Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Joaquim Dinis quer Oliveira Gonalves

Sak Santos - 08 de Dezembro, 2013

Joaquim Dinis admira Oliveira Gonalves pelo que fez at agora

Fotografia: Jornal dos Desportos

Joaquim Dinis, aos 66 anos de idade, completados no passado dia 1 deste mês, é uma figura que dispensa apresentação. Antigo jogador do Académica Social Escola do Zangado, Atlético Sport Aviação, Sporting Clube de Portugal, do 1º de Agosto e da Selecção Nacional, foi um potencial jogador de ataque, extremo esquerdo de raiz, fazendo todo o corredor lateral.  Rápido na execução, habilidoso e com grande poder de drible, era conhecido como “Brinca na Areia”. Muitos dos golos obtidos pelo goleador argentino Hector Yazalde surgiram de jogadas executadas pelo extremo esquerdo angolano.

Mais tarde, Yazalde, depois de receber a Bota de Ouro, na época 73/74, reconheceu esse mesmo facto. Dotado de um discurso que lhe é peculiar, um dos melhores jogadores angolanos de todos os tempos e actual presidente de direcção da Associação dos Antigos Futebolistas de Angola é pois uma figura que fala com autoridade sobre as questões técnicas do futebol.

Por esta razão, sem rodeios, e com elevado nível de conhecimento, falou animadamente durante cerca de 30 minutos ao Jornal dos Desportos sobre a aposta que deve ser feita no categorizado técnico angolano Oliveira Gonçalves.

Em Janeiro de 2014 é indicado o técnico principal da nossa selecção. Qual é a sua opinião?

Digam o que disserem, Oliveira Gonçalves é a minha opção. O homem tem capacidade para mais uma vez assumir o cargo. Ele conquistou o seu espaço no nosso futebol, demonstrou o seu valor, fez um excelente trabalho e teve sucesso, não faz sentido irmos em busca de outro. Ele nunca esteve fora do futebol, pelo contrário, melhorou a sua capacidade técnico-administrativa, com o cargo de vice-presidente que ocupou no Santos Futebol Clube.

Acompanha a par e passo o que é feito noutros países a nível do futebol. É um estudioso. Sei que a Federação Angolana de Futebol vive momentos difíceis e gostaria, através do Jornal dos Desportos, expressar a admiração que tenho por ele, pelo seu currículo, o seu prestígio, a sua humildade, pelos conhecimentos e pelo bom trato de que sempre deu provas.

Ele merece ser o próximo seleccionador nacional, porque a nossa selecção precisa de voltar a ser como ela já foi. É um grande homem do nosso futebol. Tenho, repito, muita admiração pelo Oliveira Gonçalves, é um dos poucos técnicos de futebol que temos em Angola. Com todo o respeito que nutro pelos demais, como é óbvio, Oliveira Gonçalves é o técnico capaz de operar a renovação desejada, no regresso a casa, de onde nunca devia ter saído.


MODELO DE JOGO

“Equipa técnica tem
uma palavra a dizer”

Espera-se uma selecção com potencial e capacidade para se impor já ou renovar para o futuro?

Obviamente que a renovação deve ser feita para o futuro. Quando falamos em renovar não queremos colocar 11 jogadores. A questão que se coloca é que toda esta problemática tem de ser pensada, tem que ser discutida, temos que levar em consideração uma série de factores.

Primeiro, a equipa técnica tem uma palavra a dizer, em função daquilo que vai ser o seu modelo de jogo, depois os jogadores que se encaixam naquele modelo de jogo, criando para o efeito uma espinha dorsal e que garantam a qualidade necessária para atingir os objectivos a que se propõem em função do perfil do jogador.

Portanto, este é um problema de organização, é um problema estrutural de forma que tenhamos consciência de que não devemos ter receio de apostar nos miúdos dos Sub-23, 20 e 17.

Eu subi à primeira categoria, seniores, com 17 anos, e fui internacional com a mesma idade, coisa que naquele tempo era quase milagrosa e hoje temos grandes exemplos no futebol mundial. Os grandes talentos têm uma oportunidade, têm duas e à terceira ou à quarta pegam e já não saem. Mas há um trabalho árduo a desenvolver à volta disso.


AVALIAÇÃO
“Tivemos um retrocesso
no capítulo das selecções”


Tem conversado com Oliveira Gonçalves?
Disse-me há tempos que está motivado para regressar à Selecção Nacional e que um projecto e organigrama são mais importantes que o dinheiro. Nunca tivemos um treinador assim, com tamanha humildade e espírito patriótico, que o caracteriza. Vamos dar mais uma oportunidade ao homem. Por outro lado, queria também dizer que a qualidade e a capacidade do treinador da Selecção Nacional estão relacionadas com os jogadores.

Há jogadores que fazem bons jogos nos seus clubes e na selecção não fazem grandes exibições. Com os técnicos também acontece o mesmo. Oliveira Gonçalves tem experiência a nível de selecções, no futebol africano e mundial. Logo, não devemos desprezar um treinador deste nível.

Verdade seja dita. Nestes quatro anos tivemos um retrocesso a nível de selecções. Se em todos os sucessos das nossas selecções sub, Cosafa e outras competições da CAF está escrito o seu nome, este homem, vamos deitá-lo fora? Então, meus senhores, vamos apoiá-lo.


  BALANÇO
“O técnico está disponível”


Oliveira Gonçalves  está disponível?
Claro que está disponível. Está à espera que o telefone toque. Não me espanta, ao fim de tantos anos de sucesso, de experiências vividas, de conflitos desnecessários, mas superados, de incompatibilidades mal explicadas. O técnico que levou as Palancas Negras ao Mundial de 2006, na Alemanha, mostra total disponibilidade para abraçar o projecto da FAF e dar continuidade.

Oliveira Gonçalves está de forma umbilical ligado ao projecto da FAF?
Sejamos claros. A agudização dos problemas da nossa Selecção Nacional, os Palancas Negras, que resulta de uma teia complexa de equívocos forjados nos últimos seis anos, assume alguma preponderância. Muitas das situações vividas podiam ter sido evitadas com um pouco mais de tacto.