher os frutos dessa aposta.

Porquê que actualmente são descobertos poucos craques e bons jogadores e raramente talentos?

No passado tínhamos campos em cada esquina dos bairros em que morávamos. Fazíamos a digestão a dar toques na bola. Acordávamos a jogar a bola e apenas interrompíamos quando fôssemos à escola, à igreja ou quando estivéssemos a dormir.


APITOS
“O nível dos árbitros
é compatível à prática”


Qual a sua opinião sobre o nível da arbitragem angolana, uma vez que os árbitros nacionais continuam a marcar presença em quantidade reduzida nas competições organizadas pela Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) e pela Confederação ?          
O nível dos nossos árbitros é compatível com o nível de futebol que temos. É como tudo, existem aqueles que pelo estudo e interpretação das leis destacam-se dos demais.

No futebol “doméstico”, em quase todas as jornadas do Girabola e da Segundona, fazem-se ouvir críticas e lamentações de alguns dirigentes e treinadores em relação ao trabalho dos árbitros. ?
Não é fácil falar-se das arbitragens. Tenho dito que os árbitros são pessoas corajosas ao colocarem-se no rectângulo de jogo para ajuizarem sobre o comportamento dos artistas da bola, ao demonstrarem a milhares de pessoas, a capacidade que têm na interpretação das leis do jogo em décimas de segundo. Por esse facto, deve-lhes ser dado também o benefício da dúvida por não sermos perfeitos. É natural que o árbitro erre aqui ou ali, mas devemos ter a capacidade de verificar que quando  tal ocorre de forma involuntária. Devemos também ter a capacidade para medir e compreender quando é que o adversário esteve melhor do que nós e aceitar a derrota com naturalidade.

PALANCAS NEGRAS
“Falta sensibilidade
a alguns dirigentes”



Qual a sua opinião sobre o trabalho que Romeu Filemon está a desenvolver como seleccionador nacional? Acha que é desta que os Palancas Negras se vão reconciliar com o público, o que passa pela obtenção de resultados positivos como o apuramento para a fase final do CAN-2015, em Marrocos?

Até agora foram apenas jogos- treinos, mas ainda assim, os indicadores têm sido positivos. Deixemos o homem trabalhar criar as condições logísticas, técnicas e administrativas que se impõem. No domínio da diplomacia desportiva deve haver maior acutilância e “savoir fair” na base do “fair play” para que se continuem a trazer jogadores da diáspora, mas sobretudo que sejamos capazes de negociar e trazer os melhores para fortalecermos a equipa de todos nós, evitar  que novos Matuidis, Mavubas, Wilians de Carvalho e outros que totalizam o número de seis deixem de fugir-nos por falta de uma perfeita diplomacia a que chamo desportiva, que por falta de tacto e de sensibilidade de algumas pessoas que se querem rotular de dirigentes desportivos.
L.L