Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Liliana temeu a Tunísia

Manuel Cardoso - 16 de Abril, 2015

O nosso grupo está a evoluir

Fotografia: Jornal dos Desportos

Que diferenças existem entre o andebol angolano e espanhol?
Há uma grande diferença em termos de competição. Em Espanha há mais campeonatos e deslocamo-nos constantemente para outras localidades de carro a fim de defrontar as equipas adversárias. São viagens de muitos quilómetros.

Adaptou-se com facilidade?
Não. A princípio tive dificuldades em adaptar-me às regras, hábitos e costumes, bem como ao treino. Felizmente, hoje, sinto-me como peixe na água. Com muito trabalho, abnegação e sacrifício, sou a pivot principal da minha equipa, o Atlético de Guardes. Para cuidar da alimentação, temos uma senhora à disposição a quem encomendamos a comida que queremos.

Está a dizer que o ambiente de trabalho no clube é profissional?
O ambiente de trabalho é bom, que faz com que me sinta bem a jogar na Europa. No Atlético de Guardes trabalha-se muito mais do que aqui em Angola. Só para  elucidar, trabalho duas horas e meia por dia, mais treinos extras.

És a única estrangeira na equipa?

Não. Somos seis, das quais quatro angolanas, mormente, Júlia Machado, Isabel Guialo, Teresa Leite e eu, uma bielorrussa e uma portuguesa.

Que tratamento é dado às jogadoras estrangeiras em Espanha?
Cada jogadora assina o seu contrato e cumpre as suas obrigações. Em Espanha há muitas estrangeiras provenientes de várias latitudes como Brasil, Portugal, Bielorússia, Angola, Congo, Tunísia, Argélia, e outros países africanos e da Europa do Norte e do Leste. Numa avaliação continental, as africanas são as mais bem pagas.

Na qualidade de pivo principal, assumes grandes responsabilidades?
Quando defrontamos a melhor equipa de Espanha, a Bera-Bera, permaneço em campo 60 minutos. O treinador deposita em mim total confiança, em detrimento da minha colega espanhola. Isso espelha que devo retribuir-lhe a confiança com golos. Portanto, a minha responsabilidade são acrescidas, porque o Atlético de Guardes é a segunda classificada no campeonato espanhol com uma diferença de um ponto.

Angola chega ao Rio'2016 com muito sacrifício. Que avaliação faz da selecção nacional?

O nosso grupo está a evoluir a cada dia que passa, está determinada e coesa para outras empreitadas. Podemos continuar a ser a selecção mais forte em África e trazer a alegria para o povo que tanto precisa, apesar de cada técnico ter as suas características de trabalho. Existem os mais exigentes e outros não tanto.

Que avaliação faz do seleccionador João Florêncio?
Sei pouco sobre o técnico João Florêncio, por ser a primeira vez que trabalho com ele.

No jogo da final do torneio pré-olímpico, constatou-se medo no seio das angolanas. Foi o seu caso?

Contra a forte selecção tunisina, tive medo no início do jogo, mas desvaneceu-se à medida que decorria. Posso dizer que Deus esteve ao nosso lado. Fomos ao intervalo a perder por 10-12, mas a paragem forçada pela chuva permitiu que entrássemos na quadra mais convictas para somar golos e alcançar a vitória. Desde o princípio, sabíamos que o jogo com a Tunísia não seria fácil.

A vitória tem uma dedicação especial?
Dedico-a especialmente ao povo angolano que tanto precisa de acalentar os seus ânimos, à minha família, concretamente, aos meus pais e irmãos.

O estilo de jogo que apresenta tem inspiração em alguém?

Sim. Inspiro-me numa jogadora de nacionalidade sérvia, que também joga na posição de pivot.

Quanto tempo pensa jogar?
Vou continuar até onde puder. Quero continuar a fazer parte da nossa selecção nacional e ajudá-la a alcançar mais títulos em todos os torneios em que disputar. Faço parte dos jovens talentos e junto vamos fazer um grupo forte.

Para além de jogar, está a apostar na formação académica?

Estou fazer o curso de línguas e entro para faculdade no próximo ano. Pretendo ficar muito tempo em Espanha até à conclusão da minha formação. Pretendo formar-me em Recursos Humanos.

Em que cidade está?

Vivo em Guardia, uma localidade calma e com poucos habitantes de várias nacionalidades.

Conhecem-se todos?

Não, porque gosto mais de ficar em casa ligada às redes sociais, onde procuro interagir com pessoas de Angola e do Brasil, em primeira instância. Tenho poucas amizades.

PERFIL
Liliana Venâncio
quer quatro filhos


Liliana Venâncio nasceu a 19 Setembro de 1995, em Luanda, no bairro do Golfe. Gosta de ouvir música e a que a encanta é o “Não vai embora” da autoria de Anselmo Ralph, o seu cantor preferido. A ponta direita gosta de ver as pessoas a dançar o estilo Semba e está a aprender.A cozinha não é a sua “praia”, mas sabe cozinhar funji de bombo, calulú, arroz de legumes e feijoada. Consome sumos naturais e refrigerante Sumol.

Está a ler “As cinquentas Sombras de Grey” da autoria de El James, um sucesso nas vendas no mundo. “Um romance obsessivo que vicia e fica na nossa memória para sempre”, justifica a jogadora. Preenche os tempos livres também com novelas e filmes de comédia e acção.É fã de Cristiano Ronaldo e adepta do Real Madrid, Sport Lisboa e Benfica.

Nos próximos cinco anos, Liliana Venâncio planeia realizar o seu matrimónio e espera ter quatro filhos, de preferência dois casais.Apesar de viver em Espanha e conhecer Portugal, Montenegro, Croácia, Burkina-Faso e Congo, Liliana Venâncio tem Moçambique como o país que mais a encantou. A jogadora do Atlético de Guardes começou a ser talhada no 1º de Agosto pelo técnico Mascote em 2008. O sonho de ser boa jogadora e os puxões de diferentes técnicos ajudaram-na a evoluir. Actualmente, diz sentir-se confortada na equipa espanhola graças “a fé em Deus”.