Jornal dos Desportos

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Entrevistas

"J teria sido presidente da federao h oito anos"

Joo Francisco - 15 de Janeiro, 2013

Paulo Nzinga contou que foi obrigado a praticar judo devido a um problema de sade

Fotografia: Jornal dos Desportos

O actual presidente da Federação Angolana de Judo (FAJ), Paulo Emílio N´zinga, ou simplesmente, Mestre Apollo, 43 anos, esteve na origem da indicação do presidente cessante da mesma instituição, Quintino Cabral, que o derrotou nas eleições para o quadriénio 2012-2016, antes mesmo deste concorrer. Muitos judocas, como, por exemplo, a campeã africana e medalha de bronze num Campeonato Mundial, Maria de Fátima “Faia”, quando se referem a Mestre Apollo, fazem-no de forma peculiar, em sinal de respeito a alguém que esteve ligado à sua formação. Habituado às vitórias, como a que infligiu recentemente no dirigismo desportivo, o responsável que começou como praticante na mais tenra idade, por recomendação médica, quando se encontrava na diáspora, passando por Paris, Kinshassa e Brazzaville, com os seus pais que emigraram devido à perseguição política do regime colonial português, reservou sempre o trunfo que possuía sobre o adversário para o seu momento próprio.

Paulo N´zinga contou que foi “obrigado” a praticar judo devido a um problema de saúde à nascença em que foi diagnosticado como tendo asma e uma obesidade fora do normal. Em função disso, um médico português, de que se recorda apenas como Paulo, aconselhou-o a praticar desporto, particularmente o judo, para debelar as suas anomalias. Isto nos anos 70, em França. Por força das circunstâncias políticas, antes de 1975, transfere-se com a família, particularmente o seu pai, de França para a República Democrática do Congo e posteriormente para a República Popular do Congo, onde, enquanto concluía os estudos básicos e secundários na Escola da Polícia Congolesa Molungue, tomou os primeiros contactos com o judo.“Entre os oito e 11 anos, enquanto estudava, praticava judo no clube Guedan, que tinha na altura um estilo de técnica de luta característico, que identificava qualquer praticante forjado naquela instituição, como foi o meu caso”, conta.

De instrutor
de luta corpo a corpo para atleta da Banca

Em 1991, no seu regresso definitivo à pátria que o viu nascer, Paulo N´zinga traz consigo as técnicas de luta que o forjaram na diáspora e ajudaram a debelar a enfermidade que possuía, momento que coincide com o cumprimento do serviço militar. “Entrei para cumprir serviço militar, como mancebo no C2, que era o segundo curso de Comandos no Cabo Ledo. Quando terminei, devido às minhas aptidões fui logo indicado como chefe de preparação combativa do comando Tigre, onde comecei a instruir as técnicas de LCC (Luta Corpo a Corpo). A actividade como instrutor de LCC estendeu-se a Viana Sanzala, onde havia outros instruendos daquelas Forças Especiais”, frisou. 

Alguns problemas familiares que obrigaram a sua presença mais frequente no acompanhamento e assistência dos pais, forçaram Mestre Apollo a interromper temporariamente a vida da caserna, levando as técnicas de luta para a vida civil. “Representei como atleta/treinador o Grupo Desportivo da Banca, de 1994 a 96.” “Naquela altura senti que a modalidade se fazia sentir apenas na baixa de Luanda, pelo que comecei a contactar alguns companheiros meus que também regressaram da diáspora, como o mais velho João Geraldo (ainda no activo) e João Bula, que ficaram encarregues de mobilizar praticantes no Palanca e na Petrangol, o que ajudou a massificar a modalidade e serviu para equilibrar a demanda entre a zona urbana e suburbana”, acrescentou.

COMPETIÇÕES
Guedan foi sempre o eterno segundo classificado

Para a massificação da modalidade em três frentes diferentes (zona urbana e suburbana), Mestre Apollo convidou todos os judocas da zona urbana (Combatentes, Maculusso e Rangel) a aliarem-se a ele e refundou a Escola Guedan em Angola, passando a funcionar num dos espaços existentes no Prédio da Polícia. Com a evolução dos praticantes ficaram criadas as condições para a realização de competições. “O primeiro Campeonato Nacional realizou-se em 1996/97, vencido pelo Grupo Desportivo da Banca e Guedan foi segunda classificada, uma posição a que a equipa que fundei estava condenada, pois a partir daí fomos os eternos vice-campeões”, reconheceu. Nesta altura, começaram igualmente a surgir os primeiros sinais do judo no escalão feminino, mas de início estes foram muito ténues, contando-se mesmo as praticantes. “Quando o número de praticantes femininas de judo subiu para nove, apelámos aos dirigentes que na altura estavam na Comissão de Gestão da Federação Angolana de Judo, encabeçada pelo ex-presidente da FAJ, Rodrigues de Castro, para a realização de Campeonatos Nacionais no escalão. “O primeiro Campeonato nacional de judo feminino realizou-se em 1997, no Grupo Desportivo da Banca e teve a participação de judocas como Elizabeth Peso, Leocádia, Marilda da Conceição, Tucaiana Balão, Teresa Sussin, entre outras. Este grupo foi reforçado pela Antónia de Fátima “Faia”, que fomos busca ao Team Elite, onde praticava Kick Boxing”, revelou.

RECONHECIMENTO
Êxito em feminino
teve mão de Apollo


Paulo N´zinga disse que “antes de Antónia de Fátima Faia ter ido para o Judo, fui um dos primeiros treinadores a ver nela as qualidades para ser a boa judoca que é hoje. E em 1998 pedi ao dirigente Rodrigues Castro que a integrasse na caravana para representar Angola nas competições internacionais, que só não se concretizou devido a dificuldades financeiras que a Federação atravessava na altura, assim como a pouca sensibilidade que os dirigentes possuíam em relação ao judo feminino”. “Para convencer os anteriores dirigentes da Federação Angolana de Judo (FAJ) a apostar no Judo feminino tivemos que fazer um programa especial para aquela que era a nossa melhor judoca, a Antónia de Fátima, integrando-a em conjunto com os masculinos e a fazer a técnica Uchi Mata, melhor do que muitos homens”, revelou. “Fomos aprimorando a sua técnica Uchi Mata, a ponto de torná-la tão explosiva que convenceu todas as sensibilidades da Federação a passar a integrar o Judo feminino com a respectiva selecção nacional para as competições internacionais, tendo sido convocada pela primeira vez a efectuar trabalhos no Centro Especial, que na altura funcionava no CDUA, em 1999, de cuja equipa técnica fiz parte. Assim surgiu a alta competição no escalão com o sucesso que tem hoje”, disse. Em 2001, surgem as primeiras mudanças significativas no elenco federativo, defendidas igualmente por Mestre Apollo, sendo eleito Walter dos Santos como presidente de Direcção, coadjuvado por Quintino Cabral, para um consulado de quatro anos (2001-2005), onde no primeiro ano o judo feminino consegue obter um honroso quinto lugar, através de Antónia de Fátima. O mandato da FAJ, resultante das primeiras eleições, não terminou como devia. Alguns problemas internos, principalmente em relação à prestação de contas, levaram à retirada de muitos dos seus membros e a modalidade viveu o momento mais crítico.

POR DENTRO
Nome completo:
Paulo Emílio N´Zinga
Filiação: André N´Zinga
e Vacana Emília
Data e local de nascimento: 22 de Agosto de 1969 no Município da Damba (Uíge)
Filhos: Muitos
Altura: 1,75m
Peso: 90 kg
Estado Civil: Solteiro
(vive maritalmente)
Calçado: 43
Filmes: Acção
Hobby: Treinar Judo
Prato Preferido: Calulú
Bebida: Água
O que mais teme: Nada
Desporto preferido: Judo
Cor: Azul escuro
Perfume: Saint Laurent
Defeito: Dedicação
Religião: Católica
Acredita em Forças Ocultas: Sim. É uma ciência