Jornal dos Desportos

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Entrevistas

\"Há gente contra o meu trabalho\"

Paulo Caculo - 29 de Agosto, 2017

Beto Bianchi, a Federação tem sido muito realista

Fotografia: Jornal dos Desportos | Edições Novembro

Beto Bianchi é um exímio conversador. O seleccionador nacional abordou, em entrevista concedida ao Jornal dos Desportos, o percurso rubricado pelos Palancas Negras nas eliminatórias de qualificação ao CHAN e fez uma antevisão do que pode ser a disputa do apuramento ao CAN'2019, projectando-o para uma realidade mais ampla. O técnico hispano-brasileiro, contratado pela FAF há sensivelmente quatro meses, confessou ter ficado desiludido com a forma como alguns criticos julgaram o seu trabalho, antes mesmo de começar a trabalhar. Considera ter sido vítima de ataques sucessivos de "grupos", com objectivo único de "bombardear o seleccionador", porque não o querem ver na selecção. De resto, Beto Bianchi fala feliz e considera não temer as criticas, desde que sejam construtivas. Lamentou a falta de patriotismo de alguns sectores do desporto angolano. Disse ter chegado a pensar se valia a pena continuar na selecção, perante as inúmeras opiniões contra o seu trabalho. Atente, pois, caro leitor, à conversa.

Angola conseguiu a qualificação, pela terceira vez, à Taça CHAN. Se lhe pedissem para apontar um factor decisivo para este apuramento, qual seria?
Foram muitos factores que contribuiram para o nosso sucesso. Penso que foi o  trabalho de todo o grupo e não apenas dos jogadores. O meu staff técnico e a direcção da federação também foram importantes.

Nem por isso foi uma qualificação fácil...
Sim. Começamos com muitas limitações, mas acho que a força de vontade de cada elemento ajudou muito, sobretudo essa vontade que a gente tinha de alcançar a qualificação, acho que foi um factor determinante. A atitude dos jogadores, foi exemplar e isso é muito bom, porque quando você conta com o apoio dos jogadores facilita muito o trabalho do treinador. Os meus colaboradores também sempre estiveram a apoiar e a direcção da federação que nos acompanhou também, dentro de uma limitação sempre procurou dar o apoio necessário e no último jogo o apoio dos adeptos, que não podemos esquecer, já que foi muito importante.

Sente que a selecção justificou o apuramento desde o princípio das eliminatórias?
Foi muito difícil. Eu, particularmente, enquanto seleccionador sabia que seria muito complicado e que não havia de ser um passeio. Começamos com uma tarefa difícil na Taça Cosafa, onde queriamos que todos entendessem que o torneio seria importante para a qualificacao da selecção. Como treinador enfrentei muitas críticas à nível do país, porque as pessoas acham que o Girabola não deveria parar, tanto é que não parou. Foram alguns clubes que pararam, mas foi necessário, porque sabíamos que o torneio da Cosafa iria dar uma base para a selecção, pensando no apuramento ao CHAN.

Que importância acha que teve a disputa da Cosafa nesta trajectória que acabou com a qualificação ao CHAN?
Acho que foi benéfico o estágio durante a Cosafa. Os jogadores assimilaram muito o que a gente queria passar para eles, na medida em que o sacrifício começou ainda durante a Taça Cosafa. Logicamente que em todos os jogos enfrentamos muitas dificuldades, porque os adversários tinham um certo nível, mas fomos passo a passo superando todos estes problemas e também organizando internamente o estágio e tudo que era necessário para que os jogadores chegassem às eliminatórias em condições de garantir o apuramento.

Em algum momento chegou a pensar que fosse fracassar, dadas as dificuldades que teve para preparar a equipa?
No futebol sempre existe um risco. Um profissional sabe que existe risco, porque vivemos de resultados e isso está claro. Às vezes fazemos tudo bem, trabalhamos da melhor maneira possível, mas se os resultados não surgem o trabalho é esquecido. Sabia disso. Estava consciente disso.

Ainda está magoado com a forma como foi tratado por algumas pessoas desde que a federação o anunciou para treinar os Palancas?
Não sei o porquê, mas a minha chegada na selecção criou uma certa polémica. Um determinado grupo não aceitava a minha presença na selecção e este mesmo grupo desde o início tentou bombardear a minha presença na selecção. Como profissional, sabia disso e não podia ter nenhum erro. São situações. Provavelmente com os outros treinadores tiveram um pouco mais de paciência. Tudo isso tinha presente dentro de mim.

Mas a que grupo se refere concretamente?
Não percebi muito bem, mas notava que existia ou existe um grupo que não estava de acordo com a minha presença na selecção. Os motivos não sei e gostava de saber. Mas isso ficou palpável, não estou a inventar. Até certo ponto, dentro do futebol se pode entender. Mas sinceramente não compartilho, porque está a ser uma semelhança desde quando eu cheguei no Petro de Luanda. Após a minha chegada, ninguém me conhecia e comecei logo a ser criticado desde o início, sem antes analisarem o meu trabalho.

Na selecção está a ser mais ou menos a mesma coisa...
Na selecção foi, mais ou menos, parecido. E como eu já tinha tido esta experiência, preferi esperar e seguir com o meu trabalho, porque tinha confiança no que estava a fazer, principalmente quando vi a atitude dos jogadores, tinha muita confiança de que a gente iria conseguir.

Porque que acha que é muito contestado?
Não acho que o problema seja com o Beto Bianchi. Acredito que tem a ver com a cultura local. Acho que as pessoas deveriam primeiro analisar e só depois opinar. Fazem o contrário. Opinam e depois analisam. Colocam sempre a "carroça à frente dos bois", como a gente fala. Acho que deveriam ter um pouco mais de paciência.

É a primeira vez que vive uma experiência do género?
Já trabalhei em sete países diferentes, sofri pressão de todos os países, mas com um pouco mais de moderação. Sinceramente, aqui houve muitos precipitados, na minha opinião. Logicamente que não são todos, mas houve gente que me apoiou muito, a nível da imprensa houve um sector que me ajudou muito, mas existe uma divisão nesse sentido. Acho que as pessoas deveriam ter mais calma, porque o futebol não é feito em dois dias. É muito complicado trabalhar com o futebol e deve-se dar oportunidade as pessoas de trabalharem e depois deste trabalho, se as coisas não saírem bem é normal que venham as críticas.

AMBIÇÂO
Bianchi quer mudar a forma
de África olhar para Angola


Beto Bianchi mostra-se disposto a fazer história no comando técnico da Selecção Nacional. O seleccionador de Angola recusa aceitar o facto de que a selecção seja motivo de gozo por parte de alguns adeptos, pelo facto de não alcançar determinado nível de exibição. Assegura que os Palancas Negras têm a obrigação de se fazer respeitar e de conqusitar a simpatia e o apreço de todos os amantes do futebol.

Acha que esta qualificação ao CHAN ajudará a serenar os ânimos, sobretudo no seio dos mais indecisos?
Acho isso o menos importante. Notei que, com o passar do tempo, os próprios adeptos, aos poucos, foram envolvendo-se mais com a selecção, mudando um pouco a ideia inicial que tinham. Inclusive cheguei a conversar muito com os jogadores sobre a importancia de mudarmos o panorama. A selecção não pode ser motivo de risada do povo, ao ponto de algumas pessoas chamarem de «tartaturas». Acho isso uma falta de respeito e a gente tem que tentar ganhar este respeito.

De que forma acha que se pode ganhar este respeito?
A selecção não pode ser vista desta forma no seu país e, por isso, conversei muito com os jogadores, no sentido de eles mudarem este quadro. Eles sabiam que so iriam conseguir através de resultados. Agora, vamos tentar melhorar cada vez mais, para que mais pessoas se revejam nesta selecção. A gente tem que mudar. A selecção é de todos os angolanos e o Beto Bianchi está apenas de passagem, pode ser que no próximo ano eu volte para Espanha, mas os êxitos alcançados ficam para sempre com a selecção. Enquanto estivermos aqui, vamos lutar para melhorar o futebol em Angola.

Em algum momento chegou a pensar em demitir-se do comando técnico da selecção?
Não pensei em desistir, mas parei para pensar se realmente valia a pena continuar. Voçê quer ajudar, mas infelizmente existem pessoas que não querem que voçê ajude. Chegou uma altuta em que parei para analisar se vale a pena a gente estar nesta situação. A troco de quê?! Mas, desistir nunca passou pela minha cabeça. Sempre apostei em continuar, até que um dia me matassem. Só assim. Mas tinha confiança dos jogadores e todos ajudaram muito, sobretudo o pessoal da federação. As criticas ficaram no segundo plano.

Na véspera do jogo decisivo da selecção frente ao Madágascar sentimos uma enorme preocupação do seleccionador em ter o estádio cheio. Fruto disso, chegou a pedir uma ajuda à imprensa, no sentido de mobilizarem os adeptos. Como avalia a sua relação com a imprensa angolana?
Para mim, o mundo do futebol tem protagonistas e a imprensa também faz parte do futebol. Tenho particularmente muito respeito pela imprensa, embora às vezes discorde de algumas opiniões, mas a imprensa faz parte deste mundo. Nós, os profissionais, precisámos da imprensa, mas também se aqui não existisse futebol profissional muitos profissionais do desporto não teriam trabalho.

Sente que houve esse trabalho dos jornalistas?
Acho que todos dependemos de todos e a imprensa teve e tem uma forte influência na opinião pública e é por isso que eu pedi este apoio. Veja que quando terminou o jogo da primeira mão, cheguei a colocar uma pressão à imprensa, dizendo que teriam a obrigação de mobilizar o maior número de adeptos para o jogo de resposta, em Luanda. Acho que deu resultado.

Consumado o apuramento ao CHAN, qual é o seu próximo objectivo?
O primeiro passo seria a qualificação. Foi cumprido. Agora, o passo seguinte é fazer o melhor possível no CHAN e, se possível, ser campeão. Nós temos projectos a longo prazo, temos muitos jogadores novos e vamos trabalhar com eles. Estamos a fazer uma remodelação na selecção e queremos dar um passo de cada vez. O próximo passo é fazer uma excelente campanha no CHAN do Quénia. Se formos campeão, melhor.

De que forma pensa atacar este próximo objectivo. Espera fazer um estágio antes da competição?
Temos de reunir com a federação, para traçarmos os próximos passos. Mas, a nível técnico precisámos de seguir todos os jogadores. Logicamente que a selecção já tem uma base, mas todos os atletas sabem que apenas os melhores que estiverem no Girabola vão poder ser chamados, independentemende da idade, nem se é bonito ou feio. Se demosntrarem as qualidades para estar na selecção, vamos convocar. Vamos tentar sempre trazer os melhores.

RECONHECIMENTO
“Há jogadores no Girabola
que poderiam jogar na Europa”


Como reagiu ao facto de alguns jogadores, como é o caso do central Bastos, ter-se recusado a integrar os trabalhos da selecção, na altura, tendo em vista o jogo com o Burkina Faso, alegadamente por incumprimentos financeiros?
Acabei de elogiar o comprotamento de alguns jogadores que estiveram na eliminatória do CHAN, pela postura patriótica que tiveram. Já na eliminatória para o CAN, escutei apenas e li através da imprensa, porque ninguém me contou, mas sinceramente ainda estou à espera de alguma explicação por parte destes jogadores que foram convocados por mim e não aceitaram. Não posso ainda julgar, sem saber das razões. Teria uma opinião se os jogadores tivessem conversado comigo. Não sei se a ausência deles deveu-se mesmo a problemas financeiros.

Acredita também que pode qualificar Angola ao CAN, depois do êxito alcançado no CHAN?
Tem muitos jogos ainda. Vamos fazer de tudo para alcançarmos os objectivos. Perdemos o primeiro jogo com o Burkina Faso, mas ficamos com «amargo na boca», porque analisando friamente a partida, fica-se com a conclusão que fomos prejudicados. Apesar do Burkina Faso ser uma selecção de bom nível, olhando para o resultado pode parecer que não fizemos nada. Penso que o resultado é enganador, porque poderíamos ter marcado mais golos e sofrido menos. Nada ainda está perdido. A gente tem esperança nos próximos jogos.

Que avaliação faz do futebolista angolano?
Os jogadores do Girabola estão a dar um bom nível e é hora de começar a pensar em convocar a selecção a partir dos jogadores que evoluem em Angola. Prefiro jogadores com vontade e com ilusão de defender as cores do país. As vezes não quer dizer que, porque você está a jogar na Europa seja melhor do que aquele que está no Girabola. Na minha opinião, tem jogadores no campeonato angolano que poderiam estar na Europa a jogar. O problema é a falta de oportunidade. Há vezes em que ficamos preocupados em trazer jogadores da Europa, quando temos melhores aqui no Girabola. Logicamente que pode existir algumas posições chave, que a gente tenha de ir buscar fora, mas não teria problemas em arriscar uma convocatória para o CAN com mais jogadores do Girabola.

De que forma encara o futuro da selecção?
Temos um enorme trabalho pela frente. Sei que ainda não conseguimos nada. Depois do último jogo, tive uma reacção de emoção e chorei, mas até nisso teve pessoas que não entenderam. Tenho de dar explicação quando choro, rio ou espirro. Passei momentos muito complicados desde que cheguei à selecção. Só a minha familia e as pessoas muito próximas sabem o que passei. Quando a gente vê que atingiu um objectivo e ajudou o país, a reacção é de emoção. O que aconteceu comigo foi um choro a exteriorizar tudo que senti para conseguir este êxito. Não chorei devido à qualificação ao CHAN. As pessoas não entendem. O sentimento a gente não programa, é expontâneo. Não estou na selecção por dinheiro, mas por objectivo e o primeiro objectivo consegui cumprir.  Estou bastante motivado para dar o segundo passo.

DESABAFO
“Quanto mais criticas mais
forças tenho para continuar”


O seleccionador dos Palancas não esconde a insatisfação por ter sido muito mal interpretado, sempre que procurou justificar as paragens do Girabola. Beto Bianchi diz ser importante que os agentes do futebol percebam que quando a selecção tem um compromisso, a nação deve responder em massa aos apelos da federação, participando dos jogos, enchendo o estádio.

Chegou a fazer um post na sua página no Facebook que acabou gerando ainda mais polémica. Esperava aquela repercussão que teve?
Pela minha cultura, de onde venho, é completamente normal. Fiz um desabafo no meu Facebook, porque não vi lógica nenhuma, que no dia do jogo da selecção tivesse jogo do Girabola, achei que era uma falta de respeito com a selecção, mas não comigo. Então escrevi que as pessoas não têm "cohones" de falar as coisas, que em português colh....é uma expressão que a gente usa normalmente muito na Espanha, sem ofensa nenhuma, e falei que as pessoas não tinham essa coragem de dar uma opinião. Dei a minha opinião, dizendo que ninguém tinha "cohones" para dizer que ninguém devia jogar no dia em que jogaria a selecção.

Mantém-se irredútivel em relação a programação dos jogos do campeonato, enquanto houver compromissos da selecção?
Sim. O Girabola não podia decorrer enquanto houvesse jogo da selecção, porque é a equipa de todos angolanos. Mas não ofendi ninguém. Quando existe as críticas com má intenção, qualquer coisa que a gente fale é motivo de polémica. Foi uma opinião minha normal, que qualquer outro treinador poderia ter, mas como tem um grupinho interessado em bombardear o seleccionador, qualquer palavra ou gesto que fizer aproveitam. Mas já estou acostumado, sei viver com isso.

Este clima de contestação a que foi alvo, sobretudo após a sua apresentação como seleccionador e mesmo no decorrer do seu trabalho atrapalhou alguma coisa ou nem por isso?
A vida de um treinador não é fácil. Mesmo as coisas correndo bem não é fácil. Agora imagine um treinador que está longe da família, como é o meu caso. As pessoas não têm isso em conta. Fico quase um ano longe da minha família, filhos e esposa, não é fácil. Nas horas difíceis, o treinador fica isolado, encontra poucos amigos... Portanto, estas experiências não me afectam no sentido negativo, inclusive ajudam-me, porque sinto-me mais forte para continuar a trabalhar.

De nada valem as criticas para o destruir...

Possivelmente, vai servir-me para experiências futuras. São situações que estou a viver em Angola e que nunca tinha vivido. Este tipo de dificuldades extra-campo está a ajudar-me também a crescer como profissional. Não gostaria de enfrentar essas coisas, mas já que aconteceu, estou a tirar algo de positivo nelas para crescer profissionalmente.

CONDIÇÕES DE TRABALHO
Federação tem sido muito realista

Chegou à selecção de Angola num período considerado de crise financeira e fruto disso deparou-se com dificuldades da Federação poder proporcionar-lhe as melhores condições para trabalhar. Sente-se confortável para concretizar os objectivos a que se propôs?

Acho que perante as dificuldades que existem e que todos sabemos - porque as condições económicas da federação não são as melhores - devíamos valorizar ainda mais o trabalho de um profissional que trabalha nestas condições. Não é a mesma coisa que trabalhar na federação inglesa ou na federação espanhola que tem tudo do melhor. Mas só tenho a agradecer a direcção da FAF, porque dentro desta humildade de condições, tentou colocar tudo que pedi.

Sente que existe, de facto, a presença da federação?
Não me deram tudo, mas passo a passo as  coisas têm melhorado. Não estamos ainda a 60 por cento do melhor, mas vejo um esforço da parte dos dirigentes da federação, de tentar proporcionar o melhor para a selecção trabalhar em melhores condições e isso me ajuda a seguir em frente com o projecto. Acho que com o tempo, se aparecer mais apoios do exterior, a gente pode melhorar as condições, não só de trabalho do staff técnico, mas também dos próprios jogadores.

Acha que as condições postas à sua dispsição são suficientes para assegurar os resultados que vão ao encontro das expectaivas dos angolanos?
Penso que as condições podiam ser muito melhores, mas para isso precisaria de mais recursos económicos. A gente tem que dobrar o esforço e, eu, pessoalmente e os meus colaboradores, houve vezes que tivemos de dobrar várias vezes os nossos esforços, por falta de logistica. Mas o que anima a gente a lutar é a vontade das pessoas em melhorar o quadro actual, tentando oferecer o melhor à selecção. Acredito que com estes resultados, mais pessoas, mais instituições vão aparecer para ajudar.