Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Hirondino aposta na gesto colegial

Silva Cacuti - 08 de Janeiro, 2017

Novo presidente assume desafio de gerir a patinagem

Fotografia: Dombele Bernardo

Antigo praticante e agente activo no processo de massificação da patinagem após a independência nacional, Hirondino Garcia "acaba" de ser eleito presidente da Federação Angolana de Patinagem num processo manchado por ameaça de impugnação. O novo presidente dá pouca credibilidade ao que "não faz bem à modalidade" e convida todos os agentes desportivos a unir esforços para que a patinagem enfrente os novos desafios que se avizinham. Hirondino Garcia rompe com algumas práticas de gestão anteriores e coloca o seu antecessor Carlos Alberto Jaime "Calabeto" no quadro de honra da patinagem angolana. O novo presidente da Federação ainda não está no exercício das funções, mas admite que o país pode fazer-se representar nos Campeonatos Mundiais da China deste ano com alguma outra especialidade da patinagem. 

Que visão tem do processo eleitoral que culminou com a vossa eleição, considerando que depois de três processos com lista única, nesse houve uma segunda lista?
Foi um processo que começa há 12 anos. É do conhecimento geral que estive quatro anos como vice-presidente da Federação Angolana de Patinagem. Antes, estive oito anos como presidente da Associação de Patinagem de Luanda. É um processo interessante, porque nos permite ao longo dos anos exercer práticas que nos vão levar a um bom resultado no final. Julgo que, para se chegar a presidente de uma Federação, precisamos trazer alguma bagagem, conhecimento de como funciona a coisa. É algo complexo que não consegue perceber, quem está de fora.

É desafiante?

É também o início de uma outra fase. Chegamos à presidência da Federação e não vamos parar por aqui. Temos muito mais para oferecer à modalidade. Aqui começa exactamente a continuidade, porque é o início de outra fase que vai permitir engrandecer a modalidade. Certamente nem sempre a satisfazer as pessoas todas, porque não somos capazes de agradar a gregos e a troianos. Vamos fazer a nossa parte, prometer cada vez mais trabalho. É o trabalho que nos caracteriza.

Têm razão de ser as contestações que houve em torno da população votante nesse processo A ideia de impugnação do processo preocupa?
Não me preocupa. Não tenho um conhecimento geral sobre este processo. Ouvi assim, muito por alto. Não me chegou nenhum documento a respeito. Sei que foi enviado um documento ao Ministro com cópia à Federação e à Comissão Eleitoral. Cabe ao Ministério da Juventude e Desportos tomar alguma palavra em relação a esse processo. Não sei qual vai ser o caminho a ser seguido.

Tem alguma sugestão?

Há um exercício que todos podíamos fazer, sem esperar que seja realmente o Ministério da Juventude e Desportos apenas a pronunciar-se. Todos sabemos que a esse processo antecedeu uma Assembleia-geral que definiu a população votante. Não existe órgão acima da Assembleia-geral.
Depois de a Assembleia ter decidido em relação à população votante ainda houve um encontro entre mandatários das listas e a Comissão Eleitoral em que terão ratificado um documento que se intitulou "termo de compromisso" sobre a conformidade da população votante. Não pode, depois disto tudo, dar-se o dito por não dito.
Não é correcto para as pessoas da modalidade. Não somos camaleões. De qualquer modo, a lista A ao escrever para o Ministério deve ter os seus motivos. Cabe-lhes esperar. Vamos continuar a trabalhar em prol da modalidade. É um assunto que do meu ponto de vista é descabido.

Malanje esteve na população votante com uma Associação sem clubes e as pessoas questionam como a instituição de Malange renovou mandatos. O Huambo também entra com Associação e dois clubes que não têm tido participação nas provas da federação...
Deixa-me dizer que estão marcados a partir do dia sete (ontem) os campeonatos nacionais de juvenis na província de Malange e a província vai estar representada. Estas são pequenas demonstrações de que as coisas não são como se pensa. A província do Huambo não tem dois clubes só. Só votaram dois clubes. Há quatro clubes. Dois não estiveram em condições de votar e isso está em documentos. Por acaso, Malange acabou por nem participar da votação. Se assim fosse, os números seriam outros. Não somos tão ingénuos para agir na ilegalidade. Quem me conhece, sabe que não agiria de forma ilegal. Não é a minha forma de estar na sociedade. Não é a presidência da patinagem que me vai obrigar a actos menos dignos.

Não receia que este processo, com todos os seus contornos, possa dividir ou aumentar o fosso de divisões no seio da família da modalidade?

Julgo que se sou uma pessoa ligada à modalidade, estou na modalidade com ou sem a presidência. Deixa-me dizer que, há quatro meses, solicitei a minha saída da federação para voltar à Associação de Luanda, porque percebi que era ali (na associação), onde as coisas não estavam bem.
Devia voltar para dar o meu contributo. A minha motivação não é ser presidente da Federação. Dou o meu contributo, onde estiver. Julgo que todos deviam agir desta forma, se é que o interesse é fazermos alguma coisa pela modalidade.
Se tivermos motivações menos boas, aí sim, dividimo-nos, separamo-nos, colocamo-nos à margem e não nos revemos na modalidade que é de todos nós. Este é o apelo que faço aos integrantes da lista B, da lista A, fazedores da modalidade, amigos da patinagem, aos jornalistas. Não haverá desporto, se os órgãos de comunicação não estiverem connosco. Temos de nos unir em torno do desporto.


DISPONIBILIDADE
“Sou incapaz de virar
as costas à modalidade”


Ao apresentar a candidatura, certamente terá feito um diagnóstico. Que patinagem temos hoje e que elementos novos pensa injectar ao longo do seu mandato?
A modalidade está naquela fase em que precisa de melhorar. Julgo que terá sido feito o possível até ao momento. Se me perguntar, se carece de mais, é óbvio. Carece de muito mais, mesmo com as pessoas que ao longo desses anos têm estado na gestão da patinagem têm capacidade de fazer mais.
De qualquer forma, é importante saber que nem sempre tudo depende só da capacidade ou a nossa boa vontade. Há uma série de situações que dependem de terceiros. A nossa modalidade vive problemas, muitos deles porque a situação do país não permite ou falta infra-estruturas ou faltam condições financeiras. Há uma série de situações que não interessa.

Houve alguma evolução ao longo desta gestão de continuidade que dura há 12 anos?
Ao longo destes 12 anos em que, na prática, estou ligado ao dirigismo, saímos de duas províncias, Luanda e Benguela, para seis; saímos de uma Associação para seis; saímos de quatro clubes para 18 agremiações. Isso demonstra que houve algum trabalho. Aconteceram dois campeonatos mundiais, um de clubes e outro de selecções. Há o nascimento de algumas infra-estruturas, alguns pavilhões. Julgo que isso tudo demonstra que podia ter acontecido mais, podíamos ter feito melhor, quiçá, mais pavilhões.

Hoje, ainda dependemos muito da disponibilidade ou não da Cidadela. As pistas de patinagem, para corridas, deviam existir já.

O campeonato mundial realizado no país devia trazer tudo isto?
Sim, devia trazer, mas o mundial não foi organizado só pela Federação de Patinagem. É uma organização muito grande, onde estão vários intervenientes. Nesses casos, nem sempre as coisas acontecem como seria o desejo da Federação. Julgo que não temos e não vamos chorar pelo leite derramado. Vamos trabalhar, vamos dar o melhor de nós para que as pessoas percebam que a modalidade continua a crescer e não vai parar.

Sente-se preparado para os desafios que esse processo impõe?
Esperamos que não aconteça na Federação aquilo que aconteceu na Associação, onde depois da nossa saída, vimos o trabalho de Luanda a afundar completamente, coisa que me deixou muito triste e hoje ainda me sinto com mea-culpa por ter saído da Associação. É por esta razão que, há alguns meses, achei que devia voltar para lá.
Não voltei e hoje sou o presidente da Federação. Não sou capaz de virar as costas à modalidade. Onde for chamado estarei. Estou e continuarei a estar disponível. Por isso, quero que as pessoas percebam da vantagem de unir as sinergias. Temos de trabalhar cada vez mais unidos e focar na modalidade e não em nós. O maior beneficiário de tudo isto tem de ser a modalidade.

MODELO DE GESTÃO
"Todas as nossas
decisões serão colegiais”


Há muito para ser feito e faz muita menção à necessidade de unir os agentes da modalidade...
Temos um programa de acção que é de domínio público. Uma das nossas primeiras acções será trabalhar em torno da união da família da patinagem e para isso já tive uma conversa com o candidato da lista A, que me felicitou. Temos marcado um encontro, onde vamos abordar o futuro da modalidade e julgo que, em conjunto, poderemos ter ideias mais benéficas para o nosso desporto. Não há uma guerra entre os candidatos da lista A e B. Há situações em que temos pontos de vista diferentes.

Como é vista a massificação dentro do vosso programa de acção?
O nosso programa preconiza uma massificação dirigida. Digo dirigida, porque a nossa primeira intervenção vai ser ali onde existe a modalidade. É preciso consolidar o existente, melhorar, para só depois começarmos a alargar. O que foi feito no passado, foi uma massificação muito abrangente em que se levou material a zonas sem pessoas que as pudesse manusear, trabalhar controlar, enfim. Somos muito poucos. Não temos tantas pessoas capazes para fazer este trabalho.

Nisso podem entrar os ex-praticantes. Qual tem sido a experiência com este seguimento?
Com alguma tristeza, devo dizer que a nível da patinagem é muito complicado contar com os ex-praticantes por razões que não sei. As pessoas não se disponibilizam. Andamos todos na luta. Cada um quer encontrar a solução para a sua vida e nem sempre a patinagem é esta solução para aqueles que deixaram de praticar. Vamos fazer esta massificação dirigida, olhando para aqueles que fazem a patinagem. Estamos a falar de clubes, Aí sabemos que há uma estrutura que permite os miúdos saírem da massificação, começarem a competir e entram para os escalões. Se continuarmos com o modelo anterior, vamos despender esforços demais e não vamos ter resultados.

Que lugar as associações vão ter na tomada de decisões na Federação?
Esta pergunta é pertinente. Este é o ponto mais importante do nosso programa. Teremos uma gestão participativa. Nesse momento, estamos a trabalhar com a Associação de Luanda, já para preparar aquilo que vai ser e, depois, eventualmente a própria Associação de Luanda vai encarregar-se de contactos permanentes com outras associações e, quiçá, até intercâmbios para a troca de experiências entre elas. A propósito disso, as associações estão orientadas a fazer o levantamento e a apresentar à Federação subsídios para que esta gestão participativa se concretize. Esta é uma promessa que vamos cumprir à risca. Por esta razão, temos na nossa lista pessoas ligadas à patinagem nas províncias para aproximar os envolvidos.


PRESIDENTE DE HONRA
“Calabeto é apaixonado
da patinagem”


Com que recursos pensa desenvolver o seu plano de acção? Tem garantidos apoios?
Não é fácil substituir Carlos Alberto Jaime "Calabeto" por tudo que aconteceu durante a sua gestão. Também pensamos que não é impossível. Estamos aqui e contamos com apoio de toda a família, amigos da modalidade para desenvolvermos parcerias a fim de levar a bom porto todos os nossos projectos. A Federação recebe uma verba do Ministério da Juventude e Desportos, numa fase em que o país vive uma fase muito difícil. Se calhar é isso que torna este desafio mais atraente. A única coisa que volto a prometer é muito trabalho, empenho e dedicação.

Que lugar vai ter Calabeto na Federação que começa com a sua gestão?
Não sei se é o lugar certo. Por tudo que fez, vai ser uma espécie de presidente de honra. Merece mais. É e continuará a ser um amigo da patinagem. Quem faz o que ele fez, tem de estar muito apaixonado pela modalidade.

Para quando a tomada de posse?
Vamos estar envolvidos na realização do campeonato de juvenis. O nosso empossamento deverá acontecer por volta do dia 20 de Janeiro, altura em que alguns membros da lista já vão estar no país e permitir que todos possamos dar início a uma fase diferente da patinagem.


EM TODO O PAÍS
Metodologia de treinamento vai ser uniforme


As equipas de Luanda apresentam performances acima da média em relação às demais equipas de outras parcelas do país. Como pensam reduzir essa assimetria?
Precisamos fazer um hóquei que seja igual em Luanda, Benguela, Huila, onde quer que seja. A metodologia de treinamento tem de ser a mesma. Por isso, temos planos de formação para dirigentes, técnicos, árbitros, enfim. Por exemplo, estamos a trabalhar com as associações para que, a partir da época de 2018, nenhum treinador se sente no banco se não tiver pelo menos o nível 1 de treinamento e, em 2020, elevamos para o nível três.

Qual é o objectivo desta exigência?
Para melhorar o treinamento em si e com isso também melhorarmos a qualidade da participação das nossas selecções nacionais nos eventos internacionais. Precisamos manter ou melhorar a nossa posição no ranking internacional. A partir deste ano, o mundial de hóquei em patins disputa-se dentro dos Jogos Mundiais, com campeonatos paralelos de várias outras disciplinas. O vosso programa remete para programas de desenvolvimentos específicos as demais modalidades da patinagem.

Esses programas já existem ou também aguardam subsídios das associações?
Aguardam. Não vamos tomar as decisões de forma unilateral. Não vamos fazer mais isso. Todas as decisões da Federação serão de âmbito colegial. É importante que os clubes e as associações se revejam nas decisões a serem tomadas. Do périplo que fizemos às províncias, constatámos que há algumas com mais apetências que outras para determinada modalidade da patinagem e aconselhamos que cada uma delas aperfeiçoe o treino dessas disciplinas. Vamos tentar ajudar nisso para que, quanto mais cedo, ainda que para ganhar experiência, nos façamos representar em competições internacionais.

Vamos estar nos Jogos Mundiais deste ano com outras modalidades?
Quiçá. Vamos trabalhar para isso. Não é uma promessa que tenha de acontecer. Vamos trabalhar para que aconteça. Internamente, vamos começar com os primeiros ensaios nos próximos dias. Aproveitando, inclusive, aquilo que já se vê nas nossas ruas, permitir que esses praticantes saiam da actividade informal e sejam, aos poucos, colhidos pela actividade federada.

Como vai ser a próxima participação de Angola nos Jogos Mundiais da patinagem? Já há seleccionador definido ou há algo esboçado?

Nem sequer consigo falar ainda sobre esta participação. Nem sequer ainda fomos empossados e estas questões requerem algum trabalho. Ainda não abordamos técnico nenhum. Vamos trabalhar nisso, mas precisamos de algum tempo.