Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Hoje há mau futebol

Paulo Caculo - 08 de Junho, 2016

Antigo internacional angolano reconhece que os atletas hoje são melhor remunerados

Fotografia: Nuno Flash

Napoleão Brandão é nome que dispensa apresentação no mosaico futebolístico nacional. O antigo guarda-redes do 1º de Agosto e da Selecção Nacional é uma figura incontornável do futebol angolano, é referência para falar com propriedade sobre o estado actual da modalidade
Na entrevista exclusiva concedida ao Jornal dos Desportos, recorda com nostalgia o percurso futebolístico e destaca os feitos protagonizados ao serviço do "seu" D'Agosto, clube que representou com muito orgulho e continua ligado a transmitir a experiência como treinador de guarda-redes.
Confessa que guarda na memória o "frango" consentido no célebre jogo Angola - Cuba. Fala do futebol e dos craques do seu tempo, lamenta a actual realidade da modalidade rainha depois de mais um fracasso na campanha africana, transpondo-o para uma realidade mais ampla.


Como vê o futebol angolano hoje?
Penso, que no passado, o futebol angolano foi muito superior em relação ao que estamos a praticar neste momento. Nem as dificuldades que atravessávamos naquela altura, impedia os desportistas de fazerem bem as coisas. Na vertente desportiva, o futebol do passado esteve muito melhor, em relação aos dias de hoje.

No seu ponto de vista o que é está na base da mudança de mentalidade?
No passado vivíamos e jogávamos muito, por amor à camisola, ao clubismo, as cores da selecção do país, sentíamos uma honra e satisfação quando fôssemos convocados para a selecção. Era o nosso maior prémio e satisfação. Aliás, não ganhávamos quase nada e sentíamos uma satisfação enorme quando convocados para a selecção, porque em termos de compensação monetária, tanto ao nível de clube como da selecção, não tínhamos nada. Ganhamos apenas amizade e alegrias.

Onde é que acha que está mal no futebol actual?
Acho, o que tanta gente no país já falou, à respeito do futebol angolano. Muitos falam de organização e disciplina, mas sem soluções. Só falar por falar não basta. Temos de criar soluções para que haja melhorias e isso, é o mais importante. Qualquer pessoa tem sempre uma desculpa para justificar os males do futebol angolano.

No seu ponto de vista qual seria solução para resgatarmos a mística do futebol angolano...
Se a solução para a melhoria é a organização, então vamos organizar-nos; se o problema está na base, então temos de melhorar a formação. Felizmente, hoje já se faz um bom trabalho na formação, e temos os exemplos no 1º de Agosto e na AFA. Este é o ponto fundamental para o engrandecimento do futebol angolano.

Não basta criar escolas de formação, é preciso bases bem definidas e pelos visto é isto que falta, com excepção de alguns clubes...  
Temos de criar soluções para que a evolução aconteça. Quem visita a AFA ou a Academia do 1º de Agosto, percebe que está a ser feito um grande trabalho. Formamos, subimos de categoria e a juventude não tem onde jogar. Tem de se apostar mais na juventude.

NOSTALGIA
“Não tínhamos carros topo de gama”


Como explica o facto de não ter qualidade o futebol nacional, quando pagam contratos fabulosos e os atletas são profissionais?
Não consigo perceber. A verdade é que o futebol no passado fazia-se mais por amor à camisola. Na nossa educação, quando saíssemos do país tínhamos ajudas de custo, trinta dólares e hoje o quadro é diferente, no passado servia para muita coisa.

Sente que existe falta de patriotismo e a componente financeira está falar mais alto?

Tinha bom futebol no passado e hoje há mau futebol. Hoje existe  interesse no futebol, e por isso, fala-se em profissionalismo. Infelizmente, não ganhávamos nada, apenas amizades, mas hoje todos jogam futebol para ganhar dinheiro. Antigamente, nenhum futebolista tinha um carro topo de gama, hoje a realidade é diferente. Devia-se jogar mais e melhor.

Tem saudades do futebol do seu tempo?
Muitas saudade. São muitos os colegas que jogaram comigo no 1º de Agosto e na selecção, mas hoje já não estão vivos. Se formos a citar nomes, quase que não existe agenda para recordar a todos. Pedro Garcia, Lourenço, Julião Dias, Gomes, Alves, que eram jogadores do Benfica, Ângelo, Manecas Leitão, Capelo, enfim, se for a apontar nomes não tem espaço. O Lutukuta, Dinis, Laurindo, são jogadores do outro tempo, e porque não Salviano Magalhães, enfim...a lista é grande e de ex-atletas com muito talento e qualidade reconhecida no país e a nível do continente.


VELHAS GLÓRIAS
Napoleão admite falta de reconhecimento


O que acha da valorização dos desportista durante e depois da  carreira?

Nunca vi nenhum atleta do passado a ser valorizado. Mesmo o nosso Dinis, que é das maiores estrelas do futebol angolano e que atingiu o futebol português, devia ser muito mais valorizado após a carreira desportiva. Eu e os outros, também não fugimos à regra, mas não há agradecimentos e reconhecimento para com os jogadores do passado.

Sente que é uma geração abandonada e que mereciam mais atenção?
Hoje, há muitos jogadores a passarem mal, uns com uma vida medíocre e outros sem absolutamente nada, mas deram um grande contributo à selecção de Angola.

O que está na base da disparidade?

Os jogadores hoje ganham muito mais, mesmo sem grande qualidade em relação aos dos tempos idos que faziam a diferença a nível dos seus clubes e na selecção. Acho, que merecemos muito mais por tudo que demos em prol do desporto angolano, em particular ao futebol.

Acha que a Associação de antigos futebolistas pode ajudar na valorização que se pretende às antigas glórias?

Pode ajudar a melhorar, mas é preciso patrocínios e dinheiro para se organizar. O Joaquim Dinis é o presidente e ainda está na luta para conseguir dinheiro e dar um passo em frente para  retirar a Associação do marasmo .

E, qual tem sido a sua contribuição para a maior valorização da classe numa altura em que muitos ex-atletas clamam por apoio?

Já fui convidado muitas vezes para encontros e espero contribuir com a minha presença, e ideias no que for possível, para organizar  projectos. Mas sem dinheiro não se faz  nada.

CARREIRA
"Faço parte dos melhores do país"



Dada a vivência e experiência acredita que podemos sonhar em dias melhores?
Temos muita matéria humana no futebol, precisamos de dar muito mais confiança, organização directiva e  disciplina para o bem do futebol angolano. O futebol ainda não está disciplinado e joga-se no empurra - empurra.

O que deve ser feito para inverter o quadro?
É preciso apostar mais nos técnicos nacionais. Não estou aqui a criticar os expatriados, desde que venham ensinar coisa nova, tudo bem, porque não interessa dizer que a bola chuta-se assim, quando eu já sei. Queremos coisas novas, que a gente não saiba.

Para si, qual seria a equipa ideal no futebol angolano?
Não quero contrariar os que hoje jogam, mas a minha equipa ideal, podia ser formada por Napoleão à baliza, laterais Mateus César e Santo António, centrais Inguila e Salviano, no meio-campo,  Praia, Geovety e Arménio, Dinis, Alves e Luvambo. Este é o meu onze ideal de Angola, após os 40 anos de independência.

Em quem aponta como o melhor futebolista de todos os tempos?

Apontava como melhor futebolista de todos os tempos  Joaquim Dinis. Não tenho receio de afirmar que faço parte dos melhores guarda-redes que este país teve. Não me recordo ter visto a nível do país, um guarda-redes a ser considerado o décimo melhor de África. Salvo o Nzuzi André, que foi o melhor lateral direito de África, mais ninguém conseguiu, o que conquistei em termos pessoais.

ANGOLA -CUBA
“Recordo com tristeza o frango sofrido”


Que memórias guarda do célebre jogo Angola - Cuba, uma jornada de amizade entre os dois países, logo após à independência nacional?
Recordo com muita tristeza. Fizemos três jogos e ganhei uma grande relíquia, o frango, registado na derrota por 4-2. Tenho muitas alegrias e tristezas no percurso da minha carreira. A grande tristeza foi esse frango, mas antes já tinha ganho três jogos. Tenho 37 internacionalizações pela selecção e não fui mais longe porque a vida não permitiu.

Sente que terminou a carreira da melhor forma e na melhor altura ou tinha ainda muito para dar?

Acho que devia dar um bocado mais. Hoje, tenho conhecimento de que há guarda-redes que vão mais longe e eu terminei a carreira aos 34 anos, mas as críticas e a auto-critica fizeram que parasse mais cedo. Quando jogava na equipa de velha guarda, as pessoas gostavam das minhas exibições e pediam que voltasse.

Quais foram os grandes momentos que viveu pela selecção?

Além de ter vários momentos marcantes na minha carreira, não posso deixar de citar o dia em que fomos jogar a Dakar, com uma equipa formada por muitos atletas que actuavam em França. Empatámos lá, mas passámos a eliminatória na marcação de grandes penalidades e defendi três remates consecutivos.

Qual a reacção do grupo após o feito, ante uma selecção com muitos profissionais, na altura os angolanos jogavam no país?

Os meus colegas de equipa e os treinadores  choraram a agradecer ao Napoleão. Lamentavelmente, fomos jogar depois com a Argélia, para as eliminatórias do Campeonato do Mundo de 1986. Depois do empate em Luanda, em Argel fomos completamente aldrabados. Este foi o grande momento que marcou a minha carreira, a nível da selecção de Angola, e que não me esqueço nunca.

Qual é, na sua óptica, o maior feito do futebol?

Acho que o maior foi a qualificação ao Mundial e depois a organização do CAN. Os maiores feitos que o país conseguiu também foram as infra-estruturas desportivas. Temos hoje muitos campos, que na altura em que jogava, não existiam.

PERFIL
Nome Completo: Napoleão Alfredo Brandão
Data de Nascimento: 13-06-1952. Filhos: Sete
Posição: Guarda -redes
Cargo: Técnico -adjunto do 1º de Agosto. Clube de estreia: Dinizes de  Salazar, hoje Ndalatando
Clubes por onde passou: FC Uíge, Dinizes, CPPA (Interclube) e 1º de Agosto. Selecções: Selecção Nacional "AA".Títulos conquistados: Três campeonatos nacionais, como atleta, e uma Taça de Angola, como jogador e técnico principal do 1º de Agosto.