Jornal dos Desportos

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Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

J fui insultada pelos adeptos

Gaudncio Hamelay, no Lubango - 04 de Julho, 2012

Tnia Duarte rbitra principal da segunda diviso.

Fotografia: Gaudncio Hamelay.

Começou a praticar desporto por gosto ou por força de um convite?
Comecei a minha actividade desportiva no karaté através de um convite feito pelo professor Juca Fernandes, quando eu tinha 12 anos. O convite levou-me ao gosto pelo desporto. Pratiquei o karaté até aos 16 anos de idade. Aos 17 anos, fui para o Benfica Petróleo do Lubango praticar o basquetebol. Joguei nos escalões de iniciados, juniores e seniores, como extremo poste, e depois optei por praticar o futebol onze onde tive mérito. No futebol permaneci durante cinco anos como defesa central e em 2009 fui para a arbitragem. Comecei no quadro de acesso; em 2010 subi para a primeira divisão como árbitro assistente; em 2011, passei a árbitra principal da segunda divisão, na qual estou agora. Graças a Deus, neste ano de 2012, sou árbitra internacional.

Como foi a sua adaptação do karaté para o basquetebol onde foi atleta de referência?
A minha passagem do karaté para o basquetebol não foi difícil porque a preparação do karaté serviu para a minha defesa pessoal e o karaté tem a ver com o físico. Na altura estava o professor Beto que me pediu para jogar basquetebol devido à minha altura. Como sou de uma família que joga basquetebol, a minha adaptação foi fácil.

Que cinturão chegou a ostentar como karateca?
Cheguei até ao cinturão verde.

No basquetebol quais foram as proezas conquistadas?
Conquistei o campeonato nacional de iniciados, por duas vezes e o de cadetes em duas ocasiões. Infelizmente, na categoria de seniores participámos uma vez num campeonato nacional e saímos em terceiro lugar.

Quais foram as razões que a levaram a deixar a prática do basquetebol?
Foi devido ao futebol. Criei uma paixão pelo futebol onze e preferi optar por jogar essa modalidade e pôr de parte o basquetebol depois de seis anos de prática.
 
Que memórias guarda dessa modalidade?
Muitas. Principalmente no que toca a participações em campeonatos nacionais, quando nos sagramos campeões, na categoria de cadetes em Luanda. Como praticante de futebol a maior recordação que tenho é ter ascendido à selecção nacional de sub-20 que representou o país no torneio decorrido em 2006 na Namíbia.

Como foi a sua passagem pelo futebol de salão?
Depois de me dedicar à arbitragem, já não podia jogar futebol onze. Então, a formação de futebol onze que representei criou uma equipa de salão e fomos campeãs em 2007. No ano passado, fomos campeãs regionais.
 
Que clubes representou durante estes anos todos?
Comecei a jogar futebol onze nas Pitangas Vermelhinhas em Luanda. Depois vim para o Lubango, onde representei as cores do Sporting do Lubango durante um ano, posteriormente joguei pelas Amigas do 1º de Agosto, onde terminei a minha carreira.

Hoje fala também nas vestes de árbitra. Como encara essa difícil missão?

A arbitragem é difícil. Principalmente para as mulheres, porque ainda reina aquele preconceito dos homens segundo o qual as mulheres não conseguem ou não podem fazer isto ou aquilo, o que não é verdade, pois hoje vemos mulheres a exercer cargos de direcção e chefia nos mais diversos sectores da vida política, económica e social do país. Actualmente, considero-me uma boa árbitra e capacitada para actuar e ajuizar qualquer partida de futebol.

Que avaliação faz da arbitragem nacional?
A arbitragem nacional não está tão mal como muito se propala, embora tenha que mudar algumas coisas. Mas, o Conselho Central de Arbitragem tem feito tudo para que os seus quadros prestem uma arbitragem com prestígio, isenta e imparcial para merecer a credibilidade da Confederação Africana de Futebol, CAF.

Durante o seu percurso como árbitra já se deparou com contestações dos adeptos ou jogadores?
Isso acontece sempre, porque para os adeptos e jogadores, o árbitro é o único que não deve errar. O árbitro é sempre mal falado ou criticado. Comigo já aconteceram cenas desagradáveis. Já fui insultada pelos adeptos, mas preferi não dar ouvidos. Lembro-me ainda que o primeiro jogo que tive como árbitra, o ano passado no Namibe, foi Sonangol - Ara da Gabela. Nesse jogo, assinalei uma grande penalidade contra o Sonangol e em seguida tinha que expulsar um jogador. Devido a essa minha atitude, o público levantou-se e contestou a minha decisão, gritando. Chamaram-me todos os nomes possíveis. Que fazer? Só temos que aguentar e aturar isso tudo enquanto árbitros. Mas a verdade é que enquanto humanos somos susceptíveis de errar.
 
Que projecto desportivo tem para o futuro?
O meu projecto é continuar a trabalhar para poder contribuir para o desenvolvimento do desporto, principalmente na província, assim como prosseguir uma carreira que me faça alcançar o nível de árbitros de referência no contexto nacional e internacional. Sempre que tenho uma oportunidade de participar em seminários de capacitação de arbitragem, faço questão de estar presente.

Que opinião tem do projecto do governo na aposta da revitalização do desporto escolar a nível do país?
É um bom projecto. Se realmente for concebido será uma grande valia para o futebol, andebol, basquetebol, atletismo, voleibol e outras modalidades. A nível local, já se notam alguns avanços com a realização do curso de nível médio para professores de Educação Física.

GÉNERO
O desporto também é para as mulheres

Que comentário faz da prática desportiva no seio da camada feminina?
Está muito adormecida, porque as meninas da província têm um preconceito quanto ao futebol. Elas pensam que a prática do futebol é somente para rapazes. Acham que só os homens é que devem praticar o futebol e o desporto no geral. Por isso é que o futebol onze nesta província está a decair a cada dia que passa.

Que conselho deixa às mulheres que têm esse preconceito?
Que deixem de lado o preconceito. Vamos lutar para desenvolver o futebol feminino no país e em particular na província.

Será este o único problema que emperra o desenvolvimento do futebol feminino na Huíla?
Não. O maior problema é a falta de patrocínios. Não existem patrocinadores, que apostem de forma séria no desporto feminino. Por isso é que a modalidade está a morrer. Se houvesse patrocinadores, de certeza que haveria também muitas equipas femininas. Essa situação arrasta-se também no basquetebol. Existe na província o Benfica do Lubango, que era o único clube que tinha os escalões de seniores. Agora não tem mais. Então, se houver patrocinadores, creio que localmente teríamos outras agremiações com vontade de apostar nos escalões seniores.

Existem poucas equipas no país a apoiar o desporto feminino. O que deve ser feito para se inverter esse quadro?
Criar mecanismos para que os clubes com formações seniores criem igualmente uma formação feminina. Essa é, na minha opinião, a única solução. A continuarmos neste andar da carruagem, corremos o risco de não ter mais o futebol feminino.

Ainda há o problema da falta de competições…
As poucas competições existentes no país na camada feminina devem-se ao reduzido número de equipas, motivado pela falta de patrocínios. O futebol feminino é como se fosse o processo de massificação. Se na massificação não existem lucros, os patrocinadores fogem e procuram outras áreas onde há retornos de investimento.

Que apreciação faz das poucas equipas de futebol feminino existentes a nível da província?
O futebol onze na província está um pouco diminuído, no que aos números diz respeito, devido à ascensão de muitas praticantes ao escalão sénior. As jovens começam a praticar uma determinada modalidade nos escalões de formação (iniciados, cadetes e juniores) e quando transitam para o escalão sénior param, por inexistência de equipa com essa categoria. Esses factores obrigam ao término da carreira. Por isso, urge mudanças.

É mais fácil ser árbitra que auxiliar administrativa. Além de árbitra é auxiliar administrativa?
Sim, sou auxiliar administrativa de uma empresa de segurança aeroportuária, no aeroporto internacional da Mukanka, há cinco anos. Também estou a frequentar o 1º ano do Curso Superior de Direito.

É uma tarefa difícil?
Ser segurança é uma tarefa muito difícil tal como no futebol. Há aqueles que dizem que a mulher não é capaz e não pode, porque é trabalho para homem. Mas estamos aqui para demonstrar que as mulheres também podem.

Ser árbitra e ser segurança. Qual é a actividade mais difícil?
 É mais fácil apitar um jogo do que enfrentar os seguranças no serviço, porque lidar com homens, no dia-a-dia, é muito complicado. Eles têm tendência a menosprezar as mulheres. Vale a pena apitar.

Que apelo faz a outras mulheres?

Que lutem pelos seus direitos. Façam o que gostam. Não dependam de alguém e lutem para fazer ou alcançar o que pretendem. Aos homens apelo que deixem de lado o machismo e preconceito. A mulher também é capaz e tem poder e capacidade de fazer o que o homem consegue fazer.

Perfil
Nome Completo: Tânia Marisa Duarte
Filiação: Emílio José Duarte e Juliana Ndeumona
Data e local de nascimento: 24/10/86, no Lubango
Estado Civil: Solteira
Filho: Um
Música: clássica
Filme: Terror
Hobby: Ouvir música
Peso: 65 kg
Altura: 1,78
Calçado: 39
Cor preferida: Azul Claro
Prato: Calulu
Bebida: Sumo
Casa Própria: Não tenho
Carro: Tenho
País de Sonho: Grécia
Cidade angolana: Lobito
Acredita em Deus? Sim.
Sente-se realizada? Ainda não.
O que acha da homossexualidade:
 
É um mal de que enferma a sociedade. Porém quem somos nós para criticar a opção de cada um? Eu respeito.