Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Hoje a cincia indispensvel ao futebol

12 de Fevereiro, 2015

O Atltico do Namibe foi o seu primeiro poiso na alta roda do futebol nacional, tendo chegado a tcnico da equipa principal do Atltico Sport Aviao-ASA.

Fotografia: Jornal dos Desportos

O silêncio a que está remetido é sinónimo de divórcio definitivo com o futebol?
Não é bem isso. Sou um homem do futebol, gosto de estar no futebol e sinto que apesar desta aparente ausência ainda estou umbilicalmente ligado ao futebol. O divórcio, se tiver de acontecer, não há-de ser assim tão fácil. Estamos comprometidos profissionalmente com o futebol. É a aposta que fizemos, e só os fracos desistem facilmente dos seus propósitos.

Mas então o que é feito do professor Ernesto Castanheira? De que se ocupa actualmente?
Não estando comprometido nesta altura com nenhuma equipa, procuro aproveitar o tempo de que disponho para aumentar o meu nível de formação. Pois, como sabe, o futebol hoje é uma ciência e não nos devemos acomodar à sombra daquilo que já sabemos. É preciso que procuremos sempre ampliar o nível de conhecimentos e, sendo assim, para responder à questão que me foi colocada estou há dois dias no país, vindo do Brasil, onde acabei de frequentar e concluir o Nível 3 Terescopolis da CFB.

Satisfeito com o resultado e sobretudo com o manancial de conhecimentos recebidos?
Claro, claro. Trata-se de um curso bastante proveitoso, embora o nível três ainda não seja o topo. Portanto, estou no país por algum tempo, e volto para frequentar o nível quatro e seguir a pós-graduação. É a aposta pessoal que fiz enquanto não tenho ocupação. E o mínimo que podia fazer para mim mesmo. Em Março próximo vamos receber as carteiras profissionais.

Este investimento resulta de uma bolsa de formação ou é custeado pelo seu próprio bolso?
Era muito bom se fosse uma bolsa. As despesas correm a expensas do interessado. Neste caso sou eu próprio que custeio o curso, a começar pelo bilhete de passagem, alojamento, alimentação, material didáctico e a própria formação. Mas é importante que façamos este tipo de investimento, porque como disse antes, o futebol hoje está muito evoluído e é preciso que os seus fazedores, treinadores sobretudo, acompanhem a dinâmica desta evolução.

Mas nestas acções formativas às vezes aparece sempre uma mão amiga com um patrocínio que já ajuda no jogo de cintura. É o seu caso?
Estava a ser incoerente se não reconhecesse que também tenho pessoas amigas que me têm ajudado nesta empreitada. Porque sozinho a coisa era difícil. Não vou citá-los aqui, até por uma questão de sigilo profissional, mas aqueles que me estenderam a mão e que tiverem acesso a esta entrevista sabem interpretar que é a eles que faço referência. E desde já aproveito para lhes agradecer.

Diz que volta para o Brasil para frequentar o nível quatro. Quando é que isto ocorre?
Só em Novembro próximo é que estamos de regresso. Portanto, durante os próximos meses estamos aqui mesmo no país, desenvolvendo outras acções ligadas à nossa actividade. Muitos não devem saber, eu actualmente resido na cidade do Namibe, onde sou professor de Educação Física no ensino publico.

O Girabola que começa esta semana vai, de acordo com a calendarização, até Outubro próximo. Neste intervalo se surgir um convite para orientar uma equipa aceitava o desafio?
Aceito sim. Sou profissional, estou no mercado. Desde que seja um projecto sério, com pessoas honestas não tenho problema. Estou sempre disponível, pois entendo que, o que nós sabemos é para ser transmitido. Aguardo propostas, mesmo que for para a formação, porque a minha formação abrange todas as áreas do futebol.

Diz  que aceitava desde que seja um projecto sério e com pessoas honestas. Há desonestidade nas pessoas do nosso futebol?
Há. É que hoje vivemos um fenómeno de dirigentes que têm dinheiro e que não entendem o futebol. Noventa por cento no nosso futebol não é dirigismo e ciência, é vaidade. E outros dez por cento são consequência desta vaidade. Não acrescento mais nada.

O que faltou ao ASA para que não pudesse levar o barco ao porto certo?
Faltou um pouco de humildade da direcção. Mas o grande problema talvez tenha sido eu ter entrado para o clube num momento muito turbulento. Uma época antes a equipa esteve à beira da despromoção, sobreviveu por um milagre. De certeza que na época seguinte as pessoas, refiro-me aos adeptos e sócios, queriam ver  um brilharete. Mas as condições à disposição não permitiam este brilho. O próprio campo de treino não tinha condições aceitáveis.

Qual era a meta classificativa proposta pela direcção do clube?
A meta era terminarmos em sétimo lugar, já não me lembro em que posição deixei a equipa quando saí. Mas seja como for não tenho nenhuma mágoa. Não me senti desvalorizado com o despedimento. Passar pelo Asa  e pela grandeza do clube foi muito positivo para mim. Foi mais uma experiência que pude colher.

Há nos últimos tempos da parte dos nossos clubes uma certa primazia ou preferência pelos treinadores estrangeiros. Também nota isto?
Bom, eu acho que só mesmo os próprios clubes sabem por que razão preferem ter treinadores estrangeiros, prescindindo dos nacionais. À partida, não vejo nenhum mal nisso, porque desde o início do Girabola sempre tivemos técnicos estrangeiros. Isto não vem de hoje. O que se passa é que antes havia uma partilha entre estes e os nacionais. Hoje parece haver uma tendência para anular os nacionais ou remetê-los à condição de adjuntos.

Não será por os estrangeiros estarem mais dotados e em termos de formação trazerem outra bagagem?
Acho que hoje alguns treinadores nacionais já não ficam a dever nada aos estrangeiros. Não há é simpatia com os técnicos nacionais da parte de alguns dirigentes de clubes. Não há simpatia. E o que me aflige é que os que têm poder de decisão deixam que as coisas assim sejam, assim aconteçam. Às tantas vejo que nem com entrevistas, nem com greves, nem com martelo vamos inverter o quadro.

Sentes o teu emprego "roubado" por um treinador estrangeiro?
Não é isso. E digo mais: eu não tenho dificuldade alguma em trabalhar com um técnico estrangeiro, até porque temos sempre algo a absorver deste contacto com eles. Mas entendo que deviam vir em maior número para formação. Tinha de se estabelecer  alguma baliza.

Sentes a ausência de um sindicato de treinadores que talvez pudesse traçar propostas concretas e realistas neste sentido?
Sinto sim, e nós, treinadores, se não temos sindicato não é porque não queiramos. Mas precisamos de criar um foro para discutir as linhas de força daquilo que é preciso, para o nosso futebol. Ai vamos capacitar os já existentes e formar os outros,  da base ao topo. Acredito que depois surgem outras propostas.

Espero por um Girabola competitivo

Começa esta semana o campeonato nacional de futebol. Apesar de o senhor estar de fora que Girabola espera?
Estou de fora, mas atento. Auguro um Girabola competitivo, pois deu para ver que as equipas se reforçaram fortemente, e espero que estas aquisições saibam valorizar a competição. Se o Progresso da Lunda Sul foi buscar o congolês Hervé Donga, é para ver que todas equipas têm objectivos  no campeonato.

Quer arriscar algum prognóstico quanto ao provável campeão ou ao restrito quadro de onde ele venha a sair?
Com todo respeito pelas outras equipas, coloco em primeiro lugar o Kabuscorp do Palanca, o Recreativo do Libolo, o 1.º de Agosto e o Petro de Luanda, como candidatos de primeira linha. E numa segunda o Benfica de Luanda, o Bravos do Maquis, o Recreativo da Caála e o Progresso do Sambizanga. Estas são equipas com capacidade e qualidade de emprestar grande qualidade competitiva ao certame.

Sobre o Girabola tem mais alguma palavra?
Quero  desejar boa sorte aos meus colegas que estão na orientação das  equipas. Ao público assistente, que afinal é o principal consumidor do espectáculo futebolístico, deixo um apelo que vai no sentido de manter sempre alto a bandeira do "fair play".

Atlético do Namibe foi uma etapa marcante

Foi no Atlético do Namibe onde atingiu maior notoriedade. Ou seja, onde começou a dar nas vistas, embora já andasse há muito nesta vida de treinador. Alguma saudade desse período?

Muita saudade. Foi no Atlético onde fizemos o trabalho que nos catapultou para aquilo que somos hoje. Foi uma passagem marcante, pelo trabalho desenvolvido, pelos resultados conseguidos e pelo excelente relacionamento de trabalho.

No quadro das metas estabelecidas aos técnicos qual era o objectivo a atingir no Atlético quando lá chegou?

No Atlético, na altura ainda a militar na segunda divisão, a meta era trabalhar na organização de uma boa equipa que atingisse maturidade competitiva para um ano depois ascender à primeira divisão. Abraçámos o desafio nessa perspectiva, mas os resultados no terreno foram dando sinal de que com mais entrega nós não precisamos de esperar para subir à primeira divisão. Acreditamos e naquele mesmo ano subimos.

E como a direcção reagiu a um sucesso imprevisto?
Não teve como, senão cair na real. Agora é verdade que do ponto de vista financeiro isto causou alguma inquietação, porque a direcção do clube na altura podia não estar ainda preparada para fazer face às exigências do Girabola. Mas teve de fazer alguma ginástica para que a equipa competisse na primeira divisão.

E como explica aquela explosão competitiva a ponto de no fim da prova a equipa ter sido considerada revelação, assim como o próprio treinador?

Nós entramos na competição normalmente, com o compromisso de lutarmos com as outras equipas pelos resultados no sentido de obter uma classificação honrosa. Mas a exemplo daquilo que havia acontecido na segunda divisão, continuamos a somar e seguir. E conseguimos surpreender pela positiva.

A viver actualmente na cidade do Namibe, como caracteriza o seu relacionamento com os agentes do futebol local?

Excelente. Nesta altura por exemplo tenho um convite da Associação Provincial de Futebol para uma acção formativa. Tenho posto à disposição o meu saber. Em resumo o relacionamento com todos que entendem e falam sobre futebol na província é positivo. De outra forma aliás não podia ser.

Aceitaria um eventual convite para voltar a trabalhar no Atlético do Namibe?
Aceitaria sim. Sou profissional e como tal não tenho cor, não obstante a forma como saí de lá. Já andei um pouco pelos clubes do nosso país e nunca fechei as portas a ninguém desde que eu esteja disponível.

Depois do ASA, que foi o seu último emprego conhecido, esteve ligado a mais  algum projecto?
Depois de sair do ASA fui para o Recreativo de Seles, contratado para ajudar no projecto da reestruturação do seu futebol, que acabou por não ter o sucesso que se previa. Por lá fiquei cerca de três meses, mas depois tivemos de partir para uma rescisão amigável do contrato.