Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Higino Carneiro fala do segredo do sucesso do seu clube na prova

Paulo Caculo - 09 de Novembro, 2011

Higino Carneiro | fala do ttulo indito

Fotografia: Jornal dos Desportos

O que nos diz do título inédito conquistado pela equipa de futebol no Girabola?
Conseguimos obviamente um grande feito, de satisfação de todos aqueles que apostaram no projecto, nomeadamente simpatizantes, sócios, adeptos, amigos e sobretudo para a própria população do Kwanza-Sul.
 
Acreditava que, ao quarto ano de presença no campeonato nacional, o Libolo pudesse protagonizar tal feito?
Elaboramos este projecto há quatro anos. Não conseguimos alcançar o nosso objectivo nos três primeiros anos, mas conseguimos agora em 2011. Obviamente, que foi uma obra, porque não foi fácil.
 
Qual foi a grande estratégia?
Houve muito trabalho, muita disciplina, muita organização e uma direcção estável, liderada pelo Dr. Rui Campos, a quem se incumbiu a tarefa de conduzir no dia-a-dia todo este processo. Portanto, mérito particular para ele, independentemente do esforço de todos, desde a equipa-técnica, que tem Zeca Amaral à cabeça, e todos os jogadores. Há que reconhecer o esforço desenvolvido pelo presidente da direcção, que permitiu que houvesse estabilidade, serenidade, tranquilidade e organização interna.

Esperavam chegar ao título tão cedo?
O Libolo não é uma equipa nova. É apenas nova na sua constituição, pelos jogadores e a direcção que tem hoje. É uma agremiação desportiva que data de 1942, que resultou da fusão de quatro equipas que existiam no passado, fundadas em 1936. Penso que a grande estratégia esteve na organização e no cumprimento de objectivos. Traça-se um programa e executa-se e, havendo disciplina e responsabilidade na execução, cumpre-se o programa. Isso é como qualquer outro projecto.
 
A que quatro equipas se refere?
Tínhamos as equipas do Botafogo, Palmeiras, Vasco da Gama, Fortaleza e, já naquela época, os nossos mais velhos diziam que este era um pequeno Rio de Janeiro. O facto é que estas quatro equipas se fundiram e deram lugar ao Recreativo do Libolo, que hoje temos, estruturado de modo diferente, e, também, eivado de um sentimento competitivo diferente.
 
Sente que o clube goza hoje de outras condições para se impor no mosaico desportivo nacional de forma diferente?
A época é outra. Aquilo era o passado colonial, hoje estamos independentes e, naturalmente, as aberturas, as ambições, os desejos e as oportunidades também são diferentes, e fizeram com que conseguíssemos conquistar este lugar que ocupamos hoje.
 
Chegou a sentir algum receio de perder o campeonato dada a forma como a FAF geriu os “casos polémicos” na última jornada do campeonato?
Fomos campeões de forma antecipada, porque a Federação considerou procedente o recurso apresentado pela Académica do Soyo.Acho que se fez justiça. Mas, no fundo, não seria no fim do campeonato que havíamos de tratar de casos que deviam ser tratados na primeira fase. Acho que isso certamente também ocorreu por causa da transição. Era o período de eleições e de mudança de direcção e estes casos ficaram na secretaria, mas deviam ser levantados ainda na primeira fase do campeonato.
 
Acha que a Federação procedeu mal?
Acho que alguém dentro da Federação com intenções maléficas terá tirado estes dados e colocado nas mãos dos clubes, que acabaram por realizar o protesto. É vergonhoso. Significa que a Federação tem de se reestruturar, tem de ser coesa, organizada, tem de haver maior rigor.

“Vamos aumentar o orçamento
para ganhar a Liga dos Campeões”


O que se pode esperar do Recreativo do Libolo nas eliminatórias de acesso à Liga dos Campeões Africanos?
Queremos representar as cores de Angola de forma diferente. É evidente que as partidas internacionais terão lugar no nosso pequeno estádio, que também vai merecer algumas obras de melhoramento. O que fizemos até agora resultou do nosso próprio esforço e vamos continuar a fazê-lo. Certamente, vamos contar com o apoio de patrocinadores, que sempre estiveram ao nosso lado, de maneira que o nosso estádio possa albergar mais gente, acomodar melhor as pessoas, muito embora esteja bem situado e num lugar privilegiado.
 
O estádio de Calulo será alargado?
- Há a necessidade de aumentarmos o número de lugares, de maneira que, nesse período de participação competitiva africana, possamos receber muito mais gente no estádio.
 
De que forma pensam preparar-se para a Liga dos Clubes Campeões de África?
- Temos um conhecimento razoável do que é a CAF e de como tudo se processa internamente. Contamos com uma assessoria, que trabalha connosco desde há algum tempo e que participa das lides desta agremiação desportiva africana. Naturalmente que vamos buscar dele alguns conselhos.
 
Acha que, ao contrário dos próximos anos, tudo será diferente para o Libolo na próxima competição africana?
- O mais importante será considerar isso como mais um projecto. Analisar se o que fizemos ao nível do Girabola deu resultado, o que faremos agora ao nível da competição africana. Temos de trabalhar, porque não sabemos com quem vamos jogar e onde vamos jogar, de maneira que evitemos que as nossas equipas saiam muito do espaço territorial onde nos encontramos.
 
A empreitada da Liga é sempre muito complicada.
Veja que tudo é feito de forma a criar dificuldades às nossas equipas. É evidente que as outras também vêm cá, mas muitas vezes em condições melhores do que as nossas. As ligações em África são muito difíceis. Para se ir jogar a um país qualquer africano, à exemplo do Gabão, se calhar temos de ir à França ou à África do Sul para chegar ao Senegal, quando podemos fazê-lo directamente. São aspectos de natureza organizativa, que têm naturalmente algum do seu preço, mas em que vamos ter de nos enquadrar, de maneira a podermos responder de forma positiva e dar também alegrias ao povo angolano.
 
Qual é o objectivo da equipa na Liga africana?
O nosso objectivo é ganhar uma competição africana. Esta é a nossa luta para o próximo ano. Queremos ganhar a Liga dos Campeões.Precisamos de fazer aquilo que até agora nenhuma equipa angolana conseguiu fazer. Queremos chegar a este nível. Veja o esforço que fazemos ao nível do basquetebol. Da mesma maneira, estamos a tentar fazer com o futebol. O nosso objectivo é ganhar a Liga.

Zeca Amaral deve continuar
no comando técnico da equipa


A conquista do Girabola vai exigir do Libolo maiores responsabilidades na próxima época. Além de representar o país nas provas da CAF, os adeptos esperam que saiba justificar com prestígio o título de campeão nacional?
Estes quatro anos permitiram-nos aprimorar os nossos aspectos organizativos. O segredo do trabalho desta equipa resume-se no seguinte: o discurso só é feito a dois níveis; de mim para o Dr. Rui Campos e vice-versa. E ninguém mais discute os assuntos. Desta forma, nascem as directrizes para aquilo que a gente quer. Esta não é uma equipa onde toda a gente manda. Aqui há organização e disciplina.

Considera estes dois factores imprescindíveis para o sucesso de qualquer equipa?
Penso que esse é o segredo: evitar que haja confusão, como ocorre na maior parte das nossas estruturas desportivas e que acabam por criar um ambiente desagradável e que afecta fundamentalmente o balneário, onde queremos serenidade, discernimento e atitude, de maneira que os jogadores estejam concentrados na sua tarefa, que é de ganhar os jogos.
 
O projecto Libolo passou já por três fases: primeiro, com o técnico Luís Mariano, depois, com o professor Mariano Barreto, e agora com o técnico Zeca Amaral. Esperam manter o treinador?
Vamos ver se o projecto tem continuidade, mas tudo dependerá dele. Portanto, vamos ver como será daqui para a frente. O certo é que o nosso projecto começou desta forma, porque vimos as equipas a um determinado nível e, à medida que se foram organizando, também exigiu um pouco mais de nós. Por isso, é que fomos melhorando a performance dos atletas e dos treinadores. Mas isso não significa que o Luís Mariano não esteja à altura, aliás, foi ele que levou a equipa ao vice-campeonato. Tem todas as qualidades, por isso é que continua ligado ao Libolo, dispensámo-lo apenas para treinar o Benfica de Luanda.
 
Como se explica o surgimento de Mariano Barreto?
Necessitávamos de organização interna, por isso é que trouxemos o Mariano Barreto e pusemos o Luís Mariano como director-geral do clube, na altura, para organizar e estruturar aquilo que menos mal estava dentro da estrutura desportiva, mas sempre de, em caso de haver necessidade, utilizá-lo como recurso. Mas não foi necessário.
 
De que forma pensam abordar a próxima época e os novos desafios?
A direcção do clube vai fortalecer-se também, vamos reforçar o nosso plantel com jogadores de outro nível, de outra categoria. É uma questão que vamos tratar nos próximos 30 dias. Vamos programar e discutir com o treinador, e saber se, efectivamente, Zeca Amaral vai querer continuar com o projecto. Mas acho que sim, não falei com ele ainda durante estes dias e, certamente, vai apresentar uma proposta e com base nela vamos nos organizar para responder a este desafio que a gente quer.

“Jogadores terão
prémios aliciantes”


Muito se tem falado em relação ao prémio de campeão da equipa. Qual será a recompensa financeira do plantel do Libolo?
Acho que a direcção vai recompensar os jogadores. Há patrocínios que nos foram feitos até à última hora e que vão ser entregues. Portanto, há prémios de particulares, de pessoas singulares e, naturalmente, da própria direcção. Não sei quanto será, mas creio que será aliciante e positivo para eles.

 O título acaba por ser uma boa resposta aos que menos acreditaram no projecto. Certo?
Claro. Muita gente estava céptica quando lançámos este projecto. Amigos da minha infância, que praticaram futebol comigo, não acreditavam, mas o que é certo é que fomos sempre apoiados pela população, apoios vindos de todos os quadrantes, e hoje, mais do que nunca, vindos do Kwanza-Norte, Huambo e de Benguela.

Aos poucos, a equipa vai conquistando mais adeptos.
Nós temos já adeptos em Cabinda, Cunene e Kuando Kubango. Temos um site que é visitado por três mil pessoas diariamente. Vamos também aproveitar esta ocasião para lançar um projecto que se chama “Sócio Adepto”, de maneira a podermos arrecadar mais fundos, que sirvam para fortalecer a nossa capacidade financeira e suportar todo este projecto.
 
Como será o acesso ao projecto “Sócio Adepto”?
Vamos estabelecer uma base, mas cada um dará aquilo que pode, mensalmente ou anualmente. Penso que os sócios vão entenderqual será o nosso objectivo. É uma experiência que fomos buscar ao Brasil. As equipas brasileiras usam isso e tem dado resultado. Porque quem está no Cunene, obviamente que tem dificuldades de vir para aqui, mas pode dar a sua contribuição, pode levantar a sua voz e pode expressar o seu sentimento se, efectivamente, estiver ligado ao clube. Vamos lançar este projecto, que será uma inovação no contexto desportivo nacional.

Equipa tem avião próprio
para disputar as Afrotaças


A entrada do Recreativo do Libolo nas eliminatórias de acesso à Liga dos Campeões africanos obrigará da direcção grandes exercícios financeiros. Com o actual orçamento, é possível alcançar os objectivos? 
O nosso orçamento, este ano, ao nível do desporto, foi de quatro milhões de dólares. E quando falamos de competições africanas, sentimos a necessidade de aumentar um bocado mais, devido às deslocações aéreas.
 
É esse de fato um dos grandes motivos de gastos.
Certo. Por isso, contaremos com meios de aviação própria para levar a equipa para o local, facto que pode reduzir o custo e facilitar a chegada atempada aos locais de jogo. Mas são custos que temos de ter em linha de conta.
 
Calulo tem condições para receber voos internacionais?
- O aeroporto já está feito e os aviões que serão utilizados pelo clube aterram perfeitamente em Calulo. Irão descolar daqui para qualquer parte do mundo.