Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Joo Machado fala da fraca qualidade do futebol nacional

Gaudncio Hmelay, no Lubango - 06 de Março, 2011

Joo Machado critica a qualidade do futebol praticado no Girabola

Fotografia: Jornal dos Desportos

Há poucos dias para o “arranque” do Girabola 2011, o técnico do FC de Cabinda, João Machado, reconhecido como o treinador mais antigo da competição, onde, em 1979, na primeira edição, actuou como jogador na primeira edição com a distinção de marcador com 19 golos), concedeu uma entrevista ao Jornal dos Desportos em que aflorou muitos aspectos importantes da prova e do futebol nacional no geral.

Falou, por exemplo da cronologia da prova, defendeu que a Federação Angolana de Futebol (FAFA) só poderia autorizar os clubes a inscrever jogadores estrangeiros de qualidade desde os escalões de formação, tocou na questão da dos jogos, e apontou, como solução para se sair da letargia em que o futebol angolano se encontra, a aposta e valorização do desporto escolar. Siga pois, caro leitor, a linha e o conteúdo da entrevista.

O Girabola começou nos anos 80 e o técnico João Machado conhece bem este trajecto todo. Que cronologia pode fazer sobre o seu desenvolvimento até aos dias de hoje?
Não podemos estar a pensar no passado. Tivemos tempos áureos na década de 80 até 90, foram os tempos mais áureos do nosso campeonato nacional de futebol. Tivemos jogadores que vinham das escolas e que faziam a diferença. As pessoas, às vezes, hoje não querem acreditar. Eram jogadores que estudavam, trabalhavam e jogavam porque gostavam de jogar. Hoje, por exemplo, a criança chega aos 13 anos e quer ser jogador. Não é só querer ser jogador de futebol e também não se pode ser empurrado a fazer algo que não se gosta. Eu penso que neste momento temos problemas em fazer a nossa selecção. Nas décadas de 80 a 90 o treinador é que tinha dores de cabeça para ver quem é que ia deixar no banco. Até tinha pena porque sabia que deixava bons jogadores fora da selecção nacional de futebol. Tinha muitos jogadores para escolher. Hoje nós não temos muito para escolher. É claro que hoje a prova teve outra dinâmica de jogo, as regras são outras. Antigamente podia-se atrasar para o guarda-redes e ele agarrar a bola, mas hoje já não pode. Hoje está-se a favorecer o ataque. Por isso, o futebol tem outra dinâmica.

Afirma que o futebol nos dias de hoje tem outra dinâmica porque?
Hoje já se vê muita televisão a apresentar muitos jogos. O futebol tem tendência a evoluir. O futebol hoje é uma ciência. Os treinadores têm que estudar para poderem aplicar em campo aquilo que estudaram; têm de haver preparadores físicos; as equipas devem ter fisioterapeutas, médicos e estatísticos, o que não havia antigamente. Por isso, o futebol está melhor alguns aspectos de organização, mas penso eu que o nosso futebol em qualidade perdeu um pouco. Acredito, no entanto, que temos, nos últimos campeonatos já se pratica um futebol razoável, temos boas equipas. Não vou citar nomes para não ferir sensibilidades de outras. Temos poucos jogadores na diáspora em boas equipas. Não nos podemos comparar com os Camarões, a Costa do Marfim ou Senegal, a maioria dos seus jogadores da selecção estão a jogar fora em grandes equipas. Nós, tirando um ou dois, jogam na segunda divisão.

No seu entender, o Conselho Técnico da FAF e os técnicos deveriam reunir-se e programar a época?
Penso que o conselho técnico não tem assim muita culpa nisso porque  temos o calendário africano. Por problemas de transporte, dificilmente se pode fazer um jogo internacional ao meio da semana como se faz na Europa. Digo isso porque na Europa o jogo é à quarta-feira. Viaja-se à terça-feira, joga-se e regressa-se. Aqui para se ir ao Gabão ou dá-se uma grande volta ou então demora-se quatro ou cinco dias para se chegar ao local do jogo.

Talvez agente possa acertar esta questão da programação. Para mim, é problemas das associações. Não concebo que o campeonato termine em Outubro e haja a final da Taça de Angola a 11 de Novembro. O campeonato não pode começar só em Março. É muito defeso para as equipas. É muito dispendioso para os clubes, porque as equipas têm que trabalhar a partir de Janeiro. Não se pode dar três meses de férias a nenhum atleta porque depois paga caro a sua forma desportiva, o que é problema para ele. Então, devíamos acertar. Se o campeonato termina em Outubro disputa-se logo a taça. Assim, dá-se um mês de férias aos atletas para, depois.

João Machado prevê
uma prova disputada

“Temos que organizar o desporto escolar”

Faz sentido obrigar as equipas a fazer um maior investimento nos escalões de formação?
Muito mais do que isso. Tem de se começar primeiro a organizar o desporto escolar. Pegar as crianças orientá-las, corrigi-las e dar valor, como se dava, antigamente, aos professores de educação física.

Porque?
Porque antigamente quem reprovasse na educação física não passava de classe. O desporto abre a mente e o intelecto de uma criança. Veja que, antigamente, toda a gente praticava desporto. Por isso é que tínhamos muita gente a praticar ginástica, atletismo. Tínhamos jogadores que iam jogar na Europa com facilidade. As escolas realizavam campeonatos inter-turmas, inter-escolas. Todas escolas e colégios tinham ginásios. Hoje não, muitas escolas e colégios são vivendas. Os garotos ao intervalou ou quando não têm aulas fazem o quê? Antigamente andávamos uniformizados para ir a ginástica. Hoje cada um a seu jeito. Uns descalços, com camisolas sem timbres a referirem o nome da escola a que pertence. Acabam a ginástica e vão para a sala assistir aulas a transpirar. Isto tem que mudar. As escolas têm que ter balneários.

Como era no seu tempo?
Comecei a estudar em 1956, salvo erro, hoje estamos em 2011. No meu tempo havia Eu em 1956, já tinha ginástica recreativa. As escolas tinham ginásios. Calçávamos quedes, que chamavam “macambiras”, com um calção e t-shirt branco. Acabávamos  a educação física e íamos logo tomar banho para irmos à sala a fim de assistirmos à outra aula. Hoje, não. Chega-se na turma, às vezes a sala tem ar condicionado, a criança regressa à casa a tossir e ninguém diz nada quando foi o ar condicionado que lhe faz mal depois de ter participado na aula de educação física. Por isso, temos que sentar. As pessoas ligadas ao desporto têm que analisar muito bem. Nós aos poucos estamos a deixar o desporto e vai ficar tarefa para os jovens.

O Girabola 2011 está prestes a começar. O ano passado foi muito disputado porque o campeão e os despromovidos só foram encontrados na última jornada. Como antevê esta época em função dos investimentos feitos pelas direcções dos clubes?
Será ainda mais difícil, a disputa será mais renhida, a julgar por aquilo que as equipas candidatas ao título se reforçaram. Haverá uma luta grande principalmente entre aquelas equipas que lutarão pelo título.

As arbitragens têm estado bem nos últimos anos?
Ainda não, vamos esperar que este ano os homens do apito melhorem a sua prestação.

Quais são principais candidatas ao titulo nesta temporada desportiva?
O Interclube que é o campeão em título, Recreativo da Caála que é vice-campeão se reforçou muito bem, o 1º de Agosto e Petro de Luanda e Recreativo do Libolo, pode ser que apareçam outros candidatos de surpresa como apareceu o Recreativo da Caála o ano passado. GH


“Existe negócio com
jogadores estrangeiros”

Referiu-se aos jogadores estrangeiros. Reconsidera mesmo que as equipas que actuam no Girabola têm-nos a mais?
Está definido que podem inscrever cinco, mas só podem utilizar três em cada jogo. Devíamos proceder como nalguns países. Só autorizar estrangeiros de qualidade, jogadores de selecção no seu país e não iguais aos que temos a jogarem no país. Ás vezes, há negócios escuros, o que estraga a qualidade do nosso futebol e deixa alguns angolanos no desemprego. Temos que escolher os melhores. Não podem ser estrangeiros contratados para ficar todo ano no banco como suplentes. Não vamos buscar um estrangeiro que é mais caro.

Partilha a ideia de que deveria existir uma lei que obrigue à utilização de um determinado número de jogadores que saiam dos escalões de formação?
Pode haver essa lei, mas aí vamos ver o que está por detrás da formação. Temos que ver qual é a formação que se dá nos clubes. Temos que saber também que não há, por exemplo, um campeonato nacional júnior regular e, quando há, é feito com seis equipas no máximo. Temos dezasseis equipas na primeira divisão. Onde estão as outras?