Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Histria de Abreu, "Flecha de Caxito"

Augusto Panzo - 12 de Março, 2020

Começou a praticar o futebol na década de 50, do Século passado, no Clube Atlético de Luanda. Apelidado por “Flecha” devido à sua elevada velocidade em campo, o que punha sempre os defensores adversários à prova quanto às respectivas capacidades físicas, Abreu Augusto Leal concedeu uma entrevista ao Jornal dos Desportos, na qual aborda o actual momento de futebol no país, recorda com alguma nostalgia os momentos vividos no passado, almeja mais uma participação de Angola num Campeonato Mundial \"AA\" e critica o abandono a que estão votadas as infra-estruturas erguidas no país, no âmbito do CAN de 2010.
O antigo veloz sambila diz que falta empresários para ajudar o Bengo e outras regiões do país, a ter um futebol à altura, considera o futebol que se pratica hoje sem graça e almeja mais apoio do Estado, para a mudança do triste quadro.

Depois de 35 anos da sua existência como província, completados em 2015, o Bengo, através da equipa do Domant FC do Bula Atumba, conseguiu inscrever o seu nome pela primeira vez no Girabola, mas ainda assim, não se regista grande evolução da região em termos do futebol.  O quê é que está a faltar?
-  Nós do Bengo fomos abençoados em 2015, ao conseguirmos entrar no leque das regiões representadas no Girabola, graça ao esforço de um jovem natural do Bula Atumba, que gosta muito do futebol, que é o senhor Domingos António. Com coragem, esse senhor organizou da melhor forma a sua equipa, o Domant FC, lutou no provincial, no Zonal de Apuramento e chegou no Girabola, o que foi motivo de muita alegria para o povo do Bengo em geral, e particularmente para a população de Caxito, que tem sido a mais beneficiada.

E acredita que sem apoio das instâncias locais, com realce para o empresariado, esse projecto tem possibilidades de ir mais longe?

- Lamentavelmente não. O Domant já esteve pela segunda vez no campeonato e nós próprios temos tido a oportunidade de ver a luta que ele (Domingos António) trava sozinho. Tendo em conta que o futebol hoje é um investimento, sozinho não vai longe. Lamentavelmente este é o quadro da modalidade no nosso país.
Apesar do Bengo estar a mais ou menos 60 quilómetros de Luanda, nota-se uma regressão em termos de futebol. O Abreu tem noção do porquê disso?
- Em primeiro lugar devo dizer-lhe, que a nossa província é pobre em termos de empresariado. Então, não temos tantos empresários assim que apoiem esta “aventura” que o senhor Domingos António “Domant” tem vindo a realizar aqui nesta província. Na verdade, se o Estado meter um pouco à sua mão, apoiando, tal como acontece com o Sagrada Esperança na Lunda Norte, onde certos dirigentes que governam a província apoiam algumas equipas, através dos seus canais, incentivando algumas pessoas, para prestarem o apoio a este Domant FC ou, ainda a surgida equipa do Paulo FC do Dande, seria muito bom.

Se os apoios aparecessem, consideraria o Bengo bem servido no futebol, por ter duas equipas no Zonal de Apuramento ao Girabola Zap?

- Claro que sim. Se houvesse esses apoios, eu diria que o Bengo estava bem servido, na medida em que todos os fins-de-semana Caxito teria jogos, o que iria trazer outros benefícios económicos e não só. Infelizmente, continuo a dizer que em Angola não existem empresários fortes que apoiam o futebol. Basta ver, por exemplo, o que se passa em Benguela, onde o 1º de Maio, que já foi um dos grandes do nosso futebol, está a viver a situação que vive. Para mim até considero isso um escândalo. Então se o 1º de Maio lá em Benguela, uma província com um elevado número de empresários, chegou onde chegou, o que será do Bengo?!

Na qualidade de antigo praticante, isso dá-lhe algum ânimo para falar muito sobre a modalidade?

- Não sei porque razão, mas sou daquelas pessoas que me remeto ao meu canto. Não gosto de falar sobre o futebol nos últimos tempos, porque considero que a vida foi injusta para nós, antigos praticantes. Nós praticámos um futebol que animava a multidão. Naquele tempo as pessoas saiam do Cazenga, da Mabor, Rangel, Golfe e outros bairros a pé, para irem assistir aos jogos e enchiam as bancadas dos Coqueiros ou da Cidadela. Naquele tempo, mesmo com a guerra que havia no país, o povo estava sempre animado para ir ver os jogos, o que já não acontece hoje.
 
Onde está a diferença?
- A grande diferença é que naquele tempo nós fazíamos tudo por amor à camisola, e hoje tudo se faz por dinheiro. É essa pouca vergonha que se nota por aí. Temos um futebol sem graça. Mesmo os nossos jogadores das diversas selecções, praticam um futebol que não convence a ninguém, apesar das condições que lhes são postas à disposição. Eu não sou muito amigo desse futebol que se pratica actualmente. É a pura verdade.

 ALEMANHA 2006
“Ida ao Mundial foi uma prenda”


Em função dessas dificuldades todas, alguma vez lhe ocorreu a ideia de que Angola pode uma vez mais apurar-se para um Campeonato Mundial de futebol nos próximos tempos?
- Deixa-me dizer antes que, na verdade, foi uma prenda muito grande para o povo angolano, quando quatro anos depois do fim da guerra, conseguimos o apuramento ao Mundial de futebol da Alemanha, em 2006. Não éramos uma grande equipa, se comparados aos conhecidos papões do futebol, mas chegámos lá e deixámos a nossa marca através dos resultados que tivemos.

E o que deve ser feito para Angola voltar a marcar presença na alta roda do futebol mundial?

- Muito trabalho e organização. Seria bom, que os nossos jovens hoje fizessem um esforço, para ver se um dia voltássemos a ir disputar mais um Mundial, porque é, de facto, a maior montra de futebol. E assim sendo, se Angola aparecer lá, estaremos a vender uma boa imagem do país em termos desportivos. 

Porque razão foi apelidado de “Flecha”
- Na altura que eu jogava futebol, assumia a posição de ponta-de-lança e corria muito, conseguia superar quase sempre todos os defesas adversários. Foi isso que levou as pessoas a chamarem-me de “Flecha”.

DE CAXITO A LUANDA EM 1981
Viagem por cima da lenha dá título ao 1º de Agosto


O que lhe marcou mais durante a sua carreira de futebolista?

- Retenho comigo uma história engraçada, durante a minha carreira como futebolista. Isso aconteceu na terceira edição do Girabola, que foi disputado em 1981. O calendário para a última jornada apontava para o clássico entre as equipas do Progresso Sambizanga e do Grupo Desportivo da Taag (hoje ASA), e esse jogo se revestia de uma importância para as duas formações.

Porque razão?
- O GD da Taag precisava de um escasso ponto, para se sagrar campeão pela primeira vez na sua história, enquanto o seu eterno rival, 1º de Agosto, precisava de uma vitória para superar o concorrente e, como se não bastasse, a formação militar tinha de ir buscar esse triunfo nas Cacilhas, diante do Mambrôa do Huambo.

Mas isso constituía algum motivo de preocupação para o Abreu?
- Não, mas havia uma situação em que o desempenho do Progresso nesse confronto jogaria um papel favorável para o 1º de Agosto. Quero com isto dizer, que nós tínhamos que ganhar, para impedir a Taag de comemorar o primeiro título, e o 1º de Agosto tinha de vencer, para chegar ao terceiro título consecutivo.

Isso tinha sido combinado entre as direcções do Progresso e do 1º de Agosto ou foi simplesmente uma coincidência?
- Não. Tratava-se apenas de uma coincidência no campeonato, mas que tinha muito sumo para os adeptos do futebol.

 E o que sucedeu?
- A história começa com o facto de, mesmo a treinar e a jogar no Progresso Sambizanga, em Luanda, eu sempre vivi na cidade de Caxito. Então, tal como já era costumeiro, nesse fim-de-semana do jogo com o GD da Taag eu estava em Caxito e, no dia do desafio devia chegar a tempo no Estádio dos Coqueiros, para fazer parte do onze inicial. Infelizmente não foi isso que aconteceu.

Porquê?
- Porque desde manhã até ao aproximar da hora do jogo, não havia nenhum carro a sair de Caxito para Luanda, que pudesse-me dar uma boleia, no intuito de chegar a tempo no estádio dos Coqueiros e juntar-me ao grupo. Para tentar ressalvar a falha, dirigi-me por volta das 13h00 daquele dia ao antigo controlo da Polícia de Caxito, para que algum agente da Polícia Nacional, que estivesse em serviço no local, me ajudasse a encontrar uma boleia, mas a coisa estava difícil. Fiquei por mais de hora e meia à espera de boleia, mas nada.

E qual foi a solução?
- Depois de tanta espera apareceu um camião Mercedes Benz vindo do Úcua. Estava carregado de lenha, que levava para uma das unidades panificadoras que ficava na zona do São Paulo. O proprietário da viatura era fornecedor desse produto àquela fábrica de pão. Dirigi-me a ele, pedi a boleia e o senhor anuiu. Só que havia um empecilho: é que na cabine já não havia lugar e se eu quisesse mesmo viajar, tinha de o fazer na carroceria, por cima da lenha. Como não tinha outra alternativa, tive que aceitar viajar por cima da lenha até ao São Paulo, porque o meu objectivo era mesmo de jogar. Posto lá, desci, agradeci o motorista e pus-me logo a correr em direcção à baixa luandense, concretamente para o Estádio dos Coqueiros.

 Mas ainda chegou a tempo, para entrar em campo e jogar?
- Sim. É que quando desço do carro no São Paulo, o jogo já estava nos últimos minutos da primeira parte e a Taag vencia por uma bola zero ao Progresso. Acelerei a corrida e cheguei no Estádio, quando já era disputado o primeiro quarto de hora e direccionei-me então para o banco dos suplentes. O treinador na altura era o Augusto Pedro, viu-me chegar e respirou de alívio, porque não encontrava soluções para contornar o poderio que a equipa do aeroporto detinha no jogo.

E foi logo colocado em campo…

- Imediatamente. Mal o Augusto Pedro me viu, não pensou duas vezes. Tirou o Dé, e mandou-me entrar rapidamente e assim fiz. Nessa altura estavam três pontas em campo: eu, o Santinho e o Eduardo André e não tínhamos lugar fixo. Entro, e como corria muito, apanho os defesas laterais Catarino (à esquerda) e Bento (à direita) da Taag, forço-os a correrem tanto e 15 minutos depois, eles estavam exaustos, bem cansados. Então, há uma jogada que começa pelo Praia (falecido), passa a bola para mim e eu levo-a até à linha do fundo, cruzo atrasado para Vieira Dias, que sem contemplações marca o golo de empate.

Qual foi a reacção dos jogadores e treinadores da Taag?
- Tiveram uma reacção dura. Aliás, quem conheceu o treinador Chico Ventura, conheceu bem as estratégias defensivas que usava. Todo o plantel da Taag recuou, fechou todas as linhas de passe e complicou a manobra ofensiva do Progresso. Mas quando tudo indicava que o empate seria o resultado final, eis que, a 10 minutos do fim, o meu colega Vieira Dias consegue escapar-se da defesa do lado esquerdo, endossa um cruzamento para o lado oposto onde estou, e eu, que vinha na passada, foi apenas empurrar a bola para dentro das redes defendidas por Rosinha, fazendo o 2-1, enquanto o 1º de Agosto acabou por vencer o Mambrôa por uma bola a zero no Huambo, e conseguiu conquistar o seu terceiro título consecutivo. Essa foi uma história que marcou muito a minha carreira de futebolista

INFRA-ESTRATURAS
\"É lamentável o estado dos estádios construídos para o CAN 2010\"


O que tem a dizer sobre as infra-estruturas erguidas para o CAN, que hoje estão em avançado estado de degradação?
- É uma situação lamentável. É muito doloroso para nós desportistas, ver o que está a passar-se em Angola com relação a essas infra-estruturas, que custaram balúrdios de dinheiros aos cofres do Estado, e que agora estão votadas ao abandono, excepção seja feita ao 11 de Novembro (Luanda) e o Ombaka (Benguela), que têm sido utilizados regularmente.  Na verdade, às vezes não consigo encontrar palavra para qualificar isso que se verifica no país, em relação a esses campos.

Cria alguma nostalgia?
- Com certeza, porque são obras que custaram muito do dinheiro do povo, e que agora estão sub-aproveitadas. Imagine estádios como o da Tundavala, na Huíla, de Ombaka, em Benguela, ou mesmo o do Tchiazi, em Cabinda, não estarem a ser aproveitados a cem porcento das respectivas capacidades, quanto dinheiro se perde com isso? São milhões e milhões de kwanzas a serem desperdiçados. Devo aqui abrir um parêntesis e felicitar o novo director do Estádio 11 de Novembro, em Luanda, pelo esforço que tem vindo a fazer, na manutenção e melhoria da imagem do recinto. Mas de resto é simplesmente lamentável.

Algum conselho para quem de direito?

- Acho que o Estado deve velar por essas infra-estruturas. Os jogos de futebol devem ser realizados nesses campos. Tratar da relva, reparar toda a infra-estrutura, os aposentos todos que fazem parte de toda a estrutura dos estádios, enfim, dar uma nova imagem aos estádios. Tive a oportunidade de acompanhar uma reportagem feita ao Estádio do Tchiazi em Cabinda, onde era notório o grau de vandalização. Então, através do Ministério da Juventude e Desportos, o Estado deve assumir as suas responsabilidades nesse capítulo.

PERFIL
Nome: Abreu Augusto Leal “Flecha
de Caxito”
Naturalidade: Caxito
Nacionalidade: Angolana
Data de nascimento: 5 de Agosto de 1957
Estado civil: Casado
Filhos: Muitos
Prato preferido: Funje de calulu
Desporto: Futebol
Cor: Vermelho
Calçado: 41Hobby:
Ler e ver jogos de futebol
País: Angola
Cidade: Caxito