Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Jos Lus Gomes, quero contratar tcnicos Angolanos

Manuel Neto - 27 de Novembro, 2010

Jos Lus Gomes trouxe o srvio Miroslav Maksimovic ao Petro de Luanda

Fotografia: Jos Soares

É angolano de nacionalidade e reside na Alemanha há 21 anos. Psicólogo de profissão, José Luís Gomes tem a carteira de agente FIFA após a experiência num dos torneios mais luxuosos da Europa, o World Cup, realizado na cidade suíça de Berna, em 2008. Em dois anos de actividade, criou uma agência em Frankfurt, Alemanha, para auxiliar quem se quiser aventurar nesse campo. O seu trabalho ganha notoriedade depois de superar as fortes barreiras alemãs, onde o cidadão nacional tem prioridade em detrimento dos estrangeiros. Mas a sua capacidade, tenacidade, coragem e sacrifício colocam-no hoje num lugar mais arejado.

Está a agenciar as selecções de seniores, Sub-20 e feminina do Ghana, além de cuidar do estágio do Petro de Luanda. Tem boas relações com equipas nacionais e da Alemanha e está aberto para ajudar qualquer equipa. Além de agente FIFA, José Luís Gomes é também Agente de Jogos. Promove a realização de partidas tanto das selecções (amistosos) como das equipas ou torneios. A formação de talentos é a premissa indispensável para o sucesso do desporto nacional, defende José Luís Gomes.

Como viveu a primeira experiência como Agente FIFA?
Não foi fácil ver um negro e estrangeiro a participar na realização de um torneio, em Berna, considerado como dos milionários, o que despertou muita atenção na sociedade alemã. Graças a Deus, tudo correu a contento, porque tive um colega de raça branca que me acompanhava nessa actividade e fui bem sucedido.

Decorridos dois anos, como descreve a convivência?
Da melhor maneira, porque estamos bem. O essencial é gostarmos do que fazemos, sermos fortes para enfrentar eventuais entraves e levar a nossa actividade com sucesso para o bem do desporto, sobretudo, o do nosso país.

Ganha-se muito dinheiro nessa actividade?
Não é isso. Ganha-se como um funcionário normal, ou seja, depende muito da contratação que se fizer. Por exemplo: se por ventura contratares um jogador como Ronaldinho ou Cristiano Ronaldo, de acordo com a lei que rege essa actividade, o agente ganha 10 por cento do contrato que fizer.

Nunca se deparou com casos de falta de pagamento da percentagem do agente?
Não me recordo de um caso de falta de pagamento. Aliás, isso não tem razão de acontecer, porque temos o tribunal da FIFA, uma instituição que está sempre atenta às prevaricações das partes envolventes no contrato e pune o eventual infractor. Por isso, a maior parte dos componentes estão cientes a cumprir com disciplina as leis da FIFA.

Que impressão colheu das entidades desportivas nacionais na recepção que teve no país?
Fiquei com muito boa impressão, porquanto fui recebido pelo ministro da Juventude e Desportos, Gonçalves Muandumba, vice-ministro, Albino da Conceição, e o director nacional dos Desportos, Raimundo Ricardo. A acrescentar que mereci convites nos órgãos de informação, concretamente, nos programas "Jogo Aberto" e "Hora Quente", ambos da Televisão Pública de Angola, e foi um motivo de grande alegria para mim que jámais esquecerei.

Em que circunstância ocorreu a contratação do novo técnico do Petro de Luanda, Miroslav Maksimovic?
Conheço o professor há muito tempo. Fui contactado pela direcção do Petro de Luanda no sentido de pesquisar um técnico com currículo que servisse os interesses do clube do Catetão e apresentei-lhes um treinador com um perfil africano. Depois da apreciação da direcção, recebi um aval positivo. Foi celebrado o contrato que satisfaz ambas as partes, conforme o treinador faz referência.

É o primeiro técnico que trouxe para Angola?
Não. O primeiro foi o técnico do Mambrôa, António Caldas, que antes treinou o Sporting do Braga. Tenho a intenção de contratar técnicos angolanos para o interior ou exterior do país. É só uma questão de tempo e força de vontade para tudo acontecer.

Além do Petro de Luanda, tem boas relações com outros clubes?
Sim. Tenho boas relações com o 1º de Agosto, 1º de Maio, Recreativo do Libolo, entre outros. Mas não obstante isso, estou aberto e atento ao contacto de mais equipas, de maneira a prestar um serviço que contribua para o engrandecimento do nosso desporto.

A nível internacional, como estão os contactos?
Tenho contacto com a maior parte das equipas da Alemanha, o que possibilita fazer um trabalho cada vez mais profissional para o bem de todos os que se identificam como desportistas. Pretendo ir mais além.


"Não conheço nenhum agente FIFA angolano"

Qual é a relação com outros agentes FIFA angolanos?
Não conheço nenhum. Ouvi dizer que existe um, que é irmão do técnico Miller Gomes. Seria muito bom conhecê-lo para trocarmos experiências, como se faz na Europa. Mas vamos fazer tudo no sentido de surgirem mais agentes.

Sabemos que também é agente de jogos. Tem sido possível conciliar as duas actividades?
Sim. Também sou agente de jogos, que tem como função organizar jogos nas datas FIFA, bem como estágios das selecções nacionais e clubes. Faço no sentido de concliar as duas actividades da melhor maneira possível, uma vez que as duas estão ligadas ao desporto.

Já realizou estágio para alguma selecção?
Sim. Neste momento, presto serviço de realização de estágio à selecção sénior do Ghana, Sub-20 e à selecção feminina. Também estou a trabalhar para o estágio do Petro de Luanda, agendado entre o final de Novembro e princípio de Dezembro. Creio que o futuro me vai proporcionar mais opurtunidades de servir mais equipas.

Alguma vez reflectiu na criação de uma associação de agentes FIFA para darem o seu contributo ao futebol angolano?
É minha intenção estar cada vez mais próximo dos agentes FIFA angolanos para trabalharmos em conjunto. Para que o sonho se torne realidade, é necessário estarmos organizados. Só assim a Associação poderá encarar os grandes desafios que eventualmente teremos pela frente. Desse modo, gostaria de apelar às pessoas interessadas nesse desafio que me contactem, porquanto estou muito avançado. Tenho uma agência, em Frankfurt, Alemanha, e tudo pode ser mais fácil.

Que conselho daria a outros agentes?
Gostaria que se esforçassem cada vez mais no sentido de trocarem experiências e ganharem mais conhecimentos nessa matéria, que pode ajudar muito o desenvolvimento do desporto angolano.

Que avaliação faz do futebol angolano?
Penso que está a caminhar bem. Já não se notam as ditas grandes equipas a golearem as menos cotadas, existe um equilíbrio que acaba por proporcionar mais competitividade nas provas. Tenho acompanhado os jogos através da TPA Internacional, mas gostaria que as equipas atingissem patamares mais altos

O que se deve fazer para atingir esses patamares?
Uma das coisas importantes é apostar seriamente na formação, para que, no futuro, se tire um bom proveito. Já começamos a dar os primeiros passos com o recente lançamento do torneio infantil "Os Caçulinhas da Bola", inaugurado pelo Vice-Presidente da República, Fernando da Piedade Dias dos Santos. Agora, é só darmos continuidade com muita atenção, preservando sempre a idade dos garotos para, futuramente, se tirar o melhor rendimento possível.

Defende que a formação é um elemento chave no desenvolvimento desportivo…
Sim. Tenho o exemplo do país em que vivo, a Alemanha, onde se investe muito na formação. Hoje, tem bons resultados, não só no futebol, mas também noutras modalidades. Isso é muito bom. Por isso, aconselho as pessoas de direito no sentido de enveredarem por esse caminho. É o mais certo para o desenvolvimento desportivo.

Alemães dão prioridade
aos cidadãos nacionais


Que razões o levaram a formar-se como Agente FIFA?
Fui para a Alemanha com o objectivo de estudar. Depois de terminar os estudos, constituí família e ao longo do tempo de residência, 21 anos, tive de procurar fazer mais alguma coisa. Entre outras actividades, o de Agente FIFA salta à vista.

Como surge a paixão pela actividade de Agente FIFA?
Sempre gostei de desporto e, enquanto estudava, também jogava futebol numa equipa da quarta divisão da Alemanha e treinava a camada jovem. Algum tempo depois de concluir a minha licenciatura em Psicologia, tomei a decisão de fazer algo em torno do desporto com o fito de elevar os meus conhecimentos nessa minha apetência e melhor servir a sociedade, com particular realce para o meu país.

Teve de abdicar de muitas coisas para concretizar o desejo?
A formação foi razoável. Tive de cumprir à risca as leis, os hábitos e os costumes do povo alemão. Tive essa humildade, graças à educação que bebi dos meus pais e familiares. Por isso, superei as barreiras com naturalidade e com essa postura, consegui concretizar mais um sonho, no caso, o de Agente FIFA.

Qual foi a barreira que mais o marcou?
O alemão, em todas as esferas sociais, dá prioridade ao seu cidadão em detrimento do estrangeiro. Logo, era visto em último plano, razão que me levou a ser firme, paciente e lutar até à exaustão em busca dos meus objectivos. Essa é a principal barreira que tive de enfrentar. Em suma, foi uma luta muito grande, que começava de manhã e terminava ao pôr-do-sol, cujos frutos estou a colhê-los hoje, com muita satisfação.

Onde fez a formação de Agente Fifa?
Frequentei a formação na Federação Alemã e, posteriormente, prossegui-a na Suíça, onde fiz a prática na cidade de Berna, num dos melhores torneios da Europa, em 2008, o World Cup, no qual coloquei o Botafogo do Brasil. O meu sucesso começou naquele torneio.