Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Joo Pintar enaltece equilbrio

Augusto Panzo, no Huambo - 26 de Janeiro, 2014

Tcnico do escalo de formao quer maior empenho dos dirigentes dos clubes

Fotografia: Jos Soares

O técnico do Sporting do Bié, João Pintar da Silva, enalteceu em entrevista ao Jornal dos Desportos, o nível competitivo do campeonato nacional de juniores. O treinador reconheceu que se existir, um acompanhamento de quem de direito, o futuro do futebol angolano está salvaguardado.

 Apesar de ainda não se ter atingido os objectivos traçados pela sua direcção, o Sporting do Bié mostrou ao longo da prova que o trabalho está no bom caminho e pode dar os frutos preconizados. Em jeito de balanço da prova, admitiu que se a FAF alterar os moldes de disputa, e aumentar o número de equipas muita coisa pode mudar, e a selecção de seniores vai estar bem servida.

Depois daquilo que viu ao longo do Campeonato Nacional de Juniores, que avaliação faz sobre o nível competitivo apresentado pela equipas e a evolução que algumas apresentaram?

No meu ponto de vista foi positiva. Notou-se que há bons talentos no país e a organização foi excelente, pese embora o Huambo ter dois campos relvados. Contudo, naquilo que pude avaliar, foi extremamente positivo este campeonato.

Podemos depreender que estamos no bom caminho e se depender destes jovens, o futuro do futebol no país está salvaguardado?

Pela avaliação que faço, se tivéssemos que fazer ainda hoje uma selecção Sub-20, acredito que o seleccionador não tinha grandes problemas. Isso deixa-me muito feliz, porque temos bons jogadores e com grande margem de progressão para sustentar as equipas principais e formar uma selecção forte. Temos de ter coragem e uma visão ampla para lançar essa juventude. Se os treinadores e dirigentes, assim o fizerem acredito que os resultados serão visíveis.

Tal como o trabalho de campo, em que tem de existir união entre os atletas, a nível de dirigentes e treinadores deve acontecer o mesmo...


Sim, porque muitas das vezes, nós os treinadores somos ultrapassados pelos dirigentes no que é a concepção de uma equipa. Sabe-se que, quem cobra os resultados são os dirigentes, porque os treinadores limitam-se a fazer o seu trabalho de forma a atingir o que são os objectivos do clube. Infelizmente, às vezes não somos bem sucedidos, sobretudo, quando os resultados não vão de encontro aos desígnios da direcção. E quando assim acontece, somos obrigados a aceitar alguns jogadores que não têm as qualidades, como essas que muitos jovens apresentaram no campeonato nacional.

A presente edição contou com uma participação recorde de 16 equipas, na sua óptica, o que isso significa?

A presença de 16 equipas neste campeonato, significa que o nosso futebol está em franca evolução. Isso demonstra que a juventude está hoje a encarar o desporto no geral e o futebol em particular, com alguma seriedade. Houve campeonatos em que tivemos apenas a metade destas equipas.

Significa dizer que existe uma maior sensibilidade por parte de algumas pessoas, aliado ao facto do progresso que o país está a registar?

Devo aqui realçar que isso é fruto dos benefícios da paz e estabilidade política que o país vive. Sabe que com esse bem precioso para qualquer povo, as vias de acesso foram praticamente reabilitadas na sua totalidade, o que permite a circulação à vontade das pessoas. Os aeroportos também ganharam nova visibilidade, enfim, esse factor trouxe consigo muitos benefícios, dos quais o desporto está igualmente a tirar proveito.

Disse que a paz está por trás de tudo isso. Esse factor é suficiente para a evolução futebolística que evocou?


Não senhor. Também temos o factor humano. Sabe que em função do que o futebol está a proporcionar hoje, muitos jogadores que andaram na diáspora estão de regresso ao país, para jogar nalgumas equipas. Então essa juventude deu conta que pode ganhar alguma coisa no futebol, daí a existência dessa aposta. Há muita miudagem a praticar futebol.


PRÓXIMAS PROVAS
“Federação deve
aumentar as equipas”


No seu ponto de vista, os moldes de disputa com 16 equipas é o mais ideal ou podia ser alterado em função do que demonstraram ao longo da prova?


Acho que sim. Aliás, foi pena a FAF orientar que cada província devia competir apenas com uma equipa. Se não limitassem, o número de participantes na prova, tenho a plena certeza que havia mais equipas nessa prova.

Qual é a sua proposta, para inverter-se o quadro nos próximos campeonatos nacionais nesta categoria e quiçá nos juvenis?


Acho que temos que continuar a persuadir a FAF. Dirigentes, treinadores e sobretudo a imprensa, têm de trabalhar em conjunto para inverter o quadro. Abro uns parênteses, para dizer que a comunicação social, que eu considero de” pequenos treinadores”, devido as vossas opiniões e que são ouvidas com alguma força por tudo quanto é canto de Angola, tem um papel importante. Vamos continuar a apoiar essa juventude, que demonstra ter muita força de vontade.


FUTURO
Treinador sugere inter-provinciais


Depois dos campeonatos nacionais, os jogadores repousam e aguardam por mais nove meses ou um ano para voltar a competir, o que é prejudicial para eles. O que deve de ser feito para reduzir o tempo do defeso neste escalão. As provas inter-provinciais podiam ser alternativa?

É uma excelente ideia. Para mim, isso é que devia ser feito nos próximos dias. Temos de pensar na realização der um campeonato inter-provincial de selecções júnior por zonas. Os coordenadores formavam as selecções zonais, para manter os jogadores em competição, porque o atleta só ganha ritmo a jogar. Repare bem, que depois deste torneio eles param e só voltam a jogar no próximo campeonato, em Janeiro de 2015. Isso quer dizer que, muitas dessas equipas ficam um ano sem competir e isso mata de que maneira, o que chamamos alicerce porque consideramos que depois do alicerce, a construção deve ser o passo seguinte.

Neste caso quem deve ser o coordenador destas competições inter-provinciais?

A FAF devia criar uma política para que se formem selecções regionais. A partir dali, continuávamos a jogar. A selecção das províncias do Huambo, Bié, Benguela, Huíla e Kuando Kubango, arranjava-se um treinador e um coordenador para essa zona e os atletas continuavam em actividade. Tenho a plena certeza de que se deixarmos as coisas andar como estão, vamos desmoronar o que já começámos a construir.

Para se  pensar nesta inciativa  coloca-se sempre   questão financeira, quem suportava  os gastos?

É verdade que é difícil, mas se tivermos coragem, vontade e estarmos unidos, a utilizarmos a mesma linguagem, conseguimos atingir os objectivos e fazer as selecções provinciais, de forma que possamos manter sempre esses jovens em actividade desportiva. Se deixarmos as coisas andar como estão, tenho a certeza de que, muitos destes jogadores que explodiram neste campeonato, amanhã ou daqui a mais dois ou três meses, podem abandonar o desporto. E não é isso que se quer, porque há valores e matéria humana que dá para sustentar as nossas selecções.

Mas a ideia de se criar selecções regionais é válida ou não?


Claro que é muito válida, na medida em que deve ser a partir delas que vamos tirar jogadores para as selecções nacionais, como o de Sub-20, Sub-23 e a selecção de Honras. Repito, a matéria humana existe até para vender e fazer mais alguma coisa. O essencial é que as pessoas tenham coragem de apostar forte nessa juventude, evitar desde logo ter medo de resultados, porque aqui exige-se muito nos resultados na formação.

O que aconselha neste tipo de casos?

É preciso manter calma, evitar resultados imediatos nesses escalões, e criar hábitos desportivos, para que quando chegar à equipa “AA”, o jogador não tenha tremuras, o que pode ser prejudicial para a sua afirmação quando têm valor para tal. Sou apologista de que a partir dos 12 anos, o jogador deve ganhar hábitos de vitória, fazer  que quando se  perde um jogo se  tenha inclusive vontade de chorar. Crescer a ganhar, o atleta nunca tem problemas. Mas o que acontece é que, muitos dizem que só a partir dos 20 anos de idade é que se exige que o jogador ganha mentalidade de vencer jogos.


SPORTING DO BIÉ
“O projecto é ambicioso”


Quando lhe surgiu o convite para treinar os escalões de formação do Sporting do Bié?

Nós começámos com o projecto do Sporting do Bié em 2004, com o objectivo de forjar alguns jovens, para que quando houvesse condições financeiras da parte da direcção, participar no desporto de alto rendimento, mas com jogadores oriundos das escolas do clube, porque o que se vê em Angola é, que as pessoas não apostam nas equipas de formação, limitam-se a ir buscar jogadores com idades duvidosas, sem qualidade para justificar a sua vinda ao país.

Mas o Sporting do Bié já tinha uma equipa de alta competição, que no entanto, não foi por aí além.


Sim, mas devido a algumas situações a direcção achou por bem acabar com o escalão de sénior. Foi precisamente a partir dessa posição, que se criou o projecto de massificação. Como já referi, caso haja condição financeira para o sustento da equipa “AA”, então já podemos ter onde ir buscar jogadores, evitar  a contratação de atletas de  qualidade duvidosa, uma vez que são miúdos forjados em casa, que conhecem os hábitos e os mitos da sua província. Acredito que eles fazem algo melhor em função disso.

Sabe que por norma, quando o jogador atinge o escalão sénior a intenção é jogar por dinheiro, como pensa que devem colmatar esta situação?

Gostava que esses jovens não olhassem  ao  dinheiro, mas que apresentem  primeiro os resultados do trabalho que levamos a cabo durante longos anos e orgulhar  as respectivas famílias e todos os residentes da província.

Doze anos depois de abraçar esse projecto, existe alguém que desponta no seu grupo de trabalho?


Já há sim. Tem um jogador que vai para Portugal, para representar um dos clubes daquele país europeu. Isso deixa-me muito feliz, porque demonstra que o meu trabalho está a dar frutos.

Podemos saber de que jogador se trata?

Por enquanto não devo adiantar o nome, porque sabe que o segredo é a arma do negócio. Está alguém da direcção a tratar disso, e não era ético avançar com detalhes sobre isso. No momento certo, as coisas hão-de vir à tona. Devo apenas reforçar que já é um caso consumado e o jogador tem muita qualidade.