Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Ivo Trana crucifica direco

Morais Canmua - 20 de Novembro, 2016

Ivo Traa reconhece que a falta de condies de trabalho e recursos financeiros perigaram a permanncia da equipa no Girabola

Fotografia: M. Machangongo

O técnico Ivo Traça considera negativa a prestação do Clube Desportivo da Huíla, no Girabola Zap 2016. A campanha menos conseguida dos militares da Região Sul quedando-se na décima posição, menos três lugares que a época passada, deixou o treinador com o sentimento de desolação.

Em entrevista ao Jornal dos Desportos o antigo atleta do 1º de Agosto e da Selecção Nacional de Angola, sustentou que os inúmeros problemas que enfrentaram como a falta de organização, condições de trabalho e recursos financeiros perigaram a permanência da equipa no campeonato nacional da primeira divisão. 

Depois do cenário que se viveu, o técnico pondera em continuar em frente dos destinos da equipa na próxima época futebolística. Assumiu que não é homem de atirar a toalha ao tapete, mas alertou que sem condições não se alcança os objectivos que se pretende. Acompanhe a entrevista.

Que balanço faz da prestação do Desportivo da Huíla na época   recentemente terminada?
“Infelizmente o balanço que me ofereço a fazer da campanha do Clube Desportivo da Huíla é negativo, pelo facto de termos baixado três lugares em relação à classificação alcançada na época de 2015. Contudo, deixa-me referir que tivemos um início bom, onde nas primeiras jornadas conseguimos três vitórias consecutivas e um empate, o que nos valeu inclusive liderarmos a prova de forma atrevida. Infelizmente, depois fomos perdendo e empatando, claudicando na acutilância inicial”

Quais os factores que estiveram na base da perca da acutilância competitiva da equipa?

“Lembro-me que à entrada da terceira jornada num dos nossos pronunciamentos, havia dito que os lugares cimeiros não eram nossos e aproveitei igualmente na mesma ocasião para enviar um recado à direcção do Clube de que poderíamos ter problemas no futuro, devido a organização administrativa que sentíamos na altura ser débil”.

Qual foi a reacção da direcção diante desta alerta?
“Acho que a direcção reagiu mal ao encarar o problema de ânimo leve, por achar que a desenvoltura do futebol ser apenas e só de jogadores e treinadores.  Não teve a  preocupação da criação contínua e constante de condições de treinamento, como campos e outros periféricos que conjugam no esforço para se obterem bons resultados. Realmente houve muita coisa que começou a faltar e com influência negativa ao grupo de trabalho, e consequentemente no seu rendimento competitivo”.

Da advertência que fez incluía também os problemas de falta de salários e prémios de jogo para atletas e técnicos?

“Realmente há coisas que não gosto de falar, porque acho que são questões que não me dizem directamente respeito, mas como deve entender, quando influenciam de forma directa no nosso trabalho, ficamos preocupados. Houve imensos problemas naquela altura e o clube não conseguia suportar e resolvê-los. Principalmente no período de Janeiro à Julho em que enfrentamos problemas de falta de pagamento à alguns dos nossos principais jogadores. É verdade que foram resolvidos mais tarde, mas as consequências foram grandes”.

No seu ponto de vista a falta de cumprimento de algumas obrigações por parte da direcção, influenciaram de forma negativa no rendimento dos jogadores...
 “Acho que sim. Quem trabalha deve ser pago e tornava-se difícil exigir de alguém que não tem rendimentos nem tem onde comer. Como pode notar, de alguma forma influenciou sim. Sabíamos que a resolução de todos os problemas não dependiam exclusivamente da direcção do clube, porque pelo que nos apercebemos o sponsor falhou em algumas alturas no cumprimento dos seus compromissos para com o clube e as dificuldades vieram ao de cima, numa altura em que estávamos embalados”.

Daí terem passado de equipa sensação à equipa decepção?

“Realmente foi isso. À determinada altura estávamos lançados para depois nos vermos afectados com algumas situações extra-campo. Passamos a ter resultados menos bons e a decepcionar a massa associativa do clube, os amantes do futebol local e todos aqueles que depositavam alguma confiança em nós e que acompanhavam o nosso trabalho durante a semana”.

Quanto tempo o plantel teve de aguentar-se diante destes problemas?

 “Foi, principalmente durante a primeira volta da prova. Tivemos problemas imensos com destaque para as viagens. Viajávamos quase em cima do jogo, porque em termos de programação das viagens estivemos também muito mal”.

O facto de terem perdido jogos com adversários directos também pesou na vossa prestação negativa no Girabola?
“Sim. Isso pesou muito, principalmente no ponto de vista psicológico. Nós tivemos derrotas amargas em nossa própria casa, diante do Recreativo da Caála, Porcelana, Académica do Lobito e empatamos com 1º de Maio de Benguela, enfim, resultados que, se estivéssemos bem no ponto de vista organizativo, não teríamos passado o que passamos para assegurar a permanência. Verdade seja dita, se tivéssemos vencido os jogos que mencionei e que disputamos em nossa casa, o Desportivo da Huíla terminaria a prova em quarto ou quinto lugar, o que seria muito mais honroso.”


FRACASSO NA ÉPOCA
Ivo responsabiliza
direcção do clube


Agora com a mente mais calma e uma analise fria, o que faltou para realizarem uma campanha tranquila?
“Acho que houve pouca agressividade por parte do departamento de futebol do clube. A estrutura que administra a modalidade no clube devia ser mais proactiva e agressiva, enfim muito mais actuante na resolução de determinadas questões que acabaram por ser as que permitiam ambientes letárgicos. Havendo maior agressividade por parte das pessoas tínhamos superado as dificuldades muito mais cedo e acredito que os resultados seriam obviamente melhores”.

Sente a direcção agiu com algum amadorismo diante dos problemas que enfrentaram?
 “Tal como disse e repito, faltou agressividade. Nos momentos críticos deviam criar mais encontros com as pessoas ligadas ao futebol, os que patrocinam o clube e procurarmos em conjunto resolver os problemas. Coisa que lamentavelmente, não fizeram. Esperavam que o patrocinador é que viesse ter com eles ao invés de ser o contrário. Pela experiência que tenho dos anos que ando no futebol, sempre foi assim. Nós é que deveríamos ir bater-lhes a porta e não esperar que o patrocinador viesse procurar saber se estávamos em dificuldades”.

No seu ponto de vista toda a direcção falhou?
 “Acho que a direcção, em bloco, desde o presidente aos vice-presidentes e mesmo os directores. Naquela altura era crucial que tivéssemos estabilidade para consolidarmos os resultados positivos que estávamos a ter em campo. O grande problema na verdade foi a questão financeira, mas o clube deverá criar fontes de rendimento para caminhar sem muitos sobressaltos, porque tem um potencial humano e competitivo reconhecido”.


CONTINUIDADE
“Se depender de mim não regresso”


A continuidade de Ivo Traça no comando dos militares da Região Sul está a depender de ordens superiores, mas o técnico assumiu ao JD que se depender de si não regressa ao Clube Desportivo da Huíla.

“Para lhe ser franco e directo, por mim não continuaria no comando da equipa e se dependesse de mim, não seria mais técnico da equipa, porque o ambiente de trabalho não é dos melhores. As pessoas intrometem-se muito nos trabalhos dos técnicos e criaram muitas intrigas. Como sabe, fui ao Desportivo da Huíla para fazer o meu trabalho e criar um ambiente sadio e de amizade. Aliás o futebol é para ser vivido com fair-play e sem problemas”.

Em função de tudo que viveu no clube sente que a melhor solução é abraçar um novo desafio?
“Pela minha forma de ser, prefiro abandonar mantendo as amizades que fiz, do que continuar e ter muitos inimigos a minha volta. Infelizmente, todo o dirigente se sente treinador principalmente quando a equipa ganha. Sentem que a vitória é deles porque acham que só eles é que trabalharam para o sucesso. Quando perde,  o principal culpado para eles, é o treinador”.

Quando colocou o seu lugar a disposição, acha que terá tomado a melhor decisão?
“Realmente quis desistir porque percebi que estava sozinho com a equipa. Ninguém me acompanhava. Estávamos numa fase crucial em que as coisas corriam muito mal”.

Mas acabou por continuar...
“É evidente que sim. Para além de ter havido uma decisão superior para continuar, houve conselhos de amigos e familiares para continuar até ao fim e preferi dar ouvidos”.

Sente que foi melhor honrar o compromisso?
 “Sim. Acho que sim e sinto que foi bom ter continuado até ao final da temporada, até porque sempre acreditei que a partir daquela altura as coisas iriam melhorar e a equipa não iria descer de divisão, e que lutaríamos até aos limites para mantê-la na divisão maior e foi o que aconteceu”.

Que condições impunha para se manter no CDH?
“Para lhe ser franco, só continuo no Clube Desportivo da Huíla se isso for uma imposição dos meus superiores hierárquicos. Se os meus chefes directos acharem que devo continuar na Huíla, terei de cumprir. Sei que a Direcção quer que eu continuo, mas nos próximos dias inclusive irei ter uma reunião com o director-geral para aclararmos todos esses aspectos”.

O que vão tratar especificamente nesta reunião?
“ Naturalmente que iremos conversar exaustivamente sobre vários aspectos e irei impor algumas condições”.

Que condições são essas?

“Acho que teremos que melhorar muito. Irei exigir a melhoria das condições de trabalho, a melhoria das minhas condições sociais que foram realmente péssimas e exigir que se sanem alguns problemas que quase fizeram com que não trabalhasse em paz. Vou exigir que me deixem trabalhar com tranquilidade e quando sentirem que não estou a dar conta do recado, chamem-me, reúnam comigo para rescindirmos o contracto”.

Caso continue, vai dispensar muitos atletas e de certeza reforçar o plantel...

“Neste momento, conforme o plantel está, precisaríamos de mais um ponta-de-lança, que fosse jovem e precisaríamos de ter três a quatro médios ala, que jogam colados à linha e que façam boas penetrações, driblam e que vão à linha do fundo, cruzem com perfeição ou, médios interiores que tenham boa técnica individual. De resto, seriam apenas esses. Se tiver que haver dispensas, vamos dispensar alguns defesas. Temos muitos jogadores do sector defensivo e não precisamos de tantos assim.

Deste modo quais seriam os principais objectivos na próxima temporada?
“ Se por ventura continuar, acho que o Clube Desportivo da Huíla, como equipa modesta que é e sem grandes recursos, os objectivos seriam os mesmos. Ou seja, o de manter a equipa entre os grandes do futebol nacional e procurar melhorar a classificação alcançada nesta época em que ficamos em décimo lugar”.


PRESTAÇÃO
Técnico assume
culpas no cartório


A equipa técnica não está isenta do fracasso, apesar da maior responsabilidades recair para a direcção...
“De maneira nenhuma! Devo dizer que também tenho culpas no cartório. Sinto que em determinados momentos, não ajudei naquilo que acho que poderia ajudar em função da experiência que tenho de vivência no futebol. Repare que havia jogos que não poderíamos ter feito na altura em que foram feitos. Poderíamos privilegiar o descanso aos jogadores e nós forçamos. Ajudamos a criar condições para que não chegássemos nos locais de jogo com tranquilidade.

Está a assumir alguma responsabilidade no fracasso da equipa...

“Deixei-me embalar nas situações de falta de aviões, falta de dinheiro e muitas vezes viajamos por via terrestre sem o descanso necessário que se impunha. Muitas vezes, antes da programação dos jogos, a direcção me pedia anuência no sentido de ser antes ou depois. Confesso que também me deixei levar, não percebendo os factores negativos para a equipa. Acho que aí, poderia ter colaborado melhor e poderia mesmo me impor mais. Não seria justo culpar apenas à este ou aquele, devo assumir que tive igualmente culpas no cartório e para já assumo”.

Isto quer dizer que...

“Deixa-me dar um exemplo, nós sairmos do Lubango para ir jogar em Calulo. Saíamos de lá para Luanda via terrestre e seguimos para o Lubango para jogar no sábado da mesma semana, era doloroso. Acabamos por em determinadas alturas nos condenarmos a nós próprios. Não conseguimos fazer uma programação consentânea com cabeça, tronco e membro. E isso no futebol, paga-se caro”.

Em termos de condições de trabalho colocadas à vossa disposição durante a época, que comentários tem a fazer?
“As condições de trabalho foram razoáveis, principalmente no que diz respeito ao material desportivo. Temos bolas, botas e equipamento para os atletas, nisso não houve problemas de maiores apenas nos lanches já que por vezes tivemos algumas falhas. Enfrentamos igualmente dificuldades no cumprimento do horário dos treinos e transportes para os atletas. Outros aspectos foram, os campos de treinos que não ofereciam condições óptimas para trabalharmos devidamente”

Em termos de qualidade do plantel posto à sua disposição, não houve grandes problemas?
“Posso dizer que a qualidade do plantel foi razoável.  Claro que não foi por aí além que nos garantisse lutar pelos lugares cimeiros. Praticamente aliamos os veteranos à juventude”.

Em suma trabalhou com o plantel possível?
“Sabe que temos imensos problemas financeiros. A equipa não tem recursos suficientes para ombrear com outras na compra de jogadores com qualidade acima da média. Geralmente, recrutamos jogadores com pouco peso financeiro no mercado. Ou seja, apenas aqueles que o nosso bolso permite contratar. Mas com mais tranquilidade, poderíamos lutar para o quinto, sexto ou sétimo lugar.