Jornal dos Desportos

Director: Matias Adriano
Director Adjunto: Policarpo da Rosa
Entrevistas

Karat-D no fonte de violncia

Manuel de Sousa, no Namibe - 28 de Agosto, 2010

Felizberto Pedro apela ao apoio do empresariado e dos clubes

Fotografia: Jornal dos Desportos

Qual é a realidade do karaté na província do Namibe?
Nesse momento, estamos em fase de reestruturação. Começámos do zero com ajuda de todos os amantes da disciplina, ex-praticantes e, principalmente, o empresariado local. Estamos esperançados de que poderemos atingir os nossos objectivos num futuro próximo que passam pela massificação com o apoio dos antigos praticantes que se afastaram há muito tempo.

Quantos praticantes estão controlados na associação?
O número varia entre 60 e 70 atletas, distribuídos desde os escalões de iniciado (7 aos 14 anos) aos seniores (18 anos em diante) que praticam a versão de Karaté-Dó Shotokan.

Apenas na cidade de Namibe se pratica a modalidade. Para quando a expansão para outros pontos da província?
Já começamos a fazer um trabalho de expansão; estivemos no município da Bibala, passámos pelo Tômbwa e, agora, vamos abrir uma nova escola na Aldeia Nova do Capangombe. Pretendemos atingir todos os municípios, apesar de reconhecer que não é fácil na actual situação em que vive a modalidade e também na sensibilização de pessoas para que abandonem o pensamento, segundo o qual, a prática do Karaté-Dó tem como finalidade a delinquência. Em síntese, os municípios do Tômbwa, Bibala e Camucuio são os que movimentam o Karaté-Dó.

O actual número de atletas deixa feliz a associação?
De princípio não, porque 60 ou 70 atletas é muito pouco. Isso prejudica o ritmo competitivo dos atletas. O projecto da Associação é expandir a modalidade (com abertura de mais academias e mais escolas) para aumentar o ritmo competitivo dos atletas, de maneira que tenhamos um bom resultado no próximo campeonato e, consequentemente, elevar o prestígio do Karaté-Dó na província e propiciar o surgimento de mais praticantes.

Há perspectiva de enquadramento dos atletas nos clubes e núcleos desportivo da província?
Um dos grandes problemas que o karaté-Dó vive no Namibe é o enquadramento dos atletas nos clubes. Temos algumas academias, mas não temos clubes. Estamos a fazer um trabalho de enquadramento. Treinamos no Clube Náutico, o único clube da província que abriu o karaté-Dó. Continuamos a negociar com os demais clubes no sentido de abraçarem a disciplina com vista o aumento de praticantes e de competições internas.

Mas ainda há quem se reserve a um desporto "atribuído" à formação de marginais e delinquentes...
É natural que haja um conceito errado relacionado com o karate-Dó. Estamos a sensibilizar as pessoas e os atletas através de informação. Queremos que ganhem a consciência e saibam discernir as vantagens e desvantagens da prática desse desporto. O karaté-Dó não é para delinquentes ou para indivíduos que vão criar confusão nas ruas. Não é isso. O karaté-Dó é um desporto como qualquer outro; é uma escola onde o atleta aprende a ser homem e a lidar com a sociedade, para além da arte marcial.

Que apelo faria aos clubes que receiam movimentar o karaté-Dó?
O karaté-Dó é uma ciência e deixem de pensar que é a fonte de violência. É um desporto como outro qualquer e que seja aceite na colectividade com todos os méritos desportivos.

Os bairros do Lubango vão contar com mais escolas e academias?
É preciso que as pessoas nos entendam, porque lutamos contra um preconceito. O karaté-Dó nunca foi bem visto. Certas pessoas vêem os karatecas como delinquentes, bandidos e outros males. Temos receio de abrir mais academias nos bairros periféricos de Lubango.

Por que razão receiam novas academias?
Os nossos atletas estão a receber aulas de educação que visam introduzir-lhes a ideia de o karaté-Dó é um desporto com múltiplas funções vantajosas na saúde do praticante e na formação do indivíduo e o seu papel na sociedade. É uma tarefa difícil, porque muitos vieram concebidos de que é um desporto para delinquentes. A nossa luta é titânica. Atendendo a distância que se separa dos locais de residência ao Clube Náutico, estamos a envidar esforços para a abertura de mais academias nos Bairros Plató e no 5 de Abril, no intuito de os atletas estarem mais próximos dos centros de treinamento.

Recebe apoios para incentivar a prática da modalidade?
Recebemos apoios da Direcção Provincial da Juventude e Desportos, mas lamentamos a não contribuição dos empresários locais, porque o karaté-Dó é vista, em qualquer parte do mundo, como um desporto normal com efeitos na educação dos jovens, mormente, saber ser e estar na sociedade. Apelamos a todos os amantes e empresários que nos ajudem a dinamizar a modalidade com vista a retirar da rua as crianças, os jovens e dar-lhes um sentido positivo de vida.

"Perspectivamos atingir
altos níveis competitivos"

Quais são pontos altos da modalidade desde que está à frente da associação?
Actualmente, estamos a massificar em toda a extensão da província, no intuito de resgatar a imagem e o número de praticantes que desaparecia lentamente. O sucesso está à vista. O reaparecimento dos antigos praticantes e a união da família do karaté-Dó vão levar-nos à competição interna com atletas de elevada qualidade técnica que vão representar a província em todas as competições nacionais.

A massificação estende-se às escolas do ensino privado?
Estamos abertos a massificar em todos os ensinos (público e privado). Nesse momento, estamos a bater às portas de algumas escolas, mas infelizmente o grande problema é a falta de espaço. As escolas estão disponíveis; já trabalhámos juntos com a secção das actividades extra-escolares da Direcção Provincial da Educação para que o introduzimos nas disciplinas praticadas nas escolas e fomos bem sucedidos. Infelizmente, não há espaços ou recintos para a prática de Karaté-Dó.

Existe adesão da classe feminina na prática do Karaté-Dó?
Com certeza. Temos um total de oito atletas nas duas academias. É um número reduzido que esperamos aumentar nos próximos tempos. Há outras razões que levem ao desinteresse da classe feminina. Tendo em conta a natureza da modalidade, exige-se muito esforço físico, o que as meninas não estão disponíveis para suportar. Estamos a sensibilizá-las para aderirem à prática do karaté-Dó, não na perspectiva de aprenderem a arte marcial para fazer confusão nas ruas ou em casa, mas na de praticar o desporto e levarem consigo bons ensinamentos que lhes possa permitir viver bem socialmente.

Qual é a meta que pretende atingir no Namibe?
Pretendemos estar no mesmo nível das outras províncias, quer na organização, quer no método de treinamento quer nas competições. Perspectivamos atingir altos níveis competitivos para ombrear palmo a palmo com as outras províncias. Apesar das dificuldades, trabalhamos muito e a motivação é grande no seio de todas as pessoas que integram o projecto. Por outro lado, a massificação do desporto é também uma aposta do Governo da Província e com empenho de todos os amantes da modalidade, da classe empresarial, dos pais e encarregados de educação, o desporto vai vencer e teremos bons praticantes.

Que diferença de nível existe entre o Karaté-Dó praticado no Namibe e nas restantes províncias?

Faltam clubes para que haja desenvolvimento no Namibe. Durante o Campeonato Nacional, notámos que os karatecas locais debatem com a falta de ritmo competitivo, porque é uma modalidade que exige actualização permanentemente e está em constante desenvolvimento. Não temos essa actualização. Notou-se gestos ultrapassados nos nossos atletas, o que nos obriga a necessidade de estar mais próximos das outras províncias.

Que relação existe a Associação do Namibe e da Huíla?
Temos boas relações e marcámos encontros para troca de experiência. Podemos dizer que não há problemas com a Associação Provincial da Huíla.

A Associação possui sede própria?
A Associação não possui sede própria; funciona numa das salas do Pavilhão Saydi Mingas. Existe um projecto do Governo local de construção de um edifício, onde poderão funcionar todas as associações. Estamos expectantes e a sua concretização será um passo gigante para desenvolvimento do desporto local. Já manifestámos a preocupação à Direcção Provincial da Juventude e Desportos para resolver a situação de alojamento.

Que diferença existe entre o karaté-Dó praticado há três anos e o actual?
O Karaté-Dó é uma ciência e está em constante desenvolvimento. Há uma diferença enorme que se manifesta nas mudanças, mas se mantém intacta às regras de artes marciais.

Materiais obsoletos
na formação de atletas


O material desportivo é uma dor de cabeça noutras paragens do país. Como está o Namibe? Estão bem servidos?
Namibe está mal em termos de material, começando pela falta de recintos próprios para prática correcta da modalidade. Não temos ginásio para uma formação adequada de karaté-Dó; fazemo-lo ao ar livre, o que não é muito correcto e bom. Temos um projecto de massificação, mas não temos quimones, luvas, protectores, conquilhas para os praticantes. Estamos a envidar esforços no sentido de conseguirmos alguma coisa.

Citou alguns problemas. O que estão a fazer para inverter o quadro?
Em relação ao material desportivo, batemos às portas de alguns empresários e da Direcção da Juventude e Desportos no sentido de os obter. Estamos a fazer um trabalho de sensibilização aos atletas e aos antigos praticantes no sentido de nos ajudarem nesse projecto.

Quantos mestres existem na província e que trabalham no ABC do Karaté-Dó?
Estamos a trabalhar com cinco mestres. É um número aceitável de momento, tendo em conta o número de atletas que movimentamos. Com o aumento de praticantes, vamos precisar de mais técnicos. Existem na província alguns que se afastaram, mas estamos a persuadi-los a fim de se juntarem à família do Karaté-Dó. Só com o contributo desses elementos, conseguiremos movimentar um número maior de atletas.

Os treinadores beneficiam de formação para se actualizarem?
A formação de técnicos e de árbitros bem como de outras áreas consta do nosso plano de acção, mas, infelizmente, temos dificuldades para trazer os formadores na província do Namibe. Não nos falta a vontade. Estamos a lutar para que se realizem essas actividades.

Namibe pode acolher
‘Nacional’ de 2011

Para quando a realização de um torneio nacional na província?
Participámos no Campeonato Nacional que se realizou na província da Huíla e candidatámo-nos para realizar a próxima edição de 2011. Estamos à espera da resposta da Federação Angolana de karaté-Dó. Caso a nossa candidatura for aceite, o evento desportivo vai atrair mais pessoas à prática e melhorar a visão daquelas que o vejam como um desporto para delinquentes. Portanto, a realização desses eventos desportivos altera os conceitos e reúne a família do Karaté-Dó que precisa de estar unida para o bem da modalidade.

Há custos avultados durante a realização. Quem vai suportar as despesas?
Estamos a trabalhar e já há contactos com o Governo da Província e alguns empresários no sentido de nos apoiar em tudo que for possível para que a província organize bem o evento desportivo.

Dos contactos feitos notou-se a boa vontade do Governo local na realização do campeonato nacional?
Com certeza. Após a nossa chegada da Huíla, reunimos com o Director Provincial da Juventude e Desportos e manifestámos a nossa vontade de realizar o Campeonato Nacional no Namibe. Informámo-lo sobre a nossa candidatura e, felizmente, agradecemo-lo pela compreensão. A Direcção da Juventude e Desportos, através de Narciso da Costa, o director provincial, abraçou o projecto e orientou-nos as matrizes por que temos de seguir para que não sejamos apanhados de surpresa, caso Namibe ganhe o concurso de realização do evento desportivo nacional. É importante que Namibe a realize sem sobressaltos.