Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Jogar o mundial foi o melhor presente

Betumeleano Ferro - 10 de Outubro, 2019

Ex-internacional assegura que foram ao ltimo duelo convictos de que as coisas seriam difceis

Fotografia: Edies Novembro

O inesquecível 8 de Outubro de 2005 ainda é um dia longo para quem como Mendonça foi titular contra o Ruanda, no jogo que deu o inédito apuramento ao Mundial 2006. O buliçoso médio revelou, em entrevista ao Jornal dos Desportos, que a verdadeira prova de fogo dos Palancas Negras aconteceu jornadas antes, mas situações inesperadas de bastidores ocorridas em Kigali acabaram por ter um efeito contrário ao esperado pelos ruandeses, que agiram a troco de algo, defendeu o entrevistado.
O antigo craque nacional, hoje técnico dos escalões de formação do 1º de Aosto, acabou por entrar no estádio Amahoro só com uma peça de roupa do corpo, mas no final do jogo saiu com uma dupla satisfação, o passe do Mundial e a antecipada prenda de aniversário, pois faria anos no dia seguinte ao embate com os ruandeses.

O decisivo jogo com o Ruanda aconteceu no dia 8 de Outubro de 2005, no dia seguinte seria o teu aniversário. Tratava-se de um jogo de duplo sentido para o Mendonça?
- Na verdade, era um a mistura de sentimentos. Para mim, vencer já era um presente muito grande e especial, estar pela primeira vez numa Taça do Mundo seria dos melhores presentes, que poderia receber na minha vida. Tudo de bom que nos acontecesse em campo seria coisa única, porque seria o nosso primeiro apuramento a um campeonato do mundo da categoria sénior, era um grande momento. Também era um motivo de orgulho para a Nação, especialmente para aqueles jogadores que fizeram parte daquela campanha, que nos levou para o único Mundial da nossa história.

 Você era dos poucos atletas daquela selecção que já tinha disputado um Mundial, na categoria de juniores ou Sub-20, em 2001 na Argentina. Dá para comparar a pressão por que passou nesses dois momentos?

- O apuramento para essas duas competições é muito difícil, mas eu senti muito mais pressão quando foi o apuramento da selecção de honras. Em todo o mundo, jogar pelas honras é o topo para qualquer atleta, porque todos nós queremos representar a principal selecção do nosso país. Felizmente, eu tive esse privilégio de estar em dois mundiais de categorias diferentes, realmente nas honras as coisas são muito mais difíceis para todas as selecções.
 
O tempo passou, de 2005 a 2019 são 14 anos, mas ainda se lembra como conseguiu lidar com toda a pressão, sobretudo durante o decisivo jogo com o Ruanda?
- Felizmente, toda a equipa estava tranquila, ninguém se sentia incomodado por estar a viver aquele momento. Para ser sincero, o jogo mais difícil que tivemos em toda a qualificação foi com a Nigéria na segunda volta, quando empatámos em casa deles a um golo, aquele foi praticamente o jogo que decidiu quem no nosso grupo iria ao campeonato do mundo.

 Antes da vossa entrada no estádio Amahoro, palco do jogo com o Ruanda, vocês passaram por situações preparadas para desestabilizar a selecção, consta que o Mendonça chegou a entrar nu?

- Não entrei nu, tirei toda a roupa mas fiquei de boxers. Foi uma cena muito caricata, nós chegámos ao estádio e tivemos problemas para entrar, houve muita confusão, mandaram-nos passar no detector de metais, depois de passar nos mandaram tirar a roupa, eu tirei tudo e fiquei de boxers para mostrar que não estava a entrar com nada ilegal, só depois de eu entrar é que eles pararam com aquilo e deixaram todo o mundo entrar, sem revistar mais ninguém, estava claro para nós que aquilo fazia parte do boicote que a Nigéria tinha preparado contra nós, infelizmente o Ruanda alinhou por causa dos benefícios.

 Passar por tudo aquilo, aumentou ainda mais a vossa raiva de vencer e estar no mundial?

- Nós ouvimos, antes mesmo de chegar a Kigali, que a Nigéria tinha patrocinado o Ruanda até com material desportivo, nós vimos eles com quase tudo novo em campo, enfim, aconteceram muitas coisas naquele dia, mas valeu que nós só estávamos concentrados no jogo, não nos deixamos distrair, o Professor Oliveira Gonçalves nos pediu para não reagir às provocações. Tudo o que nos fizeram antes do jogo aumentou a nossa motivação, não ficamos nervosos, tudo aquilo aumentou a nossa concentração e vontade de vencer, sabíamos que tínhamos equipa para vencer aquele jogo.

 Embora estivessem motivados, foi necessário esperar até o minuto 79 para sentenciar o jogo, num momento em que a Nigéria ganhava folgado em casa e tinha o apuramento garantido?
- Nenhum de nós foi preparado para uma vitória fácil, todos sabíamos que seria muito difícil, até então, a selecção não tinha nenhuma vitória fora, foi muito mais difícil, porque a equipa adversária de certeza absoluta que tinha recebido estímulos da Nigéria, não duvido que a Nigéria investiu naquele jogo, porque precisava de um nosso mau resultado.

DUELO DECISIVO EM 2005
Kigali marca carreira de Mendonça


 A selecção não ia a um CAN desde 1998, mas aparece com uma equipa quase sem pontos fracos?
- Felizmente é verdade, tínhamos um grupo muito forte, isso também nos fez ver que tínhamos todas as possibilidades de poder chegar naquele apuramento numa competição como o Mundial, felizmente as coisas aconteceram do jeito como queríamos com o nosso apuramento ao Mundial 2006.


A união fez a força e fez com que o sonho do Mundial se tornasse realidade para os angolanos?

- Sim, não dá para deixar ninguém de fora, porque aquele foi um trabalho de todos, não podemos pôr de lado o público que sempre nos apoiou, e, até vocês os jornalistas também acabaram por ser importantes, nós todos os dias escutávamos rádio, líamos jornais, víamos televisão, isso nos dava mais moral.

Se tivesse que eleger o momento mais alto da carreira, qual escolheria, o título em Sub-20 em 2001, a qualificação ao Mundial em 2005 ou participação no Mundial da Alemanha 2006?
- Eu iria escolher o jogo da qualificação com o Ruanda em Kigali, que nos deu o apuramento ao Mundial, como não podia deixar de ser, tenho de eleger também a presença no Mundial 2006, esses foram os melhores momentos de toda a minha carreira, não consigo separar esses dois grandes marcos inesquecíveis.
 
O que mudou no nosso futebol depois da qualificação ao Mundial da Alemanha, pois ficou evidente que não se deu sequência as coisas boas que a selecção tinha obtido?

- Nós temos de reconhecer que antes da ida ao Mundial, naquela fase as pessoas estavam mais compenetradas num só objectivo. Eu ao olhar para a conquista em Sub-20 e a qualificação ao Mundial da Alemanha, consigo ver que até o público estava connosco, foi uma fase marcante não apenas para o futebol, era todo o desporto angolano que estava a viver uma boa fase.
 
Aquele foi o período de ouro do nosso futebol?
- Honestamente sim! Eu acredito que aquele era um período marcante em todos os sentidos, as coisas eram muito diferentes do que vemos hoje, não dá para comparar as realidades.

NOS PALANCAS NEGRAS
Único sentimento estava na vitória


Durante o jogo, sentiram que o árbitro também poderia estar comprometido com os nigerianos?
- Não vimos isso, mas também nós fomos preparados para não perder a concentração com jogos de bastidores, todos nós em campo só queríamos ganhar, estávamos bem concentrados para superar todas as dificuldades, deixámos tudo para trás, o nosso único sentimento estava na vitória, todos queriam ajudar com o que de melhor tinha, era uma inter-ajuda fora de série.

O golo chegou tarde, mas conseguiu acabar com o sufoco de todos, por ter surgido nos instantes finais?
- É claro que sim, tanto é assim que quando o Akwá marcou eu não vi mais ninguém no banco de Angola, todos nós saímos a correr para ir festejar o golo, nem o árbitro, nem o quarto árbitro conseguiram nos conter naquele momento de pura felicidade. Não posso me esquecer da reacção dos nossos adeptos que estavam nas bancadas, foram incansáveis na maneira como puxaram por nós, até parecia que estávamos a jogar em casa, por causa do ambiente que criaram, era muito público nosso.
 
A ganhar por 1-0 e com mais de 10 minutos para os 90, não chegaram a temer que o adversário que parecia ter recebido da Nigéria fosse anular o magro resultado?
- Não, muito sinceramente naquele nem tivemos tempo para pensar nisso, porque depois do golo aconteceu uma cena engraçada no nosso banco de suplentes, todos nós viramos treinadores, o Professor Oliveira quase já nem precisou de falar mais nada, nós é que ficamos os treinadores, cada um de nós começou a dar orientações para dentro do campo, o Professor Oliveira ficou de pé enquanto nós pedíamos contenção, pedíamos para não subir muito, para segurar o jogo porque já faltava pouco.

Quando é que a ficha caiu para o Mendonça, no fim do jogo, no dia seguinte quando regressam e são recebidos por aquela moldura humana incalculável, que vos acompanhou no cortejo memorável pelas ruas de Luanda, do aeroporto até a Cidadela?
- Quando terminou o jogo, eu e o Gilberto começámos a chorar, na verdade todos os colegas estavam a fazer o mesmo, era muito choro de alegria, para ser sincero, logo depois do Akwá marcar todos nós sentimos que já estávamos no Mundial, tínhamos passado do sonho a realidade, já ninguém nos tiraria do Mundial, a equipa baixou logo, segurou o jogo, foi um momento especial.

Para o Mendonça era muito mais especial por ter recebido a antecipada prenda de anos em campo?
- A vitória e a consequente qualificação ao Mundial da Alemanha foi o melhor presente que recebi em toda a minha vida. No dia seguinte, me cantaram os parabéns, me ofereceram prendas, mas a melhor de todas já tinha sido dada no dia anterior.

Se desse para repetir esse jogo com o Ruanda, o que gostaria que acontecesse de diferente?

- Eu dava tudo para repetir o jogo, mas iria preferir que o jogo fosse realizado aqui em Luanda, na Cidadela, eu até hoje ainda considero a Cidadela a verdadeira catedral do nosso futebol, o 11 de Novembro está longe de ser nossa catedral, minha opinião, a Cidadela deveria se manter, porque por lá passaram os melhores jogadores do nosso futebol como Jesus, Ndunguidi, Abel, Paulão, Saavedra, Barbosa, a Cidadela deveria ser um museu como está o estádio nacional do Jamor em Lisboa, para mim a Cidadela será a nossa catedral, porque os craques de todas as gerações do nosso futebol passaram pela Cidadela.
 
O jogo ficou para a história, mas o doce passado ainda provoca enorme emoção?
- Sim, até agora ainda sinto as recompensas desse jogo, os adeptos que tiveram a oportunidade de nos ver a jogar ainda nos dão um carinho especial, muitos deles falam com saudade daquele nosso tempo, para eles foi um momento bem marcante da nossa selecção, é por isso que a emoção contínua alta, não tem como baixar quando vês o tempo a passar, mas com as pessoas sempre a falarem bem do que aconteceu. É bonito quando isso acontece, é bom ser reconhecido por quem nos viu jogar, sinto-me feliz por ter feito parte desse grupo, que tornou realidade o sonho do Mundial.

RECONHECIMENTO
“Empate na Nigéria abriu à porta do Mundial”


O empate da segunda volta em casa dos nigerianos foi uma boa prova de que o técnico e vocês, que com ele trabalhavam há anos seguidos, não deram chances a Nigéria de repetir o jogo de bastidores que tirou Angola dos Jogos Olímpicos de 2000?
- Sim! Aquele foi o jogo que praticamente nos abriu à porta do Mundial, foi a partir daí que todos nós começamos a acreditar que tínhamos o caminho livre para chegar ao mundial. A esperança começou a se tornar mais forte a partir daquele momento, porque nós vencemos em nossa casa, na Cidadela, por 1-0, então, sabíamos que lá não poderíamos perder, tínhamos de, no mínimo, empatar para estar em vantagem sobre eles, se isso acontecesse, como aconteceu, só iríamos continuar a depender de nós.

 Não perder na segunda volta com a Nigéria, antecipou o que estava para  vir?
- Não tenho dúvidas que sim! Para mim, foi o jogo mais difícil do apuramento, foi o momento marcante para o desfecho que queríamos. Nenhum de nós poderia ter uma reacção diferente depois do jogo, porque aquela era uma Nigéria bem dotada em tudo, todos os seus grandes craques como o Okocha, que até fez o 1-0, e o Kanu, só para citar estes, estiveram em campo. Era uma selecção muito complicada de defrontar com todos aqueles craques que militavam nos melhores campeonatos do mundo.

Para vocês, aquele empate foi como ver uma luz no fundo do túnel?

- Ninguém naquela selecção tinha como pensar de outra maneira, todos nós ficámos convencidos de que tinha chegado a nossa vez, pois a Nigéria era o único adversário que tinha capacidade de nos tirar da liderança do grupo, ao empatar com o rival directo, nós concluímos que só dependíamos de nós, porque iríamos ganhar todos os jogos que restavam até confirmar o nosso apuramento.

Onde é que vocês foram buscar forças para contrariar a Nigéria e a Argélia, que antes do início do apuramento aparentavam ser mais fortes do que Angola?
- Nós na verdade, também tínhamos um grupo muito forte, que começou a ser preparado muito antes daquela qualificação ao Mundial 2006. O nosso lote de seleccionados tinha jogadores com grande experiência internacional, muitos de nós tínhamos passado nas selecções mais jovens, depois foram incluídos atletas experientes como André Makanga, Figueiredo, João Ricardo, e outros, isso nos permitiu criar um grupo forte e coeso com atletas de diferentes gerações, embora a maioria já jogasse junto desde as selecções inferiores.

APURAMENTO das honras
Selecção contrariou previsão de Oliveira


O Mundial 2006 chegou antes do previsto para os Palancas Negras. O ex-internacional Mendonça assegurou, que no início do milénio foi um dos 25 que sobrou na peneira de Vaselin Vesco e Oliveira Gonçalves que tinham elaborado um ambicioso projecto, a partir das selecções jovens, que visava colocar num prazo de 10 anos a selecção angolana num mundial de honras. O empate extramuros com a Nigéria na segunda volta acabou por mudar, de modo favorável, em definitivo o rumo dos acontecimentos para os angolanos.
 
O técnico Oliveira Gonçalves acabou por ser um mal que veio para bem, entrou como interino em substituição de Ismael Kurtz, na segunda mão da preliminar, depois da derrota de 3-1 com o Tchad?
- Para mim, o Oliveira Gonçalves não foi apenas um treinador, ele foi muito mais do que isso, foi um pai para mim, me fez crescer não apenas como jogador, com ele cresci também como homem, é algo que tenho de agradecer. É também graças a ele, que hoje estou a exercer um novo desafio na minha vida, deixei de jogar mas estou a seguir as pisadas dele como treinador nas camadas jovens do 1º de Agosto, estou satisfeito por ter também a oportunidade de passar aos mais novos a experiência que adquiri com o Professor Oliveira.

A maioria dos atletas que fez a qualificação foi orientada por Oliveira Gonçalves nas selecções de formação, isso também acabou por ser determinante no desfecho final?
- Até certo ponto sim! Muitos de nós já jogávamos juntos desde as selecções de formação, me lembro como se fosse hoje, que internamente quando o Professor Vesco e o Professor Oliveira começaram a fazer a captação de talentos, a ideia era ter 25 atletas com idade de Sub-20 para depois inserir na selecção de honras. Já naquela fase, 2001, nos incutiram que estavam a fazer um trabalho a longo prazo, que visava estar numa grande competição mundial num período de 10 anos, foi um trabalho de alta qualidade.

Vocês como que anteciparam essa meta, não foi necessário esperar 10 anos, antes da meta traçada já o objectivo tinha sido alcançado...
- É isso que aconteceu, fomos felizes em atingir o objectivo, eu, Gilberto, Mantorras, Miloy e o Lamá tivemos o privilégio de fazer parte do grupo saído dos Sub-20, que teve a honra de estar presente em dois mundiais de categorias diferentes, Argentina 2001 e Alemanha 2006, foi tudo fruto de um trabalho longo, feito com paciência, a federação deu-nos sempre todo o apoio, o presidente Justino Fernandes estava sempre connosco. Em 1997, nós estivemos num torneio dos PALOP, em que saímos em segundo, foi uma trajectória de um grupo que acabou depois por ir fortalecer às honras, mas tudo começou com a conquista em Sub-20 em 2001.

O técnico Oliveira Gonçalves é muito referenciado também pela força mental que dava aos atletas, ainda se lembra do que vos disse na prelecção antes do decisivo jogo com o Ruanda?
- Eu me lembro que a mensagem dele foi muito simples, ele nos fez ver que como estávamos a jogar na altitude, quem estivesse cansado poderia pedir para sair para entrar um jogador mais fresco, ele nos fez ver que só tínhamos aquele jogo, era aquele jogo que poderia nos catapultar, pela primeira vez, para o campeonato do mundo, tínhamos de estar unidos, então, quem estivesse cansado que pedisse para sair, porque todos estavam preparados para entrar em campo. Eu fui até ao limite do que poderia aguentar mas depois tive mesmo de sair.

Curiosamente, foram os jogadores que entraram na segunda parte os que mais toques deram na bola na jogada que começa com o guarda-redes João Ricardo e é concluída pelo Akwá, em meio ao cruzamento de Zé Kalanga ...

- Felizmente, o Professor Oliveira foi muito feliz nas substituições que fez, ele dizia antes do jogo que tínhamos de estar unidos, porque todos estavam preparados para entrar em campo. A jogada do golo acabou por lhe dar razão, foi um lance colectivo em que quase toda a equipa participou, mas o Zé Kalanga e o Akwá acabaram por ficar na memória de todos, porque um fez o cruzamento e o outro o cabeceamento para o golo.