Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Lutonda fala do percurso histrico da sua carreira

14 de Março, 2015

Lutonda fala do percurso histrico da sua carreira

Fotografia: Jos Soares

Chegar aos 40 anos a jogar ao mais alto nível, em Angola, é um feito raro. Qual o segredo?
O trabalho. Quando se trabalha bem a vertente física, as probabilidades de continuar a competir por muito tempo são maiores. Por outro lado, tive a sorte de ser proveniente de uma família que não engorda (risos).

Mais de 40 títulos colectivos e cerca de 30 individuais. Sente-se compensado?
Fui compensado na medida do possível. Uma carreira e prestígio. Mas olhando para os meus feitos, talvez num outro país tivesse sido milionário. Nesse aspecto, os que jogaram no estrangeiro, inclusive futebolistas, foram bem mais sucedidos.

O que faltou para dar também esse passo, jogar fora de Angola?

As propostas não corresponderam às minhas pretensões. No meu primeiro ano no 1º de Agosto, viajei às escondidas com o ASA para fazer teste no FC Porto. Eles já tinham um acordo com o ASA antes de terminar o meu contrato e eu já estava ligado ao 1º de Agosto. Posto lá, já tinham contratado um norte-americano e não havia vaga para um estrangeiro. Como gostaram muito de mim, sugeriram que eu casasse com uma portuguesa e jogasse como português. Não aceitei. Outra proposta veio da Turquia, mas o valor do contrato era inferior ao de Angola e preferi ficar.

Destacou-se na marcação de três e dois pontos e assistências. Que trabalho fazia para ter uma performance melhor que outros atletas?
No basquetebol, basta ter uma boa percentagem de lançamento para  tornar-se  num jogador nos outros itens. O nosso treino começava às 10h00 e eu chegava às 7h00 para treinar lançamentos. Era o primeiro a chegar e último a sair. Apostei na melhoria da minha performance e sabia que dependia apenas de mim. Não precisei de inventar nada. Apenas aprender com os melhores. Larry Bird, ex-jogador dos Boston Celtic, tornou-se num dos melhores lançadores da NBA, porque treinava em casa num aro mais pequeno que o normal e isto melhorou a sua percentagem de lançamentos. Além dos treinos no clube, montei uma tabela no meu quintal, com um aro mais pequeno que dos pavilhões, e passei a treinar em casa. Quando se converte oito lançamentos em dez, num cesto mais pequeno, imagine num maior!

Bons índices....
Depois de conseguir boa percentagem nos lançamentos, foi só tirar proveito disso em todos os aspectos. Um bom lançador é marcado em cima pelos adversários, mas pode aproveitar para simular, driblar e depois assistir ou penetrar. Por isso, tudo passa pela eficácia nos lançamentos. Se te marcam em cima, penetras e assistes ou marcas. Se derem espaço, tu lanças. Com estas características, tornas-te num jogador temível para qualquer adversário.

Tem passado esta mensagem aos jogadores angolanos?

Converso com alguns, explico que tudo passa pelo lançamento. Mas tem de trabalhar muito, como eu fazia e não esperava somente pelo treino colectivo.

Apesar do domínio angolano em África, o país continua sem nenhum representante na NBA. O que falta?
Falta-nos agentes. Não temos agentes na FIBA com capacidade de furar até às equipas da NBA e colocar vários jogadores em testes. Temos menos atletas fora, comparativamente a alguns países africanos, por falta de agentes para trabalhar nesse aspecto. Por outro lado, devemos (clubes, Federação) enviar jovens para as universidades norte-americanas e não procurar entrar já com uma idade avançada, embora idade não seja problema na NBA. Quando somos estrangeiros e nunca jogamos lá, começamos em desvantagem, porque a prioridade vai ser sempre um nacional, mais jovem e adaptado ao basquetebol norte-americano.


PERCURSO

Depois do adeus, transitou para o lado de treinador- adjunto da selecção nacional de sub-16. Estava preparado para assumir o cargo?

Estava preparado. Apenas comecei a transmitir o que aprendi. Não tem segredo. Os técnicos que terminaram a carreira como jogadores conseguem exemplificar melhor a execução de um lançamento, do que aquele que não joga há muitos anos. Na formação, é importante o treinador estar no campo, treinar com os miúdos e exemplificar tudo que pede para fazer. Ninguém melhor do que alguém que ainda jogava. No meu caso, acrescia o facto de tratar-se de uma referência. Quando estou a orientar sinto que os miúdos têm total credibilidade nos meus ensinamentos por tratar -se de Miguel Lutonda.

Perdeu duas finais, nos cadetes, com o Petro de Luanda, com Baduna do outro lado. O facto de tratar-se de um grande adversário quando era jogador, tem um sabor mais “amargo”?
Nem por isso. A minha rivalidade com Baduna ficou, quando deixamos de nos defrontar um contra o outro. Mas nestes jogos, a rivalidade vai existir sempre. Não pelos técnicos, mas sim pelos clubes em causa (1º de Agosto e Petro de Luanda).

Como caracteriza a sua “aventura” na selecção, como treinador?
Muito boa. No primeiro ano, conquistei um africano em sub-16, como adjunto e competi no Campeonato do Mundo.

Espera chegar à selecção principal?
Não quero pensar nisso agora. Vou apenas trabalhar para merecer a confiança das pessoas. O que vier, será resultado disto.

Melhor jogador angolano da actualidade?

Carlos Morais

Melhor jogador angolano de todos os tempos?

Jean Jacques da Conceição é para mim o símbolo do basquetebol angolano. Contra quem eu joguei é Edmar Victoriano “Baduna”. Foi o jogador mais versátil que conheci, conseguia fazer todas posições. É uma pena ter terminado a carreira de forma prematura.

No ano em que o país completa 40 anos de independência, quais os grandes feitos desportivos?
Neste período, o desporto angolano evoluiu muito. Levamos o nome de Angola para vários cantos do mundo, promovemos a nossa cultura e mostramos que estamos presentes. Realizámos vários eventos internacionais, mas o mais importante são as infra-estruturas no geral e desportivas em particular. Os campos de futebol, os pavilhões multiusos que temos, novas sedes das federações, redes hoteleiras, galeria dos desportos e muitas outras, são os principais ganhos da independência.


REVELAÇÃO  
“Comecei na equipa feminina”


Como foi parar no basquetebol?
Fui praticamente “arrastado” por um colega de escola. Eu era o mais alto da turma e como ele conhecia o técnico Elvino Dias, da Banca, insistia que eu tinha de treinar no mesmo clube. Como não entendia nada de basquetebol, considerei aquilo um insulto e fiquei chateado. Mas de tanta insistência, acabei por ceder e fui para o Grupo Desportivo da Banca, já com 15 anos de idade.

Com 15 anos estava acima da média para aprender o ABC do basquetebol. Como foi possível tornar-se nesta referência?

Fruto de muito trabalho. Quando comecei não sabia nada e fomos incluídos, assim como outros novatos, na equipa feminina para aprendermos alguma coisa. Quase todos desistiram, porque se sentiram mal a treinar com as senhoras. Aguentei durante seis meses, até que um dia faltava um jogador na equipa masculina, para um jogo de cinco contra cinco, e fui chamado para fazer número. Durante o encontro, o treinador notou a minha evolução e passei a fazer parte da equipa.

Como foi a transição até chegar no 1º de Agosto?

O técnico Elvino Dias transferiu-se para o Clube Desportivo da Nocal e eu também fui. Mas como tinha de cumprir serviço militar queria jogar no 1º de Agosto ou nos Dínamos, para ter isenção. Como a Nocal tinha um acordo com os Dínamos fui para lá. Uma vez por mês, tínhamos de fazer guarnição na geladaria do clube. Não tínhamos qualquer treino militar, mas  davam-nos um par de farda e uma arma para passar a noite de guarda. Até hoje, não sei se as armas estavam carregadas ou não. Simplesmente, recebia, colocava-a ao peito e ficava em prontidão. Dois anos depois, a minha esposa engravidou e surgiu a necessidade da casa própria. Pedi um apartamento ao clube e a direcção não conseguiu satisfazer as minhas necessidades. O ASA mostrou interesse nos meus préstimos e assinei por três anos em troca de um apartamento.
Três anos mais tarde, com dois títulos de campeão nacional pelo ASA e tantos outros individuais, desde concursos de smashes, triplos, assistência, pontos, surge o convite do 1º de Agosto. Como estava sempre à procura de melhores condições, pedi um carro e um apartamento e assinei por dois anos. Fui renovando e representei o clube militar durante 11 anos, até terminar a minha carreira como atleta.

Ao contrário dos outros clubes, no 1º de Agosto vencer é uma obrigação e o plantel sempre esteve “recheado de estrelas”. Como foi a adaptação?
A minha adaptação no 1º de Agosto foi muito complicada. Encontrei um técnico (Victorino Cunha) com uma filosofia totalmente diferente dos anteriores. Foi difícil. Mas, com trabalho e humildade, consegui adaptar-me e impor-me. Por sorte, encontrei o Ângelo Victoriano, que já tinha jogado comigo no ASA e foi um dos que me incentivou a assinar pelo 1º de Agosto.

Começou a jogar a extremo, mas ficou conhecido como um dos melhores bases de África. O que motivou a mudança de posição?
Na Nocal jogava a extremo, mas sempre que fosse chamado para os trabalhos da selecção, o professor Romero obrigava-me a jogar a base. O mesmo acontecia quando fosse treinar no Petro de Luanda. Como os campeonatos das equipas “pequenas” terminavam mais cedo e eu era um jogador pré-seleccionável, treinava durante alguns meses com a equipa do Petro de Luanda e o treinador dizia sempre que tinha de jogar a base, porque fisicamente estava sempre em desvantagem com os outros extremos, como Herlander Coimbra, Honorato Trosso. Quando fui para o ASA, encontrei o Quinzinho e o Walter Costa. Por isso, continuei a extremo, mas já treinava como base na Nocal. No  1º de Agosto finalmente fixei-me nessa posição.

No cômputo geral, 11 títulos nacionais, sete Taças de Clubes Campeões de África, oito Supertaças, sete Taças de Angola, dois torneios RTP e uma Taça Compal, qual destes troféus tem um significado especial?

Sem dúvidas, o primeiro título nacional conquistado no ASA, por  tratar-se do meu primeiro troféu nacional em sénior e o primeiro do clube. No primeiro ano, não ganhámos. No segundo e terceiro, fui campeão. Mas o primeiro é sempre o primeiro. Tem um “sabor” especial.

DEDICAÇÃO
“Esforcei-me para chegar à Selecção Nacional”


Como avalia a sua trajectória no “cinco” angolano?
Boa e complicada. Esforcei-me para chegar lá e impor-me. Fui convocado pela primeira vez para a pré-selecção em 1991, mas fui afastado. Nos anos seguintes, fui sempre chamado e dispensado. Em 1997, com 27 anos, fiquei entre os 12 escolhidos para o Afrobasket de Dakar (Senegal). Infelizmente, não vencemos e ficamos em terceiro lugar.

Qual foi o sentimento na sua primeira presença num campeonato africano de sénior?
Em parte, tive sentimento de culpa. É daquelas ocasiões em que nos perguntamos: Agora que estou entre os escolhidos, a selecção perde, quando vinha de quatro títulos continentais seguidos? Por outro lado, sabia que o grupo estava a ser reestruturado e isto me obrigou a trabalhar mais para dar uma resposta positiva na próxima convocatória.

O Afrobasket'1999, em Angola, serviu de redenção?
Não diria redenção, mas sim para me impor. O facto da prova decorrer no país, as responsabilidades aumentaram, todo mundo dizia que seria o meu Afrobasket. O base Benjamim Avó estava em fim de carreira e senti que era a minha responsabilidade fazer jogar a equipa, assim como o Swing. Bases experientes, como Aníbal Moreira, Avó, Zé Neto, conversaram muito comigo naquela altura e deram dicas de como eu deveria jogar.

O primeiro título africano foi o mais importante de todos?
O primeiro é sempre importante, mas não foi o mais importante.

Que perspectiva tem da selecção nacional nos próximos dez anos?

Não sei se ainda estará a dominar a África. Temos de trabalhar muito, apostar mais na formação e procurar jogadores altos nas várias províncias para se ter um grupo forte neste período. Mas o trabalho tem de começar já.

Angola vai revalidar o título continental este ano?

Temos jogadores para conquistar o Afrobasket'2015, embora reconheça que vai ser muito difícil com a Tunísia em casa. Vamos jogar contra o público e contra os árbitros. Por isso, temos de estar bem preparados. Ainda temos equipa para este Afrobasket e para o próximo (2017). Jogadores como Carlos Morais, Olímpio Cipriano, Armando Costa e outros devem aguentar os dois campeonatos que se seguem, mas devem ser bem recuperados fisicamente, mentalmente e ser bem remunerados. Por exemplo, joguei com Cipriano e sei que é um atleta que não consegue jogar, quando não está bem emocionalmente. Por isso, temos de ter cuidado com as promessas e a remuneração no geral. Talvez, com o grupo de jogadores que temos, até 2017 ainda possamos ficar com o título, mas depois destes dois campeonatos, não tenho muitas esperanças.

Porquê?
Não estamos a trabalhar para isso. Temos boas selecções jovens, mas que tipo de trabalho estão a fazer? Juntam-se apenas quando há uma prova internacional! Temos de ter cuidado, porque as outras selecções estão a preparar-se bem. Nesta fase, temos de investir no material humano ou vamos “morrer”. Temos de trabalhar muito com os potenciais jogadores para o futuro da selecção. Na verdade, temos alguns talentos, mas falta trabalho. Antes, poderíamos constituir três selecções e qualquer uma poderia discutir o título africano. Agora, para formar uma já é difícil. Logo, alguma coisa está mal.

Olhando para os jovens, consegue apontar alguém com as suas características?
O jovem Edmir Lucas, do 1º de Agosto. É um atleta com muita qualidade e deve ser bem acompanhado.

Edmir Lucas joga a base-extremo, posição dois, ao contrário de si...

Quem joga a dois pode jogar a um, assim como aconteceu comigo. Tem qualidades para ser o futuro base da selecção de Angola. Devemos estar atentos. Há um outro rapaz, Lukeny, na equipa júnior do Petro de Luanda, que também deve ser acompanhado.