Jornal dos Desportos

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Entrevistas

Manu projecta jogos da Juventude

Manuel Neto - 24 de Julho, 2010

Maria Barbosa (Manú), membro da comissão técnica da Federação Angolana de Basquetebol

Fotografia: Eduardo Pedro

Qual é o objectivo de Angola em Singapura?Em primeiro lugar, representar condignamente o país, o que significa que temos de ganhar alguns jogos. Penso que é do conhecimento de todos que estamos numa série complicada, mas tudo faremos para obter bons resultados. Digo isso porque no estágio da Alemanha vencemos uma das potências mundiais, a Rússia, e defrontamos em pé de igualdade a República Checa, apesar de termos perdido. O nosso basquetebol feminino tem muitas limitações, quer do ponto de vista humano quer de trabalho, mas não vamos cruzar os braços. Faremos o melhor.Angola está num grupo muito forte, com selecções de grande nível como os Estados Unidos e a Rússia. Não será uma tarefa fácil...Claro que estamos num grupo difícil, com selecções de um mundo diferente do nosso em termos de condições de trabalho: bons pavilhões, um campeonato muito mais competitivo, etc. Todas as equipas do nosso grupo tiram-nos o sono, mas, apesar disso, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para obter resultados dignificantes. Como disse, na Alemanha vencemos a Rússia e concluímos que vencer outras selecções não está fora de hipóteses.O leque de atletas dá garantias?Sim, porquanto são atletas que estão há muitos anos na selecção, seleccionadas desde os Sub-16 e hoje estão nos Sub-17 e nos Sub-18. Têm algumas internacionalizações e requisitos suficientes para enfrentar a competição a um bom nível.Quais são as maiores preocupações nesta fase?É a luta para conciliar os treinos e os estudos das atletas, uma vez que tudo temos de fazer para não prejudicar os seus estudos. Por isso, repartimos o grupo, treinando no período de manhã as que estudam à tarde e vice-versa. O grupo junta-se apenas aos sábados e aos domingos.Como estão no que toca a apoios?Desde o primeiro dia, contamos apenas com o apoio da federação, em termos de subsídio de transportação, que varia de acordo com a distância em que vive cada atleta. Temos ainda o suplemento alimentar, que é um dos grandes suportes para o rendimento das atletas em campo.Até que ponto esta participação é importante para o país?Este tipo de competição já está implementado ao nível mundial e africano. A nossa participação será o trampolim para as competições internas nos dias de Páscoa, de Natal, da Juventude, da Criança e outros feriados. Estaremos a contribuir para a modalidade começar a ganhar expansão no país e, em véspera de competições internacionais, estarmos bem preparados.Consta já dos planos da federação a oficialização desta competição?Sim. É intenção da federação implementar e oficializá-la, não só em Luanda mas em todo país, começando nos escalões de formação para ambos os sexos. Penso que, além de desenvolver a modalidade, será igualmente uma mas-valia para o desenvolvimento do basquetebol convencional.Qual é a realidade do escalão de sub-17 no país?O Sub 17 é o trampolim para os outros escalões, designadamente o Sub-18 e o Sub-20. O escalão merece atenção especial, por serem raparigas que estão numa fase de afirmação como mulheres, estudantes e, no caso, como atletas. Falando por experiência própria, nesta idade, dificilmente elas aceitam a opiniões de outros. Daí o grande trabalho que esta categoria dá aos treinadores. Estágios foram proveitosos Como caracteriza a Selecção Nacional de Sub-17, depois dos estágios na Alemanha e Marrocos, visando a participação nos Jogos Olímpicos da Juventude, em Singapura, no mês de Agosto?Começaria por falar do estágio na Alemanha. O grupo efectuou oito jogos, ganhou quatro e perdeu outros tantos, pelo que consideramos uma participação positiva. Falando de Marrocos, as atletas também estiveram em bom plano. Apareceram mais soltas em todas as vertentes do jogo e esse comportamento permitiu limar algumas arestas. Em suma, o grupo está no bom caminho para a competição que tem pela frente.É a primeira vez que uma selecção angolana disputa o basquetebol com três atletas. Como o grupo tem assimilado as regras?No princípio, a selecção passou por muitas dificuldades para se adaptar, uma vez que as regras do basquetebol de três são completamente diferentes das do basquetebol convencional. Ou seja, têm determinado tempo para jogar e para marcar pontos. Acha que as competições em que participaram foram suficientes para a adaptação?Além das competições que tiveram, a treinadora da equipa, Elisa Pires, recebeu da Federação Internacional de Basquetebol o manual das regras da modalidade e distribuiu cópias às atletas para lerem em casa depois dos trabalhos de campo. Achamos que isso ajudará bastante o grupo na adaptação às regras que vão encaixando paulatinamente.Pode resumi-las?O basquetebol de três joga-se em meio campo e em 14 minutos as jogadoras têm de marcar 35 pontos. Caso não os marquem dentro do tempo estipulado, o jogo termina. Resumidamente é o que vos posso explicar a respeito.Doravante, têm outras competições para manter a forma até à altura dos Jogos de Singapura?O grupo não vai ficar parado, porque estas quatros jogadoras da Selecção Sub-17 fazem parte da Selecção de Sub-18 que tem o Campeonato Africano do Egipto, a partir do dia 29 do corrente a 8 de Agosto próximo. Por isso, elas serão integradas no mesmo e no regresso reintegram a selecção para Singapura. Classe pede mais atençãoComo caracteriza o basquetebol feminino angolano no geral?Temos muita pena do basquetebol júnior porque só temos quatro equipas -1º de Agosto, Interclube, Maculusso e Juventude de Viana -, o que é mau para a modalidade. Tudo isso acontece porque os clubes não querem apostar na classe. Temos clubes como o Petro de Luanda, o ASA, o Sporting, que nem sequer têm escalões de formação. Seguem o caminho dos seniores, que já nos conformaram com as quatro equipas que regularmente participam nas provas. O quadro piora mais, pois quando surge uma desaparece outra. É o que aconteceu com o surgimento da equipa do Juventude de Viana e o desaparecimento do Progresso, do CDUAN, da Nocal, etc.O que é que a federação faz para mudar o quadro?A federação tem apelado às equipas para prestarem mais atenção ao basquetebol feminino, o que infelizmente não encontra o necessário respaldo. Por isso, decidimos, dentro em breve, criar uma escola de formação dos 14 anos a seniores para, quando necessitarmos de uma atleta para competição, seleccionarmos desse leque.Existe diferença de tratamento entre as classes feminina e masculina?A masculina está sempre dois ou quatro degraus acima da feminina. Isso acontece em qualquer equipa. A título de exemplo, a equipa senior feminina do 1º de Agosto vive grandes problemas. Há dias, ouvi o treinador Aníbal Moreira a pedir a definição da direcção sobre o destino a dar à equipa, sobretudo por falta de reforços, numa fase em que vão ao africano. O clima não está bom. Hoje, já perdem com o Interclube por grande diferença pontual, o que não é habitual. Isso pode trazer reacções negativas por parte das atletas.Acha que o quadro pode mudar?Sim. O importante é os homens acabarem com o machismo nos clubes. Noto que 85 por cento do apoio é virado para o escalão masculino, em detrimento do feminino. Apelo aos clubes a apostarem mais na classe feminina, começando pelos escalões de formação, para tirarem maior proveito do seu investimento. Contratempos no campo de treinosNota diferença entre o basquetebol do seu tempo e o actual?No meu tempo, havia 12 equipas, espalhadas entre as províncias do Bié, de Benguela e do Namibe e Luanda. Hoje não se vê isso. O mais lamentável é que, naquele tempo, havia guerra e hoje, que estamos em paz, temos apenas quatro equipas. Jogávamos por amor à camisola, não tínhamos contratos fabulosos, recebíamos apenas um televisor, uma geleira ou uma moto Simpson e não tínhamos salários.A modalidade está bem servida em termos de infra-estruturas?Nessa vertente, também estamos mal servidos. Ainda agora vivemos o problema de recinto para treinos. Repare que no campo em que temos treinado, estão logo quatro ou mais selecções e fica muito difícil trabalhar. Recorremos ao Petro de Luanda, mas também tem sido impossível devido ao seu programa de trabalho. No 1º de Agosto, é ainda pior. A solução passaria pelo INEF, mas, infelizmente, é ao ar livre e fica muito difícil. Estas dificuldades acabam por afectar o desenvolvimento da modalidade. Aliás, nenhum encarregado de educação gostaria de ver o seu filho a treinar em péssimas condições, ao ar livre, debaixo de sol e poeira.Essa falta de infra-estruturas acontece em todo o país?Não se pode dizer o mesmo das outras províncias. O caricato é que lá existem infra-estruturas, mas não há equipas de basquetebol, à excepção de Benguela e da Huíla. Adulteração de idades preocupa federaçãoSabemos que muitos atletas têm dificuldades para apresentar a documentação pessoal. Como a federação encara isso?Apenas conseguimos detectar isso quando as atletas são convocados para a selecção, pois é nessa altura que pedimos para trazerem o acento de nascimento, a cédula ou o bilhete de identidade, mas, infelizmente, algumas não conseguem. Daí, indagamo-nos: como é possível isso acontecer? Como se inscreveu? Como estuda? Em suma, é uma grande complicação e atrapalha o nosso trabalho.Que medidas a federação tem tomado?A única coisa que fazemos é conversar com os atletas e os técnicos, mas nem sempre encontramos solução.Qual é a colaboração dos pais para a solução da questão?Algumas vezes, convocamos os pais, mas, em algumas ocasiões, não aparecem porque os filhos vivem com os avós, tios ou outros parentes, que não conseguem solucionar a situação. Fazem apenas cálculos. Com base nisso, concluímos que a maior parte dos registos apresentados são feitos anarquicamente, para meterem as garotas a estudar.Esse comportamento não dá azo à falsificação de idades?Claro. Uma atleta nessas condições pode apresentar um acento de nascimento ao clube e outro à federação, um dos quais pode ser falso, o que redunda em prejuízo tanto para a mesma como para a selecção. Se se convoca uma atleta com idade adulterada para o escalão de Sub-16, dando-lhe uma margem de progressão até ao escalão de seniores, pode chegar a meio do percurso e já não render. Se lhe pedisse para fazer um apelo, a quem dirigiria?Apelo à sociedade, sobretudo aos encarregados de educação, dizendo que a idade verdadeira de um atleta é muito importante. Se estuda, aos 18 anos deve estar na faculdade. É essa a idade verdadeira que queremos no acto da inscrição e, posteriormente, nas selecções. Como é possível uma atleta que está no 2º ano da faculdade jogar na selecção de Sub-16? Entrou com que idade? A verdade é que o organismo reage, pois uma atleta de 27 anos não tem a mesma velocidade que outra de 17. Gostaria que as entidades acima referenciadas prestassem maior atenção aos garotos e garotas, evitando que essa prática seja cultivada. Até existem casos em que o atleta apresenta a cópia verdadeira e o técnico, por malandrice, adultera a idade. Atenção: isso é muito mau.